A crise da língua portuguesa: uma visão crítica e criteriosa

John Robert Schmitz

Em tempos de conflitos e caos e em momentos de tensão e tumulto que caracterizam a nossa época neste fim de milênio, aparecem várias "crises" que chegam a ser verdadeiras catástrofes para o país e outras nações do mundo: as diferentes crises de ordem econômica, política, social e moral. Freqüentemente outro tipo de crise acompanha os períodos de convulsão e de insegurança: a crise do idioma. Os que difundem a crise do idioma acreditam que o português nunca foi tão mal falado e escrito e que em tempos passados a língua portuguesa era realmente mais "culta e bela" do que hoje em dia. Esses críticos culpam os jovens, a imprensa e os meios televisivos pelo suposto estado calamitoso do idioma. Há quem censure palavras novas como "maracutaia" ou "cambalacho". Aos economistas é imputada a responsabilidade pela corrupção da fala e da escrita devido à introdução por parte desses profissionais de termos técnicos e usos especializados de vocábulos, chamados de "economês". Outros bodes expiatórios da "crise" são os marginais, os presidiários, os locutores de rádio, os jogadores de futebol, os policiais e até os publicitários que criam novas palavras dando também novos sentidos às antigas. As escolas e os professores, em particular os professores de língua portuguesa, não escapam da crítica e são também responsabilizados pela "decadência" do idioma. Cabe perguntar se realmente a língua portuguesa do Brasil está em crise ou num estado de calamidade, como dizem.

Do meu ponto de vista, diria que o idioma vai muito bem. Cada ano aumenta o número de livros publicados em português. Não se deve esquecer os textos escritos nos jornais e revistas de grande circulação no país inteiro. As universidades públicas e algumas particulares produzem pesquisas em forma de livros e artigos em todas as áreas do conhecimento. É uma inverdade que os jovens não lêem nada e escrevem mal. A verdade é que alguns lêem pouco ou nada e, por esse motivo, nada escrevem. Uma triste verdade é que outros jovens, por não terem acesso à escola, simplesmente não sabem ler nem escrever. Mas é bom observar que neste fim de século muitos brasileiros estão produzindo textos bem escritos, bonitos mesmo, realmente "cultos e belos". Critica-se o computador e os "videogames" pela deseducação dos jovens. Pouca gente se lembra de que o computador e o correio eletrônico estão contribuindo para melhorar e facilitar a elaboração de textos. Acabaram as agruras de escrever com lápis ou caneta. A máquina de escrever, praticamente não se usa mais.

Estima-se que o português é o sexto idioma mais falado no mundo com um total de 165 milhões de falantes, ultrapassando, neste aspecto em número de falantes, os seguintes idiomas: bengali, russo, japonês, alemão, coreano e italiano. Obras brasileiras também são traduzidas para outras línguas, fato esse que marca a importância do idioma no cenário mundial.

Lamentavelmente a crise a respeito do português "certo" perdura devido, em grande parte, ao medo do futuro e ao clima de incerteza reinante nos tempos de hoje. Os falantes de uma determinada língua acreditam, na condição de usuários, que são "donos" ou proprietários da mesma. Os falantes de português não são uma exceção. É natural que eles tenham uma opinião formada a respeito do "seu" idioma. É por essa razão que nem sempre tomam conhecimento dos avanços da ciência lingüística ou do trabalho dos lingüistas com respeito ao fenômeno linguagem e às línguas humanas. Alguns ensinamentos dessa disciplina: (i) As línguas mudam através do tempo: pode-se lamentar o desaparecimento gradual da intercalação de pronome átono em um verbo: dir-se-á, comentar-se-ão, isto é, a mesóclise, fenômeno gramatical esse que distingue o português das outras línguas românicas. É impossível frear essas mudanças, pois estão fora de nosso controle, (ii) As línguas variam. Há diferentes tipos de português para diferentes finalidades. Um texto literário não é superior ou inferior a um texto comercial. São simplesmente diferentes. (iii) Os vocábulos novos que se nos apresentam não ameaçam a sobrevivência do idioma. Eles o enriquecem, mesmo sendo de origem japonesa, francesa ou inglesa. Sem novos termos e nova terminologia, a língua nacional não se atualiza. Os dicionários devem ser constantemente atualizados. (iv) As variedades regionais e sociais em conjunto com a expressão formal escrita e oral são todas "tesouros do idioma", igualmente "cultas e belas". (v) Nenhuma língua é inferior à outra. Cada idioma tem seus "encantos". Quem aprende português como língua estrangeira percebe os traços distintos talvez muito mais do que os próprios falantes nativos. Um exemplo peculiar ao português (e ao galego), é o "simpático" infinitivo conjugado: "reflexões para eles considerarem" e " um assunto para nós refletirmos" ou o futuro do subjuntivo: quando vir o programa, quando der tempo para ver, quando vier para ficar.

Sem dúvida grassam várias crises neste momento histórico em nível nacional e internacional. Felizmente, não consta dessa "lista crítica" o idioma nacional. O mesmo está em plena forma para os desafios do próximo século.
 

Artigo publicado originalmente:

"A Crise da Língua Portuguesa: Uma Visão Crítica e Criteriosa", O Escritor. Jornal da União Brasileira de Escritores. Nº 90 março, p. 4 . ID:103749


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