Arqueologia, História e Estratégia
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Publicado em: 2000 Pedro Paulo A. Funari e Nanci Vieira Oliveira, Arqueologia em Mato Grosso. Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (Coleção “Primeira Versão” 92), 83pp (publicado em 2001).

 

PRIMEIRO LEVANTAMENTO

DO GASODUTO SAN MATIAS/CUIABÁ [1]

Nanci Vieira Oliveira e Pedro Paulo A. Funari [2]

 

Abstract: this report deals with a preliminary archaeological survey in the San Matias/Cuiabá gas pileline, carried out in 1998 by the authors. We briefly study the archaeological literature on the human settlement in the area and then describe the field work. We conclude by stressing the importance of a proper scholarly and heritage management of the evidence.

Resumo: este artigo trata de uma levantamento preliminar no Gasoduto San Matias/Cuiabá, efetuado em 1998 pelos autores. Apresentamos, brevemente, a literatura arqueológica sobre o assentamento humano na área e, em seguida, descrevemos o trabalho de campo. Concluímos por ressaltar a importância de um adequado tratamento científico e patrimonial do material.

 

Introdução

A construção do gasoduto “San Matias/Cuiabá” passa por diferentes áreas geográficas onde há a possibilidade da existência de vestígios de ocupação  desde tempos pré-históricos até os dias atuais. Desta forma, o levantamento arqueológico da área impactada pelo gasoduto é de máxima importância, o que levou os autores a proporem, inicialmente,  um levantamento arqueológico seguido de uma estação de salvamento, em todo o percurso nacional do gasoduto. Entretanto, as firmas contratantes, NATRONTEC e ENRON,  pediram apenas por um levantamento preliminar nas margens de seis (6)  rios a serem “cortados” pelo “San Matias/Cuiabá”, embora exista um número bem maior de rios a serem atingidos por tal construção.

Os trabalhos de campo foram realizados em novembro de 1998, objetivando o levantamento dos “cruzamentos” do gasoduto nos rios Paraguai, Padre Inácio,  Jauru,  Cachoerinha,  Sangradouro e  Cuiabá. Devido à ENRON não ter providenciado junto ao IPHAN o licenciamento da pesquisa, estas ficaram restritas a “técnicas de superfície”. A equipe arqueológica foi chefiada por Nanci Viera de Oliveira e Pedro Paulo Abreu Funari, havendo três estudantes voluntários: Luciana Vasconcelos Branco da Paz, Diogo Emiliano Valois Barbosa e Guilherme Vieira de Souza. O projeto contou com o apoio e cooperação da UNEMAT, através da integração do Prof. Luciano Pereira dos Santos à equipe .

A LITERATURA ARQUEOLÓGICA SOBRE OCUPAÇÃO HUMANA NA ÁREA

O estudo arqueológico do Estado do Mato Grosso iniciou no século XIX, quando Maria do Carmo de Melo Rego, ainda em 1880, escavou algumas urnas  cerâmicas próximo a Porto Tucum, ao sul do Rio Jauru, na margem esquerda do Rio Paraguai. Desde  1890 até 1920, diversos pesquisadores alemães exploraram este e outros sítios arqueológicos, tais como sítios em Descalvado, Fazenda Facão, Barra do Bugres, dentre outros, e alguns artefatos de cerâmica foram enviados para o Museu Etnográfico em Berlim (Museum für Völkerkunde zu Berlin) (Wüst & Migliácio, 1994), Neste século, houve pesquisa arqueológica tanto ao norte com ao sul do Estado do Mato Grosso e, recentemente, alguns levantamentos nas áreas alagadas (Migliácio, 1998). A área alagada ou Pantanal está entre quatro sistemas florestais sul-americanos, a Floresta Úmida Amazônica,  ao norte e nordeste, a savana do Brasil Central a leste, a floresta úmida Atlântica ao sul e a Floresta Seca a oeste, na Bolívia e no Paraguai, misturando a flora destes ambientes tão diferentes. A fauna é bastante rica na variedade de espécies.

É difícil propor uma interpretação  para a ocupação pré-histórica humana nesta área, pois as pesquisas e dados arqueológicos têm sido interpretados por diferentes pesquisadores de diferentes formas, como resultado do uso de diversos modelos interpretativos. A abordagem ambiental, amplamente adotada no Brasil nos anos 60, proporia que terras alagadas como a região do Pantanal seriam sempre marginais, periféricas em relação aos principais centros de cultura na região Andina (Meggers, 1985). Mais recentemente, modelos interpretativos alternativos tem desafiado a abordagem ambiental e seus principais dogmas, mais precisamente que as áreas de floresta com clima hostil iriam dificultar a ocupação humana e o desenvolvimento de grande e extensas redes de sítios (cf. Roosevelt, 1991; para uma avaliação crítica, ver Eduardo Góes Neves, 1998). A nova visão tem sido incisiva ao enfatizar a necessidade de estudar os documentos históricos a respeito da ocupação de nativos das Américas e, em relação ao Mato Grosso, há sugestões de que houve realmente uma ocupação humana muito mais intensa da área nos primeiros séculos da colonização européia, pareendo ter havido uma diminuição constante de grupos étnicos e populações nos séculos XVI e XVII, substituídas pelas tribos Bororo no século XVIII (para uma avaliação critica do mito do impacto, ver Wilk adiante). Alguns dogmas culturais históricos, como as migrações e conseqüentes invasões por culturas mais “complexas”, como os Incas e os Guaranis, ainda estão em uso para compreender a ocupação pré-histórica, mas o suporte histórico cultural tem sido extensivamente criticado (e.g. Jones, 1997), como também é o caso da oposição entre sociedades supostamente “ complexas” e “menos complexas”(McGuire & Saitta, 1996).

Diversos grupos nativos estão citados em documentos europeus relativos a área e até a década de 1820 dúzias de entidades étnicas são mencionadas na literatura. Ao aceitar o modelo cultural histórico e sua pesquisa por origens étnicas, alguns pesquisadores propuseram que grupos como os Xaray teriam se originado na Amazônia (Sunsnik, 1994), mas pesquisas antropológicas e arqueológicas recentes tem questionado todo o modelo de Urkunde (cf. Funari, 1998). Qualquer que seja o caso, os Bororos também foram encontrados nas margens dos rios Jaurú e Jacobina no século XIX, juntamente com outros grupos étnicos. Hoje em dia, evidências arqueológicas são encontradas na superfície em diversos registros, sejam eles elevações naturais ou mounds construídos pelo homem. No atual estágio de pesquisa arqueológica é ainda cedo para avaliar o possível fator humano na modelação da paisagem da região.

Resultados dos trabalhos de Campo

A área percorrida no levantamento dos rios previstos nesta primeira etapa, apresenta uma diversidade de paisagens, seja em áreas de morrarias (Província Serrana), seja em áreas sujeitas a inundações (Pantanal e depressão do Rio Paraguai) ou de  cerrado (Cuiabá).  A diversidade de habitats existentes na região, resultando numa expressiva diversidade faunística, favoreceu a instalação de diferentes populações indígenas.

Rio Paraguai ( 424.197 E; 8.230.551 N)

Na área existem algumas bacias, vazantes e elevações arenosas (cordilheiras) que não são cobertas pelas águas. Em uma destas elevações, cerca de 60 metros da linha do gasoduto e próxima à baía Escondida, cujo local denomina-se Recanto da Vovó(fig. 2), observou-se na superfície fragmentos de cerâmica arqueológica, como também alguns artefatos líticos. Os fragmentos cerâmicos indicam vasilhames pequenos, de coloração amarronzada, predominantemente lisa (42 frag.), embora alguns fragmentos (5) tenham apresentaram decoração plástica (ungulada, ponteada e incisa) (fig.3).

Córrego Padre Inácio (411.372E;  8.221.978N)

O ponto de cruzamento do gasoduto encontra-se na Fazenda Fênix , onde se encontrou, a cerca de 120 metros do córrego e a 84 metros do gasoduto, uma estrutura de combustão, com cerca de 1 metro de diâmetro, apresentando argila e carvão, em claro contraste com o solo arenoso circundante (foto 2).

Rio Jauru  ( 391.288 E; 8.213.909N)

Na margem direita, de acordo com moradores locais, foram encontradas grande quantidade de vasilhames cerâmicos evidenciados quando o campo foi utilizado para agricultura.  Atualmente, mesmo estando uma parte da área alterada pela ação de tratores, foi possível identificar, na superfície, fragmentos de cerâmica em uma ampla área (foto 3), onde também observamos um machado de pedra  (foto 4). O levantamento arqueológico seguiu com setores de 100 metros cada, o que nos permitiu uma melhor identificação espacial das cerâmicas (figura 4).

Embora a área tenha apresentado sedimento argiloso de coloração amarelo-alaranjado, no setor D foi possível identificar uma camada de terra preta com 76 centímetros de profundidade. As evidencias arqueológicas de superfície estendiam-se  no sítio 1, em uma área de cerca de 160.000 m2.

Entretanto, seguindo em direção a linha do gasoduto, foram encontrados mais fragmentos cerâmicos, observados nas estradas e trilhas animais. Como não foi possível verificar se correspondia a diferentes assentamentos, ficou decidido registra-los como dois sítios distintos. O sítio 1 encontra-se  a 590 metro do gasoduto, enquanto que o sítio 2 está a 160 metros a partir da mesma linha.

Após uma depressão no terreno, seguida de uma área elevada, voltamos a encontrar pela trilha e disperso entre a vegetação alguns fragmentos de cerâmica, no que denominamos de sítio 3 (03908365E – 8213227N).  No percurso do gasoduto, através de sondagens, encontramos cerâmica e evidência de uma estrutura de combustão (sítio 4, 391381E – 8212668N) (foto 5).

Em toda a área, os fragmentos cerâmicos indicaram uma variedade de tamanhos de vasilhames, estando presentes desde urnas funerárias até pequenos vasilhames (tabela 1 e 2). A cerâmica pintada em vermelho foi predominante (75,3%), embora tenha ocorrido  cerâmica lisa (15,3%), com engobo (3 %) e algumas com decoração plástica na borda; além de fragmentos de trempes e um cachimbo.

Habitantes locais, embora com aspecto morfológico claramente indígena, falaram sobre a destruição de índios na região em época tão recente como no tempo de seus avós.

Rio Cachoeirinha (453.507E; 8.235.584N)

O rio Cachoeirinha encontra-se na Província Serrana, onde além deste verificamos também o seu afluente, rio Bravo. O ponto de cruzamento do gasoduto com o rio Cachoeirinha encontra-se em local elevado, cujo relevo cárstico resulta num solo pedregoso, onde não foi constatada qualquer evidência arqueológica. Já nas proximidades o rio Bravo, como também em outros pontos da região serrana, observamos manchas escuras circulares em contraste com o solo de coloração amarelada nas proximidades.

Toda a região serrana é rica em cavernas e abrigos, existindo o registro de um sítio um sítio de pintura rupestre e lítico, abrigo das Tranças (0442657E – 8237477N), estando este não muito distante do cruzamento do gasoduto com a BR-343 (0442984E – 8232783N) (foto 7 e 8).

Rio Sangradouro (490.818E;  8.241.356N)

Os marcos do gasoduto na margem esquerda do Rio Sangradouro atravessam uma mancha de terra preta circular, utilizada como pasto pelo morador local. O solo ao redor apresenta-se argilo-arenoso, com grande quantidade de pedregulhos. Embora não tenha sido observada a presença de artefatos ou outras estruturas arqueológicas, a presença desta mancha escura pode ser indicativa de ocupação humana anterior. Esta região foi visitada por Baldus em 1934, sendo  observadas algumas aldeias Bororo,  o que levou o etnólogo a estimar a  existência de cerca de 1000 indígenas habitando a leste do rio Paraguai (Lowie, 1946: 419).

Rio Cuiabá ( 595007E – 8264080N)

Na margem esquerda, em terreno perturbado pela  construção da ponte, observou-se na superfície material lítico e cerâmico (figura 5), indicando  um possível sítio arqueológico destruído. O material lítico caracterizou-se por lascas, predominando as de quartzo, dos tipos disto-lateral (7), semi-circular (2), terminal (3) e uma ponta. Os poucos fragmentos cerâmicos são, provavelmente, coloniais.

Na margem direita,  constatamos justamente por onde passará o gasoduto, artefatos históricos, tais como cerâmica, tijolos e pisos, assim como material lítico e estruturas de combustão (fotos 9,10 e 11). Na camada colonial verificamos a presença de cerâmica, enquanto que na camada pré-colonial apenas lascas de quartzo, do tipo disto-lateral (7), em leque (1) e terminal (1) (figura 7)..

Conclusões

Este levantamento preliminar resultou na localização de evidência arqueológica na margem direita do Rio Padre Inácio, quatro sítios na margem direita do Rio Jaurú, um sítio de pintura rupestre na região serrana, e dois sítios pré-históricos e históricos na margem direita do Rio Cuiabá.

Como ressaltou o Instituto de Patrimônio Brasileiro, não é possível construir o gasoduto sem um levantamento arqueológico adequado e o subseqüente resgate dos remanescentes em todo o trajeto da linha. A colaboração da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) e do Museu de Cáceres deve ser continuada nas possíveis fases seguintes, e o material arqueológico não deve apenas ser guardado em instituições públicas, mas devem ser implementadas atividades educacionais para reintroduzir estes artefatos como verdadeiras propriedades culturais. Desta forma a população local, diretamente afetada pela construção do gasoduto, possa ter conhecimento de seu patrimônio e, ser um agente de sua preservação (cf. Funari., 1994).

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[1] A equipe arqueológica foi dirigida por Nanci Vieira (UERJ) e Pedro Paulo A. Funari (UNICAMP). Os estudantes de graduação Diogo Emiliano Valois Barbosa, Luciana Vasconcelos Branco da Paz, Guilherme Vieira de Souza também participaram, bem como, Luciano Pereira da Silva (UNEMAT) , e os Professores da Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT) Acir Montecchi, Alaíde Montecchi.

2  Relatório escrito com a assistência de todos mencionado na nota de rodapé 1.