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Publicado em: Catálogo de ânforas do MASP, Boletim, Instituto de História da Arte do MASP, 1: 18-20, 1997.
CATÁLOGO DE ÂNFORAS DO MASP
PROF. DR. PEDRO PAULO A. FUNARI (LIVRE-DOCENTE EM HISTÓRIA ANTIGA, IFCH, UNICAMP)
INTRODUÇÃO
O Museu de Arte de São Paulo possui quatro ânforas, doadas pela Condessa Dora Zuccari Matarazzo, em 1985, provenientes da Itália Meridional. Um documento manuscrito, nos arquivos do MASP, fornece alguns detalhes sobre o seu achado:
Sono stati regalati dai pescatori di Santa Maria di Castellabate (Cilento) poichè spesso andavano sulle loro ‘paranze’ di pesca prima che i motopescherecci infestassero quel meraviglioso mare(1925). Sono stati pescati tra il mare dei templi di Paestum e Punta Licosa (“foram presenteados pelos pescadores de Santa Maria di Castellabate (Cilento), já que, freqüentemente, acabavam em suas ‘redes’ de pesca, antes que os barcos de pesca motorizados infestassem aquele maravilhoso mar (1925). Foram pescados entre o mar dos templos de Paestum e Punta Licosa”).
O próprio nome desses vasos, em geral de cerâmica, explica sua forma: ânfora significa, em grego antigo, “objeto com duas alças, para transporte” (amphi = “ambos”; phero = “levo”)[1]. Estes recipientes, que parecem ter surgido na Palestina em meados do segundo milênio a.C., difundiram-se por todo o Mar Mediterrâneo, tornando-se o principal meio de transporte, a longa distância, de líquidos, em especial, vinho, azeite e molhos de peixe[2]. Havia ânforas de mesa, destinadas ao uso doméstico e que podiam ser decoradas, dotadas, em geral, de uma base ou pé. Contudo, a grande maioria eram ânforas de grandes dimensões, com até um metro de altura e pesando entre vinte e trinta quilos, sem qualquer decoração, usadas para o comércio em larga escala. Para facilitar o transporte marítimo e a retirada do líquido, que podia chegar a sessenta ou mais litros, possuíam um fundo em forma de ponta, que servia como uma terceira alça. O uso das ânforas generalizou-se a partir do período helenístico (330-146 a.C.), alcançando seu ápice no período do Principado Romano (30 a.C. 235 d.C.).
Em sítios arqueológicos romanos, competem com os tijolos como os artefatos mais encontrados, sendo as ânforas, sem dúvida, os objetos mais estudados do instrumentunm domesticum. Devido à imensa variedade tipológica desses vasos e à sua importância para o estudo da História econômica e social do mundo antigo, bem como dos costumes e da cultura, em geral, desenvolveu-se uma especialidade, a Anforologia, cujos estudos têm fornecido parâmetros para repensar questões relevantes sobre a Antigüidade[3]. Muitos naufrágios de cargueiros carregados de ânforas têm sido estudados e as ânforas do acervo do MASP devem provir de carregamentos naufragados.
DESCRIÇÃO DAS ÂNFORAS DO MASP
Ânfora 1056 (foto disponível ): ânfora de tipo greco-itálico, quebrada em várias partes, com incrustrações marinhas, de 57 cm. de altura, 22,7 cm de largura máxima, 11,3 cm de diâmetro da boca, 8,4cm de largura do colo. Lábio fino e largo, a boca estreita, colo de paredes externas paralelas, assim como as alças, que não chegam a tocar o lábio, ombro marcado, pé em ponta, oco; pasta vermelha; datação: ca. 200 a.C.
Ânfora 1057 (foto não disponível): ânfora de tipo greco-itálico, de 79 cm de altura, acrescentar cm de largura máxima, acrescentar de diâmetro da boca, acrescentar de largura do colo. Lábio destacado, alças que se aproximam do colo longo, pança piriforme, ombro marcado, pé em ponta inteiriço, pasta vermelha; datação: ca. 200 a.C.
Ânfora 1058 (foto disponível): ânfora de tipo Dressel 9, de 84 cm de altura, 31,8 cm de largura máxima, 19,2 cm de diâmetro da boca, 17 cm de largura do colo. Lábio em coroa, alça em fita, ombro marcado, pança piriforme, pé em ponta inteiriço, pasta amarelo claro; datação: século I d.C.
Ânfora 1059 (foto não disponível): ânfora com base, de 61 cm de altura, acrescentar de largura máxima, acrescentar de diâmetro da boca, acrescentar de largura do colo. Lábio achatado e fino, alça em fita, que não toca o lábio, com nervura central, colo largo, pança mais larga no ombro do que na base; paredes finas e pasta marrom clara.
COMENTÁRIOS
As ânforas greco-itálicas foram os primeiros recipientes de produção estandardizada, em inúmeras olarias da Itália, destinadas, durante o período helenístico, ao transporte de vinho. O estudo mais completo deste tipo anfórico foi publicado por Elizabeth Lyding Will em Hesperia e os dois exemplares do acervo do MASP podem ser classificados como pertencentes à sua Forma C (ca. 200 a.C.), nos tamanhos grande (peça 1058), destinada a ca. 25 litros, e médio (peça 1057), para ca. 12 litros[4]. As ânforas greco-itálicas da forma C, comuníssimas em naufrágios, podem ser classificadas como “recipientes de comércio marítimo internacional” (international shipping containers) e demonstram a força do mercado de vinhos itálicos no período helenístico. A ânfora de tipo Dressel 9 (peça 1058), produzida na Espanha Meridional, antiga Bética e atual Andaluzia, em princípios do século I d.C. destinava-se ao transporte de condimentos de peixe, muito apreciados e consumidos pelos romanos. Sua exportação para a Itália e outras regiões do Império Romano está bem atestada, por meio de uma série de ânforas parecidas, classificas por Heinrich Dressel, no século passado, sob os número 7-11[5]. A ânfora com base (peça 1059) constitui uma exceção à regra de que esses recipientes eram dotados de pontas e este fato, assim como sua ausência das tábuas tipológicas mais usuais, está a sugerir que se tratava de um recipiente de proveniência oriental, provavelmente destinado ao transporte de vinho grego. As ânforas do MASP constituem evidências do ápice econômico do mundo antigo que permitiria o florescimento de uma civilização material cuja esplendor continua a nos admirar[6].
Pedro Paulo A. Funari
Livre-Docente, IFCH, UNICAMP
C.Postal 6110, Campinas, 13081-970, SP
Fax: 019-2393327
E-Mail: funari@turing.unicamp.br
OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: PARA PUBLICAÇÃO, ACRESCENTAR FOTOS DAS QUATRO ÂNFORAS E AS MEDIDAS DE DOIS VASOS (PEÇAS 1057 E 1059).
[1] Cf. P.P.A. Funari, Em torno da ânfora: a terminologia latina dos vasos recipientes, in Neiva Ferreira Pinto & Jacyntho Lins Brandão (orgs), Cultura Clássica em Debate, Belo Horizonte, UFMG/CNPq/SBEC, 1987, pp. 51-61.
[2] Cf. P.P.A. Funari, A Anforologia - uma nova disciplina arqueológica, Revista de História, São Paulo, 118, 1985, pp.161-170.
[3] Cf. P.P.A. Funari, Dressel 20 Inscriptions from Britain and the Consumption of Spanish Olive-Oil, with a Catalogue of Stamps, Oxford, BAR Tempus Reparatum, 1996; C. Carreras & P.P.A. Funari, El consumo de aceite en Britania Romana: economía, sociedad, cultura, Barcelona, Universidad de Barcelona, en prensa.
[4] O artigo de E. Lyding Will, Greco-Italic Amphoras, Hesperia, 51, 3, 1982, pp.338-356, recolhe a bibliografia anterior; o termo “greco-itálica”, embora posto em questão por Daniele Manacorda, em A proposito delle anfore cosidette ‘greco-italiche’: una breve nota, in J.-Y. Empereur & Y. Garlan (eds), Recherches sur les amphores grecques, Paris, De Boccard, 1986, pp. 581-586., continua a ser utilizado, à falta de outro melhor.
[5] A tábua tipológica de Dressel, usada até hoje amplamente, foi publicada, pela primeira vez, como ilustração ao volume XV, 2, Inscriptiones Urbis Romae Latinae, do Corpus Inscriptionum Latinarum, em 1899, tab. 1.
[6] Agradeço a J.-Y. Empereur, Y. Garlan e E. Lyding Will e a Luiz Marques pela oportunidade de publicar estas peças do acervo do MASP.