Arqueologia, História e Estratégia

home | História Militar | História Antiga | Arqueologia, história e estratégia | Currículos | Contato

Entrevista jornal Philía, UERJ

Profa Dra Lourdes M. G. C. Feitosa

Pesquisadora do Núcleo de Estudos Estratégicos (NEE/UNICAMP) 

 

1. Como a sra avalia o estudo da História Antiga no Brasil?

         Com muito otimismo. Nas últimas duas décadas tem sido notório o aumento das pesquisas em Antigüidade no Brasil e o seu fortalecimento deve-se a uma série de fatores. Um primeiro aspecto diz respeito à influência das novas abordagens teórico-metodológicas que realçam o conhecimento histórico como um discurso subjetivo, histórico e político. Subjetivo e histórico porque os valores e as experiências que identificam o pesquisador interferem na escrita do texto que produz, e político, porquanto a escolha do tema pesquisado não é aleatória, mas visa a discutir uma dada situação. A aceitação da História como discurso abre a possibilidade de se questionarem os motivos que levaram à construção de diversas acepções de passado, tornando ainda mais legítimo e justificável as pesquisas em História Antiga, fora dos territórios onde viveram os povos antigos. Isso porque a leitura e reprodução de textos estrangeiros, interpretados como o próprio resgate do passado, cedem espaço para que o estudioso formule suas próprias interpretações, questione visões euro-centristas e se coloque como um construtor do conhecimento histórico.

       A formação gradativa de profissionais especializados na área e a preocupação com a leitura do documento antigo na língua original em que foi escrito, tem estimulado o estudo de línguas variadas como o hebraico, o hieróglifo, o grego e o latim, para citar apenas algumas, por parte dos pesquisadores brasileiros, possibilitando-os discutir e propor interpretações a partir das próprias fontes. A capacitação desses profissionais favorece as traduções, para o português, de fontes antigas, facilitando o acesso a elas de um público em processo de especialização. Também propicia a produção crescente de textos acadêmicos e didáticos voltados a estudantes de diferentes níveis, bem como a orientação de projetos de iniciação científica, de mestrado e doutorado, que ampliam e fortalecem o estudo da Antigüidade em nosso país.

 

2. Como a sra. vê a união de historiadores e arqueólogos nas pesquisas em Pompéia?     

      Tendo claro que a investigação histórica não é feita apenas por meio da documentação escrita, mas também pela interpretação das fontes materiais, a conciliação entre História e Arqueologia é fundamental para investigações mais complexas sobre a organização e funcionamento das civilizações passadas. Essa documentação material é valiosa porque se constitui como fonte alternativa às informações expressas em textos literárias aristocráticos, permitindo, assim, ampliar ou questionar muitos dados destes últimos.

      No caso de Pompéia, essa relação é ainda mais evidente. Como a cidade foi soterrada pelo Vesúvio no ano de 79 d.C. e redescoberta apenas no séc. XVIII, tal acontecimento faz dela um espaço de investigação peculiar pela quantidade e diversidade de estátuas, pinturas, mosaicos e inscrições parietais, além de valorosas peças ornamentais, instrumentos cirúrgicos, utensílios domésticos, moedas e muitos outros objetos que propiciam o desenvolvimento de estudos sobre a organização social, política, econômica e cultural da história pompeiana e romana, que seriam difíceis sem esses registros. É por meio dessas fontes, por exemplo, que se tem registro da participação feminina em campanhas a cargos políticos locais e da manifestação cultural de populares, seja através de seus anúncios, recados, insultos, sátiras a políticos, ou de suas declarações amorosas.

      Assim, o uso da documentação escrita e de outras evidências como as fontes epigráficas, arqueológicas, iconográficas, entre outras, têm trazido valiosas contribuições para o processo de revisão e ampliação das temáticas discutidas pela História, fruto de sua integração com outras áreas do saber.

 

3. Que sugestões dá aos novos pesquisadores que desejam trabalhar com Pompéia?

      Para aqueles que desejam tomar Pompéia como referência para uma pesquisa em História Antiga Romana, alguns passos são importantes. O primeiro deles é dedicar-se ao estudo da língua latina, de tal maneira que seja possível confrontar traduções existentes com a documentação original e/ou propor leituras de novos textos. Adquirir uma orientação metodológica que lhe ofereça subsídios de como utilizar as fontes materiais. Como exemplo, posso citar os cuidados necessários com a leitura das inscrições, em particular os grafites, deixadas nas paredes de Pompéia, como compreender as características das inscrição e as particularidades existentes entre elas, os instrumentos usados para fazer e receber os registros e a influência dos estudiosos modernos nas sugestões de pontuação e complemento das palavras fragmentadas. Esses dados são imprescindíveis para a leitura e análise dessa fonte material, não como um resgate dos sentidos que continham ao serem escritas, mas como fruto de interpretações que podem variar de um momento histórico a outro.

     Um outro elemento necessário é a leitura dos textos modernos em línguas estrangeiras, a fim de que, como historiador da Antigüidade, possa acompanhar as discussões e teses propostas sobre o assunto e tenha condições de oferecer novas interpretações que enriqueçam o debate historiográfico internacional sobre a temática em análise.

 

4. A senhora tem objetivos de novas temáticas em Pompéia?

      Como já foi mencionado, o sítio arqueológico da colônia romana de Pompéia constitui-se em um espaço rico e instigador para os historiadores interessados na Antigüidade romana e eu continuo fascinada com as opções de temas possíveis de serem desenvolvidas a partir de suas fontes. Para uma próxima pesquisa, no Pós-Doutorado, partirei do momento em que Pompéia foi transformada em colônia romana, no ano de 89 a. C., após a sua derrota na Guerra dos Aliados contra Roma. A partir desse momento, a cidade é reestruturada em bases romanas com a chegada de um significativo contingente de soldados romanos. O objetivo da pesquisa é compreender a estrutura da nova política e ordem social, as tenções e os ajustes ocorridos no interior daquela sociedade com o processo de "romanização" e os seus reflexos na consolidação do perfil de masculinidade no interior das elites locais. A arquitetura, as pinturas e as inscrições são documentos que possibilitam investigar a reorganizaçã o do espaço físico da cidade em bases romanas, confirmar e/ou questionar o significado de masculinidade apresentado para as elites em obras historiográficas contemporâneas e contrapor com a imagem considerada para populares, desenvolvida no doutorado.

 

5. Professora, fale um pouco do Programa de Pós-Graduação da UNICAMP.

      O estudo da Antigüidade Clássica na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) teve início na década de setenta com o professor Jaime Pinsky e, desde então, tem se consolidado como um espaço de discussão e produção de pesquisas sobre o mundo greco-romano. A partir de 1992, em virtude de sua aposentadoria, assumiu a área o professor Pedro Paulo Abreu Funari.

     Nos últimos cinco anos, houve um considerável aumento de pesquisadores no programa de Pós-Graduação do Departamento de História interessados no mundo greco-romano. Estruturalmente falando, estes estudos estão aglutinados na linha de pesquisa História Cultural, criada em 1995, com o objetivo de realizar estudos temáticos e teóricos, partindo da reflexão sobre algumas correntes historiográficas contemporâneas, em especial a Nova História, a História Cultural e Social e a História Intelectual. E é dentro dessa linha de pesquisa, cuja preocupação central é discutir novos caminhos para se escrever a História dos diversos períodos, que os trabalhos sobre Grécia e Roma vêm sendo desenvolvidos.

      A realização dessas pesquisas tem sido possível em virtude do apoio do Departamento de História e Instituto de Estudos da Linguagem (IEL); dos órgãos de fomento à pesquisa e do CPA - Centro do Pensamento Antigo.

      O Departamento de História oferece não só discussões sobre teoria e historiografia em geral, mas também cursos especializados sobre Grécia e Roma, Arqueologia e História da Arte, muitas vezes ministrados em parceria com professores colaboradores e visitantes de outras instituições brasileiras e estrangeiras. Além dos cursos, contamos com uma biblioteca que, constantemente, tem adquirido livros sobre a historiografia clássica, periódicos especializados e uma coleção de fontes que inclui a literatura latina e grega (originais e traduções de excelente qualidade), documentos epigráficos (CIL - Corpus Inscriptionum Latinarum) e iconográficos.

       O Instituto de Estudos de Linguagem também tem sido fundamental para que o historiador do mundo antigo tenha uma formação mais sólida. Além de possuir uma biblioteca com livros e periódicos específicos sobre a Antigüidade greco-romana, o Instituto oferece cursos de língua grega e latina capacitando os estudiosos a manusear a documentação diretamente no original, como também a produzir análises críticas de traduções clássicas já existentes.

      Os pesquisadores de Pós-Graduação em Antiga da Unicamp contam com o apoio financeiro da CAPES e da FAPESP, situação que favorece a dedicação integral à pesquisa, a participação em reuniões científicas no Brasil e a realização de investigações no exterior, no caso dos doutorandos, estimulando o intercâmbio entre diferentes instituições nacionais e internacionais. Com relação à FAPESP, cabe mencionar ainda o auxílio proporcionado pela chamada reserva técnica, verba anual destinada a mestrandos e doutorandos para aquisição de material permanente como, por exemplo, computadores e livros, principalmente os importados, que são fundamentais em nossa área. Com este auxílio, temos conseguido ampliar, especializar e atualizar o acervo bibliográfico na área de História Antiga de nosso Instituto.

     O CPA - Centro do Pensamento Antigo - tem sido um outro fator importante para a consolidação de nossa área. Criado em 1995, esse centro tem dentre os seus objetivos organizar um acervo bibliográfico de obras existentes no Brasil e disponibilizá-lo aos diversos pesquisadores e docentes que atuam em áreas isoladas do país, contribuindo, assim, para a democratização dos recursos existentes e para a construção de uma estrutura sólida para a pesquisa Clássica no Brasil.

     Com seus encontros mensais e o Colóquio a cada dois anos, o CPA tem se definido como um espaço permanente de discussão de trabalhos de Iniciação Científica, dissertações de mestrado e teses de doutorado, aprofundamento do pensamento sobre o mundo antigo e intercâmbio de idéias, já que conta com a participação de pesquisadores de diversos lugares do Brasil e do exterior. Além de palestras, debates e seminários, o Centro tem a publicação anual do Boletim do CPA, já em seu décimo terceiro número, que facilita a divulgação dos temas estudados e propicia um diálogo maior entre os pesquisadores da área.

     A partir desse breve histórico acerca da situação dos estudos de História Antiga na Unicamp, pode-se perceber ali a consolidação de um lugar de trabalho interdisciplinar, aberto a discussões entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Esta estrutura, que ainda está em formação, tem incentivado a pesquisa sobre o mundo greco-romano e, embora muito ainda tenha que ser feito, temos obtido resultados com a publicação de textos acadêmicos no Brasil e no exterior, bem como na elaboração de material didático e paradidático mais atualizado para o ensino no primeiro e segundo graus.