RELAÇÕES DE SENTIDO ENTRE AS PALAVRAS

Ana Cláudia Fernandes Ferreira anaclau@iel.unicamp.br

 

Introdução

Este texto faz parte dos trabalhos apresentados no curso de graduação em Lingüística. É um trabalho para a disciplina Lexicologia e Lexicografia, que foi ministrada pela professora Rosa Attié Figueira no segundo semestre de 2000.

Tivemos como objetivo uma reflexão a respeito das relações de sentido entre palavras, tais como: relações de sinonímia, antonímia, homonímia, polissemia; além de uma breve reflexão sobre arcaismos e neologismos. Para isso, foi composto um corpus de palavras que pudessem ser caracterizadas no escopo de algumas destas relações de sentido. As palavras são as seguintes: traficante, tratante, formidável, terrível, cravo, canela, apagão e caladão.

A bibliografia é composta por dois dicionários monolíngues, (o dicionário de Caldas Aulete, publicado em Portugal, no ano de 1881 e o Aurélio, dicionário de português brasileiro, de 1996);  o dicionário de sinônimos de Antenor Nascentes (publicado tanto em Portugal como no Brasil em 1957); o dicionário de lingüística e gramática de Mattoso Câmara (publicado em 1977) e o livro Semântica de Rodolfo Ilari e Wanderley Geraldi (publicado em 1990). Além disso, pesquisamos os neologismos apagão e caladão na internet.

Os pares traficante/tratante e fomidável/terrível, foram objeto de reflexões sobre fenômenos como homonímia, sinomímia e mudanças de sentido entre as palavras ao longo do tempo.

A palavra cravo e a palavra canela, não formam um par de “sinônimos” como formidável/ terrível e traficante/tratante formam. Estas palavras (cravo e canela) foram objeto de observação sobre fenômenos como homonímia e polissemia, e a penas por isso foram postas juntas, formando um “par”.

As palavras apagão e caladão, não tiveram ainda o privilégio de tornarem-se verbetes, mas por serem neologismos que apareceram na língua portuguesa do Brasil em data muito recente, mereceram alguns comentários.

A seguir, seguem-se algumas reflexões e comentários sobre o material colhido, que é composto por  introduções,  prefácios e  verbetes.

1) Sobre o verbete ‘Formidável’

Caldas Aulete

¡( fur-mi-dá-vel ) adj. Terrível, tremendo, pavoroso: E não temeis que surja d’essa campa a formidavel, a despeitada sombra de Cresphonte? ( Garrett. )Lembram-lhe então formidaveis os  perigos que elle affrontou ( Gonç. Dias. ) || Que impõe respeito, temeroso: Alcaçoava, cingida das suas fortificações lustrosas virgens, elegantes e todavia formidaveis, onde a nossa historia começa. ( Herc. ) || F. lat. Formidabilis.

Aurélio

¡ [ do lat. Fomidabile ]. Adj. 2.g. 1.  Medonhamente grande; descomunal,  colossal : esforço  f o r m i d á v e l.  2. V. formidando:  “ O nome espanhol, já temeroso para a cristandade, ganharia decerto muito em tornar-se  f o r m i d á v e l  aos bárbaros do Bósforo”. (Latino Coelho, Cervantes, pg.42); “Sei de uma criatura antiga e  f o r m i d á v e lque  a si mesma devora os monstros e as entranhas.” (Machado de Assis, Poesias Completas. pg. 293. ) 3. Que desperta respeito, admiração ou entusiasmo. 4. Bras. Muito bom, muito bonito; admirável, excelente, magnífico (...). 5. Bras. Fem. V. bacana (1): um filme formidável, uma pequena formidável.

Antenor Nascentes

¡Formidável, terrível -  formidável é o que pode causar um perigo próximo, iminente. Terrível, o que pode causar um perigo mais remoto ou distante. Uma explosão é formidável; o desabamento de uma parede fendida é terrível.

Observações

Uma primeira observação a ser feita, é sobre o dicionário de sinônimos de Antenor Nascentes, em que os verbetes aparecem em pares (os quais, claramente não são sinônimos perfeitos, e nem é o caso de se pensar que o autor acredite que todos estes pares o sejam).

Podemos notar que dentro de um certo período de tempo, o verbete formidável mudou consideravelmente de sentido. É interessante notar também, que a primeira vista, terrível parece ter permanecido com o mesmo sentido, também sofreu transformações ao longo do tempo. Pois atualmente, não temos esta concepção de “perigo remoto” para terrível,  para qualificar o desabamento de uma parede fendida, como exemplifica Antenor Nascentes.

É interessante ressaltar que este dicionário foi publicado em 1957. Pelas informações colhidas por informantes de faixas etárias mais altas (inclusive informantes que são falantes nativos do português de Portugal), a respeito do sentido de formidável, não foi encontrada nenhuma alusão à terrível, ou a qualquer referência que trouxesse um aspecto negativo de significado para esta palavra. Faltaria então acrescentar para este par de palavras, uma indicação de acepção arcaica.

Note-se, porém, que na definição de Antenor Nascentes,  aparece o verbo ser, conjugado no presente. Nos outros dicionários, também não se encontra nenhuma indicação que mostre esta acepção seja mesmo arcaica. Com isso, podemos perceber que nos três dicionários, existe uma  “mistura” de sinônimos, distribuídas sem uma forma de adequação que considere o fenômeno temporal de maneira mais criteriosa.

2) Sobre os verbetes ‘Traficante’  e  ‘Tratante’

Caldas Aulete

¡Traficante. ( tra-fi-kan-te ), adj e s. m.  ( ant. ) negociante, commerciante. || Fraudulento, tratante, embusteiro. |[ Actualmente é usado só n’esta accepção.]| || F. traficar + ante.

¡Tratante. ( tra-tan-te )adj. e  s.m. e f.  ( ant. ) que trata de negocios, que negoceia, que trafica. || Que usa de tretas, de ardis, de velhacarias : Roubou-me um tal tratante de Garcia, mecador que ahi jaz em Antas  morto. ( Garrett ) || F. Tratar+ ante.

Aurélio

¡Traficante. [ De traficar + -nte } Adj. 2. g. 1. Que pratica negócios fraudulentos. 2. Quem os pratica: A polícia prendeu o traficante de maconha. 3. Negociante, mercador.

¡Tratante. Adj. 2.g.1. Que trata de qualquer coisa ardilosamente, ou procede com velhacaria 2. Indivíduo tratante.[ Sin, nessas acepç. no RS  tratista] 3. Ant. Pessoa que trafica ou faz negócios: “Viam-se em palanques modestos os argentários do comércio- os  t r a t a n t e s, como então se dizia profeticamente e inconscientemente.” ( Camilo Castelo Branco,  Perfil do Marquês de Pombal, pg 27 ).

Antenor Nascentes

¡Traficante, tratante – traficante era o homem que traficava, comerciante, negociava. Tratante era o que tratava de negócios, mercador, negociante, comerciante. Modernamente, ambos pioraram de sentido, passando a significar fraudulento, velhaco.

Observações

Ao comparar as definições para traficante e tratante, de um ponto de vista histórico (que não precisa necessariamente ser diacrônico), podemos observar que certas mudanças de sentido ocorreram.

Nas definições do Aurélio, temos, numa só entrada, várias acepções, o que caracterizaria um tipo de homonímia. A terceira acepção para o verbete traficante parece ser  a arcaica, mas, não aparece nada  que indique que esta acepção seja um arcaísmo.

Desse modo, a definição não fica clara, e portanto pode causar confusão, pois poderíamos  concluir que as acepções possam ser tanto sinônimas, como homônimas.

As definições mais precisas a respeito deste fato estão nos dicionários Caldas Aulete, por colocar a indicação de arcaísmo e Antenor Nascentes, por colocar o verbo ser no tempo passado.

 

3) Sobre os verbetes ‘Cravo’ e ‘Canela’

Caldas Aulete

¡Cravo ( Krá-vu ) s.m. prego de cabeça estreita e aguçada, especialmente dos que se usam nas ferraduras. || Cada um dos pregos com que pregaram Christo na cruz. || Tumor na pelle formado pela obstrução de u folliculo sebaceo. || Tumor duro que se forma nos cascos do cavallo. || ( Bot. ) A flor do craveiro. || O craveiro, planta. (...) || Cravo da India ou cravo girofe (...) || Instrumento musico de teclado e cordas , maior que a espineta, que se toca com pequenos martellos ou penas. || F. lat. Clavus.

¡Cannela ( ka-né-la ) s.f. a casca aromática da canneleira de Ceilão. ( laurus cinnamonum ) [ apparece á venda enrolada em canudinhos de um amarello tostado, e é muito empregada ordinariamente em pó, como condimento.] || A canneleira ( arv. ) || (...) || Parte da perna desde o pé até o joelho. || ( tec. ) Canudo em que se enrola o fio na lançadeira e com que se faz a trama. || F. lat. Cannula.

 

Aurélio

¡Cravo (1) [ f. red. De cravo-da-índia ] s.m. A flor do craveiro.

¡Cravo (2) [ Do lat. Clavu ] S.m. 1. Prego para fechadura. 2. Prego com que os pés e as mãos dos crucificados eram fixados à cruz. 3. Afecção do folículo sebáceo. Med. Calo doloroso e aprofundado no derma, na planta do pé, como um cone.

¡Cravo (3) [ Do fr. Clavecin ] s.m. instrumento de cordas, com um ou dois teclados, da família da espineta e do virginal e cujo som é produzido por meio de plectros (...) que puxam as cordas, fazendo-as virar; clavecino, clavicímbalo (...)

¡Canela (1) [ Do it. Cannella, pelo fr. Ant canele. ] s.f. 1. Árvore da familia das lauráceas, originária de Sri Lanka ( cinnamonum zeylaricum ), cuja casca, odorífera, se usa como especiaria; caneleira, caneleiro, pau-canela. 2. A casca dessa árvore. 3. A cor semelhante à da canela. (2) 4. P. est. Pó obtido com a trituração da casca dessa árvore. (...)

¡Canela  (2)  [do lat.  *cannella por cannulla, ‘pequena cara’ ] s.f. 1. A parte da perna entre o joelho  e o pé (...)

¡Canela  (3) s.f. Pequeno canudo ou bobina em que se enrola o fio para tecelagem.

¡Canela  (4) [ Do fr. Cannelle. ] Bras. S.2.g. e adj 2.g. Rancocamecra

(Rancocamecra- indivíduo dos rancocamecras, tribo indigena Jê do MA, chamada canela pela população regional)

Antenor Nascentes

¡Cravo da índia, cravo de cabecinha, cravo girofe- Planta da famíia Myrtaceae (...)

¡Cravo da roça, cravorana – Planta da família Compositae (...)

¡Cravo do Maranhão, pau-cravo – Árvore da família Lauraceae (...)

Observações

Fazendo uma comparação  com o número de definições encontradas em  Caldas Aulete e no Aurélio com as de Antenor Nascentes, notamos que estes primeiros possuem maior quantidade de definições, e portanto, foram estes primeiros o objeto das reflexões trazidas aqui.

No Caldas Aulete, as mais diferentes acepções estão contidas em uma mesma entrada e são separadas por barras. Parece não haver divisão nenhuma entre homonímia e polissemia. Já no Aurélio, mesmo não havendo em seu prefácio critérios sobre a polissemia, existe um tipo de divisão que coloca tanto para cravo como para canela várias entradas enumeradas (e que aqui estão entre parênteses) para as palavras homônimas. Dentro de cada uma dessas entradas  existe uma numeração para as diferentes acepções encontradas, caracterizando a polissemia.

 

4) Sobre os verbetes ‘Apagão’ e ‘Caladão’

São neologismos que ainda não entraram no dicionário ( nem no Aurélio Século XXI )

Na Internet

1. Jurinforma- Jurisprudência online. Decrição:  Segundo entidade, dados desmentem informações sobre a causa do apagão de março.

2. O Dia online. Descrição: Domingo, 3 de setembro de 2000.  ENERGIA ELÉTRICA MAIS CARA Aumento real de 43%. Consumidor vai arcar com o custo da construção de novas termelétricas para evitar apagão e racionamento (...)

3.

4..

5. Jurinforma – Jurisprudência online. Descrição: Crea queixa-se de  dificuldade para apurar blecaute.

6.

7. Jurinforma- Jurisprudência online. Descrição:  Blecaute afeta DF, Goiânia e parte de MT.

8. PNL e você. Descrição: Editorial / Cursos / Ed. Anteriores / Artigos / Lazer / Fale conosco / Links Editorial Na noite do apagão fomos todos surpreendidos pela mudança.

Observações

O anglicismo blecaute, que vem de blackout, foi por vezes substituído pelo neologismo apagão. Já o neologismo caladão não foi encontrado e parece que deve ter sido criado  posteriormente à  apagão. Há a respeito deste fato, um comentário no  texto “Por que formação de palavras ?” – função denominadora, na página   23 :

“O sufixo aumentativo –ão  é usado não apenas para a indicação de grande dimensão ou excelência  (brilhantão, carrão ), mas também com a função de designação de objetos através do tamanho ou mesmo intensidade de alguma qualidade  ( Mineirão, orelhão, frescão, Minhocão, etc. (...) Os processos regulares  (de formação de palavras ) se mesclam com os resultados de cadeias ou extensões de sentido, acidentes históricos e, naturalmente, funções regulares ainda não conhecidas”.

Estas duas palavras,  apagão e caladão, podem nem vir a compor um verbete dentro de um dicionário, pois são palavras de uso restrito. Não é sempre que tem-se um blecaute, um apagão. Já um caladão pode mesmo ser considerado um neologismo “arcaico”, pois significou um fato único: O emudecimento dos telefones  em boa parte do país, durante um período em que estavam ocorrendo as instalações de serviços privados de telefonia.

5) Caldas Aulete: Introdução – a respeito de significação

Página XXI  em Significação

“No seculo XVIII todo o homem que começava a sua carreira commercial aspirava a conquistar o nobre título de traficante, hoje, ao contrario, procuram não merecer esta denominação”

Página XXIII em Significação

“Os neologismos são a manifestação da vida das linguas, são as folhas verdejantes e graciosas de que se revestem os idiomas, quando aquecidas pelo sol esplendido e vivificador da civilisação. Só não admittem neologismos as linguas mortas. Uma lingua pôde morrer, mas não envelhecer.

A lingua portuguesa hodierna não é a lingua de D. João III. Quem pretendesse representar a vida physica e moral das sociedades modernas com os termos exclusivamente empregados pelos auctores d’aquelle periodo, o mais brilhante da literatura classica, difficilmente o conseguiria. É por isto que a alta latinidade é ainda uma lingua mais pobre que a lingua portuguesa do seculo XVI.

Ao contrario dos neologismos, os archaismos são, por assim dizer, as excrecencias das linguas, o que ellas lançam de si e tende a morrer.

O neologismo em algum tempo tambem virá a ser archaismo, como o archaismo já foi em outra epocha neologismo. As palavras novas representam o progresso, como as antigas a tradição. Tal é a lei inevitável que abrange tudo que existe, e que em breve nos abrangerá tambem a nós.”

Observações

O texto introdutório do dicionário de Caldas Aulete, traz reflexões bem interessantes sobre a natureza dos neologismos e arcaísmos ao dizer: “o neologismo em algum tempo, virá a ser arcaísmo, como o arcaísmo já foi em outra época neologismo”  Talvez seja mais  “exato” dizer que  quase todas as palavras podem tornar-se arcaísmos, pois existem algumas que são “bem resistentes”. O tempo não parece ser igual para todas as palavras, assim como o tempo de uma borboleta não é igual ao tempo de uma  cequóia.

Uma outra reflexão interessante diz respeito ao fato de a língua portuguesa daquela época não ser mais a língua portuguesa de D. João III. No entanto o julgamento sobre o latim de determinado período ser mais pobre que o português de sua época não tem mais aceitação dentro do ponto de vista científico, e sim como uma opinião.

6) Antenor Nascentes: Introdução – a respeito de sinonímia.

“Desde a antiguidade se reconhece a utilidade do estudo da sinonímia. Amônio, no princípio do segundo século, escreveu uma obra com o título de Perì Honoìon Kai Diaphorón Léxeon ( Das expressões semelhantes de diferentes )

Só se pode alcançar a precisão de linguagem depois de bem determinada a diferençca de significação entre as palavras reputadas sinônimas.

Seria ocioso, como Roquete assinala, deter-se alguém a provar a utilidade do exame destas diferenças.

No exame dela não devamos porém, ser escrupulosos demais, sob pena de, em vez de auxiliar, trazer estorvos a quem fala ou escreve.

As diferenças às vezes se apresentam de tal modo sutis que se sentem, mas há dificuldade em explicá-las.

Para apreender bem o sentido dos sinônimos, convém partir sempre da significação etimológica, passando pelas significações antigas dentro da lingua e comparando muitas vezes com a significação nas línguas românicas.

São velhos os argumentos contra a existência de perfeitos sinônimos, que fariam com que houvesse duas linguas numa mesma lingua.

De facto, na maioria dos sinônimos há uma ideia geral, comum a todos, e ideias especiais, que se acham em cada um, mas há palavras verdadeiramente equivalentes numa parte e outras de um país, numa camada social e em outra; por conseguinte, existem sinónimos perfeitos.

Muitas vezes torna-se uma palavra por sinônima de outra, em virtude de não se haver perfeitamente apreendido o matiz da significação de cada uma.

(...)

A sinonímia representa em muitos casos as vacilações do espírito, em busca da expressão perfeita.

A lingua tem horror ao luxo, como faz sentir Hermann Paul; assim, a tendência quando há palavras de significação muito aproximada, é para caracterizar cada uma e arcaizar as desnecessárias.”

(...)

Observações

Em vários trechos desta introdução, podemos notar que Antenor Nascentes argumenta a favor da existência de sinônimos perfeitos. Usando algumas ferramentas da semântica argumentativa de Ducrot, vemos que no primeiro trecho grifado, parece haver duas direções de argumentação que estão colocadas em parágrafos separados. A direção de argumentação que prevalece, é a do segundo parágrafo. Podemos dizer que existe um conectivo mas não realizado, que muda a direção argumentativa. Assim, se fizermos uma paráfrase do primeiro grifo, conseguimos observar com maior nitidez a argumentação feita:

Seria ocioso deter-se alguém a provar a utilidade do exame das diferenças de significação entre as palavras reputadas sinônimas a fim de alcançar a precisão da linguagem.

No oitavo parágrafo, podemos ver que Nascentes faz uma conclusão à favor da existência dos sinônimos perfeitos. Assim, há, em sua introdução, um jogo argumentativo que considera a ocorrência da sinoníma perfeita como um dos fenômenos lingüísticos.

7a) Aurélio: Prefácio - a respeito de sinonímia, homonímia e antonímia.

“Neste dicionário é abundante a sinonímia. Inúmeras palavras vêm seguidas de sinônimos, que por vezes chegam a dezenas ou  - bem mais raramente – a mais de cem ( como em meretriz, cachaça  e diabo). Por outro lado, registram-se largamente homônimos e parônimos, e menciona-se fora, porção de antônimos.”

 No caso de homônimos com étimos diferentes, seriamo-los, pondo à direita de cada um deles um número alceado como um expoente em matemática.(...). Há casos de três, quatro, cinco e até mais desses homônimos.”

7b) Aurélio: definição de sinonímia, antonímia, homonímia e polissemia.

¡Sinonímia- (...) Qualidade ou caráter de sinônimo. (...)

¡Sinônimo. [ Do gr. Synonymon, pelo lat. Synonymon. ] Adj. 1.  Diz-se de palavra ou locução que tem a mesma ou quase a mesma significação que outra. (...) 3. Bot. Nome aplicado a uma espécie de vegetal posteriormente ao nome válido que é o primeiro, se este foi dado de acordo com as regras aceitas.

¡Antônimo. [ Do gr. Antónymon ] Adj. 1. Diz-se da palavra ou locução de significação oposta. (...)

¡Homônimo. [ Do gr. Homónynos, pelo lat. Homonymus. ] Adj e s.m. 1.  Que ou aquele que tem o mesmo nome. 2. Gram. Diz-se de, ou palavra que se pronuncia da mesma forma que outras, mas cujo sentido e escrita são diferentes ( os homófonos laço= laçada, lasso= cansado ) , que se pronuncia e escreve do mesmo modo, mas cujo significado é diverso ( os hoógrafos falácia= qualidade de falaz, e falácia= falatório). (...)

¡Polissemia. [ Do gr. Polisemía ] s.f. o ter uma palavra muitas significações. “ quando um termo se usa com várias acepções diz-se que há  polissemia.” (M. Said ali. Meios de Expressão e Alterações Semânticas pg 83.)

Observações

No prefácio do Aurélio, não há definição  para sinonímia, antonímia e homonímia. Há apenas uma informação quantificativa sobre suas ocorrências. Sobre a homonímia, é adotado um critério que coloca os homônimos numa mesma entrada. Mas não há nada sobre a polissemia.

Procurando diretamente nos verbetes do dicionário por estas definições, temos para sinonímia, antonímia e homonímia , uma entrada que começa com diz-se.  O diz-se  parece apontar para uma pessoa indefinida, que se torna responsável pelo dizer. Na definição para polissemia, há uma referência à Said Ali. No entanto, na definição de Said Ali, também encontramos o diz-se.

Podemos notar também, que existe uma concepção favorável para a questão das sinonímias perfeitas. Isso pode ser observado na seguinte parte da definição para sinonímia: “diz-se de palavra ou locução que tem a mesma ou quase a mesma significação que outra.

8) Caldas Aulete: definição de sinonímia, antonímia e homonímia.

¡Synonymia (  ssi-nu-ni-mi-a ) s.f. ( rhet.) figura pela qual se exprime a mesma coisa ou se repete a mesma idéia por palavra sunonyma.||  Concordancia dos diversos nomes dados a um mesmo objeto. || qualidade das palavras synonymas. || F. Synonymo+ ia.

¡Synonymo. ( ssi-nó-ni-mu ) adj. que tem a mesma significação ou quasi identica: morte e perecimento são palavras synonymas. || Que designa um mesmo objeto. || (...) || F. lat. Synonymon.

¡Antonymia. ( an-tu-ni-mi-a ) s.f. ( rhet. )  opposição de palavras, ou de nomes que offerecem um sentido contrário. || F gr. Anti+ onymos.

¡Homonymia. ( u-um-ni-mi-a ) s.f. caracter do que é homonymo. || Jogo de palavras fundado na semelhança de sons. || F. gr. Homonymus.

¡Polissemia – Não há.

Observações

Nas definições deste dicionário, apenas temos para sinonímia e antonímia, uma alusão à retórica, como origem do termo. Fazendo uma comparação com as definições do Aurélio, podemos perceber que o diz-se do Aurélio parece não fazer referência diretamente de uma fonte na retórica, como ocorre com estas definições no dicionário de Caldas Aulete.

Para a homonímia, a fonte não está indicada, mas tem-se a origem etimológica da palavra, que  vem do grego.

Nota-se, que neste dicionário, synonymo vem do latim, enquanto que antonymia e homonymia vem do grego.

9) Mattoso Câmara: definição de sinonímia, antonímia, homonímia e polissemia.

¡Sinonímia- Propriedade de dois ou mais termos poderem ser empregados um pelo outro sem prejuízo do que se pretende comunicar.(...)  “ É quase um truísmo que a sinonímia total é ocorrência extremamente rara, um luxo a que a linguagem dificilmente se dá” ( Ullmann, 1957, 108 ). (...)  A sinonímia é um fato essencialmente sincrônico, pois diz respeito à significação dos termos num estado lingüístico dado. A diacronia entra no estudo da sinonímia para explicar as causas que a determinaram em caso concreto. (...)

¡Antonímia- Propriedade de duas palavras terem significações opostas, tornando-se antônimos. A antonímia se apresenta sob três aspectos diferentes: 1) palavras de radicais diferentes; ex.: bom:mau; 2) palavras de uma mesma raiz, numa das quais um prefixo negativo cria oposição com a raiz da outra, negando-lhe o semantema; ex.: feliz, infeliz; 3) palavras de mesma raiz que se opõem  pelos prefixos de significação contrária; ex.: excluir, incluir. (...)

¡Homonímia- Propriedade de duas ou mais formas inteiramente distintas pela significação ou função, terem a mesma estrutura fonológica. (...) A homonímia é assim, nas línguas, uma deficiência do princípio geral d a distinção fonológica como base da distinção formal. Ela é possível sem prejuízo da comunicação lingüística em virtude do papel do contexto na significação de uma forma. (...) A  descrição lingüística tem de saber distinguir entre a polissemia de uma forma e a homonímia de duas ou mais formas. Há para isso dois critérios: 1) diacrônico, que considera homônimas apenas as formas convergentes da gramática histórica. 2) sincrônico, que considera homônimas as formas fonologicamente diferentes, cujas significações não se  consegue associar num campo semântico definido, o que nem sempre  é conseqüência  de se tratar de formas convergentes ( ex: cabo” acidente geográfico” e cabo “posto militar” .(...) Nem sempre a situação contextual é suficiente para afastar a ambigüidade resultante  da homonímia. (...) tendem a se simplificar por eliminação, ficando na língua uma só das formas homônimas. (...)

¡Polissemia- Propriedade da significação lingüística de abarcar toda uma gama de significações que se definem e precisam dentro de um contexto.(...) Todas as formas da língua apresentam polissemia. (...) As correspondências de formas de uma língua a outra, nunca e mantêm em todo o campo polissêmico que cada forma na sua língua abrange, o que complica a técnica de fatura do dicionário bilingüe e a tradução de língua a língua. A metáfora e a metonímia ainda tornam mais complexa a polissemia de cada forma lingüística.

Observações

Mattoso Câmara, procura definir os conceitos de sinonímia, antonímia, homonímia e polissemia, tendo para isso uma base teórica estruturalista. Há também exemplificações, (muitas destas exemplificações foram cortadas aqui) em contextos sintáticos e muitas reflexões importantes sobre estes fenômenos lingüísticos.

Nas introduções de Antenor Nascentes e Mattoso Câmara, foram encontradas argumentações que dão uma configuração muito parecida para questão da sinonímia perfeita. Antenor Nascentes, em sua introdução, recorre à Hermann Paul para falar que “a língua tem horror ao luxo, como faz sentir Hermann Paul; assim a tendência, quando há palavras de significação muito aproximada, é para caracterizar cada uma e arcaizar as desnecessárias.” Mattoso Câmara recorre à Ullmann para dizer: “É quase um truísmo que a sinonímia total é ocorrência extremamente rara, um luxo que a linguagem dificilmente se dá”.

10) Geraldi  e  Ilari: observações sobre as definições para sinonímia, antonímia, homonímia e polissemia

Não foram encontradas neste texto, as definições para as palavras sinônimas, antônimas, homônimas e polissêmicas, mas sim estas palavras exemplificadas em  enunciados.

Sobre a questão da polissemia, pode-se observar que neste texto, ela está relacionada com a ambigüidade. Mas, ao procurar algum exemplo de polissemia dentro de um encunciado, não fica claro se podemos considerar algumas palavras como polissêmicas, pois apenas estão mencionadas as palavras homônimas.

Fazendo uma comparação com as definições de Mattoso Câmara, podemos encontrar, nos exemplos de Geraldi e Ilari, a mesma preocupação com as palavras dentro de expressões sintáticas e de enunciados. Pois as palavras de uma língua não ocorrem na maioria das vezes de forma isolada, elas existem dentro de sentenças, enunciados e discursos.