O Português Arcaico do Século XV

Análise de um texto: a Crônica de D. Fernando de Fernão Lopes

 

Fábio Della Paschoa Rodrigues

 

Pouco se sabe da vida da, talvez, maior personalidade da literatura medieval portuguesa; somente sua profissão é, de fato, conhecida. Fernão Lopes, guardador das escrituras da Torre do Tombo, escrivão de livros do rei D. João I e escrivão da puridade do infante D. Fernando, deve ter nascido em Lisboa, de uma família do povo, entre 1378 e 1383. É considerado o maior historiógrafo de língua portuguesa, aliando a investigação à preocupação pela busca da verdade histórica. Correu a província à procura de informações e documentos que lhe serviram para escrever as várias crônicas “dos reis que antigamente em Portugal foram”, conforme designação de D. Duarte, em 1434, nomeando-o como cronista oficial do reino. Escreveu, com certeza, as crônicas de D. Pedro I, de D. Fernando e de D. João I. (Cf. Lapa, 1981 e Saraiva, 1966).

Analisaremos alguns aspectos fonológicos, morfológicos e sintáticos de uma crônica da Crônica de D. Fernando, sobre as “razões desvairadas” que o povo de Lisboa falava sobre o casamento de D. Fernando com Dona Leonor Teles, escrita na primeira metade do século XV e reproduzida logo mais abaixo. Apoiaremo-nos nas considerações feitas por diversos estudiosos (Teyssier, Mattos e Silva, Hauy, Paiva), adotando um esquema didático, que, se simplifica a análise, torna o trabalho mais sistemático e adequado à proposta de uma breve análise. Tal esquema é, de modo mais amplificado, adotado nas obras desses estudiosos, utilizadas como referência[1]. A intenção deste trabalho é fazer uma garimpagem dos aspectos do português arcaico, já estudadas e verificadas pelos lingüistas citados, neste texto de Fernão Lopes. Além disso, tal análise permitirá uma compreensão/comparação com nosso português moderno, de certa maneira ajudando a responder à questão levantada por Rosa V. Mattos e Silva: por que estudar o português arcaico?

 Os termos ou trechos citados da crônica, utilizados como exemplos na análise e constatação dos fenômenos fonético-fonológicos, morfológicos e sintáticos, são acompanhos de número(s) entre parênteses, indicando a(s) linha(s) do texto em que há a(s) ocorrência(s).

 

1

Razoões desvairadas, que alguuns fallavam sobre o casamento delRei Dom Fernamdo

2

Quamdo foi sabudo pello reino, como elRei reçebera de praça

3

Dona Lionor por sua molher, e lhe beijarom a maão todos por Rainha, foi

4

o poboo de tal feito mui maravilhado, muito mais que da primeira; por

5

que ante desto nom enbargando que o alguuns sospeitassem, por o

6

gramde e honrroso geito que viiam a elRei teer com ella, nom eram

7

porem çertos se era sua molher ou nom; e muitos duvidamdo, cuidavom

8

que se emfa daria elRei della, e que depois casaria segundo perteemçia

9

a seu real estado: e huuns e outros todos fallavam desvairadas razõoes

10

sobresto, maravilhamdose muito delRei nom emtemder quamto desfazia

11

em si, por se comtemtar de tal casamento. E delles diziam que melhor

12

fezera elRei teella por tempo, e des i casar com outra molher; mas que

13

esto era cousa que mui poucos ou ne nhuum, posto que emtemdessem

14

que tal amor lhe era danoso, o leixavom depois e desemparavom,

15

moormente nos mançebos anos. E leixadas as fallas dalguuns

16

simprezes, que em favor delle razoavom, dizendo que nom era

17

maravilha o que elRei fezera, e que ja a outros acomteçera semelhavel

18

erro, avemdo gramde amor a alguumas molheres; dos ditos dos

19

emtemdidos fundados em siso, alguuma cousa digamos em breve: os

20

quaaes fallamdo em esto o que pareçia, diziam que tal bem queremça

21

era muito demgeitar, moormente nos Reis e senhores, que mais que

22

nenhuuns dos outros desfaziam em si per liamça de taaes amores. Ca

23

pois que os antiigos derom por doutrina, que ho Rei na molher que

24

ouvesse de tomar, principalmente devia desguar dar nobreza de

25

geeraçom, mais que outra alguuma cousa, que aquel que o comtrario

26

desto fazia, nom lhe viinha de boom siso, mas de samdiçe, salvo se

27

husamça dos homeens em tal feito lhe emprestasse nome de sesudo: e

28

pois que elRei Dom Fernamdo leixava filhas de tam altos Reis; com que

29

lhe davom gramdes e homrrosos casamentos, e tomava Dona Lionor,

30

que tantos com trairos tiinha pera o nom ser, que bem devia seer posto

31

no conto de taaes. Outros diziam, que isto era assi como door da qual

32

ao homem prazia e nom prazia, dizemdo que todollos sabedores

33

concordavom, que todo homem namorado tem huuma espeçia de

34

samdiçe; e esto por duas razoões, a primeira por que aquello que em

35

alguuns he causa intrimseca das outras maneiras de sam diçe, he em

36

estes causa de taaes amores: a segunda por que a virtude extimativa,

37

que he emperatriz das outras potemçias da alma açerca das cousas

38

senssivees, he tam doemte em taaes homeens, que nom julga o ogeito

39

da cousa que vee tal qual elle he, mas tal qual a elle parece; ca el jullga

40

a fea por fremosa, e aquella que traz dampno seer a elle proveitosa; e

41

por tanto todo juizo da razom he sovertido açerca de tal ogeito, em tanto

42

que qual quer outra cousa que lhe consselhem, podera bem reçeber;

43

mas quamto açena de tal molher a elle prazivel, cousa que lhe digam do

44

boom comsselho nom reçebe, se o consselho he que a leixe e nom cure

45

delle, ante lhe faz huum acreçentamento de door, que he fora de todo

46

boom juizo; de guisa que se he tal pessoa o que comsselhou, de que

47

possa tomar vimgamça, tomaa assi como fez elRei Dom Fernamdo, que

48

mandou fazer justiça em alguuns do seu poboo, que o bem

49

comsselhavom em semelhamte caso, segundo ja teendes ouvido. [2]

 

1.   Fonética e Fonologia

Os encontros vocálicos decorrentes da queda de diversas consoantes, principalmente do ­-n-, do ­-l- e do ­-d- intervocálicos, formando hiatos, ainda são muito presentes neste texto de Fernão Lopes, apesar da tendência da sua eliminação no século XV, atestada nos poetas do final do século (Cf. Teyssier, 1997: 48ss). São inúmeros os exemplos de hiatos: razõoes (1,8), maão (3), poboo (4, 48), teella (12), moormente (15, 21), taaes (22, 31, 36), boom (26, 44, 46), homeens (27, 38), door (31, 45), senssivees (38), vee (39), teendes (49). Estes encontros vocálicos serão eliminados pela contração das duas vogais: door > dor, boom > bom, pela formação de um ditongo: senssivees > sensíveis ou pela colocação de uma consoante intervocálica: como em vĩo > vinho, não atestadas aqui; quando uma das vogais é nasal, o resultado da contração é também uma vogal nasal: maão > mão, razõoes > razões.

Na passagem do latim para o português, as vogais orais simples alternaram-se constantemente (Cf. Paiva, 1988: 34). Tal fenômeno é verificado neste texto de Fernão Lopes em molher/molheres (3, 7, 12, 18, 23, etc.) que evoluirá para mulher/mulheres; em Lionor (2, 29) > Leonor, fezera (12) > fizera, desemparavom (14) > desamparavm, espeçia (33) > espécie.

Os substantivos e formas verbais terminados em -am, -an, -om, -on eram inúmeros, facilmente verificados no texto analisado: beijarom (3), cuidavom (7), diziam (11, 31), leixavom (14), desemparavom (14), razoavom (16), desfaziam (22), geeraçom (25), davom (28), concordavom (33), consselhavom (49). Os substantivos evoluíram para -ão: geeraçom (25) > geração; as formas verbais passaram para -am ou -ão: beijarom > beijaram, cuidavom > cuidavam etc.

A forma atual não era quase sempre grafada nom no século XV. Nas crônicas de Fernão Lopes é somente essa a grafia, verificada em diversas passagens da crônica aqui analisada: nom (5, 6, 7, 10, 16, 26, 30, etc.).

No latim medieval aparece constantemente um p entre as duais nasais com a finalidade de preservar a nasalidade das duas consoantes (m e n) (Cf. Paiva, 1988:39 e Hauy, 1989: 113). Vemos esse fenômeno ainda em português arcaico, como na ocorrência de dampno (40) > dano.

Há ainda acréscimos e perdas de fonemas ou deslocamento de fonemas no interior de um vocábulo (Cf. Paiva, 1988:39): consesselhem (42) > aconselhem, prazível (43) > aprazível, comsselhavom (49) > aconselhavam.

O galego-português medieval distinguia quatro fonemas sibilantes (/ts/, /s/, /dz/ e /z/) que se conservam durante o século XV e, somente  por volta de 1550 começam a aparecer confusões na grafia (Cf. Teyssier, 1997: 59-61). Curiosamente, Fernão Lopes, nesta crônica, terá cometido, então,  alguns equívocos, grafando ç onde normalmente grafariam c: çertos (7), acomteçera (17), pareçia (20), samdiçe (26),  potemçias (37), açerca (37), reçeber (42), acreçentamento (45). Segundo Paiva (1988: 38) “o s forte com o som de ss podia aparecer no início ou no interior da palavra”. Em Fernão Lopes, ele é duplicado apenas no interior de palavra: sospeitassem (5), emtemdessem (13), simprezes (16), samdiçe (26),  intrimseca (35), comsselho (44) etc. Apesar da autora apontar que o s intervocálico com som de z também podia aparecer duplicado, encontramos apenas palavras grafadas com um único s na crônica: casaria (8), desemparavom (14), cousa (19), casamentos (29) etc. Com o r forte acontece também a duplicação somente no interior de palavra: razoões (1), homrrosos (29).

Percebe-se no texto várias separações equivocadas de palavras ou sílabas e aglutinações de clíticos aos verbos, devido, talvez, à não uniformidade da escrita bem como a divergências na pronúncia: emfa daria (8), maravilhamdose (10), ne nhuum (13), desguar dar (24). Há também variação na grafia de algumas consoantes: b por v - poboo (4), g por j - geito (6), m por n e vice-versa - enbargando (5), duvidamdo (7), comtemtar (11), homrrosos (29) etc.

 

2.   Morfologia e Sintaxe

2.1  Substantivos

Os substantivos em mento, provindos de temas verbais do infinitivo, e aqueles terminados em -ança,-ença, evolução fonética dos latinos -antia, -entia, destacam-se no vocabulário básico do português arcaico do século XV (Cf. Paiva, 1988:23). Ainda hoje temos diversos exemplos de tais nomes, ora conservados do português antigo, ora produzidos modernamente: instrumento, falecimento, desavença, mudança, doença etc. Vejamos alguns exemplos no texto de Fernão Lopes: [bem] queremça (20), liamça (22), husamça (27), casamentos (29), acreçentamento (45), vimgamça (47).

Já vimos que os substantivos terminados em ­-om, -am convergiram para -ão. O plural destes substantivos fixaram-se em -ãos, -ães e -ões, este último predominante: : geeraçom (25) > geração (pl. gerações).

Quanto ao número dos nomes, o morfema de plural do português arcaico é o mesmo do contemporâneo, o -s. Os exemplos são inúmeros no texto, facilmente notados, sem necessidade de arrolarmos uma lista de exemplos. Mas cabe ressaltar o plural de simples, que antigamente também recebia a marca de plural: simprezes (16). Além disso, o plural das palavras terminadas em -l variava, conforme precedido de a, e, o, u ou i: taaes (22, 31, 36), senssivees (38).

O artigo definido já ocorre sob a forma o, a, os, as. As formas lo, la, los, las aparece eventualmente. Aparece neste texto de Fernão Lopes o alomorfe -los, cuja ocorrência se dava quando precediam o artigo termos terminados em -s (Cf. Silva, 1993: 23): todollos sabedores (32).

Conforme anota Silva (1993: 31), hũũ, hũa  e seus compostos eram grafados sem a fusão ou transformações das vogais (> um, uma). Fernão Lopes adota a grafia huum, humma, huuns (9, 33, 45).

 

2.2  Adjetivos

A formação de adjetivos em -vel mostrou-se muito produtiva desde o século XV até os dias de hoje (durável, inflamável, vulnerável, suportável etc.). Nesta crônica temos dois exemplos: semelhável (17) e prazivel (43). O primeiro evolui para semelhante e ao segundo foi anteposto o sufixo –a, aprazível.

 

2.3 Pronomes

A forma lhe era invariável e somente séculos mais tardes passou a ter felxão de plural (Cf. Paiva, 1988: 44). Nesta crônica, porém, aparece sempre na forma singular: tal amor lhe era danoso (14), outra cousa que lhe consselhem (42). Os demonstrativos ainda apresentam a forma “reforçada” com a partícula *accu, mas em Fernão Lopes já não são usados. Encontramos:  aquel (25), aquello (34). Os possessivos femininos átonos ma, ta e sa já foram substituídos no texto: sua molher (3).

Segundo Silva (1993: 129) a ênclise era constante com o verbo em posição inicial; encntramos, porém, um “desvio” nesta crônica: o leixavom (14) em início de oração (embora esta não seja a principal), que, futuramente, distinguirá o português do Brasil.

Uma característica dos pronomes átonos do período arcaico é o fato de os clíticos muitas vezes mão estarem adjacentes aos verbos.

 

2.3 Verbos[3]

Ocorriam no português arcaico as construções ser, haver/ter + particípio passado, indicando um “ato consumado” (Cf. Silva, 1993:62). Os particípios passados da segunda conjugação  terminavam  em  -udo  (que vão ceder lugar a ­-ido. Logo no início da crônica essa forma verbal é usada: “Quando foi sabudo pello reino...” (2) > sabido. Especificamente neste texto analisado não ocorre ter/haver + pp., muito encontrados nos textos de português arcaico

O imperfeito já tinha a configuração atual: desfaziam (22), devia (24, 30), fazia (26), tomava (29), tiinha (30), diziam (31), prazia (32) etc., indicando ações inconclusas (este tempo verbal provinha do infectum latino).

No século XV há uma construção comum como uso de distributivosdelles, dellas ... outros, outras ou uns, umas, alguns, algumas ... outros, outras: alguuns sospeitassem (...) e muitos duvidamdo (...) e huuns e outros todos fallavam (5 a 7), e delles diziam (...). (10) Outros diziam (...) (31).

Ainda há a alternância entre leyxar e deyxar, aquele mais próximo da etimologia latina. Fernão Lopes usa apenas a forma mais arcaica: leixavom (14), leixadas (15), leixava (28).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

PROJETO VERCIAL – base de dados sobre Literatura Portuguesa. Endereço na Internet: www.ipn.pt/literatura

HAUY, Amini Boainain (1989). História da língua portuguesa – I. Séculos XII, XIII e XIV. São Paulo: Ática. (Série Fundamentos)

LAPA, R. (1981). “Fernão Lopes e os cronistas” In: Lições de literatura portuguesa: época medieval. Coimbra: Universidade de Coimbra.

PAIVA, Dulce de Faria. (1988) História da língua portuguesa – II. Século XV e meados do século XVI. São Paulo: Ática. (Série Fundamentos)

SARAIVA, A. J. (1966) “Fernão Lopes” In: História da literatura portuguesa. Porto: Porto Editora.

SILVA, Rosa Virgínia Mattos e. (1991) O português arcaico: fonologia. São Paulo: Contexto. (Repensando a língua portuguesa)

___________________________. (1993) O português arcaico: morfologia e sintaxe. São Paulo: Contexto. (Repensando a língua portuguesa)

TEYSSIER, Paul (1997). História da língua portuguesa. São Paulo: Martins Fontes.



[1] Vide as indicações bibliográficas para as referências completas das obras utilizadas na análise.

[2] Texto extraído do “Projeto Vercial”, no site da Internet: http://www.ipn.pt/literatura/lopes.htm

[3] Não trataremos da regência verbal.