Contrariando as grandiloqüentes previsões do vidente F. Fukuyama, o pensador de plantão do Departamento de Estado do Império do Norte que, na euforia reacionária suscitada pelo colapso político do bloco soviético, erigiu o país do dólar e dos mísseis ditos inteligentes em expressão suprema e final da evolução histórica da humanidade, a história seguiu sua áspera marcha. A tal ponto que, para bloqueá-la, o presidente Bush filho, na trilha de seu pai, foi levado a recorrer a métodos mais sólidos do que aquela filosofia oca, sintetizando-os numa “doutrina” cuja principal diferença em relação à do “Reich de mil anos” de Adolf Hitler é ter sido formulada em inglês e não em alemão. Com efeito, deixando de lado a retórica, repetitiva e intelectualmente indigente, do inquilino da Casa Branca, o ponto essencial desta doutrina é que os Estados Unidos, depois da queda do “Império do Mal” (no léxico singelo de Reagan, a expressão, haurida em histórias de quadrinhos, designava a União Soviética), não aceitarão nenhum desafio à incontrastável supremacia militar de que dispõem graças a um orçamento bélico que, após os fulminantes atentados de 11 de setembro de 2001, ultrapassou os 300 bilhões de dólares anuais, para se aproximar, com o desencadeamento da “cruzada internacional contra o terrorismo”, dos 400 bilhões.
Embora mortíferos, os resultados políticos e militares da expedição punitiva que soterrou o Afeganistão sob atrozes bombardeios foram demasiado precários. Os talebãs (acusados de dar guarida a Bin Laden e à rede Al Qaeda) foram derrubados do poder e substituídos no governo por milícias feudais e bandos de saqueadores e traficantes de droga agrupados na chamada “Aliança do Norte”. Mas a cruzada de Bush, a despeito do colossal acúmulo de armas e de matadores profissionais que mobilizou, não somente, após um ano e meio de caça ao homem, não logrou agarrar Bin Laden, “vivo ou morto”, nem destruir a rede Al Qaeda, como tampouco conseguiu aniquilar a resistência patriótica afegã, que continua travando com êxito a guerra de guerrilhas contra o ocupante estrangeiro e seus asseclas locais.
Não deixa de ser curioso, pois, que, em vez de cumprir até o fim suas bombásticas (em todos os sentidos) promessas de acertar as contas com os que fizeram os habitantes de Nova Iorque sofrer um apocalipse semelhante às chuvas de mísseis despejadas por seu governo na periferia pobre da ordem liberal-imperialista, Bush filho concentre seu furor genocida contra o Iraque, cujo governo sabidamente não mantêm nenhuma espécie de vínculo com os presumidos autores dos atentados de 2001 e que, em matéria de destruição maciça, apenas tem recebido os mísseis lançados pelos matadores profissionais do Pentágono.
Do ponto de vista militar, entretanto, a explicação é óbvia: contrariamente aos militantes da Al Qaeda e aos guerrilheiros afegãos, alvos móveis e clandestinos, Saddam Hussein (com quem Bush filho herdou do pai algumas contas a acertar) é um alvo fixo, no qual pode ter máxima eficácia a imensa superioridade balística dos agressores. Que haja um componente doentio em sua obstinação anti-iraquiana, fica evidente na fixidade alvar, típica dos tresloucados, que paira na expressão facial do presidente dos Estados Unidos. Mas não convém superestimar o aspecto psicopatológico de seu pensamento. Mesmo porque em dezembro de 1998, Clinton, seu predecessor, que não era louco, mandou bombardear Bagdá com violência sem precedentes desde 1991. Precisava distrair a opinião pública estadunidense do processo de "impeachment" que então lhe era movido por assuntos sexuais, mas, evidentemente, se usou a pele dos iraquianos para fugir da sanha dos alcoviteiros mediáticos, foi porque o aniquilamento de Saddam Hussein se inscrevia perfeitamente na lógica do belicismo imperialista. Tanto assim que o editorialista do Washington Post, replicando ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que ousara, naquela ocasião, expressar tímidas reservas em relação aos bombardeios anglo-estadunidenses, reiterou, com esplêndida arrogância, o princípio fundamental do que então se chamava a “doutrina Clinton”: “Os Estados Unidos e a Grã Bretanha são mais fiéis aos objetivos textuais das Nações Unidas do que as próprias Nações Unidas”.
Pior para Saddam, que do ponto de vista do imperialismo estadunidense e britânico, carrega um vício insanável e inafiançável: estar vinculado ao movimento nacionalista Baas (ideologicamente socialista, pan-arabista e laico), que em 1968 assumiu o poder no Iraque, recuperando para a nação a segunda maior concentração mundial de jazidas de petróleo, até então descaradamente pilhadas pelos trustes daquelas duas potências, que proporcionaram ganhos multimilionários a dinastias de tubarões imperiais, entre os quais a própria família de Bush e muitos de seus asseclas.
A importância econômica destas jazidas não provém apenas de sua abundância, mas também do baixo custo de sua extração. É útil lembrar que os Estados Unidos produzem apenas a metade do petróleo que consomem, que suas reservas representam apenas cerca de 3% das reservas totais do planeta (30.334 milhões de barris para um total de 1.074.850 milhões de barris) e que sua produção é bombeada de poços muito velhos (alguns com mais de 50 anos), portanto a custos elevados. Ao passo que o Iraque dispõe de cerca de 100 bilhões de barris de reservas provadas, superado apenas pela Arábia Saudita (261 bilhões), mas bem acima da Venezuela (65 bilhões) e um pouco acima do vizinho Kuait (96,5 bilhões). Para não se intoxicar com a desinformação mediática, é preciso lembrar que o Iraque nunca aceitou a fabricação deste país-fantoche do colonialismo inglês, que, com régua e compasso, traçou-lhe as fronteiras levando principalmente em conta o sub-solo (a superfície é de apenas 18 mil quilômetros quadrados, boiando em cima de um mar de petróleo) e entregou o poder local a emires submissos. O que, evidentemente, não justifica a invasão iraquiana de 1990. Em matéria de invasões, porém, Saddam Hussein é um pequeno artesão, comparado aos gangsters da Casa Branca, sedentos de petróleo. Somadas, as reservas do Iraque, do Kuait e da Arábia Saudita chegam perto dos 500 bilhões de barris, quase a metade das reservas mundiais. Conquistando o Iraque e colocando fantoches submissos no governo, eles farão um negócio da China (como diziam os colonialistas no tempo em que podiam estuprar e esfolar a China), rentabilizando, com lucros fabulosos, os colossais investimentos exigidos por sua máquina de guerra planetária (que não pode ficar ociosa) e compensando amplamente o custo do dos fulminantes meios de destruição necessários para “instaurar a democracia” no Iraque.
As primeiras manobras bélicas já começaram. Centenas de matadores de elite estão farejando o território iraquiano, enquanto seus 150.000 colegas do grande exército colonial estadunidense esperam, nos emirados satélites ou a bordo de portentosa esquadra, a ordem de derramar um mar de sangue para conquistar um mar de petróleo. A grandiosa mobilização internacional de 15 de fevereiro de 2003, de que participaram, em centenas de cidades do mundo inteiro mais de quatro milhões de manifestantes (um milhão dos quais em Londres, outros tantos em Roma) contra a política de guerra de Bush e de seu comparsa britânico, mostrou que a parte mais lúcida e combativa da humanidade repudia a guerra
Ele ameaça assim realizar, com seus as previsões de Fukuyama: destruindo a espécie humana, ele porá fim à história. Não que este seja seu propósito, como tampouco era o de Hitler. Ele pretende aniquilar apenas quem não está com ele.
Desdobramento lógico político na esfera das relações internacionais.
10 million
join world protest rallies From Africa to Antarctica, people prepare to march
for peace.
Up to 10
million people on five continents are expected to demonstrate against the
probable war in Iraq on Saturday, in some of the largest peace marches ever known.
Yesterday,
up to 400 cities in 60 countries, from Antarctica to Pacific islands, confirmed
that peace rallies, vigils and marches would take place. Of all major
countries, only China is absent from the growing list which includes more than
300 cities in Europe and north America, 50 in Asia and Latin America, 10 in
Africa and 20 in Australia and Oceania. Many countries will witness the largest
demonstrations against war they have ever seen.
The
majority will be small but 500,000 people are expected in London and Barcelona,
and more than 100,000 in Rome, Paris, Berlin and other European capitals. In
the US, organisers were yesterday anticipating 200,000 marching in New York if
permission is given. A further 100,000 are expected to march in 140 other
American cities.
What is
extraordinary, say the organisers, is the depth and breadth of opposition that
the US and Britain are meeting across the world before a war has even started.
"This
is unprecedented. Demonstrations only got this large against the Vietnam war at
the height of the conflict, years after it started," said a spokesman for
Answer, a coalition of US peace groups which helped organise a march of 200,000
people last month in Washington.
Many in the
global peace movement optimistically hope that public opposition to a war is
becoming politically significant and could now affect the timing of an invasion
of Iraq and possibly even help avert conflict altogether.
"The
internationalism of the opposition is the most powerful weapon people have.
It's all we have. We think that Bush and Blair are well aware that global opposition
is mounting fast and that they are now desperate to start the war before they
are completely isolated by world opinion," said a spokesman for United for
Peace and Justice, a US coalition.
New polls
in Europe and the US yesterday suggested that opposition is still mounting and
is likely to continue even if the US gets a second resolution. Spanish and
Dutch polls showed that more than 70% now oppose even UN-mandated action, with
slightly fewer in Italy. Yesterday CND reported that it was struggling to cope
with the deluge of people wanting to join.
In Germany,
more than 300 towns are sending coaches to Berlin, where more than 100,000
people are expected to march.
"Opposition
is broader than at any time in the past. This will be the largest peace march
in 20 years," said Malte Keutzseldt of Attac, Germany. "The peace movement
is getting older now, but a new generation of young people is deeply concerned.
The churches and unions have linked to make the coalition far broader than even
the anti-nuclear missile marches in the 1980s".
In Paris, a
march organiser said that feeling was running high and that he expected the
anti-war demonstration to be largest ever. The most unusual rally is expected
to be in the international territory of Antarctica, where dozens of scientists
and others at the US McMurdo base on the edge of the Ross sea will take to the
ice.
The idea of
an international day of action against the war was first suggested in London
after the last peace march in October. It was discussed by peace and anti-globalisation
groups from 11 countries at the European social forum in Florence in November,
but only became truly international following meetings in Cairo, Egypt and
Porto Alegre, Brazil, last month.
Since then
the idea of coordinating international peace protests has spread rapidly across
the world and up to 30 new cities a day are believed to be planning
demonstrations. Next month activists from all continents will meet in London to
propose further global actions.
Coordinated
international demonstrations have flourished in the past five years with
anti-capitalist marches and campaigns by environmentalists and anti-globalisers
against corporations like McDonald's, Shell and Esso, and against global
warming or international trade. Mostly organised on the web by activists working
below the radar of the mainstream media, they have taken the establishment by
surprise in many countries and only been reported by independent media.
The Stop
The War Coalition (STWC) is planning a display of mass direct action designed to
bring Britain to a standstill on the day any war starts with Iraq. The protests
would involve demonstrations in the centre of London and other big towns and
cities, wildcat strikes by anti-war supporters and mass sit-ins at schools,
colleges and universities across the country. A spokeswoman for the SWTC said:
"We do think there will be a whole wave of civil disobedience if war
breaks out. People want to be peaceful and are quite slow to anger, but they
will be very angry if after Saturday's mass show of opposition Tony Blair
refuses to listen."
Sábado, 15 de Fevereiro, 06:01 PM
Manifestações antiguerra reúnem milhões no mundo inteiro
LONDRES (Reuters) - Mais de quatro milhões de manifestantes uniram forças
ao redor do mundo no sábado para enviar uma dura mensagem ao presidente dos
EUA, George W. Bush: "Dê uma chance à paz e não se apresse para entrar na
guerra contra o Iraque."
Em centenas de cidades ao redor do mundo, de Bangkok a Bruxelas, de Camberra
a Calcutá, os manifestantes tomaram as ruas para ridicularizar Bush como um
instigador da guerra sedento de sangue.
Na maior demonstração do "poder popular" desde a Guerra do
Vietnã, eles desdenharam a posição de Bush.
"Esta é uma guerra somente sobre petróleo. George W. Bush nunca deu
a mínima para direitos humanos," disse o prefeito de Londres, Ken Livingstone,
durante a manifestação gigante em Londres.
Cerca de um milhão de pessoas marcharam através da capital britânica, na
maior manifestação pela paz na histórica política do país.
"Dê uma chance à paz, dê uma chance à paz," gritava o
pacifista americano Jesse Jackson, para delírio da multidão.
Em Roma também houve comparecimento gigante. Sob um mar de bandeiras com
as cores do arco-íris, um milhão de pessoas caminharam pelas ruas.
O ministério do Interior francês estimou que pelo menos 300.000 pessoas
participaram dos protestos no país. A oposição da França à guerra tem apoio na
Europa de Berlim, onde cerca de 500.000 pessoas foram ao maior protesto na
Alemanha desde o final da Segunda Guerra Mundial.
"Mais florestas, menos Bushes," dizia um cartaz em Estocolmo.
"Bush = câncer do planeta," dizia outro em Barcelona.
Australianos também fizeram o
maior protesto no país desde os atos contra a Guerra do Vietnã, há 30 anos.
MUNDO ÁRABE
No mundo árabe, dezenas de milhares de sírios e palestinos moradores de
Damasco tomaram as ruas para manifestar oposição a uma guerra dos EUA contra
seus colegas árabes iraquianos.
Cerca de 10.000 pessoas carregando bandeiras do Iraque, da França e da
Alemanha, além de fotos de Saddam Hussein, fizeram uma passeata pacífica, mas
barulhenta, através de Beirute, capital do Líbano.
O vice primeiro-ministro iraquiano, Tareq Aziz, fez o seu protesto solitário
na cidade italiana de Assis, onde rezou em silêncio em frente ao túmulo de São
Francisco, patrono da paz.
"O povo do Iraque quer paz e milhões de pessoas ao redor do mundo estão
se manifestando pela paz, então que todos trabalhemos pela paz e pela
resistência à guerra," disse.
TUMULTO EM ATENAS
O único problema sério aconteceu em Atenas, capital da Grécia, onde manifestantes
queimaram um carro e quebraram janelas de lojas e de um banco no centro da
cidade, durante passeata para a Embaixada dos EUA que, conforme a polícia local,
reuniu 100.000 pessoas.
Outro não foi o objetivo de Clinton e de seus sócios da OTAN, em 1999, ao demolir a Sérvia com uma tempestade de mísseis.