O
ARGUMENTO DO IMPÉRIO*
Geraldo
Lesbat Cavagnari Filho**
Resumo
O objeto central da análise é a configuração das relações de força sucessora da bipolaridade. Conceitos, fatos e circunstâncias levam à conclusão de que ela é unipolar. Na direção de tal desfecho, a análise se detém na aposta européia no multilateralismo, na intenção americana de perpetuar sua condição de superpotência, na presunção dos Estados Unidos de que sua segurança é a segurança da própria ordem mundial e na revolução na doutrina estratégica americana provocada pelo 11 de Setembro. Na finalização da análise nega-se aos Estados Unidos a condição de império, mas se reconhece que eles têm os atributos para agir como tal, quando necessário.
Abstract
The
focus of the analysis is the configuration of
relationships of force after the Cold War bipolarity. Concepts, facts and
circumstances lead to the conclusion that this configuration is now unipolar.
Towards this conclusion, the analysis covers the European bet on multilateralism,
the American intention to perpetuate itself as a superpower, the presumption of
the United States that its security is the security of the current World Order,
and the revolution on the American strategic doctrine caused by 09/11. The
conclusion denies the US the status of empire, but acknowledges that the US has
the attributes to act as such when necessary.
A guerra contra o Iraque é um
fato histórico já conhecido como a Segunda Guerra do Golfo. A França e seus
aliados europeus não conseguiram impor limites à potência norte-americana. Os
Estados Unidos não se submeteram nem ao Conselho de Segurança das Nações
Unidas nem à opinião pública mundial. Sustentaram sua decisão unilateral,
apoiados pela Grã-Bretanha e Espanha, com o argumento do império: “Quando o
que está em jogo é a nossa segurança, não precisamos da autorização de
ninguém”. Ou melhor como única superpotência, os EUA não se submetem às
leis internacionais nem mesmo às instituições multilaterais, quando seus
interesses estão ameaçados.
O contra-argumento à empáfia do império, apoiado no direito internacional, qualificou o ataque contra o Iraque, sem a concordância específica das Nações Unidas, como um ato ilícito e de agressão, uma guerra ilegal. Para a Comissão Internacional de Juristas da ONU, “na ausência do aval do Conselho de Segurança, nenhum Estado poderia recorrer à força contra um outro Estado, salvo em caso de legítima defesa ou em resposta a um ataque armado”. Ou seja, assim como não houve base jurídica para a invasão, não há legitimidade ao conceito de guerra preventiva.
Desde de 1945, a Organização
das Nações Unidas é o fórum principal no qual os países do mundo se esforçam
coletivamente para manter a paz e a segurança internacionais, por meio de
regras mutuamente acordadas. No entanto, ela foi solapada pela rivalidade da
Guerra Fria. Até o colapso do império soviético, o conflito bipolar se fez
sentir na medida em que tanto os EUA quanto a URSS usaram seu poder de veto no
Conselho de Segurança para bloquear qualquer ação que pudesse ser prejudicial
a seus interesses. Com exceção da Guerra da Coréia, todas as guerras e
intervenções militares conduzidas por eles, assim como as conduzidas pela França
e Grã-Bretanha, foram ações unilaterais – à revelia do Conselho de Segurança.
No pós-Guerra Fria, as ações armadas realizadas pelos americanos na Bósnia,
em Kosovo e no Afeganistão foram também unilaterais. Se contra o governo
Taliban a guerra se justificou como uma ação de autodefesa, na península balcânica
ela se justificou como reação à barbárie sérvia. Tanto no Afeganistão como
nos Balcãs, a falta do aval do Conselho de Segurança foi compensada pelo apoio
internacional unânime.
A oposição efetiva contra os Estados Unidos no Conselho de Segurança foi liderada pela França – apoiada inicialmente pela Alemanha e, posteriormente, pela Rússia. Os governos Chirac e Schroeder firmaram posição contrária a uma guerra contra o Iraque sem o aval desse conselho. Em essência, a decisão franco-germânica, apoiada pela Bélgica, Rússia e China, não conferia legitimidade a uma intervenção militar realizada antes que as inspeções tivessem rendido algum resultado aceitável. Não há dúvida: essa decisão era uma aplicação correta da Resolução 1441 – o objetivo era o desarmamento do Iraque e, se não o fosse conseguido, não estaria afastado o uso da força. A firmeza mantida pelos patronos da oposição serviu como indutor de gigantesca mobilização internacional contra a guerra. Mas o ataque anglo-americano ao Iraque, em 20 de março, mostrou ao mundo a irrelevância da ONU e a impotência do Conselho de Segurança em face de uma potência imperial.
As críticas à oposição
franco-germânica foram, de certo modo, ácidas. As mais contundentes foram
dirigidas tanto à França quanto às Nações Unidas. À França, por usar a
ONU para projetar influência que, na realidade, não tem nem a exerce – além
da Alsácia e de Calais, além da Gasconha e da Provença. A crítica às Nações
Unidas, por sua vez, não foi menos virulenta: “A ONU, um grupo de regimes de
legitimidade menos que uniforme, ungiu-se a si mesma como a única juíza do que
sejam ações militares legítimas. E reivindica para si o dever de acorrentar a
única nação que tem o poder de fazer cumprir suas resoluções”. Conclui
com ironia: “Você acredita que falta legitimidade a qualquer uso do poderio
militar dos Estados Unidos se não tiver a aprovação da França, Rússia e da
China?”[i]
Embora contrariasse uma
realidade de poder, o discurso francês é cristalino na exposição de suas
premissas básicas, que justificam a necessidade de instituições multilaterais
fortes para legitimar o uso da força, mas na defesa do direito: “Não se pode
defender a lei violando a lei. Se a força deve ser o último recurso, não pode
ser usada como um princípio de ação preventiva e unilateral” – porque se
“ela for usada de forma unilateral estará arruinada a confiança entre os
Estados.”[ii]
Mas, para os “falcões” de Washington, seria um erro submeter à sanção da
ONU o uso do poderio militar americano na defesa de interesses vitais dos
Estados Unidos. Aliás, para esses mesmos “falcões”, acordos e instituições
multilaterais não devem se constituir fins em si mesmos.[iii]
São meios, somente meios – descartáveis, se necessário.
Os Estados Unidos sempre
interferiram em assuntos de outros países, mas sempre recusaram interferência
em seus assuntos. A ação militar unilateral tem sido freqüente nas suas relações
externas. Começou com a Guerra Hispano-Americana, em 1898, com o objetivo de
expulsar o império espanhol do Caribe e do Pacífico Ocidental, permitindo-lhes
ocupar Porto Rico, Filipinas e Guam e manter influência sobre Cuba, recém-independente.
A partir daí, segue uma sucessão de ações militares unilaterais, culminando
com a Segunda Guerra do Golfo[iv]
– que, com certeza, não deverá ser a última. Como única superpotência, os
EUA continuarão insistindo na absoluta liberdade de ação na defesa dos seus
interesses, num futuro imediato.
A partir do início da década
de 90, alimentou-se por algum tempo a expectativa de um mundo menos violento. O
que se desejava era uma nova ordem mais pacífica em um mundo interdependente
– e, se possível, crescentemente democrático –, cuja garantia de paz
repousasse na segurança coletiva, apoiada num sistema de instituições
multilaterais de resolução de conflitos. Assim, como não estariam ausentes os
conflitos de interesses na nova ordem, eles deveriam ser resolvidos no quadro da
segurança coletiva, estabelecendo-se limites para não transformá-los em
guerra. Portanto, desde que os mecanismos de solução viessem a ser eficazes
nas sanções contra os países que os ultrapassassem, mediante a aplicação de
sanções econômicas – e, se necessário, por meio de operações militares.[v]
Nesse caso, a Primeira Guerra do Golfo foi exemplar – foi uma aposta
bem-sucedida no multilateralismo. A aposta no multilateralismo no campo da
segurança internacional inspirou-se, de certo modo, na expectativa (equivocada)
de que dificilmente os Estados Unidos teriam capacidade “de exercer uma
liderança realmente hegemônica, a que sua sobrevivência como única superpotência
militar, em princípio, lhe deveria proporcionar condições de aspirar.”[vi]
Mesmo reconhecendo neles os atributos necessários a uma potência para exercer
ação global eficaz, retirava-se deles (por antecipação) a possibilidade de
manter em escala mundial a Pax Americana.
A nova ordem resultaria então de uma nova distribuição real de poder – ou
seja: resultaria de uma China mais poderosa, de uma Europa politicamente
unificada e de um Japão dotado de maiores responsabilidades políticas e
militares, entre outros centros de poder regional.[vii]
Na visão multilateral, não cabia obviamente tal pax.
Após o colapso do império soviético,
alguns viram os EUA como uma superpotência militar a caminho do declínio econômico,
considerando “extremamente controvertida a hipótese de uma nova ordem
internacional regida pela Pax Americana”[viii].
Mas, para outros, em toda a
década de 80, os Estados Unidos “aumentaram grandemente sua influência
mundial”, assim como “emergiram” – ao final dela – “com uma
supremacia militar, econômica, ideológica e cultural”[ix],
que os credenciava a liderar a construção da nova ordem mundial. Além disso,
durante toda a década de 90, eles apresentaram altos índices de crescimento
econômico. E continuaram sendo, como sinalizou seu desempenho nas guerras do pós-Guerra
Fria, a única garantia de segurança na Europa e em sua periferia. Não há dúvida
de que os EUA ingressaram no século XXI capitalizados, de certo modo, para
bancar a sua paz, a Pax Americana.
Os EUA jamais se mostraram
refratários ao multilateralismo, assim como ao internacionalismo. Ao contrário.
Em várias ocasiões, deram a entender que buscarão a cooperação com seus
aliados – principalmente com os da aliança atlântica – , quando a segurança
internacional estiver ameaçada. No início da década de 90, eles já eram a única
potência capaz de liderar a ação coletiva num contexto de decisão
multilateral. É claro, fortemente influenciada por eles. Contudo, não
renunciaram ao direito de intervir militar e unilateralmente onde seus
interesses vitais estiverem ameaçados.[x]
Além disso, conscientes de
sua condição de única superpotência, sinalizaram, após a Primeira Guerra do
Golfo, que estão determinados a modelar a nova ordem de acordo com seus valores
e interesses – como se eles fossem universais. Em toda a década de 90, os
Estados Unidos deixaram claro que não estão dispostos a ceder seu lugar de potência
dominante.
Na condição de única superpotência,
os EUA podem manter o equilíbrio estratégico na Eurásia com mais eficiência
que na Guerra Fria. Esse equilíbrio é imperativo para a segurança americana.
Eles participaram da Primeira Guerra Mundial para impedir que a Alemanha
imperial dominasse o continente europeu. Lideraram a luta contra a Alemanha
nazista e o Japão militarista para impedir que rompessem esse equilíbrio,
respectivamente, na Europa e no Pacífico Ocidental. Na Guerra Fria, os Estados
Unidos impediram que a União Soviética capturasse as periferias da massa
continental eurasiana – ou seja, na Europa Ocidental, no Extremo Oriente e no
Sul da Ásia. Assim, impediram que a URSS se constituísse, historicamente, na
única possibilidade real de potência dominante em toda a Eurásia.
Desde que emergiram como grande
potência com presença e influência globais, os EUA passaram a identificar no
equilíbrio eurasiano a estabilidade da própria ordem mundial – que, na sua
visão, é inseparável de sua segurança nacional. Além disso, esse equilíbrio
induz à preservação da sua hegemonia no hemisfério ocidental (nas Américas),
assim como à estabilidade nas regiões produtoras de petróleo da Eurásia –
no Golfo Pérsico, Cáucaso e na Ásia Central. A ameaça à hegemonia de
Washington no hemisfério ocidental só poderá vir de uma potência hegemônica
eurasiana – afastando, desse modo, uma ameaça endógena. As ameaças às
reservas mundiais de petróleo, por sua vez, estão na própria Eurásia. Em
conseqüência, os Estados Unidos vêm-se obrigados a impedir o surgimento de
uma potência hegemônica na Eurásia, ou em parte dela.
Para manutenção de tal equilíbrio,
assim como de sua hegemonia hemisférica, Washington dispunha (como ainda dispõe)
das estratégias da dissuasão e da contenção. Quando se rompeu o monopólio
nuclear americano, formou-se um consenso em torno da desqualificação da guerra
nuclear como instrumento político. Mas, paradoxalmente, esse consenso não
excluiu o recurso à resposta nuclear no planejamento estratégico-militar da
União Soviética e dos Estados Unidos. No caso de confronto direto entre essas
duas superpotências, as respectivas hipóteses de guerra abrangiam tanto os
patamares convencionais quanto os patamares nucleares da escalada. Mesmo assim,
dada a simetria entre elas – ambas dotadas de capacidade de primeiro e segundo
golpes, capazes de proporcionar um cenário de destruição
inaceitável – , a guerra entre os EUA e a URSS tornou-se impensável.
Assim, o caminho encontrado por essas duas superpotências para administrar a
bipolaridade foi a estratégia da dissuasão, cuja credibilidade repousa na própria
função da arma nuclear – a de aniquilar a intenção ofensiva do adversário.
Ou seja, a dissuasão sinalizava (como ainda sinaliza) a destruição mútua
assegurada, como resultado do confronto direto entre as duas superpotências.
No entanto, a estratégia da
dissuasão não impediu a expansão do império soviético – principalmente na
Eurásia. A tarefa de detê-la ou dificultá-la coube à estratégia da contenção
– que, de certo modo, foi bem-sucedida na Guerra Fria. Apesar de todo o avanço
geoestratégico, a União Soviética não conseguiu um acesso direto aos mares,
aos oceanos – às águas quentes.[xi]
A Europa Ocidental bloqueava efetivamente a saída para o Atlântico, contendo o
acesso soviético em pontos naturais de estrangulamento geoestratégico.[xii]
O acesso ao Golfo Pérsico e ao Índico esteve impedido por uma barreira de países,
começando pela Turquia, passando pelo Irã e Paquistão e terminando pela Índia.
A URSS estava efetivamente bloqueada do Mar do Japão ao Golfo Pérsico. Nem
mesmo o colapso do regime pró-americano no Irã permitiu aos soviéticos uma saída
no Índico às expensas desse país e do Paquistão, uma vez não concretizado o
seu êxito no Afeganistão. O acesso ao Pacífico ficou limitado a uma pequena
faixa no seu extremo-oriente.
O desaparecimento da União Soviética
não tornou ultrapassadas as estratégias americanas da dissuasão e da contenção.
Ao contrário. Elas mantêm-se ativas porque os objetivos maiores da política
de segurança dos Estados Unidos continuam os mesmos. Apesar de terem
participado de guerras, em toda a década de 90, eles encontraram dificuldades
para identificar seus futuros inimigos em face de ameaças que já estavam se
apresentando no seu horizonte estratégico. Para alguns, tais dificuldades
decorriam de um governo incapaz de manter os EUA focalizados em seu “interesse
nacional” – isto é, na manutenção de sua supremacia sem se impor limites
ao seu poder.[xiii]
Para o neoconservadorismo republicano, a Pax Americana é uma
possibilidade real. Assim, o governo atual pretende dar continuidade aos
governos Reagan e George H. Bush, desfazendo-se de uma herança democrática
recente.[xiv]
O 11 de Setembro é o ponto de
inflexão da estratégia americana. Apesar de ser a única superpotência no pós-Guerra
Fria, a eficácia dos ataques terroristas indicou que a segurança dos EUA não
é absoluta. Nessa data, Washington deparou-se com um inimigo de alta
periculosidade, que combina audácia, fanatismo suicida, organização e preparo
técnico. O governo americano se convenceu de que seu enorme aparato militar é
totalmente inútil contra um inimigo difuso, indefinido, cujo teatro de guerra
em nenhum momento estará demarcado por fronteiras geográficas – nem por
linhas de contato entre as forças em conflito. Contra o terrorismo a doutrina
militar americana mostrou-se ineficaz, visto que o seu aniquilamento não é
fruto do uso da força esmagadora. Aliás, contra ele não funcionam nem a
dissuasão nem a contenção.
Com poucos recursos o grupo
terrorista Al-Qaeda executou o mais espetacular ato terrorista da história,
seja pela eficácia alcançada seja pela audácia assumida. Nenhum ato de
terrorismo anterior infligiu tantos danos, em termos de destruição material e
vidas perdidas. “O número de mortos foi quase o dobro da resultante de quatro
décadas de violência na Irlanda do Norte. Corresponde a dez vezes a quantidade
de baixas, dos dois lados, na rodada mais recente da intifada palestina em
Israel”.[xv]
Aliás, os danos infligidos por Al-Qaeda foram o equivalente ao número de
mortes em Pearl Harbour. A audácia, por sua vez, revelou-se no arremetimento de
três aviões sobre dois símbolos do poderio americano: as torres gêmeas do
World Trader Center e um dos lados do Pentágono.
O último ataque estrangeiro ao
território continental dos Estados Unidos ocorreu em 1812, na curta guerra para
conquistar o Canadá. O resultado foi a ocupação de Washington por tropas britânicas,
seguida do incêndio da Casa Branca e do Capitólio. Daí por diante, até 11 de
setembro de 2001, os americanos convenceram-se de que ameaças permaneceriam
fora do território continental. Essa garantia de segurança foi efetiva em
todas as guerras travadas pelo EUA – sobretudo nas duas guerras mundiais.
Durante a Segunda Guerra Mundial “nem japoneses nem alemães tinham condições
de bombardear” suas cidades nem de ocupar seu território.[xvi]
Na Guerra Fria não foi diferente. A vulnerabilidade dos Estados Unidos
resumia-se apenas a um ataque nuclear da União Soviética. Mas em virtude de
sua capacidade nuclear de segundo golpe eles poderiam evitar uma ocupação
militar soviética subseqüente e, mesmo violentamente agredidos, derrotá-la.
Na realidade, a segurança do território continental americano, assim como a do
território soviético, repousava na eficácia da doutrina de destruição mútua
assegurada.
Uma das primeiras inferências
feitas logo após os ataques terroristas indicava algum paralelismo com Pearl
Harbour, como episódio mais próximo dele – por também ter sido desferido
contra os EUA e não precedido de uma declaração de guerra. É claro que não
houve unanimidade em torno dessa inferência. Para muitos, é um falso paralelo,
pois o ataque a Pearl Harbour foi um ato oficial de guerra de um país contra
outro, e os ataques terroristas de 11 de Setembro, um ato político perpetrado
por um inimigo anônimo.[xvii] No entanto, essa
premissa é tão questionável quanto a que estabelece o (falso) paralelismo. De
qualquer modo, a lembrança de Pearl Harbour explica a determinação do governo
Bush de enfrentar o terrorismo numa guerra prolongada e encerrá-la com seu
aniquilamento. Aliás, foi isso que os Estados Unidos fizeram com o Japão na
Segunda Guerra Mundial.
Não há dúvida, o 11 de
Setembro é um fato inédito na história americana, na medida em que indica a
impotência de todo o aparato militar dos Estados Unidos em face de um inimigo
que não ocupa nem defende posições fixas, e que poderá agredi-los novamente
no seu território continental. Assim, impôs-se a Washington o recurso de
transferir a responsabilidade por atos terroristas contra seus interesses aos países
que hospedam, controlam e (ou) apóiam qualquer grupo terrorista. É a versão
preliminar da famigerada Doutrina Bush – que desloca a retaliação contra
esses países. O resultado imediato de sua aplicação foi a Guerra do Afeganistão,
precedente que induziu os Estados Unidos a buscar o alinhamento internacional
contra o terrorismo, crentes de que defendendo sua segurança estarão
defendendo a segurança mundial.
Antes do 11 de Setembro, os EUA
já buscavam a invulnerabilidade do seu território continental em face de
qualquer ataque nuclear, apoiando-se no pressuposto de que já estavam também
protegidos de ameaças de natureza convencional. Muitos admitem que a busca
dessa invulnerabilidade surgiu com o chamado projeto “Guerra nas Estrelas”,
iniciado no governo Reagan. Mas essa não foi a finalidade principal desse
projeto. A Iniciativa de Defesa Estratégica visou a radicalizar a aposta
norte-americana na corrida armamentista. Aumentando essa aposta no
desenvolvimento de novas tecnologias, os Estados Unidos alcançaram a vitória
no conflito Leste-Oeste sem a necessidade da batalha decisiva. No entanto, o
referido projeto foi retomado pelo governo Clinton com a finalidade expressa de
construir um escudo antimísseis, como garantia da perpetuidade do país como única superpotência.
Durante a Guerra Fria, as duas
superpotências dependiam da doutrina de destruição mútua assegurada para a
dissuasão recíproca de uma guerra nuclear. A idéia era tornar suicida um
primeiro ataque ao garantir que o outro lado fosse capaz de revidar. Em 1972,
foi firmado entre os EUA e a URSS o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos
(Tratado ABM), com a finalidade de impedir que essas superpotências se
tornassem invulneráveis. A decisão do governo Bush de dar continuidade à
construção de um escudo antimísseis, tendo em vista alcançar essa
invulnerabilidade, levou os Estados Unidos pós-11 de Setembro à denúncia
unilateral do Tratado ABM. Mas a finalidade principal desse escudo não é
convencer os Estados “fora-da-lei” a não chantageá-los com um ou dois mísseis
que tenham ogiva nuclear. Na realidade, ele visa subtrair de qualquer potência
– principalmente da Rússia e da China – a capacidade de ataque nuclear (de
primeiro e segundo golpes) contra o território continental americano. Ou
melhor, visa dotar os EUA das salvaguardas nucleares para agir impunemente em um
conflito nuclear. Não há dúvida de que, alcançada a invulnerabilidade
nuclear, os Estados Unidos terão alcançado as condições para usar sua
capacidade militar de aniquilamento sem restrição, tanto nuclear quanto
convencional.
É claro que já estão
incorporados à Doutrina Bush os conceitos de invulnerabilidade e aniquilamento.
Mas o que a distingue no âmbito da estratégia é a adoção da guerra
preventiva como autodefesa antecipada. Os Estados Unidos não podem intervir em
toda parte. É uma conclusão óbvia. Entretanto, segundo a nova doutrina, devem
estar preparados para enfrentar todas as possibilidades de ameaças aos seus
interesses nacionais – devem ser capazes de intervir para proteger seus
interesses estratégicos. Eles deverão enfrentar ameaças futuras à sua
segurança mediante ataques preventivos, onde e quando forem necessários. Deverão
ser os primeiros a atacar, pois qualquer ameaça mesmo potencial justifica a ação
preventiva. Efetivamente, a imposição da ação unilateral e a realização,
quando necessário, da ação preventiva são a essência da Doutrina Bush.
Assim, os Estados Unidos se reservam o direito de agir na defesa de seus
interesses com a “legitimidade” que lhes confere sua supremacia inconteste.
Não há dúvida de que quando
se tem superioridade de meios e a ameaça inimiga é premente, a lógica indica
a ação preventiva, a autodefesa por antecipação – pressupondo que “os
riscos da espera poderão ser maiores que os riscos da ação”.[xviii]
É claro que o exemplo iraquiano não se ajusta a essa lógica. A ameaça
iraquiana, como algo grande e iminente a ponto de pôr em risco a soberania dos
Estados Unidos – a integridade do seu território continental –, é um
argumento exagerado para justificar uma guerra preventiva. Os motivos alegados
para depor Saddam Hussein foram desqualificados antes da guerra. Nenhuma evidência
sequer foi apresentada, vinculando o Iraque a Al-Qaeda, mostrando que o país
tivesse um programa nuclear ativo ou um arsenal de armas químicas e biológicas.
Ou seja, o governo de Saddam Hussein não esteve comprometido nem com o
terrorismo internacional nem com a proliferação de armas de destruição em
massa. Assim, a razão suficiente para depô-lo era outra.
Os Estados Unidos podem não ser
um império, mas têm todos os atributos para agir como tal, quando necessário
– como agiram contra o Iraque. Desde o fim da Guerra Fria, eles respondem
efetivamente pela segurança mundial. Se a sua segurança é a segurança de
todos, o poder militar norte-americano é a garantia de tal segurança. “Por
ser a nação mais poderosa do mundo, os Estados Unidos têm a responsabilidade
especial de ajudar a tornar o mundo mais seguro”.[xix]
Ao atribuir caráter messiânico à sua responsabilidade com a segurança
mundial, eles justificam a defesa dos seus valores e interesses – por exemplo,
a defesa da democracia –, como se
fossem universais. Assim, qualquer ação militar (unilateral e preventiva)
transforma-se em cruzada que, pela
“legitimidade” autoconferida, justifica a intenção: “o poderio militar
norte-americano precisa ser assegurado porque os EUA são o único país que
garante a paz e a estabilidade globais”.[xx]
Logo, é sua responsabilidade manter o mundo mais pacífico e seguro, assumem os
“fundamentalistas” do governo Bush.
Com uma mistura de realismo político
com messianismo, os Estados Unidos devem fazer todo o esforço para se manter
como potência militar acima de qualquer desafio. Estão já empenhados, desde a
queda do muro de Berlim, na construção e manutenção de forças militares
para não serem desafiados neste século atual.[xxi]
Assim, eles já estão construindo e procurarão manter defesas que estejam além
da capacidade dos que tentarem desafiá-las.[xxii]
Sua (grande) estratégia visa, sobretudo, a dissuadir “todos os adversários
em potencial de tentarem obter uma preparação militar com a esperança de
suplantar ou de se equiparar ao poder dos Estados Unidos” e de seus aliados.[xxiii]
Segundo essa visão, eles farão tudo o que for possível para evitar uma União
Européia, ou uma China, como contraponto militar. Seria indesejável uma
hegemonia na Europa – do Atlântico ao Báltico –, assim como no Leste Asiático.
Para tanto, julgam-se preparados para agir sozinhos.
Embora o discurso do governo
Bush reafirme o compromisso dos Estados Unidos com as instituições
multilaterais – como a ONU, a OMC, a OEA e a OTAN – “ele na realidade tem
agido como quem se auto-elegeu para governar o mundo e não mais reconhecer
interlocutor à altura”. Sob esse ponto de vista, tais instituições “só
devem existir se servirem para legitimar suas decisões e seu império – como
ocorreu na Primeira Guerra do Golfo”.[xxiv]
Não há dúvida de que a unilateralidade da ação militar revelou a irrelevância
da ONU e a impotência do Conselho de Segurança no campo da segurança. No
entanto, essa realidade não deve ser motivo para se decretar a falência das Nações
Unidas. É claro que, na sua reformulação, a questão está posta, por
enquanto, como um jogo de soma-zero:
restabelecimento do multilateralismo ou subserviência ao império.
Durante a Guerra Fria, as Nações
Unidas não tiveram influência na preservação da paz e segurança
internacionais, pois tanto os vetos soviéticos quanto os americanos impediram o
Conselho de Segurança de agir como corte suprema. Nesse período não houve
novas guerras na Europa, mas isso não teve nada a ver com a ONU, e sim com a
dissuasão nuclear e o equilíbrio de poder entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia.
No entanto, com o fim da bipolaridade, muitos admitiram a possibilidade real de
as Nações Unidas exercerem a função primária de ao mesmo tempo restringir e
legitimar a hegemonia dos EUA, de
modo a suavizar a unipolaridade. Seria, com certeza, o papel principal da ONU
nas primeiras décadas do século XXI.
Os fatos que se sucederam após
o colapso do império soviético sinalizaram para muitos que a nova configuração
das relações de força seria multipolar, na qual teriam papel preponderante a
ONU e o direito internacional. A França tanto acreditou nessa multipolaridade
que liderou no Conselho de Segurança das Nações Unidas uma oposição feroz
à guerra contra o Iraque, como se fosse um jogo de soma-zero, certa de que os
EUA não dispensariam o respaldo da decisão multilateral para invadir o território
iraquiano. Ao tentar impor limites à ação americana, Paris deixou como
alternativa à ação unilateral a capitulação de Washington em face do veto
francês (e, provavelmente, também do veto russo). Mas o tiro saiu pela
culatra. A configuração das relações de força que sucedeu à bipolaridade não
é multipolar – é unipolar. Essa nova realidade de poder revelou as limitações
do Conselho de Segurança na administração da paz e da segurança
internacionais, ao afrontar os Estados Unidos na sua decisão de atacar o
Iraque. É claro que esse desfecho poderia ser evitado, se a França e seus
aliados considerassem nos seus cálculos a dificuldade de impor limites a uma
superpotência num contexto de relações de força que é unipolar, dada sua
supremacia inconteste, principalmente tecnológica e militar.
Em tais relações de força, os
Estados Unidos estão garantidos pela impunidade bélica, porque não existe um
contraponto militar capaz de lhes impor custos insustentáveis para sua segurança.
Beneficiados por essa impunidade, podem não ser um império, mas comportam-se
como tal, quando necessário.
[i]
George F.
Will, “O despropósito das Nações Unidas”, in O
Estado de São Paulo, 16/03/2003, p. A2.
[ii]
Discurso do
ministro das Relações Exteriores da França, Dominique de Villepin, na
Comissão de Direitos Humanos da ONU (Genebra), em 24 de março de 2003 (O Estado de São Paulo, 25/03/2003, p. A 18).
[iii] Condoleezza Rice, “Promovendo os interesses nacionais,” in Política Externa, São Paulo, Paz e Terra – USP, 10 (1), jun-jul-ago 2001, p. 85.
[iv] Ações militares unilaterais dos EUA, a partir da Guerra Hipano-Americana (1898): Filipinas (1901), Panamá (1903 e 1989), Cuba (1906, 1912, 1913, 1917 e 1933), Nicarágua (1912 e 1914-33), Haiti (1915 e 1934), México (1915), República Dominicana (1916-24 e 1965), Rússia (1918), Vietnã (1965-73), Granada (1983-85), Bósnia (1995), Kosovo (1999) e Afeganistão (2001).
[v] Luciano Martins, “Ordem internacional, interdependência assimétrica e recursos de poder”, Rio de Janeiro, Instituto Nacional de Altos Estudos, 1992, mimeo.
[vi] Paulo Nogueira Batista, “Nova ordem ou desordem internacional”, in Política Externa, São Paulo, Paz e Terra – USP, 1(1), jun 1992, p. 35.
[vii]
Zbigniew
Brzezinski, “Acordos globais seletivos”, in
Política Externa, São Paulo, Paz e Terra – USP, 1(1), jun 1992, pp.
55-56.
[viii] Luciano Martins, “A nova ordem internacional e o Brasil”, in Política Externa, São Paulo, Paz e Terra – USP, 1(3), dez-jan-fev 1992/1993, pp. 173-174.
[ix]
Robert Kagan,
“EUA: um recuo do poder?”, in Política
Externa, São Paulo, Paz e Terra – USP, 4(2), set-out-nov 1995, p.
138.
[x]
Geraldo
Lesbat Cavagnari Filho, “Notas sobre estratégia e o emprego futuro da força”,
in Braz Araujo(coord.), Estratégia no
novo cenário mundial, v.5, São Paulo, Naippe/USP, 1996, p. 277.
[xi] O meio que concorreu efetivamente para o bloqueio às águas quentes foi a Marinha americana. Durante toda a Guerra Fria, os EUA mantiveram (como ainda mantêm) superioridade naval e sustentaram (como ainda sustentam) sua presença em todos os oceanos e na maioria dos mares. A Marinha soviética tanto manteve-se em inferioridade como não teve presença de tal magnitude. Se a União Soviética capturasse as periferias da massa continental eurasiana (Europa Ocidental, Extremo Oriente e Sul da Ásia) ela não ganharia apenas enormes recursos humanos, econômicos e militares, mas também o acesso a passagens geoestratégicas ao Atlântico, Pacífico e Índico.
[xii] Pontos de estrangulamento: Dardanelos e Bósforo, entre o Mar Negro e o Mediterrâneo; os estreitos de Kattegat e Skagesrak, que ligam o Báltico ao Mar do Norte; e a passagem entre a Noruega e Spitsbergen.
[xiii]
Robert Kagan, op. cit., p. 143.
[xiv]
Condoleezza Rice, op. cit., pp. 85 a 91 e Robert Kagan, op. cit., pp. 138
a 149.
[xv] John Lewis Gaddis “ E essa agora: lição antiga era para a próxima”, in Strobe Talbott e Nayari Chanda (orgs.), A era do terror, Rio de Janeiro, Editora Campus, 2002, p. 26.
[xvi] Idem, ibidem, p. 25.
[xvii] Entrevista concedida por Michael Clarke à Carta Capital, “O mundo não está em guerra”, 19 de setembro de 2001, pp. 37-38.
[xviii]
Declaração
atribuída a Donald Rumsfeld, secretário de Defesa dos EUA.
[xix] Condoleezza Rice, “Consciência de vulnerabilidade inspirou doutrina”, in Política Externa, São Paulo, Paz e Terra – USP, 11(3), dez-jan-fev 2002/2003, pp. 63.
[xx] Condoleezza Rice, “Promovendo os interesses nacionais”, cit., p. 83.
[xxi]
Idem,
“Consciência de vulnerabilidade inspirou doutrina”, cit., p. 65.
[xxii] George W. Bush, “A estratégia de segurança nacional dos EUA”, in Política Externa, São Paulo, Paz e Terra – USP, 11(3), dez-jan-fev 2002/2003, p. 109.
[xxiii]
Condoleezza
Rice, “Consciência de vulnerabilidade inspirou doutrina”, cit., p.65.
[xxiv]
Antonio Luiz M. C. Costa, “A nova
desordem”, in Carta Capital, São
Paulo, 19/02/2003, p. 41.
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Artigo originalmente publicado em Política Externa, 12(1),
jun-jul-ago 2003.
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Fundador e membro do Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp e professor
convidado do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP.