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. Resenha de J.A. Dabdab Trabulsi, Religion grecque et
politique française au XIXe. Siècle, Dionysos et Marianne,
Paris, 1998, Varia Historia, 20, 186-190.
PROPOSTA DE RESENHA, VARIA HISTORIA
José Antônio Dabdab Trabulsi, Religion
grecque et politique française au XIXe siècle, Dionysos et
Marianne. Paris, L’Harmattan, 1998, 99pp., ISBN
2-7384-6790-3.
Pedro Paulo A. Funari
Raros são os historiadores
brasileiros que publicam livros no exterior e, ainda mais
infreqüentes, aqueles que o fazem sobre temas distantes da
História do Brasil. O Professor Dabdab Trabulsi, da
Universidade Federal de Minas Gerais, já havia publicado, em
Paris, um volume sobre Dionysisme, pouvoir et société (Belles
Lettres, 1990), obra que recebera prêmio, na França, por seu
valor e, agora, publica um trabalho ainda mais ambicioso.
Trata-se de um estudo, propriamente, historiográfico, sobre a
interpenetração de ciência e política, no século XIX,
centrando-se sobre o tratamento dispensado à religião grega
pela erudição francesa, no contexto da História da França.
Wolfgang J. Mommsen
lembrava que já Goethe advertira que cada geração cria seu
próprio passado e Dabdab Trabulsi, logo de início, explicita
uma abordagem que procura dar conta do contexto de produção da
historiografia: “há que examinar os condicionamentos diversos
que influem sobre a elaboração dos modelos de interpretação da
História e, ao mesmo tempo, estudar a dinâmica científica, que
tem uma dinâmica própria, e que pode fazer perdurar certos
modelos bem adiante dos contextos sociais e intelectuais que
lhes deram origem” (p. 9). A partir deste enfoque, o primeiro
capítulo aborda a evolução política e intelectual francesa no
século XIX, em especial a oposição entre catolicismo e
laicização e suas repercussões tanto no ensino básico como
superior. No segundo capítulo, dedicado aos fundamentos do
debate historiográfico, debruça-se sobre a religião grega em
meados do século, aprofundando-se em Fustel, Renan, Duruy,
Girard, Boissier. Destaque-se que o estilo francês, literário,
por oposição à erudição alemã, é relacionado, após a derrota
de 1870-71, à superioridade da Educação alemã, que teria
garantido a vitória militar aos prussianos (p. 37).
No capítulo terceiro, “A Idade
da Erudição Triunfante”, a emulação à erudição alemã, de cunho
filológico, acaba por produzir seus resultados, a começar pelo
Dictionnaire des antiquités grecques et romaines, de C.
Daremberg, E. Saglio e E. Pottier (a partir de 1877). O autor
estuda os verbetes da enciclopédia que se referem a Dioniso e
dialoga com os autores daquela época como se fossem nossos
contemporâneos: Gerard faz uma “muito boa” apresentação,
Lenormant é “demasiado etimológico”, Legrand compreende
melhor as mênades do que um autor atual, Devereux, “que não
conseguiu compreender”, algo que Legrand já explicara no
século passado. Devereux “está totalmente equivocado” (p. 65).
Embora pouco usuais na historiografia anglo-saxônica e alemã,
estes juízos e mesclas de abordagens afastadas no tempo podem
ser o resultado de uma fluidez tipicamente francesa.
Ainda neste capítulo, menciona en passant a “invenção
do Oriente”, ainda que não explore o conceito de “invenção”,
tão explorado na historiografia contemporânea, em geral, e
sobre a Antigüidade, em particular.
Em seguida, volta-se para a
vulgarização, as polêmicas e os manuais escolares, objeto
pouco explorado pelos estudiosos da historiografia. A imagem
dominante, que continuará como referência por longo tempo,
será, segundo o autor, aquela elaborada nos grandes trabalhos
de erudição, dominados pelo positivismo e a filologia
comparativa indo-européia. Com o tempo, a Antropologia começa
a deslocar a lingüística como modelo explicativo, comparando
os antigos aos “primitivos”. Os livros didáticos, por outro
lado, seguem, com certo atraso, os autores eruditos, dando
pouco destaque a Dioniso, associado à Ásia e, desta forma, à
oposição ocidente/oriente, aludida acima, quando se mencionou
a invenção do Oriente. A breve conclusão constata que “o exame
dos diversos autores mostrou-nos que estas teorias e métodos
foram elaborados no calor da luta social e política” e que “a
História da Antigüidade e de sua religião participou na obra
de laicização dos espíritos que contribuiu para consolidar a
República. Seu esforço metodológico foi “exportado” para
outros domínios e intelectuais saídos dos estudos da
Antigüidade levaram este sopro crítico para a criação de
outras disciplinas científicas” (p. 94).
Dabdab Trabulsi constrói um
quadro coerente, cujo ponto alto consiste, precisamente, na
articulação entre o estudo da Antigüidade e a política
francesa. A oposição entre as correntes católicas e laicas,
tão presente na França do oitocentos, apresenta-se, de forma
explícita, nas formulações sobre a religião grega e o
dionisismo, em particular. O estilo literário francês, oposto
ao estilo erudito alemão, liga-se à influência crescente e
irresistível da ciência alemã, cujos parâmetros,
gradativamente, passam a ser reconhecidos pelos estudiosos
franceses. Neste contexto, os autores alemães citados pelos
franceses aparecem no livro apenas de forma indireta, sempre
referidos pelos autores franceses estudados. Isto explica que
a os fundamentos da filologia indo-européia, criação alemã por
excelência, apareça de forma superficial. H.J. Klaproth,
criador do termo Indogermanisch, em 1823, ainda usado
pela historiografia alemã, foi apropriado pelos franceses,
alterando seu nome para “Indo-Europeu”, menos germânico e
infenso ao nacionalismo francês. A noção de Ursprache
não pode, além disso, ser separada de Urvolk e
Urheimat: uma língua, um povo, uma cultura. Naturalmente,
a leitura francesa dos alemães era muito seletiva e não é
casual que nada disso apareça nos autores franceses. Uma
comparação, pois, entre o que diziam os franceses dos alemães
e os originais alemães muito poderia contribuir para elucidar
a especificidade da construção discursiva francesa.
A construção discursiva dá-se,
assim, por contrastes, e a historiografia francesa não se
mirava e diferenciava apenas na alemã mas há, também, uma
oposição por silêncio: a historiografia em língua inglesa. Se
os franceses mantinham uma relação particularmente complexa
com os alemães, o silêncio quanto à literatura erudita
britânica não podia ser mais significativa, especialmente após
a derrota napoleônica. Os clássicos britânicos sobre a
religião grega, desde Potter, Blackwell, Musgrave, Milford e
Jones, nos séculos XVII e XVIII, chegando a Gladstone e
Brown, já no século XIX,
não foram ignorados à toa pela erudição francesa do século
XIX, pois o referencial, por um lado protestante e por outro
monárquico, não encontrava ressonância na oposição francesa
entre católicos e laicos. A historiografia de língua inglesa
tem ressaltado, nos últimos anos, que, a despeito desse
silêncio francês, havia relações íntimas entre os paradigmas
interpretativos que se formavam, em particular no que se
refere à hermenêutica filológica e suas derivações
colonialistas e racistas.
Este contexto permitiria notar que o estudo da Antigüidade não
apenas serviu para fortalecer a laicização dos espíritos como,
principalmente, para assentar as bases de uma
Weltanschauung que, a um só tempo, se queria neutra e
científica e que se fundava em classificações iníquas. O
anti-semitismo, primeiro latente e, depois, ativo e triunfante
é só uma das manifestações desse novo paradigma. Ainda que
tema pouco explorado por Dabdab Trabulsi, diversos autores
franceses estudados neste volume não escondem seu propósito de
naturalização da superioridade grega frente à inferioridade
oriental. Neste sentido, o caso Dreyfus revela este outro lado
do êxito dos novos paradigmas, com um novo anti-semitismo,
agora científico, por oposição àquele religioso.
De toda forma, o livro de Dabab
Trabulsi contribui para que se entenda melhor como a
historiografia francesa continua a preferir imaginar-se
auto-suficiente e com uma contribuição sempre positiva para a
sociedade francesa. Já se mencionou, mais de uma vez, que a
França tem dificuldade em lidar com um passado nem sempre tão
humanista quanto sua consciência gostaria que fosse, nem tão
autônomo e original como conviria ao nacionalismo. Dionysos
et Marianne insere-se bem nesta tradição e o autor, ainda
que brasileiro, não deixa de adotar uma perspectiva
eminentemente francesa. O mérito maior desta obra consiste em
demonstrar que também um brasileiro pode escrever um estudo
historiográfico à francesa e para os franceses, mérito tanto
maior quanto Dabdab Trabulsi retoma e vivifica estes valores
com competência e conhecimento de causa. Até mesmo o estilo da
escrita francesa do autor, envolvente e acolhedor, favorece
esta identificação do leitor com os argumentos apresentados. O
volume constitui, pois, uma leitura agradável e recomendada a
todos os que se interessam pelo estudo da historiografia.