Palavras estrangeiras e a língua portuguesa: invasão cultural ou desenvolvimento técnico-científico?

John Robert Schmitz

Muitos anos atrás, Carlos Goés, (1881- 1934) poeta, dramaturgo, gramático e dicionarista brasileiro, observou o número excessivo de palavras francesas em uso no português dos anos 20 e 30 no Brasil. No Dicionário de Galicismos (1921) de sua autoria, Goés recomendou o uso de palavras existentes no idioma com a finalidade de proteger a língua portuguesa da proliferação de palavras de origem francesa. Todavia, apesar do esforço do renomado especialista, os falantes dos anos 20 e décadas seguintes persistiram em usar muitos dos mesmos galicismos por ele combatidos. Muitos falantes do português hoje em dia nem sequer percebem que vocábulos como debutar, abajur, coqueluche, e sutiã são de origem francesa. Nem todos os falantes do português estão cientes de que palavras consideradas "castiças" como Fulano e cuscuz são do árabe, ao passo que vatapá é de origem africana e chá e leque do chinês. Existem também falantes que nem sequer suspeitam que super-homem e loja de conveniência são na realidade traduções de outro idioma.

A presença no português do Brasil de muitos vocábulos de origem inglesa reflete a condição do inglês como idioma internacional, de amplo acesso no mundo, falado nos quatro continentes, por mais de 427 milhões de pessoas que consideram o referido idioma a sua língua materna. Calcula-se também que há outros 350 milhões de indivíduos que o usam como segunda língua, além de outros 100 milhões que falam inglês fluentemente como língua estrangeira, perfazendo aproximadamente um bilhão de usuários. Para alguns especialistas no campo dos estudos lingüísticos, o inglês, neste fim de milênio, é, por bem ou mal, o "latim do século XXI", fadado a continuar a ser, num mundo cada vez mais globalizado e internacionalizado, o veículo transmissor de conhecimento tecnológico-científico - cultural e, para os que o dominam, um passaporte para emprego e uma garantia de prestígio e ascensão social.

Para outros especialistas, o inglês é, um verdadeiro "carrasco" que se infiltra em outras línguas e culturas. Um exemplo deste chamado "imperialismo lingüístico" é a norteamericanização da vida e dos costumes, inclusive, do idioma nacional de diferentes países do mundo tais como a França, Japão, Espanha, Itália e Brasil, entre muitos outros. Há várias perguntas que devem ser feitas. O influxo de palavras de língua inglesa (ou de qualquer outra nacionalidade) está contribuindo nos dias de hoje para a decadência do português? A "invasão" de itens lexicais de origem estrangeira é a causa da queda de qualidade da produção oral e escrita do idioma nacional por parte de jovens brasileiros? Como respostas às duas perguntas, eu diria que não. Apesar das barbaridades cometidas por alguns vestibulandos ( "interviu", e "esteje" são bons exemplos!) e, de certos deslizes, por parte de alguns membros dos meios televisivos ou da imprensa, a língua portuguesa está bastante saudável graças ao número significativo de usuários, jovens e adultos, que se expressam muito bem oralmente e que redigem com clareza e até com bastante criatividade. Cumpre também lembrar que a culpa da crise do ensino de português nas escolas de ensino fundamental e médio nada tem a ver com a enxurrada de palavras estrangeiras no português contemporâneo.

A existência de vocábulos estrangeiros num determinado idioma para alguns indivíduos representa uma postura colonialista e uma perda de soberania ao passo que para outros a introdução de termos de origem estrangeira simboliza um avanço científico- tecnológico. Não é uma tarefa muito fácil conciliar estas duas posições.

O uso das palavras "delivery" e "sale" incomoda a alguns usuários porque de fato existem os itens lexicais "entrega" e 'venda" ou 'liquidação" em português. Mas outros falantes de português os empregam por julgarem que os referidos termos destacam e promovem melhor os seus produtos. Cumpre observar que a linguagem em si oferece uma variedade de opções para todos os gostos. Em alguns casos, há casos de exagero na utilização de palavras estrangeiras. Mas esse exagero é um problema pessoal do próprio usuário. É muito mais um problema de ordem estilística, pois há alguns usuários que exageram no uso da gíria ou na mera repetição de palavras e expressões desgastadas. Outro abuso irritante é o excesso de confirmações nas conversações como "sabe?" , "viu"? e "né"?.

Todas as línguas humanas têm diferentes lacunas no estoque léxico ou vocabulário. É justamente a função dos empréstimos preencher essas lacunas. Não adianta propor, por exemplo, a substituição de panqueca por waffle, pois são tipos de comida diferentes. Não vale a pena "cassar" skate e, no seu lugar, propor patim ou patinete, porque são todos diferentes para os que fazem uso dessas peças. Quando uma determinada palavra de origem estrangeira preencher um espaço "vago" no idioma, a mesma tem a sua razão de ser.

O Projeto de Lei apresentado recentemente pelo Deputado Aldo Rebelo que "dispõe sobre a promoção, a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa" merece uma análise cuidadosa por parte de gramáticos, lingüistas, jornalistas, escritores, professores e de todos os que trabalham com a linguagem. Sem dúvida, é importante tentar fixar a grafia de diferentes palavras. Deve-se escrever Tchetchênia ou Chechênia? Cabe observar que dois jornais de grande circulação na cidade de São Paulo apresentam diferentes grafias para o referido país asiático. Na minha opinião seria tarefa de equipe e nada simples propor uma grafia aportuguesada viável para o grande número de palavras estrangeiras de diferentes idiomas. Em certos casos, é fácil aportuguesar palavras de origem estrangeira: turfe e surfe são bons exemplos. Em outros casos, uma grafia aportuguesada poderia desfigurar as palavras e até impedir a compreensão. Os praticantes das atividades karaokê e karatê aceitariam respectivamente as grafias caraoquê e caratê? As palavras de origem hebraica shloishim e matzeiva, seriam reconhecíveis por parte dos que precisam desses vocábulos se a grafia das mesmas fossem aportuguesadas? A vontade de apagar diferenças, impor uma uniformização e controlar a produção escrita por via de multas parece uma postura xenofóbica e antidemocrática.

Faz sentido implicar com os termos marketing, holding, self-service, recall, play-off e tie-break ou até ombudsmen? Quais termos vão ser propostos em substituição a esses estrangeirismos? Será que profissionais brasileiros na área de música vão aceitar as locuções bastante compridas "alto falante para agudos" e "alto falante para graves" em vez de, respectivamente, tweeter e woofer?

O que é preocupante com o Projeto do Deputado Rebelo é a ameaça de multas e outras punições pelo descumprimento "de qualquer disposição desta lei". O Artigo 5 do Projeto obriga a substituição de "toda e qualquer palavra ou expressão em língua estrangeira posta em uso no território nacional" por uma palavra em português. Se uma determinada palavra não for registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, o usuário que ousa empregar a mesma estaria sujeito à multa? Se as palavras self-service, topless, e check-up e outdoor não estão registradas na referida obra, quem vai determinar quais pessoas físicas e jurídicas são os "infratores"? O Projeto não violaria o direito à liberdade de expressão? O cidadão não tem o direito de dar um nome russo, italiano ou chinês a seu filho? Ele não tem o direito de escolher a grafia que mais lhe agradar? A incorporadora de um imóvel não teria o direito de colocar um nome francês, japonês ou filipino no edifício de sua propriedade? Numa sociedade democrática, pode-se realmente impedir que um proprietário de uma loja de móveis use uma estratégia promocional para destacar o seu negócio recorrendo ao nome "Furniture's Móveis de Madeira"? E uma agência de turismo não teria o direito de ter como razão social "Bon Voyage Agência de Viagens e Turismo, Inc."? É uma boa psicologia lembrar que o proibido, em certos casos, torna-se ainda mais atrativo, justamente por ser proíbido.

O Projeto na sua versão atual incita, a meu ver, um verdadeiro terrorismo lingüístico e abre uma caixa de pandora repleta de possíveis processos jurídicos bastante onerosos para as partes envolvidas. Tais litígios contribuiriam para tornar ainda mais morosa uma Justiça já bastante assoberbada e contribuiria para a possível burla da lei. É muito mais importante para a sociedade multar e punir os que fazem uso irresponsável do automóvel, que danificam a propriedade alheia, ferem e matam pessoas inocentes. Quantos infratores de crimes no trânsito continuam impunes? Se os crimes de trânsito demoram anos para ser julgados e os culpados punidos, imaginem os problemas com as supostas "infrações" lingüísticas.

O referido Projeto de Lei, cujo propósito é o de coibir o uso indevido ou desnecessário ( quem vai determinar o que é "indevido" e "desnecessário" é outro problema!), corre o risco de censurar críticas ao uso exagerado de palavras estrangeiras. Se tal projeto entrasse em vigor, que sorte teria a novela apresentada recentemente que satirizava o uso incorreto em português de "minhas apologias" com base no inglês "my apologies"? Além disso, o uso constante de "Good night" num contexto no qual "good evening" seria a "regra" em língua inglesa criava um efeito humorístico justamente para satirizar o "snobismo" ou "esnobismo" e a postura colonialista dos personagens da obra. A análise dos roteiros de novelas por parte de professores de português no ensino médio seria, diga-se de passagem, uma excelente maneira de mostrar as diferentes variedades do português.

O interesse no destino da língua nacional é procedente. É pena que o Deputado Rebelo não consultou lingüistas nas diferentes universidades brasileiras. Uma consulta por parte do Deputado à rica bibliografia especializada na área de sociolingüistica e planejamento lingüístico o teria esclarecido muito a respeito da complexidade da linguagem e dos problemas lingüisticos. As línguas humanas não são blocos monolíticos. Existem variedades e há variação de acordo com a situação e classe social.

À guisa de conclusão, afirmo que a presença de palavras estrangeiras no português não deve ser vista como uma invasão que compromete o idioma, mas como uma oportunidade para o enriquecimento cultural e o desenvolvimento técnico-científico. A existência de palavras estrangeiras numa determinada língua de nenhuma forma coloniza o pensamento, nem tolhe o raciocínio, a criatividade e a originalidade dos que querem se expressar oralmente ou por escrito.
 

"Palavras estrangeiras e a língua portuguesa: invasão cultural ou desenvolvimento técnico-científico? Calibán, Revista de Cultura. Recife, maio 2000, pgs. 42-46 ID. 92148 [ Revista especializada referenda circulação nacional]


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