O GRANDE IMPÉRIO DELINQÜENTE E A CAÇA AO TERRORISTA

Abstract: Os dispositivos jurídicos internacionais contra o terrorismo pretendem puni-lo sem defini-lo. Este insólito paradoxo não decorre de enigmas ou aporias conceituais. Até os manuais do Pentágono são capazes de definir o termo: utilização calculada, para fins políticos ou religiosos, da violência, da coerção ou do medo. Esta definição, porém, tem o inconveniente, apontado por Chomski, de se aplicar muito exatamente à chamada guerra de baixa intensidade, inventada e praticada em larga e mortífera escala pelos Estados Unidos.  Tanto assim que, em dezembro de 1987, quando a Assembléia Geral da ONU aprovou uma resolução contra o terrorismo, só dois países votaram contra, os Estados Unidos e Israel. É que, então aliados da África do Sul racista, incomodava-os o parágrafo da resolução que reconhecia o direito dos povos de lutarem contra um regime colonialista ou contra uma ocupação militar. Excluir da definição o terrorismo de Estado, bem como  aqueles que Reagan e asseclas chamavam guerrilheiros da liberdade, portanto bons terroristas, para criminalizar exclusivamente os maus terroristas, hostis aos interesses estadunidenses e de seus sócios, tal é o problema jurídico-politológico com que se defronta a cruzada imperialista de caça ao (mau) terrorista.

 

Porque é tão difícil definir o terrorismo?

 

O capitalismo dos monopólios, da intoxicação mediática e dos bombardeios cirúrgicos em defesa da democracia e outros fins humanitários, fabrica idéias com a mesma eficiência com que fabrica mísseis. A técnica de fabricação de idéias (por meio de palavras ou de símbolos gráficos que funcionam como palavras) é um ramo da mercadologia, arte de induzir a comprar. Abrange ampla gama de produtos, desde as ocas sonoridades das marcas vendidas nos supermercados até os epítetos que criminalizam os inimigos. A vasta literatura consagrada à crítica da “indústria cultural” deslindou exaustivamente a perversidade da intoxicação mercadológica. Com poucas exceções, a expressão “publicidade enganosa” não passa de pleonasmo: enganar faz parte da arte marqueteira. A politologia liberal adotou não somente os métodos, mas o próprio objeto da mercadologia. Mais precisamente, inseriu seu objeto próprio, o “mercado político”, nesta disciplina mais ampla. Nas feiras eleitorais, o “mercado político” vende candidatos a cargos públicos. Mas sua atividade constante, exercida 24 horas por dia, consiste em vender idéias através dos meios privados de comunicação social. É sobre esta segunda modalidade de comércio político que incidem as presentes considerações.

 

A luta política não se reduz, evidentemente, à dimensão mercadológica. Do mesmo modo que o valor de uso das mercadorias pode satisfazer uma necessidade real de quem as adquire ou apenas um desejo supérfluo ou ilusório, uma idéia política pode ou não corresponder ao interesse efetivo de quem a “compra”. A publicidade pode induzir alguém a comprar um produto necessário de tal ou tal marca, mas se o produto for realmente necessário, será comprado (por quem puder pagá-lo) com ou sem publicidade.   

 

Determinar um interesse político exige análise e discussão. Objetivo tão estranho à arte marqueteira quanto, para vender um cosmético, proporcionar ao comprador um estudo bioquímico e botânico do produto. No mercado político, a força persuasiva de uma idéia está na razão inversa de sua densidade conceitual. Para ser politicamente eficiente, ela deve significar pouco e impressionar muito, quer se trate de uma idéia vendida como positiva ou como negativa. Após terem vendido com sucesso a idéia “positiva” da globalização, os imperialistas colocaram no mercado político a idéia negativa do terrorismo, explicando, em síntese, que a soma algébrica destas duas idéias torna necessárias as “guerras preventivas”: num “mundo globalizado” (ou num globo mundializado: a ordem dos fatores não altera o produto), é preciso aniquilar todos os países que abrigam terroristas.

 

Em artigo consagrado à análise das prováveis conseqüências dos atentados de 11 de setembro de 2001[1], apoiei-me num comentário assinado por John Brown (provavelmente um pseudônimo, mas o autor, seja quem for, é sem dúvida um jurista profissional),  difundido na Internet pela lista ATTAC, dos dois únicos dispositivos legais internacionais contra o terrorismo, a convenção para a repressão de atentados com explosivos (adotada em Nova Iorque a 15 dezembro de 1997) e do financiamento de atividades terroristas (adotada também em Nova Iorque, em 9 de dezembro de 1999)[2]. Eles apresentam a extraordinária peculiaridade de não oferecer

 

uma definição direta da palavra «terrorismo», a qual, no entanto, figura como adjetivo ou como substantivo no título [...]. Parece, pois existir uma certa reticência em definir um termo que, no entanto, deveria ser fundamental nestes textos legislativos, já que figura em seus títulos e se tornou retroativamente a chave de uma nova doutrina jurídica. Como diz a exposição de motivos[3][...] : “Segundo a convenção contra o financiamento do terrorismo, o fato de fornecer ou de coletar fundos, direta ou indiretamente, ilícita e intencionalmente, para utilizá-los, ou sabendo que eles serão utilizados para cometer um ato que se inscreva no campo de aplicação das convenções supra-referidas[4] [...], constitui uma infração. Isto significa que, embora os termos terrorismo e atos terroristas não apareçam na maioria destas convenções, elas concernem às infrações terroristas”. Não podemos aceitar este parecer. Há uma enorme distância entre a definição de atos concretos que o legislador considera unificáveis e a formulação de uma categoria jurídica geral como a de «terrorismo», que recobre estes atos e muitos outros[...]. Esta distância é perfeitamente visível na diferença de finalidade dos textos que definem atos e aqueles que pretendem definir o terrorismo. A finalidade dos primeiros é [...] apoiar a cooperação internacional na luta contra certos atos de violência particularmente perigosos ou odiosos. Para tanto, cumpria distingui-los dos atos políticos, recusando reconhecer-lhes qualquer caráter político, para incluí-las na esfera do direito comum.

 

Em síntese, para criminalizar indiscriminadamente os atos visados pela nova legislação, impedindo que a motivação política possa servir de atenuante ou conferir aos acusados o estatuto de prisioneiros políticos[5], suprimiram o único elemento que distingue os atos terroristas dos de direito comum, a saber, a finalidade política dos atos incriminados. Isto os colocou diante de uma questão jurídica insólita: punir o financiamento do terrorismo sem definir terrorismo. A necessidade prática de ultrapassar este impasse doutrinário conduziu a tentativas indiretas de definição, como a que figura no artigo 2º,1,b, da convenção que pune o financiamento de atividades terroristas:


«Todo[...]ato destinado a causar a morte ou lesões  corporais graves a qualquer pessoa civil, ou a qualquer outra pessoa que não participa diretamente das hostilidades numa situação de conflito armado, quando, por sua natureza ou seu contexto, este ato destina-se a intimidar uma população ou a constranger um governo ou uma organização internacional a efetuar ou a abster-se de efetuar um ato qualquer».

 

John Brown, comentando este texto, observa que ele justapõe duas concepções distintas, quiçá contraditórias : uma, que põe em relevo os prejuízos causados à população civil, se situa na linha dos princípios do tribunal de Nurembergue; outra, cuja mais clara expressão está no « Terrorism Act » do reino britânico, e que inspirou a proposta apresentada ao Conselho da União Européia,  centra o foco na subversão da ordem política, anulando as diferenças entre, de um lado, ações armadas de movimentos de libertação nacional e em geral de resistência à ocupação estrangeira, bem como os ligados à luta pela terra e demais direitos sociais dos oprimidos e, de outro, os atentados de estilo nazi-fascista contra trabalhadores estrangeiros, minorias discriminadas etc. Estimula-se assim a prática, já consagrada pelos “comunicadores” da televisão e da grande imprensa, sempre prontos a abanar a cauda à voz do dono, de tratar de terroristas todos os ”subversivos”. Bastou Bush filho rosnar que as FARC são terroristas para que a sempre obediente Organização dos Estados Americanos (OEA) concordasse. A mesma classificação recebem ataques do Hamas a postos militares israelenses em território palestino ocupado, mas não as tropas de choque sionistas que atiram com balas de borracha nos olhos dos meninos palestinos, para cegá-los sem matá-los, ou quebram-lhes as mãos com marretadas, para que nunca mais lancem pedras nos ocupantes[6].

 

Maus e bons terroristas

 

Em conferência realizada no Massachusetts Institute of Technology de Boston (MIT), no dia 18 de outubro de 2001, Noam Chomski propôs uma explicação da dificuldade para definir o terrorismo:

 

Nos manuais militares norte-americanos, define-se como terror a utilização calculada, para fins políticos ou religiosos, da violência, da ameaça de violência, da intimidação, da coerção ou do medo. O problema de tal definição é o fato de se aplicar muito exatamente ao que os Estados Unidos chamaram de guerra de baixa intensidade, reivindicando esse gênero de prática.  Aliás, em dezembro de 1987, quando a Assembléia Geral da ONU aprovou uma resolução contra o terrorismo, um país se absteve de votar, Honduras, e dois outros votaram contra, os Estados Unidos e Israel. Por que fizeram isso? Por causa de um parágrafo da resolução que indicava que não se tratava de questionar o direito dos povos de lutarem contra um regime colonialista ou contra uma ocupação militar. Ora, na época, a África do Sul era aliada dos Estados Unidos. Além dos ataques contra seus vizinhos (Namíbia, Angola etc), que provocaram a morte de centenas de milhares de pessoas e   destruições avaliadas em US$ 60 bilhões, o regime racista de Pretória enfrentava, dentro do país, uma força classificada de "terrorista", o Congresso Nacional Africano (CNA). Quanto a Israel, ocupava ilegalmente territórios palestinos desde 1967, outros no Líbano desde 1978, guerreando, no sul desse país, contra uma força classificada por ele e pelos Estados Unidos de "terrorista", o Hezbollah.

 

É muito simples, com efeito, o princípio de classificação em vigor no léxico do rebanho mediático: “Para que as análises e os artigos de imprensa sejam considerados respeitáveis, é melhor, realmente, que se situem do lado bom, ou seja, o dos braços melhor armados”[7]. Hezbollah, que travou longa, heróica e vitoriosa guerra de guerrilhas contra a criminosa ocupação israelense do Líbano, é sistematicamente classificada de terrorista pelos “comunicadores” adestrados para só latir quando e como os donos mandam, não obstante o epíteto que caber mil vezes mais ao Estado sionista, que tortura impunemente militantes palestinos[8] e tem sido governado, a maior parte do tempo, por catedráticos do terrorismo, como Begin e Sha­mir, este responsável, junta­mente com Ariel Sha­ron, então chefe do es­tado-maior do exército israelense que havia in­vadido e ocupava o Lí­bano, de parceria com as milícias fascistas do degenerado major Had­dad, pelos atrozes pogroms nas aldeias palestinas de Sabra e Chatila.

 

 

Evidentemente, os meios dirigentes estadunidenses e sócios menores do Grande Império Delinqüente, desde o dia 11 de setembro de 2001 empenhados na cruzada contra o terrorismo, não poderiam levar o descaramento que lhes é próprio a ponto de confessar publicamente que só caracterizam como terroristas aqueles que praticam atos hostis de terrorismo.  Dizem isso, entretanto, indiretamente, ao despejar seu imenso arsenal de armas de destruição maciça contra o que chamam o “Eixo do Mal”: os maus terroristas, que devem ser exterminados, são apenas os que estão do lado do pretenso Eixo. Os outros são bons terroristas, portanto merecem um epíteto mais gentil. Deles não prescindiu Ronald Reagan, o torpe canastrão de Holywood que tinha matado muitos índios na tela e, fora dela, iniciado sua carreira política alcagüetando os colegas de profissão suspeitos de “comunismo”. O senil ex-“cow-boy” justificava o financiamento e equipamento que concedia aos talibãs e outros movimentos armados dos muçulmanos afegãos em luta contra seus compatriotas comunistas e os soviéticos que os sustentavam, explicando reiteradamente que eles “não eram terroristas, e sim guerrilheiros da liberdade”[9].  Explicação semelhante à de que se serviu para incumbir um bando de matadores profissionais, conhecidos como “contras”, de desestabilizar a Nicarágua sandinista, pagando-lhes o soldo com o lucro proveniente do tráfico de entorpecentes.

 

As elogiosas referências aos talebãs e outros companheiros do então desconhecido Bin Laden, duraram até que este, tendo compreendido, anos mais tarde, que o Pentágono pretendia manter “sine die” a ocupação militar da Arábia Saudita, terra para ele sagrada, e, em conluio com o terrorismo de Estado israelense, perpetuar a servidão do povo palestino, rompeu com seus antigos protetores, passando a usar contra eles as técnicas que tinha aprendido na escola da CIA. Foi então rebaixado de guerrilheiro da liberdade (isto é, bom terrorista), para  terrorista (isto é, mau terrorista).

 

O sombrio episódio da Nicarágua foi muito pertinentemente evocado por Chomski, na mesma conferência:

 

Nos meios dirigentes ocidentais, a guerra contra o terrorismo foi apresentada como se fosse uma "luta dirigida contra um câncer disseminado por bárbaros". Mas essas palavras e essa prioridade não são de hoje. Há 20 anos, o presidente Ronald Reagan e seu secretário de Estado, Alexander Haig, já as enunciavam. E, para conduzir esse combate contra os adversários depravados da civilização, o governo norte-americano instalou, então, uma rede terrorista internacional de amplitude sem precedentes. Praticaram-se inúmeras atrocidades de uma ponta à outra do planeta, e essa rede dedicou o essencial de seus esforços à América Latina. 
Um caso, o da Nicarágua, não deixa margem à dúvida: realmente, foi decidido de modo categórico pelo Tribunal Penal Internacional de Haia e pela ONU. Perguntem a vocês mesmos quantas vezes esse precedente indiscutível de uma ação terrorista, à qual um Estado de direito quis responder através dos meios do direito, foi evocado pelos principais comentaristas.  E, no entanto, tratava-se de um precedente ainda mais radical do que os atentados de 11 de setembro: a guerra do governo Reagan contra a Nicarágua provocou 57 mil vítimas, entre as quais 29 mil mortos, e a ruína de um país, talvez de forma irreversível.

Na época, a Nicarágua reagiu. Não explodiu bombas em Washington; recorreu ao Tribunal Penal Internacional. Este, no dia 27 de junho de 1986, decidiu categoricamente a favor das autoridades de Manágua, condenando o "uso ilegal da força" pelos Estados Unidos (que haviam minado os portos de Nicarágua) e determinando que Washington pusesse fim ao crime, sem esquecer de pagar vultuosas perdas e danos. Os Estados Unidos replicaram que não acatariam a sentença e que passariam a não reconhecer a jurisdição do Tribunal. A Nicarágua pediu então ao Conselho de Segurança da ONU a aprovação de uma resolução exigindo que todos os países respeitassem o direito internacional. [...]. Os Estados Unidos votaram contra a resolução. Portanto, hoje, são o único país que, simultaneamente, foi condenado pelo Tribunal Internacional de Justiça e se opôs a uma resolução exigindo o respeito ao direito internacional. Depois, a Nicarágua dirigiu-se à Assembléia Geral da ONU. A resolução que propusera teve três votos contra: dos Estados Unidos, de Israel e de El Salvador. No ano seguinte, a Nicarágua reivindicou a votação da mesma resolução. Desta vez, só Israel defendeu a causa do governo Reagan. A essa altura, a Nicarágua não dispunha de mais nenhum meio legal. Todos haviam fracassado em um mundo regido pela força.

 

Choque e pavor

 

Na semântica dos covardões do Pentágono e da matilha de “poodles” que lhes lambe as botas (aliás “aliados” ou “coligados”, como dizem seus estafetas mediáticos), pavor (awe, em anglo-americano) é um termo oposto a terror. Intitularam, com o estupendo descaramento que lhes é próprio, “Choque e pavor” o novo massacre pirotécnico do Iraque desencadeado a 22 de março de 2003. Não faltaram sequer enfáticas explicitações deste atropelo léxico. Assim, o sr. Paul Wolfowitz, vice-secretário de Defesa do Grande império delinqüente, publicou, algumas semanas antes da invasão do Iraque, um artigo do qual basta referir o título: “Esta guerra é contra o terror em massa”[10]. Basta um mínimo de honestidade para saber que foi “esta guerra” que recorreu ao terror em massa. Ou, se preferirem, ao pavor em massa. Já desencadeada a invasão, o politólogo Harlan Ullman, lançou o artigo “Choque, pavor e euforia”, composto num registro em que predomina a hipocrisia (em vez de baba de rotweiller hidrofóbico, como no de Wolfowitz). Louvando o caráter cada vez mais filantrópico dos bombardeios cirúrgicos e reiterando que “o objetivo é depor o presidente e tirar dele suas armas de destruição em massa” (se estivesse dizendo a verdade, então teríamos de concluir que o massacre balístico de março-abril 2003 fracassou em 50%, já que as únicas armas de destruição em massa encontradas no Iraque foram aquelas lançadas pelos chefes da quadrilha internacional do crime político organizado, Bush filho e Blair, seu afetuosíssimo e muito íntimo acompanhante), o estrategista sicofanta enfatiza que

 

 

a tecnologia e a filosofia usadas para esta guerra são distintas. O número de armas de precisão disponíveis é dez vezes maior do que as que havia na Guerra do Golfo, em 91. E a filosofia  por trás da escolha de alvos é outra. A destruição ao atacado foi substituída por ataques seletivos (mas mesmo assim, intensos) contra pontos vitais do território iraquiano. Conforme anunciou o Pentágono, a estratégia dos EUA é conhecida como “choque e pavor”.[...] o método é [...] semelhante ao caratê: a aplicação de níveis intensos e decisivos de força no grau mínimo possível para alcançar o efeito máximo[11]. 

 

Como se diz em jargão burocrático, o texto de Ullman é auto-explicativo. Certamente, por ocasião do genocídio nuclear de Hiroshima e Nagasaki, houve calhordas do mesmo naipe dispostos a enaltecer a “filosofia” do “caratê” atômico. Durante quatro décadas, do início da guerra fria, mais precisamente, desde que a União Soviética conseguiu também produzir armas nucleares, até o final dos anos oitenta, o confronto estratégico que a opôs aos Estados Unidos foi pertinentemente caracterizado como equilíbrio do terror nuclear: estava em questão a própria sobrevivência de humanidade. O risco é proporcional aos meios de destruição disponíveis e ao medo da represália. Rompido a favor do bloco capitalista, com o colapso e desmantelamento do bloco soviético, o equilíbrio estratégico EUA/URSS, os covardões da Casa Branca e do Pentágono desfrutaram a fundo da sensação de impunidade que lhes proporcionava aquela feliz circunstância, desencadeando um novo surto de agressões coloniais. Sem mesmo esperar que Boris Ieltsin enterrasse no fétido lodaçal do neoliberalismo os restos mortais da grande revolução de outubro 1917, invadiram o Panamá com mortíferos bombardeios sobre a população civil, para, logo depois, despejarem sobre o Iraque um dilúvio de bombas, numa das mais atrozes operações genocidas desde a guerra do Vietnã. Os massacres balísticos da Sérvia[12] do Afeganistão e, novamente, do Iraque, sugerem que há hoje poucos países da periferia a salvo da bestialidade estadunidense.

 

Há, inegavelmente, uma diferença de grau entre o terrorismo de Estado de Bush filho e o de seus predecessores. Mas exagerar esta diferença serve apenas para mascarar o nexo de fundo entre imperialismo e guerra.  O componente doentio da personalidade do presidente dos Estados Unidos fica evidente na fixidade alvar, típica dos tresloucados, que paira em sua expressão facial. Mas não convém superestimar o aspecto psicopatológico de sua obstinação anti-iraquiana. Em dezembro de 1998, Clinton, seu predecessor, que não era louco, mandou bombardear Bagdá com violência sem precedentes desde 1991. Precisava distrair a opinião pública estadunidense do processo de "impeachment" que então lhe era movido por transgressões lingüístico-sexuais, mas, evidentemente, se usou a pele dos iraquianos para fugir da sanha dos alcoviteiros mediáticos, foi porque o aniquilamento de Saddam Hussein se inscrevia perfeitamente na lógica do belicismo imperialista. 

 

Em 1991, na primeira edição (revista, corrigida e ampliada em 2003 por Bush filho) do espetáculo de som e fúria que iluminou com os clarões da morte as noites de Bagdá, Bássora e outros alvos da bestialidade imperialista, Bush pai declarou reiterada e inequivocamente que pretendia aterrorizar os iraquianos para minar-lhes a vontade de resistir. Outro não foi o objetivo de Clinton e de seus sócios da OTAN, em 1999, ao demolirem a Sérvia, sob os mais cínicos pretextos “humanitários”, com uma tempestade de mísseis. Utilizaram, de maneira sistemáti­ca, o método inau­gurado pelos nazistas durante a guerra civil espanhola, tri­turando por via aérea a indefesa aldeia de Guernica, para quebrar a moral da po­pulação apavorada. A tortura é hedionda, mas eficaz. O povo sérvio reagiu com coragem e dignidade às primeiras vagas de bombardeios arrasadores. Formou até muralhas humanas para impedir a destruição das pontes sobre o Danúbio. Mas novas sessões de bombardeio (de “pau-de-arara” coletivo) foram quebrando a resistência dos menos decididos. Mais os cadáveres e escombros se ampliavam, mais o pavor e o desespero abriam brechas na coragem dos sérvios[13]. Pouco a pouco, compreensivelmente, o número de voluntários para os “escudos” foi diminuindo. As garras da harpia Madeleine Albright (a mesma que declarou considerar o genocídio de cerca de 500.000 crianças iraquianas como um “justo preço” para mostrar a Saddam Hussein quem manda no mundo e acusou os palestinos de "mover um cerco a Israel") garantiam morte certa para quem se atrevesse a defender com seus próprios corpos os alvos prováveis da grande expedição punitiva.

 

Em eloqüente expressão da degenerescência ético-política do trabalhismo inglês, Mister Blair justificou, naquela ocasião, os bombardeios da Radiotelevisão da Sérvia (Radiotelevizija Srbije, RTS), notadamente o de 23 de abril de 1999, que matou dezesseis trabalhadores, com o notabilíssimo argumento de que a TV sérvia fazia propaganda do governo iugoslavo. Só Goebbels tinha ido tão longe no descaramento. A ralé mediática (seleção pelo avesso do jornalismo inteligente, criativo e honrado), que estava derramando copiosas lágrimas de crocodilo diante do drama dos kosovares, esqueceu até seu forte reflexo corporatista, ao noticiar sem a menor indignação a destruição das emissoras sérvias e a morte dos colegas que estavam do lado errado da linha de tiro.

 

Elucida-se destarte mais um aspecto da oposição semântica terror/pavor no vocabulário do Pentágono. Por mais contundentes que sejam os golpes de varejistas do terror, como Bin Laden, eles só pode atacar de surpresa, portanto esporadicamente. Agindo na sombra da clandestinidade, não podem se dar ao luxo de destruir países inteiros, mesmo porque os meios à disposição dos atacantes suicidas esgotam-se com a própria vida. Quanto eles têm êxito, arrastam para o abismo da morte algumas ou até muitíssimas vítimas. Matam inocentes, mas ao menos não têm o cinismo daqueles criminosos engravatados que chamam de “efeitos colaterais” o trucidamento da população civil dos países sobre os quais se abate o terrorismo no atacado (o bom terrorismo ou  pavor). A escala de vidas humanas que destroem não se compara, com efeito, às operações de aniquilamento de que se incumbiu o Pentágono, de Hiroshima e Nagasaki, à Coréia, Vietnã etc., até as mais recentes em Bassora e Bagdá, Belgrado, Cabul, e novamente Bassora e Bagdá. Em sua multiforme pirotecnia (bomba atômica, napalm, desfolhantes, “corta-margaridas”, urânio “empobrecido”, bombas de fragmentação e mísseis lançados em cadência infernal), a panóplia do pesadelo americano conferiu máxima pujança ao terrorismo no atacado do Estado imperial, que golpeia quem, quando e quanto quer (suas vítimas se contam por milhões). Quantas “vocações” terroristas não há de ter suscitado o método ianque de combater o terrorismo, respondendo com massacres balísticos a atentados clandestinos. 

 

A mentira em escala industrial

Mesmo os meios políticos árabes mais enfeudados ao Grande império delinqüente protestam contra as “informações” da CNN sobre o Médio Oriente, especialmente por  reservarem a palavra “terrorista” para referir-se a árabes e islâmicos. O colono israelense que assassinou 29 palestinos numa mesquita de Hebron em 1994 foi sempre qualificado de "extremista" pelos “comunicadores” do dólar. Os protestos contra os assentamentos ilegais construídos por judeus em terra palestina são apresentados como "conflitos de patrimônio". A edulcoração da brutalidade israelense se completa por relatos distorcidos sobre a "violência palestina". Sócia mais discreta e menos assumidamente facciosa do que a grande rede estadunidense, a BBC não deixa, porém de contribuir para a mistificação terminológica: ordenou a seus repórteres utilizar a expressão "mortes seletivas" para o assassinato de palestinos por Israel.

Outro aspecto característico da mistificação mediática planejada é apagar, tanto quanto possível, a história dos crimes e espoliações sionistas. Centenas de aldeias e outras localidades que levavam nomes árabe-palestinos desde tempos imemoriais, foram atingidas pelo genocídio onomástico sionista. Boa parte da área em que os israelitas construíram Gilo foi arrebatada aos palestinos de Beit Jala (Gilo á o termo hebraico correspondente a Jala). Mas os “comunicadores” da CNN estão proibidos de mencionar este fato. Os escritórios centrais da CNN em Atlanta são, ao menos, sinceros: "Vamos nos referir a Gilo como um bairro judeu no subúrbio de Jerusalém, construído sobre terras ocupadas por Israel em 1967. Não o qualificaremos de assentamento".

Da intoxicação mediática sequer escapou, infelizmente, o jornal de nossa Universidade. Num caderno temático consagrado ao “Bioterrorismo”[14], o jornalista Carlos Tidei anuncia, logo nas primeiras linhas do artigo expressivamente intitulado “Ébola, varíola, antraz: o horror invisível”:

Um único membro do Taleban contaminado  por varíola, andando no metrô de Nova York, pode causar a morte de centenas de milhares de pessoas em poucas semanas [...]. “Eles são bem capazes de contaminar algum suicida com esse intuito”, alerta a infectologista Maria Luiza Moretti Branchini. A ameaça de uso de armas biológicas tornou-se mais real depois dos recentes atentados com correspondências contendo antraz nos EUA. Do possível arsenal a ser usado por terroristas fazem parte, além da varíola e do Bacillus anthracis, o vírus Ébola e a tularemia, entre outros.

A sra. Moretti Branchini, que estuda as infecções do corpo, bem que poderia vacinar-se contra as da mente e o sr. Tidei, ao anunciar, desmentindo antecipadamente os inspetores da ONU e dando razão aos celerados da Casa Branca e do Pentágono,  que “pelo menos 12 países possuem comprovadamente armas biológicas, entre eles o Iraque, que sintetizou o Bacillus anthracis”, só esqueceu de comunicar a fonte de onde extraíra suas belicosas afirmações. O inspetor-chefe Blix, nesta ótica, seria um agente de Saddam Hussein... 

Passaporte para o terrorismo

Em “O joio e o trigo”, artigo difundido pela Internet[15], Claudio Tognolli assim sintetizou o risco que correm aqueles que, como ele próprio, persistem em fazer, contra a corrente, jornalismo sério e fundamentadamente crítico:

Escreva uma matéria sobre o que os EUA e a CIA aprontaram por aí: faça um box sobre o assassinato de Jacobo Arbenz na Guatemala dos anos 50, sobre Kissinger estar sendo acusado de crimes contra a humanidade (Chile, 1973) pelo juiz espanhol Baltazar Garzon. Sobre os trabalhos na brazilianista Martha Huggins acerca do papel da CIA no movimento de 64, no Brasil; sobre a mentira deslavada (denunciada pelo Daily Telegraph) que foi invadir o Kosovo em abril de 99 para contornar uma "limpeza étnica (o site <www.stratfor.com>, da Universidade de Louisiana, sustenta com documentos do FBI que foram encontrados ali menos de 100 corpos, contra os 10 mil alegados por Bill Clinton); fale do Plano Colômbia, segunda prioridade de Bush depois da guerra contra o Iraque; conte que a CIA depôs em agosto de 1953 o primeiro-ministro iraniano Mohamed Mossadegh para pôr em seu lugar o Xá Reza Pahlevi; fale do papel de George Bush pai no escândalo Irã-Contras, em 1986. Você não estará informando, dirão. Será tachado de "pró-terrorista". Este será o seu passaporte para o mundo de Laden.

Chomsky, no mesmo sentido, declarou ao jornalista John Horgan, editor-chefe da Scientific American: "Os EUA são uma superpotência terrorista e a mídia é o seu agente publicitário. Se o The New York Times começasse a resenhar os livros que escrevo sobre política, isso seria sinal de que eu estou fazendo algo de errado"[16]. Tognolli, que refere esta declaração, acrescenta que segundo Veja ou New York Times, quaisquer críticas aos EUA brotariam da inveja suscitada pela “opulência da maior nação democrática do mundo”. Esta idéia profundinha está exposta com todas as letras na peçonhenta revista do plutocrata Civita: 

"Os americanos são ainda odiados por um motivo mais prosaico: porque há décadas vivem uma era de prosperidade sem igual na história humana. Num planeta em que 45% das pessoas subsistem com menos de 2 dólares por dia, os americanos são os beneficiários de uma opulência que agride os brios dos países retardatários. Além disso, os Estados Unidos têm valores, como a democracia e a liberdade absoluta de manifestação de idéias e crenças, que chocam todos aqueles que aprovam regimes totalitários, entre eles os radicais islâmicos. Os EUA, como país, resultaram da convivência das diferenças. O individualismo de seu povo é uma característica cujos resultados são assombrosamente positivos. Isso produz ressentimento".[17]

Tenham ou não haurido de Nietzsche esta denúncia do ressentimento, os turiferários do truste Abril apenas projetam seus valores vulgares e sua indigência político-cultural. Mas podem ficar tranqüilos: nenhum anti-imperialista sério almeja ser hospedado no ridículo Castelo de Caras, a revista dos cafonas endinheirados e dos basbaques que os admiram.

 

João Quartim de Moraes

 



[1] “Império, guerra e terror”, Crítica Marxista 14 (2002), pp. 9-25.

[2] Traduzimos do francês as passagens deste comentário aqui citadas. Foram divulgadas em Courriel d'information attac, n°288, 4/12/2001. O comentário faz parte do documento “A definição do terrorismo : uma inovação ou o retorno de um passado obscuro?”, que pode ser encontrada em http://attac.org/fra/list/doc/brown2.htm. Retomamos aqui passagens já citadas no artigo “Império, guerra e terror”.

[3] Trata-se da exposição de motivos da proposta de Décision-cadre (decisão visando a enquadrar juridicamente todos os atos de terrorismo), que tinha sido apresentada ao Conselho da União Européia.

[4] O texto alude nesta passagem ao conjunto da legislação existente, inclusive aos dispositivos que sequer mencionam o termo terrorismo, como os autores da exposição de motivos assinalam explicitamente na seqüência do texto.

[5] Assim, segundo o artigo 6º do Convênio sobre a repressão ao financiamento do terrorismo, «cada Estado participante adota as medidas que forem necessárias [...] para garantir que os atos criminosos (a que ela se refere) não possam em nenhuma circunstância ser justificados por considerações de natureza política, filosófica, ideológica, racial, étnica, religiosa ou outros motivos análogos».

[6] Passagem retomada, com ligeiras modificações, do artigo “Império, guerra e terror”, loc.cit., p. 25.

[7] Noam Chomski, conferência no MIT referida no corpo do texto.

[8] Como os agentes da repressão britânica na Irlanda do Norte, que torturam militantes do IRA; sobre o caráter sistemático da tortura de palestinos em Israel, ver "ONU exige que Israel pare com tortura", de Serge Schmemman, publicado em The New York Times  e reproduzido em O Estado de São Paulo de 13 de maio de 1997.

[9] Corroborando tais declarações, o enlatado “Rambo III” (que pode ser encontrado nas vídeo-locadoras) mostra este outro herói das telas prestando aos então amigos talibãs a ajuda decisiva de seus braços espessos e de sua inteligência de ostra.

[10] Cf. Folha de São Paulo de 2-2-2003.

[11] O artigo foi publicado em Folha de São Paulo de 25-3-2003.

[12] Quanto mais destrutivos se tornavam os bombardeios da OTAN sobre a Sérvia, em aberta violação da Carta da ONU, maior era o empenho dos agressores em imputar ao governo sérvio atrocidades que contrabalançassem as que eles próprios estavam cometendo: mísseis mortíferos em escolas, hospitais, embaixadas, pontes, instalações elétricas etc. O massacre da Sérvia pela OTAN é um fato incontestável, ao passo que os "crimes"  imputados ao presidente da Iugoslávia Slobodan Milosevic pelos rábulas a serviço da OTAN não foram provados. Parte e juiz ao mesmo tempo, o tribunal penal de Haia prostitui a idéia mesma de uma justiça internacional ao fantasiar o "direito" da força na força do direito. A OTAN utilizou até bombas de urânio “empobrecido” e de fragmentação (em Nis e em Korisa, aldeia do Kosovo, onde foram mortas, a 14 de maio,  cerca de cem pessoas) condenadas pela ONU, em resolução de agosto de 1996, como intrinsecamente criminosas. Donde  o encarniçado empenho de seus esbirros em criminalizar Milosevic, que enfrenta com dignidade e coragem a grotesca farsa judiciária a que o submetem os rábulas da OTAN.

[13] Desde o início dos bombardeios, os operários da fábrica Zastava (maior fabricante de automóveis e caminhões da Iugoslávia) dormiam no local de trabalho, formando um permanente "escudo humano". Enviaram à OTAN, via Internet,  mensagem intitulada "Esperando as bombas", em que esclareciam estar protegendo "38.000 empregos diretos e 60.000 indiretos". Em 9 de abril, a fábrica foi desintegrado por um míssil humanitário. Mais de cem foram mortos ou gravemente feridos. Cf. Folha de São Paulo de 10-4-1999.

[14] Jornal da UNICAMP, Caderno Especial I (1), dezembro de 2001, p. 3.

[15] O texto de Tognolli está em:  http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/fd050320031.htm

[16] Noam Chomski, The End Of Science, p. 189, citado por Tognolli.

[17] na capa de George W. Bush, edição 1.791, de 26 de fevereiro passado.

Mas a mensagem clássica e notarial de Veja surge nas últimas linhas do texto que abre a reportagem de capa, à página 40: