Edward Said e o imperialismo cultural*

 

Ligia Osorio Silva.

Instituto de Economia e Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp

 

É uma honra fazer parte deste ato em homenagem ao intelectual palestino-americano Edward Said, cuja obra segue sendo uma inspiração para os apoiadores da causa Palestina e os críticos do imperialismo passado e presente. Lembrar a sua inestimável contribuição ao conhecimento do Oriente Médio, sua crítica ao imperialismo cultural e sua postura de honestidade intelectual parece-nos o modo adequado de reafirmar seu lugar no pensamento crítico da atualidade malgrado uma morte prematura.

Em consonância com essa intenção parece-nos oportuno destacar alguns aspectos de duas obras que contribuíram para tornar Said mundialmente conhecido e respeitado. Orientalismo, o livro escrito em 1978 e traduzido em inúmeras línguas cujo sucesso abrangente surpreendeu o próprio autor (foi best seller na Suécia) e abriu novas perspectivas para o estudo do imperialismo e Cultura e Imperialismo (1993), que trouxe contribuições decisivas à história das relações diplomáticas entre o Oriente Médio, por um lado, e a Inglaterra, a França e os Estados Unidos, por outro.

Antes de Said, orientalismo era uma disciplina acadêmica que incluía, entre outros, os estudiosos da língua e da cultura árabe nas universidades, nos centros de pesquisas e as publicações sobre o tema. Apesar da chancela acadêmica, estes estudos fizeram muito pouco para desmontar os preconceitos existentes em relação ao seu objeto; ao contrário, perpetuaram uma imagem distorcida dos árabes – como sensuais, corruptos, preguiçosos, atrasados e violentos. Os métodos institucionais e culturais serviram de veículo através do qual os europeus construíram uma noção idealizada do Oriente, designaram fronteiras hierárquicas entre este e o Ocidente, fabricando-se a si mesmo através dessa separação arbitrária e útil, construindo a identidade cultural européia por sobre e contra o Oriente. Esta constatação serviu de ponto de partida para que Said tecesse os fios ligando a construção e o desenvolvimento da disciplina à aquisição de vastas possessões coloniais no Oriente pela Inglaterra e França, países que sediavam os centros orientalistas. Chama a atenção a coincidência entre o conteúdo do trabalho dos acadêmicos e a prática política dos governos da França e Inglaterra nas terras estudadas. Constata-se o modo nada inocente como o orientalista percebia e classificava seu objeto.  O orientalismo, como o define Said, é um “estilo de pensamento”, um modo de pensar o Oriente que ajudou a subordiná-lo através do conhecimento enviesado produzido sobre ele e que deu ao Ocidente o poder de ditar o que era significativo sobre “o outro”, classificá-lo junto com outros de sua espécie e colocá-lo “no seu lugar”.

Ao desvendar a construção do Oriente como uma entidade abstrata, Said destaca o caráter totalitário e essencialista desta construção. E de modo algum pretende construir um outro conceito de Oriente (nem muito menos um outro Ocidente), em substituição. Sua intenção é se insurgir contra esta forma de pensamento totalitário, que toma conjuntos humanos distintos, complexos, heterogêneos, formados por países, povos, e nações históricas individualizadas e procura lidar com eles na forma de uma totalidade homogênea. Para Said, não existe uma essência do Oriente assim como, também, não existe uma essência do Ocidente. Estas construções serviram para mascarar uma relação desigual que marcou historicamente o relacionamento entre alguns países da Europa “adiantada” com países da periferia do capitalismo.

            A atualidade da análise de Said confirma a idéia de que o imperialismo não acabou, não se tornou “passado” com os processos de descolonização e a desmontagem dos impérios clássicos. Os vínculos entre antigas colônias e antigas metrópoles continuam a demandar atenção especial e o papel de superpotência desempenhado pelos Estados Unidos, hoje, mostra que, apesar do novo arranjo nas linhas de força, o imperialismo continua a ser o traço marcante das relações Norte-Sul. E essa situação mantém a necessidade ideológica de consolidar e justificar a dominação em termos culturais, como tem sido o caso desde pelo menos o século XIX. Segue-se que o papel primordial dos intelectuais dentro e fora das universidades, tanto do Norte quanto do Sul, é resistir a essa ideologia que disfarçada de “conhecimento” objetiva deturpar para mais facilmente subordinar os povos que, nas palavras de Conrad retomadas por Said, “possuem uma compleição diferente ou um nariz um pouco mais achatado”.

 

 



* Palavras ditas na Homenagem a Edward Said, cerimônia realizada no auditório do Clube Homs em 11/12/2003 em São Paulo.