Arqueologia, História e Estratégia
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Publicado em: A arqueologia e a cultura africana nas Américas, Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, XVII,2, 61-71, 1991.

 

 

A ARQUEOLOGIA E A CULTURA AFRICANA NAS AMRICAS

 

Pedro Paulo Abreu Funari (UNESP-Illinois State University-IBEA)

 

INTRODU€O

 

                        A escravid†o e a cultura negra no Brasil tˆm constituido, ao longo dos anos, um campo de estudo constante e crescente. Desde o in¡cio do s‚culo, o negro tem sido objeto de referˆncia por parte dos pensadores que se ocuparam da constitui‡†o de uma identidade nacional brasileira. Nas £ltimas d‚cadas, com a intensifica‡†o da produ‡†o acadˆmica sobre a cultura africana, surgiram vertentes e especializa‡oes, intensificaram-se os debates e as contraposi‡oes interpretativas, atestando o aprofundamento dos estudos sobre o tema. No entanto, permanece v lida a afirma‡†o de Stuart B. Schwartz (1977:69) de que "em grande medida, a desepeito de uma bibliografia extensiva e sempre crescente, a Hist¢ria da escravid†o no Brasil resta por escrever". Cinco anos depois, tamb‚m para Em¡lia Viotti da Costa (1982:45) "a conclus†o a que se chega ‚ de que, apesar dos louv veis esfor‡os que os historiadores tˆm feito nos £ltimos anos, a quest†o escrava no Brasil ‚, ainda, uma quest†o aberta". A produ‡†o cient¡fica tem sido grande, seja nas Ciˆncias Sociais (cf. Reis 1988:57), seja na Hist¢ria, a ponto de se calcular (Guti‚rrez 1988:185) que, na d‚cada entre 1976 e 1985, foram divulgados 276 trabalhos, ou um, artigo nova a cada quinzena. Assim, s¢ sobre a escravid†o, h  407 t¡tulos arrolados por Guti‚rrez & Monteiro (1990) e, sobre a cultura afro no

Brasil, 1965 t¡tulos recolhidos por Alves (1976).

                        Uma caracter¡stica marcante da produ‡†o recente refere-se … sua preocupa‡†o em escapar … unilateralidade do "olhar branco" sobre a cultura africana. O discurso (Schawartz 1987:16) e olhar dos brancos (Slenes 1988:203) tˆm sido objeto de an lises cr¡ticas e aumenta a preocupa‡†o em escapar-se das restri‡’es inerentes ao registro dominante. "Importante vertente da historiografia cotemporƒnea tem se caracterizado, dentre outros aspectos, pela recupera‡†o e valoriza‡†o de fontes desprezadas pelos historiadores tradicionais. Estes tˆm permitido a reconstru‡†o de aspectos da realidade mais pr¢ximos da vida quotidiana, e a desmistifica‡†o da vis†o de mundo erigida a partir da documenta‡†o oficial, bem como um outro "olhar" sobre aqueles que a¡ aparecem de forma obl¡qua ou mesmo figurativa" (Guimar†es et alii 1990:01). Escravid†o, cultura afro-brasileira e "problema negro" (Cardoso 1982:108) constituem quest’es n†o apenas acadˆmicas mas, principalmente, sociais. ã diferen‡a do que se passa nos Estados Unidos, n†o possu¡mos, aqui, um "p£blico negro atento, qualificado para absorver e criticar a produ‡†o cient¡fica" (Oliveira e Oliveira 198:69). Os anseios das comunidades e entidades afro, n†o apenas em nosso pa¡s, mas em outras partes do continente americano, de "resgatar, real‡ar e desenvolver a identidade ‚tnica, cultural e hist¢rica afro" (Movimiento Nacional Cimarr¢n de Colombia, in Friedemann 1988:4) passa, contudo, por uma supera‡†o das limita‡’es impostas pelo referencial branco da documenta‡†o escrita dominante. Neste sentido, a Arqueologia, como estudo do quotidiano atrav‚s da cultura material, permite chegar ao escravo, captando sua voz, nunca escrita, mas materializada nos objetos e espa‡os por eles produzidos e

usados.

                        A Arqueologia Brasileira, para estar … altura dessa tarefa, precisa, no entanto, tomar consciˆncia de sua miss†o e comprometimento com a sociedade nacional. Passa-se, com a Arqueologia Brasileira, algo semelhante ao que aflige a Arqueologia Africana e podemos aplicar, ao

nosso caso, as considera‡’es de Michael Rowlands (1989:281-2): "certas prioridades da Arqueologia Africana precisam ser repensadas. Uma destas ‚ a necessidade de uma Arqueologia Hist¢rica da âfrica que se preocupasse mais diretamente com a compreens†o das origens das condi‡’es pol¡ticas e econ“micas contemporƒneas que afligem o continente...a Arqueologia Africana parece por demais preocupada em demonstrar seu valor para uma audiˆncia internacional preocupada com "grandes quest’es" da Pr‚-Hist¢ria do homem". De fato, a Arqueologia

Hist¢rica pode contribuir, de maneira significativa, para a abordagem de uma s‚rie de quest’es levantadas, expl¡cita ou implicitamente, pelas pesquisas sobre a escravid†o e a cultura afro.

                        Em primeiro lugar, e respondendo aos recentes chamamentos aos estudos locais (Martins & Martins 1984:146) e monogr ficos (Machado 1988:143), a cultura material permitiria esclarecer a situa‡†o concreta e o modo de vida de escravos, senhores, quilombolas e pobres ("desclassificados"). No momento atual, a maior parte da informa‡†o que tem sido analisada refere-se … cultura material tal como refletida nos documentos escritos ou figurativos. Assim, em suas monografias sobre Vassouras e Rio Claro, Warren Dean (1976) e Stanley  Stein (1969) referem-se ao quotidiano das fazendas em termos absolutamente generalizantes, sem que possamos avaliar em que medida estas generaliza‡’es seriam constatadas, arqueologicamente, nas fazendas da regi†o. "Banheiros n†o existem na maioria das fazendas " (Stein 1969:53): qual seria esta maioria? Ou, em que medida os banheiros n†o est†o descritos nos documentos? Ainda mais, na ausˆncia de banheiro, que tipo de fossa sanit ria era utilizada? "A casa-grande era geralmente simples e sem ornamento" (Dean 1976:45). "ãs vezes, havia um balc†o atr s de um dos lados, dando para o terreiro, grande quadril tero pavimentado, total ou parcialmente cercado pela senzala" (Valverde 1965:12). Generaliza‡’es como estas deveriam ser o resultado de in£meras pesquisas em fazendas reais para adquirirem o valor documental que precisariam possuir para se tornarem referenciais seguros.

                        Para que possamos avaliar o potencial da Arqueologia Hist¢rica aplicada ao conhecimento da cultura afro, talvez a melhor maneira seja atentar para os avan‡os conseguidos, nesta  rea, pela Arqueologia Norte-Americana. Na medida em que o trabalho consiste no "determinante principal da sociedade escravista" (Schwartz 1988:10), a Arqueologia das fazendas escravistas tem consitido numa das principais  reas de pesquisa e tem produzido resultados particularmente instigantes. Pode avaliar-se a produ‡†o cient¡fica norte-americana, nesta  rea, pelos mais de quatrocentos t¡tulos citados no n£mero especial de Historical Archaeology sobre o tema, publicado em 1990.

 

 

DAS FAZENDAS DESCRITAS ãS FAZENDAS CONCRETAS

 

 

                        Na introdu‡†o ao volume "A Arquelogia Hist¢rica das Fazendas Sulistas", Charles E. Orser Jr. (1990:6) ressaltava que "as quest’es …s quais os arque¢logos historiadores que estudam o Sul voltam, cada vez mais, sua aten‡†o, referem-se ao racismo, … percep‡†o, ao simbolismo, …s rela‡’es sociais e … persistˆncia cultural". Na verdade, o que caracteriza a Arqueologia Hist¢rica ‚ seu foco em problemas associados ao capitalismo, em particular, aqueles cujo acesso privilegiado ou £nico se d  atrav‚s da cultura material. Assim, "a Arqueologia Hist¢rica examina o capitalismo e seus          v rios

componentes -colonialismo, imperialismo, industrializa‡†o, luta de classes e forma‡oes socias- como temas hist¢ricos que n…o s†o propriamente nem "hist¢ricos" nem "antropol¢gicos" apenas, mas ambos a uma s¢ vez" (Orser 1988:315). N†o ‚, pois, … toa que a aliena‡†o e a luta de classes (cf. Handsman 1985:6) fundam a pr¢pria Arqueologia Hist¢rica enquanto estudo do quotidiano, do popular e do trivial. Se o povo custa a aparecer no documento escrito, se quando ali aparece n†o ‚ sen†o como referˆncia de outrem, se para chegarmos a ele a fonte se nos interp’e antes como obst culo a ser superado do que como acesso, esta mesma massa an“nima domina o registro material: nele, sobeja o povo! "Poderemos brincar, folgar, e cantar em todos os tempos que quizermos sem que nos empe‡a e nem seja preciso licen‡a" (Stein 1977:81). Estes e outros anseios dos escravos, rarissimamente reportados pelas fontes escritas, materializam-se nos instrumentos

musicais, nos brinquedos, nas garrafas e em tantas coisas mais, feitas ou utilizadas pelos pr¢prios escravos, cujos restos contituem o principal objeto da Arqueologia Hist¢rica.

                        As pesquisas arqueol¢gicas das fazendas norte-americanas tˆm se direcionado, justamente, "n†o para determinar as propor‡’es do mesmo tipo de itens em todos os s¡tios (ou seja, de conzinhas, roupas etc); o importante ‚ entender como estes artefatos eram usados, nesta forma‡†o de classe, na luta de classes, na aliena‡†o e na mudan‡a social" (Orser 1989:37). Isto significou uma mudan‡a de aten‡†o da casa-grande para a senzsala (Orser 1988:314), sem deixar de lado, no entanto, a interrela‡†o, envolvendo espa‡o e poder, entre amabas as partes, da fazenda (Orser 1988:320-1). "Uma das mais engenhosas formas de resistˆncia dos escravos envolvia a institui‡†o de uma hierarquia de trabalho que atuava em direta oposi‡†o …quela imposta pelo senhor. Nesta hierarquia construida pelos escravos, os escravos nas mais altas posi‡’es eram os menos favorecidos pelo senhor" (Orser 199:116). As evidˆncias dessas hierarquias jamais foram relatadas por escrito, s†o recostru¡veis apenas atrav‚s dos vest¡gios materiais em que se baseavam. Estas hierarquiza‡’es materiais n†o s†o aplic veis apenas ao estudo da escravid†o mas, tamb‚m, … comunidade negra em si e …s suas transforma‡’es culturais enquanto parte das camadas populares da moderna sociedade capitalista. Como relevam K.L. Brown e D.C. Cooper (1990:19), "africanos e afro-americanos podem ser, com frequˆncia, "invis¡veis" na Hist¢ria escrita mas, atrav‚s da pesquisa arqueol¢gica levada a cabo cuidadosamente, n†o precisam continuar a sˆ-lo". De fato,"os africanos tornaram-se afro-americanos; neste processo de acultura‡†o, adaptaram a cultura material euro-americana em alguns de seus sistemas comportamentais africanos. As escava‡’es fornecem evidˆncias claras de que hierarquias econ“micas e pol¡ticas existiam no interior da comunidade afro tanto durante o per¡odo de escravid†o como ap¢s a aboli‡†o. De fato, os dados sugerem que uma grande continuidade existiu, no interior da comunidade, nos dois per¡odos"

(Brown & Cooper 1990:8;11).

                        A "Hist¢ria dos n†o-organizados" (=history of the inarticulate, Singleton 1990:72), da gente simples, reflete-se, na Arqueologia das fazendas, em quatro tendˆncias, segundo Howson (1980:78): "l. os arque¢logos come‡am a encarar a cultura dos escravos como elemento chave para a compreens†o da estrutura social e sua transforma‡†o nas fazendas sulistas; 2. o sentido da heran‡a africana est  sendo examinado criticamente; 3. os estudos da cultura material come‡am a ajudar na formula‡†o de quest’es sobre categorias culturais significativas e sobre a mudan‡a social; e 4. uma abordagem privilegiando a a‡†o social est  suplantando o modelo de status  , no que se refere …s rela‡’es sociais nas fazendas".

                        Na medida em que "a cultura material n†o pode ser entendida como refletindo, simplesmente, rela‡’es sociais, mas como algo que participa, ativamente, de sua cria‡†o, funcionamento e manuten‡†o" (Howson 1990:88), a correla‡†o entre o comportamento humano e os objetos (Holland 1990:61) e as poss¡veis inferˆncias a n¡vel da estratifica‡†o social (Stine 1990:49) est†o no centro da pesquisa arqueol¢gica. N†o se trata, portanto, de estudar os escravos isoladamente, mas em intera‡†o com feitores e senhores, em termos de alian‡as, indiferen‡as e antagonismos (Babson 1990:21). Neste contexto, a cultura material do fazendeiro consiste em parte integrante essencial do sistema escravista e seu estudo, em conjun‡†o com as evidˆncias dos outros segmentos sociais, torna-se indispens vel. Assim, "a ideologia da Arquitetura (i.e. da elite) mascara n†o porque seja algo errado mas porque articula, simultaneamente, um sistema espec¡fico de domina‡†o e o apresenta como algo inevit vel, eterno, como senso-comum ineg vel. Os fazendeiros adotaram, desse modo, motivos da arquitetura romana cl ssica n†o como uma met fora espec¡fica, mas como parte de uma tentativa geral de apropriar-se de uma aura e autoridade ahist¢ricas pr¢prias … cultura cl ssica, fazendo com que rela‡’es espec¡ficas de domina‡†o parecessem atemporais e inevit veis" (Epperson 1990:31). No entanto, talvez a mais importante contribui‡†o destes estudos recentes resida no questionamento constante dos modelos intepretativos, como ressaltava Orser (1990:6) ao referir-se aos artigos publicados em Historical Archaeology  (24,4, 1990): "os autores deste voume, ao desafiar muitas id‚ias acadˆmicas correntes, tentam fazer a Arqueologia Hist¢rica avan‡ar. Se todas as id‚ias expressas aqui forem, no futuro, refutadas por outros pesquisadores, o objetivo mais amplo deste volume ter  sido alcan‡ado".

                       

 

O POTENCIAL DA ARQUEOLOGIA HISTåRICA PARA O CONHECIMENTO DA CULTURA AFRO NO BRASIL

 

 

                        Na partilha do esp¢lio do Dr. Jos‚ Ribeiro Leite Zamith, encontra-se a descri‡†o do capital da Fazenda Saudade, localizada no Vale do Para¡ba, avaliado em 1877. No documento in‚dito citam-se os escravos (66, no valor de 47:000#000), os animais (3, no valor de 143#000) e as seguintes constru‡’es e objetos:

 

                        Casas e obras: casa de morada (8:000#), paiol (800#), enfermaria (500#), senzallas velhas (960#), 2 telha<d>os (320#), seva (150#), engenho e machinas (9:400#), terr<eir>os (1:000#), tanques (600#), moendas velhas (20#)                 21:750#000

                        M¢veis: 2 carro‡as, 1 carro, 1 carret†o, mob¡lia, trem de cozinha, 5 tuyas de cobre                     2:272#800

 

                        Esta sum ria evidˆncia escrita pouco nos revela sobre a disposi‡†o espacial dos edif¡cios da fazenda, sobre seus c“modos internos, com seus tiferentes tamanhos e disposi‡’es. Tamb‚m os artefatos m¢veis n†o merecem aten‡†o especial. Mais ainda: note-se que toda a cultura material associada aos sublaternos e escravos resume-se a duas palavras do discurso escrito (senzallas velhas). A partir de documentos oficiais deste tipo, tem-se assentado, for‡osamente, a historiografia contemporƒnea sobre a escravid†o no Brasil. Na medida em que possuimos vest¡gios materiais de centenas de fazendas escravistas, datadas desde a ‚poca colonial at‚ ocupa‡’es mais recentes, o estudo arqueol¢gico dessas unidades produtivas revelaria, pondo … prova as diferentes interpreta‡’es te¢ricas, as estruturas materiais concretas de funcionamento e transforma‡†o desse sistema econ“mico.

                        Se nossa aten‡†o volta-se para a cultura afro, contudo, o locus mais adequado para seu estudo n†o reside na unidade produtiva. A fazenda escravista, enquanto unidade produtiva (Orser 1990:115) por excelˆncia, funcionava como instiui‡†o disciplinar que tendia a inibir, coibir e delimitar as express’es culturais n†o aprovadas pelos

senhores. O grau de autonomia cultural do elemento afro pode ser mais claramente delimitado quando abandonamos a fazenda, espa‡o disciplinar (cf. Foucault 1977:190) nesta instui‡†o ainda tradicional mas j  capitalista e, portanto, "vigilante" (cf. Giddens 1987:158), e buscamos a organiza‡†o aut rquica dos negros em quilombos. Assim como

a greve consiste numa resistˆncia  sistˆmica do proletariado ao capitalismo, a fuga dos escravos n†o se resume a fen“meno acidental mas adquiria uma  constƒncia (Moura 1987:31), constituindo parte essencial do pr¢prio escravismo. "O quilombo foi, incontestavelmente, a unidade b sica de resistˆncia do escravo. Pequeno ou grande, est vel ou de vida prec ria, em qualquer regi†o em que existia a escravid†o, l  se encontrava ele como elemento de desgaste do regime servil" (Moura 1972:87). As fugas de escravos e a constitui‡†o de assentamentos de fugitivos eram ub¡quas a tal ponto que apeans podemos avaliar sua extens†o pela presen‡a, em nosso campo, de centenas de top“nimos referentes a quilombos.

                        Ferdinand Denis (1980:155-6), consciente da constƒncia das fugas, constatava, em 1838, que os negros fugitivos "persistem neste gˆnero de vida deplor vel e formam os quilombos no centro das florestas do litoral". Os pr¢prios fazendeiros, ante … multiplica‡†o dos quilombos, chegavam a responsabilizar o executivo por sua indiferˆn‡a face ao problema (Beiguelman 1982:23). O Estado, por sua parte, pouco fazia para preservar o estatuto jur¡dico dos africanos livres (Tavares Bastos 1975:68), dificultando a reinser‡†o do negro na sociedade branca e refor‡ando a atra‡†o exercida  pelos quilombos perante … comunidade afro. D‚cio Freitas (180:43) prop“s a caracteriza‡†o de, ao menos, sete tipos de quilombos no Brasil: l. agr¡colas; 2. extrativistas; 3. mercantis; 4. mineradores; 5. pastoris; 6. de servi‡os; 7. predat¢rios.

                        Do ponto de vista cultural, contudo, o quilombo revela-se como evidˆncia potencial da autonomia afro na Am‚rica. Fora do controle branco, podia o africano forjar sua pr¢pria identidade. Identidade marcada pelas contradi‡’es de sua condi‡†o de cultura de fugitivos do escravismo  (cf. Funari 1991). N†o se trata, portanto, da idealiza‡†o da cultura quilombola como desprovida de hierarquias e rela‡’es interiores conflitivas. De qualquer forma, entretanto, ainda que as distin‡’es culturais que fazemos sejam arbitr rias e anal¡ticas (cf. Rosenberg 1980:152), o conceito de identidade cultural quilombola aut“noma permite melhor recortar a realidade expressiva do africano rebelde ao escravismo.

                        Neste sentido, o quilombo como categoria documental arqueol¢gica, representa a £nica via de acesso direto … cultura espec¡fica e autarquicamente afro. A abundƒncia de quilombos no Brasil contitui, assim, um manancial precioso de informa‡’es a ser pesquisado. Pelos poucos estudos arqueol¢gicos j  levados a cabo, pode entrever-se o potencial destes s¡tios. Como afirmava Paulo Zanettini (1991:16), coordenador do Projeto Etnoarqueologia do Negro no Mato Grosso, cabe investigar quais os "indicadores de fen“menos culturais ligados … atividade e organiza‡†o social dos quilombos, sistemas s¢cio-culturais pouco pesquisados do ponto de vista arqueol¢gico". Carlos Magno Guimar†es e Ana L£cia Duarte Lanna (1980:162), pioneiros neste estudo, chamavam a aten‡†o para o fato que o "quilombo, al‚m de um foco de resistˆncia … escravid†o, foi tamb‚m um foco de preserva‡†o da cultura negra pois ai o negro podia expressar livremente os elementos de sua cultura". Podemos avaliar o grau de autonomia expressiva destes fugitivos por uma pintura reproduzida em Guimar†es & Lana (1980:163 = FIGURA 1). Escapando aos padr’es est‚ticos da arte pict¢rica erudita, o autor an“nimo deste desenho utilizou-se de forte estiliza‡†o: com poucos tra‡os expressa, de forma abstracionista, a figura humana. Sua elabora‡†o est‚tica, fru¡vel apenas pela erudi‡†o do s‚culo XX, demonstra que o quilombola n†o havia sido simplesmente aculturado, procurando imitar, grotescamente, os padr’es eruditos. Possuia expressividade pr¢pria, criativa antes que imitativa. Todo o universo material do quilombo, das habita‡’es e sua forma, aos objetos de uso quotidiano, tais como garrafas, vasilhas e cachimbos, arqueologicamente recuper veis, permitem resgatar a especificidade da cultura afro.

                        O assentamento quilombola com maiores referˆncias na tradi‡†o textual (Carneiro 1988) e cujos restos materiais abrangem uma imensa  rea, Palmares, consiste no objeto de estudo arqueol¢gico mais promitente. Palmares, estudado j  monograficamente a partir da documenta‡†o escrita (Santos 1985; cf. Freitas 1984, com bibliografia anterior), fornece a oportunidade £nica de analisar, atrav‚s da cultura material, a organiza‡†o espacial e a vida quotidiana da sociedade aut“noma e sua transforma‡†o ao longo de diversos decˆnios. neste contexto que o Instituto Brasileiro de Estudos Africanistas ou

IBEA, sob a dire‡†o de Cl¢vis Moura, a Universidade Estadual de Illinois, na pessoa do Diretor do Centro de Pesquisas Arqueol¢gicas do Meio-Oeste, Charles E. Orser Jr. e o autor destas linhas, preparam um projeto de pesquisa arqueol¢gica na  rea. Sob sua dire‡†o, o Projeto Arqueol¢gico Palmares envolver , num cronograma de execu‡†o plurianual, n†o apenas arque¢logos como, tamb‚m, historiadores, antrop¢logos e outros cientistas sociais nas tarefas de prospec‡†o e escava‡†o arqueol¢gicas e no estudo e intepreta‡†o do material. O projeto reveste-se de importƒncia tanto para o conhecimento da cultura afro no Brasil como, em termos gerais, para o aprofundamento de nossa compreens†o da autonomia cultural africana em solo americano.

                        Esperamos que, ao trabalharmos com o mais significativo monumento de resistˆncia ao escravismo, possamos estabelecer as bases para o estudo posterior dos in£meros quilombos espalhados por todo o continente americano. O envolvimento das comunidades negras e das associa‡’es afro-brasileiras neste processo de resgate da cultura afro, refor‡a o car ter social do projeto cient¡fico e visa restabelcer os v¡nculos t†o necess rios entre a ciˆncia e a sociedade que, afinal, a justifica. A Arqueologia Hist¢rica poder , desta forma, contribuir para que a consciˆncia da cultura afro, j  presente nos movimentos sociais, encontre em Palmares as ra¡zes de sua autˆntica originalidade.

 

 

AGRADECIMENTOS

 

 

                        Expresso meus agradecimentos aos seguintes amigos e colegas que me fornceram artigos, trocaram id‚ias e me ajudaram de diveras maneiras: Cl¢vis Moura, Nina S. de Friedemann, Hor cio Guti‚rrez, Charles E. Orser Jr., Michael Rowlands, J. de Arruda Zamith e Paulo E. Zanettini.

 

 

OBRAS CITADAS

 

 

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