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Publicado em: A cultura material e a construção da mitologia bandeirante: problemas da identidade nacional brasileira, Idéias, 2,1, 29-48, 1995.
A cultura material e a constru‡†o da mitologia bandeirante: problemas da identidade nacional brasileira.
Autor: Pedro Paulo Abreu FUNARI
Filica‡†o cient¡fica: Departamento de Hist¢ria, IFCH da UNICAMP - 13100 - Campinas - SP
Resumo: A cultura material tem sido essencial como um meio de difus†o de uma ideologia de identidade nacional, no Brasil. A elite do Estado de S†o Paulo forjou um novo conceito, a mitologia Bandeirante, desenvolvida desde o in¡cio deste s‚culo. A mitologia Bandeirante foi imposta como uma ideologia de massa gra‡as … manipula‡†o da cultura material. Este artigo trata do Museu Paulista e de seu papel como institui‡†o alienadora.
Unitermos: Cultura material; mitologia bandeirante; Museu Paulista.
Introdu‡†o
As identidades nacionais latino-americanas, desde o come‡o dos nossos estados independentes, no s‚culo XIX, desenvolveram-se mais como um problema do que como uma consequˆncia natural do processo de independˆncia. Os sinais de agita‡†o pol¡tica, durante o per¡odo final da ‚poca colonial, em toda a Am‚rica Latina (Alden, 1988, p. 336-343), foram caracterizados pelo fato que diferentes regioes do Novo Mundo Portuguˆs e Espanhol conspiravam contra a administra‡†o colonial por motivos econ“micos e pol¡ticos e n†o por razoes de diferen‡as culturais com as metr¢poles (cf. Maxwell, 1973). Por tr s destes primeiros movimentos autonomistas das elites coloniais n†o havia lugar para uma identidade verdadeiramente americana pois as ideologias foram importadas, diretamente, da Europa, em particular as id‚ias do Iluminismo (Burns, 1964; Viotti da Costa, 1975, p. 84-8). Sempre foi dif¡cil, para as primeiras elites nacionais da Am‚rica Latina, justificar a existˆncia de diferentes pa¡ses independentes no Continente. Nos pa¡ses de fala castelhana, o mesmo fundo cultural espanhol estava em direta contradi‡†o com o grande n£mero de novos estados independentes (Ribeiro Jr., 1975). No Brasil, o problema de identidade era o oposto: uma s¢ l¡ngua, em uma rea imensa, era o principal patrim“nio cultural do novo Reino independente (Algranti, 1987, p.63). Contudo, durante os primeiros anos de independˆncia, o governo brasileiro enfrentou uma s‚rie de rebelioes regionais at‚ a revolta dos farrapos, em meados dos anos 1830 (cf. Mota, 1972). Foi o ex‚rcito, n†o uma natural identidade nacional brasileira, o respons vel pela manuten‡†o de um estado £nico no territ¢rio do Brasil (Simoes de Paula, 1985, p.277).
Ainda que brasileiros e latino-americanos sejam, normalmente, considerados como conceitualmente diferentes (Schwartz, 1988, p.69), os pa¡ses de fala castelhana e portuguesa da Am‚rica tˆm desafios comuns quanto … sua identidade: como enfrentar a quest†o da pluralidade de tradiciones herdadas? E ainda, como escapar do destino de copiar e reproduzir os desejos das elites de considerar-se "de car ter europeu"? (Pereira, 1991, p.50). "Continuamos a experimentar uma vida cultural artificial, falsa e imitativa" (Schwartz, 1988, p.69). As ideologias ind¡gena, negra, portuguesa e imigrante s†o apenas partes de nossa identidade, pois todos estes fundos culturais foram incorporados por meio de percep‡oes de classe, em diferentes per¡odos. Como Renato Ortiz (1985, p.8) enfatizou, "n†o h identidade autˆntica, h uma pluralidade de identidades, construidas por diferentes classes sociais, em diferentes per¡odos hist¢ricos". Os intelectuais brasileiros, quase sempre ligados, ideologicamente, …s elites (Maestri, 1988, p.9), forjaram diferentes identidades brasileiras. Devemos, portanto, estudar suas id‚ias e consequˆncias para a constru‡†o de uma base material para uma identidade inventada.
Os Pensadores brasileiros e seus coment rios sobre a identidade
Uma identidade brasileira demoraria a desenvolver-se, mesmo no interior da elite intelectual dirigente. Isto n†o ‚ surpreendente se considerarmos que o Imp‚rio brasileiro foi fundado pela corte portuguesa. Seria apenas com Jos‚ de Alencar que ter¡amos o desenvolvimento de uma nova id‚ia, brasileira, sobre a especificidade da cultura do pa¡s. Se era verdade que a corte imperial era portuguesa, era tamb‚m verdade que as elites regionais, nascidas no Brasil e, …s vezes, de ascendˆncia portuguesa e ind¡gena, estavam em processo de incorpora‡†o no novo grupo pol¡tico dirigente. D. Pedro II, imperador ilustrado, inteiramente europeu nas suas id‚ias (Funari, 1991, p.122), n†o podia representar, ideologicamente, esta elites regionais. Jos‚ de Alencar forjaria o mito das origens ind¡genas do Brasil. O ¡ndio idealizado juntou-se com o branco e, assim, constituiu o povo brasileiro; os negros estavam ausentes deste discurso, pois trabalhavam como escravos nas fazendas de propriedade destas pr¢prias elites provinciais (Sodr‚, 1958, p.130).
Mais tarde, os negros seriam introduzidos como uma das trˆs ra‡as componentes do povo brasileiro (Fernandes, 1989, p.13-9). Desde a aboli‡†o e a proclama‡†o da rep£blica, houve um aprofundamento das contradi‡oes entre duas culturas brasileiras. O povo foi caracterizado como uma ra‡a mesclada, composta de negros, ¡ndios e brancos pobres, compondo a chamada "ideologia de mesti‡agem". Id‚ias racistas (Nina Rodr¡gues, 1939; 1945; Viana, 1938), importadas da Europa, foram usadas para estudar o brasileiro do povo, ocioso (Freyre, 1943; 1947) e manso (Buarque de Hollanda, 1973). As elites, por outro lado, continuaram a pensar-se como um grupo n†o afetado pelo populacho: europeus, os intelectuais brasileiros sempre consideraram mais natural discutir as ra¡zes do pa¡s … beira do Tƒmisa ou do Sena do que …s margens do Tietˆ. Nas palavras de Laura de Mello e Souza (1982, p.222), "sem existir ou visto como igual ao animal, o homem livre pobre permaneceu esquecido por s‚culos". verdade que, depois da Segunda Guerra Mundial, gra‡as a um sistema pol¡tico democr tico liberal (1945-1964), foi poss¡vel desenvolver toda uma s‚rie de id‚ias cr¡ticas sobre a quest†o da identidade. Estudiosos como Roland Corbisier (1958), R. Bastide (1959), Carlos Estevam (1963) e Ferreira Gullar (1968), entre outros, produziram interessantes trabalhos sobre o tema. Contudo, a ditadura militar (1964-1985) reprimiria as atividades culturais de car ter cr¡tico. "As evidˆncias dispon¡veis indicam que o estado brasileiro voltou sua aten‡†o para a quest†o cultural desde o golpe militar" (Ortiz, 1985, p.85). O per¡odo militar foi caracterizado, assim, n†o s¢ pela persegui‡…o das vozes dissidentes como, tamb‚m, por um programa cultural ativo, criador de uma rede de apoio para o conservadorismo. Embora os esquadroes da morte (Kiernan, 1990, p.93) e a repress†o, em geral, tenham sido importantes para as autoridades manter-se no poder, tamb‚m em institui‡oes acadˆmicas e culturais "alguns de nossos melhores professores foram sumariamente destituidos" (Buarque de Hollanda, 1983, p.13; cf. Hon¢rio Rodr¡gues, 1984, p.226). Entretanto, os militares n†o poderiam levar adiante esta repress†o sem o uso de os recursos tradicionais das elites dirigentes brasileiras: o favor, a clientela, o nepotismo (Schwartz, 1988, p.16; Da Matta, 1991a, p.4-5; Da Matta 1991b, p.399).
Intelectuais fora do sistema burocr tico estatal estavam livres destas limita‡oes (Ring, 1990, p.76) mas estabam, tamb‚m, e como consequˆncia, excluidos dos meios de comunica‡†o e dos mais importantes cargos institucionais. S¢ h pouco foi poss¡vel florescer uma discuss†o livre sobre a identidade nacional. Contudo, se a discuss†o sobre o tema desenvolveu-se, rapidamente (Coutinho, 1990), os bens materiais hist¢ricos brasileiros continuam a ter um papel contradit¢rio, no que concerne a identidade nacional. Considerando-se que muito mais gente visita nossos 895 museus, em um ano, do que lˆ ou tem acesso indireto a intepreta‡oes intelectuais de nossa identidade, devemos, agora, tratar destas importantes estruturas de constru‡†o de identidade popular: os museus.
O museu: identidade materializada e poder simb¢lico
Pierre Bourdieu (1992, p. 113) ressaltou, h pouco, que "temos falado demasiado sobre a consciˆncia, em termos de representa‡†o. O mundo social n†o funciona em termos de consciˆncia, funciona em termo de pr ticas, mecanismos e assim por diante". N†o h d£vida que as pessoas concordam ou discordam das id‚ias correntes muito mais por a‡oes do que por teorias, atrav‚s de influˆncias materiais e imateriais. "Na sua estrutura presente, os museus servem para afastar e alienar (disenfranchise) as pessoas de seu passado. Tˆm a tendˆncia constante de transformar os artefatos em mercadorias. O passado converte-se em uma s‚rie de objetos pr‚-interpretados, com etiquetas explicativas definitivas. Atrav‚s da exposi‡†o no Museu, o objeto ‚ estetizado" (Tilley, 1989, p.113;cf. Vargas & Sanoja, 1990, p.53; Shanks & Tilley, 1987, p.93). O conhecimento n†o ‚ uma propriedade (Tilley, 1992, p.176), a despeito das preten‡oes de alguns acadˆmicos no poder (Funari, 1987-8, p. 260-1): museus, exposi‡oes, monumentos e bens hist¢ricos, por outro lado, s†o propriedades. Isto significa que, se ‚ verdade que o controle de cargos acadˆmicos n†o est livre de la‡os pol¡ticos (Champio, 1991, p.144), muito mais pol¡tico ‚ o controle e a dire‡†o de museus. Andr‚ Luiz Jacobus (1991) estudou as evidˆncias sobre a Dire‡†o do Museu Arqueol¢gico do Rio Grande do Sul (MARSUL), durante o regime militar, e produziu uma descri‡†o aterradora daquilo que descreveu como "a destrui‡†o do patrim“nio arqueol¢gico com a conivˆncia das autoridades p£blicas". Isto foi poss¡vel gra‡as ao que chamou de "tratamento feudal" de uma institui‡†o p£blica (Jacobus, 1991, p.6). Como mencionado, anteriormente, as autoridades militares refor‡aram e renovaram pr ticas de clientela na administra‡†o p£blica. Estas estruturas feudais ou quasi mafiosas foram estabelecidas nos Museus gra‡as … repress†o da dire‡†o humanista. O pior e mais paradim tico caso refere-se † cassa‡†o do Diretor do Instituto de Pr‚-Hist¢ria da Universidade de S†o Paulo, o humanista Paulo Duarte (Funari, 1992), em 1969.
Ao lado deste papel diretamente repressivo que os museus tiveram, durante o per¡odo de mais dura interver‡†o militar, h um aspecto mais sutil da rela‡†o entre Museu e p£blico que continuou depois do fim do regime: sua fun‡†o disciplinar (Foucault, 1979). Disciplinar n†o no sentido de uma obriga‡†o imposta pela for‡a mas, ao contr rio, mantida por uma domina‡†o simb¢lica que "tende a ter a forma de uma opress†o mais efetiva e, em certo sentido, ainda mais brutal" (Bourdieu, 1992, p.115). A violˆncia simb¢lica (Bourdieu, 1977) significa que "o museu manipula rela‡oes, suprime a contradi‡†o, mantendo o passado como um reflexo aparente do presente. O presente reconhece-se no passado e est , desta maneira, justificado. O museu, como uma institui‡†o ideol¢gica, suprime a diferen‡a e a heterogeneidade. O museu suprime o tempo e a presen‡a de agentes da Hist¢ria" (Shanks & Tilley, 1987, p.97). As pessoas devem conformar-se com manipula‡oes n†o expl¡citas do passado atrav‚s das exposi‡oes materiais: as pessoas obedecem, apoiam ou aceitam, positivamente, sua pr¢pria posi‡†o social inferior, a opress†o ou a explora‡†o e, por fim, terminam por esquecer sua pr¢pria subordina‡†o (Miller, Rowlands & Tilley, 1988, p.15). Este controle simb¢lico supera o conceito de vigilƒncia como "uma supervis†o ou controle direto de atividades de subordinados por parte de superiores em uma organiza‡†o espec¡fica ou em um campo de rela‡oes sociais" (Giddens, 1987, p.174, sobre os conceitos de Foucault), pois implica uma obediˆncia inconsciente … ordem.
Contudo, h sempre limites para a domina‡†o (Miller, 1988). Passados excluidos (MacKenzie & Stone, 1990) e seu tratamento cr¡tico permitem questionar as pr ticas correntes em Museus. Grupos ind¡genas, minorit rios e oprimidos podem resgatar sua pr¢pria mem¢ria atrav‚s de uma arqueologia cr¡tica e atrav‚s de um empenho social daqueles que trabalham com a cultura material, arque¢logos e pessoal de museus. Como o conhecimento n†o existe em um v cuo social (Champion, 1991, p.144), s¢ um compromisso ‚tico para com o povo permite questionar "a ideologia presente, feita de maneira a parecer atemporal, uma verdade...<e> examinar como o passado ‚ construido e usado por outros" (Handsman & Leone, 1989, p.119 e 134). Considerando a importƒncia pol¡tica dos museus e sua dire‡†o, este compromisso ‚tico ‚ sempre dif¡cil, ainda mais na Am‚rica Latina, onde o humanismo foi, tantas vezes, v¡tima de persegui‡†o aberta (Vargas & Sanoja, 1990, p.53) por sua defesa dos direitos humanos b sico. Infelizmente, a Arqueologia e a dire‡†o de museus foi usada como uma "arma da opress†o", nas palavras de Lumbreras (1981, p.6). Embora n†o seja f cil questionar os discursos materiais convencionais sobre o passado, tal como apresentado nos museus, esta ‚ uma tarefa que se nos impoe.
Este empenho social implica "considerar que a Arqueologia para o p£blico, como informa‡†o, educa‡†o ou consciˆncia cr¡tica, est justificada atrav‚s da teoria de que o presente ‚ uma importante fonte de conhecimento sobre o passado" (Leone, 1983, p.38) e est na base de todos os discursos contemporƒneos sobre o passado. Talvez mais do que ler diferentes autores sobre a identidade nacional brasileira, devamos tentar ler esta identidade como um discurso material (Tilley, 1990, p.332-339) que "tem um papel altamente ativo, criando a sociedade e criando a mudan‡a social, continuamente" (Hodder, 1986, p.74). Todos os museus s†o imensos discursos artefatuais voltados para o presente. Os museus hist¢ricos, contudo, s†o os mais diretamente pol¡ticos e de car ter manipulador. Isto resulta tanto do fato que a Arqueologia "assume, cada vez mais, uma orienta‡†o hist¢rica" (Trigger, 1984, p.295), como do fato que a Arqueologia Hist¢rica trata de problemas contemporƒneos, tais como o racismo, a percep‡†o, o simbolismo, as rela‡oes sociais e a persistˆncia cultural, entre outros temas (Orser, 1990, p.6).
Neste ponto, ‚ interessante notar que a melhor maneira de disfar‡ar as implica‡oes pol¡ticas de manipula‡†o contemporƒnea do passado consiste em transformar interesses espec¡ficos sobre o patrim“nio, ou seja, interesses de classe, do estado ou de grupos sociais, em interesses da "cidadania" como um todo. Assim, a identidade cultural e a arqueologia foi interpretada como uma tarefa pol¡tica, mas pol¡tica, neste caso, "refere-se a polis, a cidade governada por seus cidad†os" (Meneses, 1987, p.189). Como a cidade (ou pa¡s, neste caso, o Brasil) n†o ‚ governada, diretamente, por seus cidad†os mas, ao contr rio, o ‚ pelos que est†o no poder, esta f¢rmula oculta a quest†o principal: quem controla o passado? Quem controla os museus? Est†o estas institui‡oes sob o controle do povo? S†o seus diretores eleitos para este governo? Se durante o regime militar era f cil dizer que os diretores, como sucessores de diretores cassados, n†o eram representantes da cidadania amorda‡ada, hoje n†o ‚ dif¡cil compreender a continuidade dos mesmos dirigentes, nos mesmos ou em outros museus, buscando este tipo de legitimidade. Para quem est no poder, especialmente diretores de museus, pode estar na moda falar sobre a apropria‡†o, por parte do povo, da sua mem¢ria, sobre a importƒncia para o povo de sentir-se belonging (como parte) de algo (Meneses, 1987, p.188) e, ao mesmo tempo, n†o falar sobre o controle do passado, sobre os interesses sociais implicados na cultura material e, por fim, considerar que os dirigentes de museus detˆm um conhecimento cient¡fico que os outros (povo, estudantes, outros estudiosos) n†o possuem pois n†o s†o mais do que romeiros ignorantes que frequentam estas catedrais c¡vicas (sic, Meneses, 1991, p.5), dirigidas por estes administradores.
Os museus, entretanto, n†o deveriam ser considerados apenas como repressivos, tanto por razoes pr ticas como te¢ricas. Brian Durrans (British Museum), em comunica‡†o pessoal, enfatiza que "a quest†o n†o ‚ se os museus e as exposi‡oes s†o repressivas em si mas se os argumentos que apresentam sugerem que as condi‡oes sociais s†o permanentes e inalter veis ou se, ao contr rio, s†o vari veis e mut veis". As exibi‡oes em Museus podem, dessa forma, servir para conscientizar as pessoas, se este objetivo est na sua base. "Os museus deviam ser motiva‡oes para o desenvolvimento do pensamento humano, assinalando peculiaridades, dissemelhan‡as, semelhan‡as, e liames entre processos hist¢ricos de diferentes povos. Deveriam ser instrumentos did ticos permitindo …s pessoas ligar fatos, objetos e quadros … vida real. Deviam incentivar a reflex†o o estudo privado da Hist¢ria" como ressaltam Vargas e Sanoja (1990:53). O potencial dos museus para educar e concientizar depende das liga‡oes que seus gestores forem capazes e desejarem estabelecer com as classes e movimentos sociais, com o p£blico em geral. Durrans, em comunica‡†o pessoal, lembra-nos que as pessoas comuns deviam estar no centro da aten‡†os dos administradores dos museus: "nada poderia ressaltar mais dramaticamente o golfo entre as experiˆncias acadˆmicas e quotidianas, entre a elite que orgulha-se de pensar, e a maioria das pessoas, que pensa ao menos o mesmo que a elite, mas que faz menos barulho".
Isto conduz a um segundo ponto importante: na administra‡†o real do museu n†o dever¡amos subestimar a importƒncia das exposi‡oes acess¡veis, compreens¡veis. Muitas vezes, ‚ muito f cil montar uma exposi‡†o revolucion ria, com legendas de acordo com as mais recentes modas filos¢ficas. Entretanto, n†o ‚ dif¡cil perceber que uma terminologia obscura e sutilezas p¢s-modernas podem levar a problemas de interpreta‡†o e, at‚ mesmo, … completa rejei‡†o por parte das pessoas comuns. "Procurar transformar o trabalho especializado dos arque¢logos em algo politicamente relevante pressupoe um grau de integra‡†o social dos agentes e das pr ticas" (Durrans 1989:67). Os acadˆmicos devem estar prontos a aceitar uma lideran‡a daqueles cuja experiˆncia social, n†o universit ria, est†o qualificados para assumir esta responsabilidades (Durrans, comunica‡†o pessoal). Esta ‚ a raz†o pela qual professores e outras pessoas comuns, diretamente em contato com o chamado mundo real tˆm sido t†o importantes na discuss†o do uso da cultura material (Funari 1991b:15-16).
O Museu Paulista: identidade material e projetos da elite
O Museu Paulista da Universidade de S†o Paulo, conhecido como Museu do Ipiranga, surgiu a partir de cole‡oes privadas oferecidas ao governo do Estado de S†o Paulo. Em 1892, o Museu do Estado mudou de nome para Museu Paulista e recebeu um grande edif¡cio memorial da Independˆncia como sua sede. No dia sete de setembro de 1895, comemorando os 63 anos da proclama‡†o da independˆncia, †s margens do Ipiranga, foi oficialmente inaugurado. O edif¡cio principal foi projetado pelo italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi. A se‡†o hist¢rica cont‚m mais de seis mil artefatos (quadros, m¢veis, carruagens, roupas, objetos religiosos, porcelana e assim por diante). Desde seu in¡cio, o Museu Paulista foi projetado como um imenso elogio … elite paulista e como um discurso material justificando as pretensoes de domina‡†o por parte da elite deste estado em rela‡†o ao pa¡s como um todo. Maria Isaura Pereira de Queiroz (1992) estudou, recentemente, como a elite paulista criou um novo conceito, o Bandeirante, como um tipo fronteiri‡o respons vel pela cria‡†o do Brasil, no s‚culo XVI, e por sua manuten‡†o posterior. Os Bandeirantes foram considerados tanto como nossos lares (divindades tutelares romanas, Pereira de Queiroz, 1992, p.85), como pais da p tria e como ditadores quase … romana (Taunay, 1929, p.107 e 115). Esta mitologia, criada como consequˆncia do poder hegem“nico obtido pela elite paulista no in¡cio do s‚culo, tentou ser imposta ao restante do pa¡s. Pereira de Queiroz (1992, p.84 e 86) enfatiza que a mitologia Bandeirante visava, a um s¢ tempo, incluir todos os habitantes do estado de S†o Paulo na categoria Bandeirante e excluir as pessoas do restante do pa¡s, encarados como "benefici rios protejidos" pela a‡†o bandeirante.
A mitologia bandeirante foi imposta como uma ideologia de massa gra‡as … manipula‡†o da cultura material. Em termos da Educa‡†o formal, os livros did ticos, publicados em S†o Paulo e usados no pa¡s todo, apresentam estes her¢is materialmente atrav‚s de representa‡oes inventadas destes homens: suas roupas, armas e outros tra‡os materiais, imaginados no s‚culo XX, foram apresentados como s¡mbolos her¢icos e verdadeiros do s‚culo XVI (Davidoff, 1982). Estudantes prim rios, desde ent†o, acostumaram-se a desenhar estes artefatos e seus usu rios her¢icos, os Bandeirantes. Papel relevante teve a cria‡†o do Museu Paulista na propaga‡†o desse mito. O nascimento da na‡†o brasileira independente encontra-se localizado em S†o Paulo (Ipiranga) e, por consequˆncia, toda a Hist¢ria anterior e posterior do pa¡s ‚ lida atrav‚s deste prisma. O per¡odo colonial, no Brasil, est interpretado como uma brava aventura dos pais da p tria paulistas, descobrindo o sert†o, colonizando toda a regi†o portuguesa da Am‚rica e conquistando imensas reas assignada … coroa espanhola: o Brasil n†o era uma col“nia portuguesa, mas um enorme pa¡s conquistado pelos bandeirantes. Esta luta foi levada adiante n†o s¢ atrav‚s da luta contra os ¡ndios no Oeste como, tamb‚m, contra os espanh¢is (no Sul e no Oeste) e contra os negros e pobres revoltosos, no norte (cf. Moura, 1981). N†o havia outro princ¡pio de unidade na col“nia: sem os bandeirantes n†o seria poss¡vel o Brasil. A coloniza‡†o portuguesa poderia desenvolver-se como na Am‚rica Espanhola, com o surgimento de uma s‚rie de pa¡ses independentes. Se h uma identidade brasileira, opondo de maneira t†o clara este pa¡s † Am‚rica de fala castelhana, isto seria o resultado de um projeto bandeirante.
Este ‚ o Brasil colonial, tal como interpretado pela elite paulista e que se converteu em ponto de vista normal desde o in¡cio deste s‚culo, gra‡as ao desenvovimento econ“mico do Estado de S†o Paulo e ao consequente controle pol¡tico paulista. O Museu Paulista, como edif¡cio, era uma rea‡†o material do Estado de S†o Paulo ao grande n£mero de edif¡cios da capital, Rio de Janeiro, que tinham estado no centro da ideologia imperial. N†o ‚ dif¡cil compreender que o Museu Paulista era um desafio direto ao Museu Nacional do Rio de Janeiro, transladado … Quinta da Boa Vista, o antigo Pal cio S†o Crist¢v†o, domic¡lio oficial da fam¡lia imperial, em 1892. O Brasil colonial, como uma cria‡†o bandeirante, era uma conquista do interior e n†o ‚ surpreendente notar que a alian‡a entre S†o Paulo e Minas Gerais era um desafio ideol¢gico bandeirante: os mineiros eram, originalmente, colonizadores paulistas em areas de minas, no interior. Esta era a espinha dorsal do pa¡s, esta vasta rea central (S†o Paulo e Minas Gerais), a qual, desde tempos coloniais, servia como a principal defensora da identidade e unidade nacional contra os estrangeiros (espanh¢is), os ¡ndios e os negros revoltosos, de norte a sul, e contra os movimentos separatistas de diferentes partes do pa¡s. Affonso de Escragnole Taunay, diretor do Museu Paulista desde 1917, preparando o centen rio da Independˆncia em 1922, proporcionava a base material para o mote pol¡tico de S†o Paulo: non ducor, duco, o destino bandeirante era mandar, n†o obedecer (Mota, 1990, p.22), parodiando C¡cero sobre os romanos (populum romanum seruire fas non est, quem dii immortales omnibus gentibus imperare uoluerunt).
Taunay buscou coletar um grupo completo de artefatos sobre as atividades bandeirantes. Dois quadros s†o particularmente importantes: A funda‡…o de S†o Vicente e A partida das mon‡oes. S†o Vicente foi a primeira cidade fundada no Brasil, em S†o Paulo, em 1532 e o come‡o da coloniza‡†o do pa¡s n†o poderia ter ocorrido em outro lugar: a primeira cidade brasileira tinha de ser obra bandeirante. O quadro de Benedito Calixto apresenta a funda‡†o da vila no momento em que a coloniza‡†o mudou toda a paisagem, os colonizadores n†o s†o mais portugueses, mas bandeirantes, os ¡ndios n†o s†o mais aut¢ctones estrangeiros, mas s†o os servos dos bandeirantes. Ideologicamente, os ¡ndios s†o apresentados no processo de convers†o ao catolicismo, gra‡as ao padre, e o destino do bandeirante, como colonizador do interior, apresenta-se na oposi‡†o entre o mar e os barcos, ao fundo, e o grupo central de autoridades, olhando para o interior, como se imaginassem, j , a maneira de conquistar o continente. Olhavam para o Ocidente e para o futuro, ao mesmo tempo. A partida das mon‡oes, de Almeida J£nior, trata de outra atividade bandeirante simb¢lica: a partida dos colonizadores de Araritaguaba (hoje, Porto Feliz), …s margens do Rio Tietˆ, em dire‡†o …s minas de Cuiab . A partida, tal como representada no quadro, mostra os valentes bandeirantes, aben‡oados por um sacerdote cat¢lico, ajudados por subalternos; em particular, um escravo africano est representado levando um ba£. Uma vez mais, a elite bandeirante ‚ representada como conquistadora, enquanto o povo comum aparece na forma de servi‡ais.
Na verdade, toda a decora‡†o interna do Museu Paulista procura mostrar como o Brasil n†o passa de uma cria‡†o bandeirante: os bandeirantes s†o representados, no hall de entrada, por grandes est tuas; as diversas regioes do pa¡s s†o representadas como cria‡†o da ousadia paulista; a Independˆncia foi, providencialmente, proclamada em S†o Paulo e D. Pedro I, em carta exposta com destaque, agrade‡e o apoio decisivo dos paulistanos … Independˆncia. Os exemplos poderiam ser multiplicados. O Museu reflete, pois, a ideologia da elite paulista. Esta elite bandeirante "era relativamente impenetr vel a mulheres, n†o brancos e imigrantes e era estritamente recrutada entre um pequeno grupo de homens altamente educados, os quais, na maioria das vezes, eram propriet rios de fazendas" (Love & Barickman, 1986, p.764).
Love e Barickman (1986, p. 765) notaram que "o mando, transformado em dom¡nio, que S†o Paulo estabeleceu neste per¡odo <1889-1930>, persiste ainda hoje". Ideologicamente, o Museu Paulista continuou a ter um papel essencial na manuten‡†o desta mitologia bandeirante. Este processo foi levado adiante atrav‚s de uma interven‡†o pol¡tica na sua dire‡†o: os diretores foram, sempre, indicados por crit‚rios pol¡ticos e desenvolveram toda uma rede administrativa para a manuten‡†o desta "catedral c¡vica". interessante notar que a ideologia e a pol¡tica fascista, sempre preocupada com o culto das elites (Visser, 1992), foram importadas para S†o Paulo e, enquanto na It lia a hegemonia da elite era assimilada … antiga ditadura militar romana, no Brasil, os bandeirantes eram interpretados como nossos "ditadores romanos", nas palavras de Taunay, citadas acima. Durante o regime militar, o Museu Paulista continuou a ter um papel ideol¢gico sem oposi‡†o. Recentemente, a despeito do desenvolvimento de contra-discursos e da liberdade, o Museu Paulista tem continuado em m†os designadas por crit‚rios pol¡ticos. Sua tarefa principal continua a ser a prote‡†o da tradi‡†o da elite. Assim, ainda que seu cat logo de 1990, comemorando seu centen rio, contenha pedidos de uma leitura menos parcial e conservadora do passado, com a inclus†o de contra-discursos na exposi‡†o (em particular, Mota, 1990, p.22), seus saloes, artefatos e vitrines continuam como antes. Afinal, "a alegoria erigida por esta catedral c¡vica ‚ ainda eficaz" (Meneses, 1990, p.21): sim, continua eficaz para disfar‡ar rela‡oes, glorificar a ideologia da elite e manter os dirigentes no poder (incluindo-se, ai, os pr¢prios diretores e altos funcion rios). No Brasil, ministros, secret rios, dretores de museus e outros intelectuais burocr ticos continuam a pensar que o pa¡s cont‚m apenas vinte milhoes de cidad†os e outros cento e trinta milhoes de habitantes, n†o cidad†os. Esta exclus†o radical do povo das preocupa‡oes oficiais sobre a identidade explica porque o Museu Paulista continua a ter uma orienta‡†o de exclus†o, como h um s‚culo, e explica porque a identidade brasileira, tal como forjada pela elite para a "plebe ignara" continua a ser uma identidade bandeirante. A tarefa de questionar esta identidade unilateral est apenas come‡ando.
Agradecimentos
Este trabalho foi apresentado, originalmente, em La Plata, Argentina, no Simp¢sio "Cultura Material e uso do Passado: a identidade nacional na Am‚rica Latina", em maio de 1992, a convite da Universida Nacional de La Plata. Posteriormente foi comentado por Maria Isaura Pereira de Queiroz e por Brian Durrans, aos quais sou muito devedor e grato. A vers†o atual procurou incorporar suas cr¡ticas e sugestoes. Devo agradecer, ainda, aos seguintes colegas que forneceram trabalhos, trocaram id‚ias ou ajudaram de diferentes formas: Mark Leone, M rio Maestri, Charles E. Orser Jr., Irina Podgorny, Michael Rowlands, Michael Shanks, Christopher Tilley e Bruce G. Trigger. A responsabilidade pelas id‚ias apresentadas recai apenas no autor.
Abstract:
Material culture has been essential as a means of enforcing national identity ideology in Brazil. S†o Paulo State elite figured out a new concept, the Bandeirante mithology, developed since the beginning of this century. Bandeirante mithology was imposed as a mass ideology thanks to material culture manipulation. This paper deals with the Paulista Museum and its role as a disenfranchising institution.
Keywords: material culture; Bandeirante mythology; Paulista Museum.
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