VAGINAS ENTRELINHAS

poesias pornográficas de Drummond de cabo a rabo

ou de quando rebentaram

 

 

Lucas Kiyoharu Sanches Oda

 

 

Em 1947, Antonio Houaiss escreveu um estudo crítico sobre a obra de Drummond baseado em seus cinco primeiros livros: Alguma Poesia, Brejo das Almas, Sentimento do Mundo, José e A Rosa do Povo. Nesse estudo são apresentados alguns aspectos da criação poética do poeta, mas salienta-se aqui a análise do poema “Em face dos últimos acontecimentos”:

 

Oh! Sejamos pornográficos

(docemente pornográficos).

Por que seremos mais castos

Que o nosso avô português?

 

Oh ! sejamos navegantes

Bandeirantes e guerreiros

Sejamos tudo que quiserem

Sobretudo pornográficos.

 

A tarde pode ser triste

E as mulheres podem doer

Como dói um soco no olho

(pornográficos, pornográficos).

 

Teus amigos estão sorrindo

De tua última resolução.

Pensavam que o suicídio

Fosse a última resolução.

Não compreendem, coitados,

Que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,

Ao condutor do teu bonde,

A todas as criaturas

Que são inúteis e existem,

Propõe ao homem de óculos

E à mulher da trouxa de roupa.

Dize a todos: Meus irmãos,

Não quereis ser pornográficos?

(BA)

 

A partir da leitura desse poema, Houaiss vai notar que, além de um simples erotismo das poesias de Alguma Poesia, Drummond vai começar a desenvolver, mesmo que teoricamente uma nova poética que vai se transformando, assim como vão se transformando as relações sociais/sexuais:

 

“‘Em face dos últimos acontecimentos’ é, porém, peça importante não apenas do premonitório: em face dos últimos acontecimentos, a pornografia, a escatologia, a fescenínia e atitudes afins e conexas se fazem necessárias ou inevitáveis: Carlos Drummond de Andrade não a praticou em concreto, mas antecipou-a: fazendo-o apenas teoricamente, fazia muito, pois já ferira demais o ambiente da inércia para permitir-se o passo público além, da prática pornográfica concreta, verbalizada.”  (p. 69 - grifos meus)

 

Houaiss não sabia e nem haveria de saber que Drummond, em meados dos anos 70, vai dar esse último passo e começar a escrever um tipo de poesia que viria a escandalizar leitores mal informados mesmo no ano de 92. O livro O Amor Natural revelou as poesias eróticas/pornográficas que Drummond manteve ocultas. Poucos amigos seus as conheciam e o poeta só aceitou que elas fossem publicadas após a sua morte – a timidez apontada por Mário. O fato que torna esse livro polêmico não são apenas suas poesias obscenas ou eróticas – podemos encontrá-las em qualquer um de seus livros, desde Alguma Poesia até Farewell – mas o próprio tema do livro que é apresentado despido de pudores poéticos e se inscreve dentro de uma tradição filosófica e poética do erotismo e da obscenidade. É o poeta gauche que vai nos apresentar novamente o nosso mundo com suas mudanças, transformações.

Drummond é, sobretudo, um poeta de seu tempo que, guiado por seu anjo torto, vai poder cantar os homens, as coisas, o mundo em suas constantes revoluções. O poeta viu passar diante de seus olhos uma revolução sexual nos anos 70; livros de Bataille e Rougemont; disparates da poesia marginal, e assim pode desmascarar seus recalques e verbalizar o que seus olhos não perguntavam em uma de suas primeiras faces.

No entanto não podemos legar o recalque de Drummond apenas à sua timidez, pelo contrário, será que o poeta era mesmo recalcado? Será que virou às avessas e de repente se entortou começando a escrever sacanagens? Não. As poesias eróticas de Drummond sempre existiram, desde o “Poema de Sete Faces”, mas são criadas em contextos diferentes que determinaram as suas formas. Considerando que para os românticos uma alvura de calcanhar era um fetiche supremo, nos anos 30 as coisas já haviam encurtado um pouco, as pernas já começavam a tomar sol e a virarem fetiche. As pernas do bonde podem comprovar isso, juntamente com todas as pernas de Alguma Poesia. Mas o tempo passava e os fetiches mudavam.

 

O nojo do substantivo – foi há trint’anos –

ao sol de hoje se derrete. Nádegas aparecem

em anúncios, ruas, ônibus, tevês.

O corpo soltou-se. A luz do dia saúda-o,

nudez conquistada, proclamada.

Estuda-se nova geografia.

Canais implícitos, adianta nomeá-los? Esperam o beijo

do consumidor-amante, língua e membro exploradores.

E a língua vai osculando a castanha clitórida,

a penumbra retal.

A amada quer expressamente falar e gozar

gozar e falar

vocábulos antes proibidos

e a volúpia do vocábulo emoldura a sagrada volúpia.

 

Nos seus três últimos decênios, o poeta viu transformações radicais. Pernas, de fetiche, viravam banais. Bundas e peitos viravam um fetiche descartável – com fim a curto prazo. Instaurava-se aos poucos a visão microscópica do sexo, o derradeiro desvendamento do corpo.

 

O aspecto erótico de Alguma Poesia centra-se especialmente nas pernas:

 

O bonde passa cheio de pernas:

pernas brancas pretas amarelas

Para que tanta perna, meus Deus, pergunta o meu coração.

Porém meus olhos

não perguntam nada.

(Poema de sete faces)

 

 

 

Meus olhos espiam

As pernas que passam.

Nem todas são grossas...

Meus olhos espiam.

Passam soldados,

... mas todas são pernas.

Meus olhos espiam.

Tambores, clarins

E pernas que passam.

(Moça e soldado)

 

E como não tinha nada que fazer vivia namorando as pernas morenas da lavadeira.

(Iniciação amorosa)

 

O erotismo inicial de Drummond é legado geralmente às suas poesias de humor – herança do poema-piada modernista – pois era apresentado sempre contraposto a outro ponto fundamental de seus dois primeiros livros: a castidade. N’Alguma Poesia o poeta constantemente vai se perguntar por que os desejos fazem com que ele se afaste da pureza, que faz com que ele se desvirtue. Seu coração pergunta, mas seus olhos também são gauches, são olhos que verão mais fundo, verão retos e clitóris. Há ainda em Alguma Poesia o grotesco do sexo, a demoníacas tardes vermelhas que vão digladiar diretamente com a idéia de castidade.

 

Depois fui para a cama

febre 40 graus febre.

Uma lavadeira imensa, com duas tetas imensas, girava no espaço verde.

(Iniciação amorosa)

 

A dançarina espanhola de Montes Claros

Dança e redança na sala mestiça.

Cem olhos morenos estão despindo

Seu corpo gordo picado de mosquito.

 

Tem um sinal de bala na coxa direita,

O riso postiço de um dente de ouro,

Mas é linda, linda, gorda e satisfeita.

Como rebola as nádegas amarelas!

Cem olhos brasileiros estão seguindo

O balanço doce e mole de suas tetas.

(Cabaré mineiro)

 

Se o sexo, as pernas e as tetas com seus bicos onde a luz bate são pecados, mesmo assim o poeta não os abandona. O erotismo já estava em seus olhos, estava toda a sua obscenidade. Seu lirismo ainda não permitia e seu mundo recalcava, senão talvez já aparecessem os lábios da vulva nessas primeiras poesias.

 

Em seu segundo livro o embate entre a castidade e a obscenidade vai se intensificar ainda mais. O poeta vai abertamente elogiar a pornografia como meio de escapar das dores do amor, das dores do mundo, das dores dele próprio, dividido entre suas faces: olhar ou não as pernas. Em “Não se mate”, o poeta – Carlos – vai se apresentar como eu-lírico do poema e desabafará a luta intensa de seus recalques procurando optar por um dos desdobramentos de Adalgisa. Quem se espanta com as poesias d’O Amor Natural certamente não conhece Brejo das Almas e toda a luta gloriosa que se trava em suas poesias onde, no fim, reina a pornografia.

 

Meu olhar desnuda as passantes.

Às vezes um bico de seio

Vale mais que o melhor Baedeker.

Mas onde seio para minha sede?

 

O andar, a curva de um joelho,

Vinco de seda no quadril

(não sabias quanto eras pura),

faço a delícia do dessous.

 

Eu sei que o êxtase supremo,

O looping no céu espiritual

Pode enredar-se, malicioso,

No que as mulheres mais (?), escondem

No que meus olhos mais indagam.

(O procurador do amor)

 

O olhar pornográfico do poeta vai cada vez ficando mais aguçado e permitirá que se crie um dilema: ser mesmo pornográfico ou simplesmente morrer? As alternativas são saídas para escapar das dores do amor/vida, são eternas companheiras em toda a tradição erótica e obscena e rediscutidas em “Convite triste”, “Não se mate” e “Necrológio dos desiludidos do amor”. No penúltimo poema do livro, “Castidade”, Drummond rende-se à pornografia mesmo considerando-a impudica, demoníaca. Fica claro que, mais que uma escolha voluntária, ser pornográfico é uma escolha inevitável. Mas há um ressentimento no poeta por ter pecado que o atormenta, que lhe intimida e que nada faz além de deixá-lo tímido frete à pornografia inevitável. E no último poema do livro, “Desdobramento de Adalgisa”, o poeta conclui o pornográfico como destino, como membro transformador dos homens: o mundo é só Adalgisa.

 

A partir de Sentimento do Mundo, já rendido à pornografia no livro anterior, Drummond vai abandonar os caminhos pelos quais caminhava rumo a uma pornografia plena e vai assumir uma temática voltada mais ao amor e aos problemas da sociedade que vão culminar com as poesias engajadas d’A Rosa do Povo. Vai se desvencilhar das tormentas da pornografia x castidade e vai definir sua poética: “O tempo é minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”.

No entanto, ele mesmo sabia, a pornografia é parte do tempo, dos homens, da vida. Sua timidez vai impedir que ele publique as poesias resultantes da conclusão do dilema do Brejo das Almas. A pornografia agora era explícita e verbalizada, e assumia, a partir da leitura de outros autores, um caráter essencial do ser humano, quase divino. Quebra-se a dicotomia: pornografia e castidade pertencem aos céus, à luz. E mais: a pornografia deixa de ser íntima para ser universal.

Ainda podemos encontrar o antigo poema-piada:

 

Era manhã de setembro

e

ela me beijava o membro

 

 

A bunda, que engraçada.

Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

 

A pornografia x morte de Brejo das Almas transforma-se, no último livro de Drummond, em gozo x morte, sendo que essa dicotomia é necessária, como os lados de uma folha de papel. Gozar é estar constantemente desafiando e brincando com a morte é o limite pelo qual a vida escorre.

N’O Amor Natural salienta-se ainda o trabalho de composição de palavras por justaposição e aglutinação que vão construir termos perfeitos para descrever as relações sexuais e a anatomia: lambilonga, lambilenta, licorina, lenta-lambente-lambilusamente, bundamel, bundacor, bundamor, boquilíngua, clitórida. E ainda as tradicionais repetições de palavras e de estruturas sintáticas.

 

Muito poderia ser discutido aqui, mas o mínimo que se quer deixar claro é que O Amor Natural nada mais é que o desdobramento previsível pelo qual a poesia de Drummond passaria depois de Brejo das Almas. O impacto sofrido pelo público ao ler as obscenidades de um poeta já velhinho dá-se através fato de que Drummond abandonou logo no início sua temática pornográfica como ponto norteador de sua poesia e, talvez – insisto com Mário – pela timidez do poeta. A saber: depois d’A Rosa do Povo foi legada a Drummond a imagem de poeta dos homens e da sociedade; isso fez com que ficasse esquecida sua imagem de poeta pornográfico, obsceno, erótico. As vaginas, pênis e clitóris que saíram de sua boca chocaram porque são explícitos, mas podemos observar que não são termos populares como buceta e caralho. O poeta, ao escrever suas poesias eróticas não é baixo, pornográfico – no sentido pejorativo – pelo contrário, assume uma linguagem elevada para tratar de um tema tido como baixo. Sua obra poética, toda sua poesia é selada com chave de ouro: com o amor, mas mais que isso: com um amor isento de limites e recalques, um amor natural.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

ANDRADE, C. D. A Rosa do Povo, in: Poesia e Prosa. Rio: Nova Aguilar, 1992.

ANDRADE, C. D. Alguma Poesia, in: Poesia e Prosa. Rio: Nova Aguilar, 1992.

ANDRADE, C. D. Brejo das Almas, in: Poesia e Prosa. Rio: Nova Aguilar, 1992.

ANDRADE, C. D. José, in: Poesia e Prosa. Rio: Nova Aguilar, 1992.

ANDRADE, C. D. O Amor Natural. São Paulo: Record, 1992.

ANDRADE, C. D. Sentimento do Mundo, in: Poesia e Prosa. Rio: Nova Aguilar, 1992.

ANDRADE, M. “A Poesia em 1930”, in: Aspectos da Literatura Brasileira. São Paulo: Martins, 1974.

BAUDRILLARD, J. Da Sedução. Campinas: Papirus, 1991.

CANDIDO, A. “Inquietudes na Poesia de Drummond”, in: Vários Escritos. |São Paulo: Duas Cidades, 1970.

HOUAISS, A. “Drummond”, in: Drummond mais seis poetas e um problema. Rio: Imago, 1976.