ORDEM CANÔNICA DA ORAÇÃO E ADVÉRBIOS FOCALIZADORES NO PORTUGUÊS:
ASPECTOS SINTÁTICOS E PRAGMÁTICOS
[1]

Edson Rosa Francisco de Souza [2]

edsrosa@yahoo.com.br

 

Resumo: O trabalho busca descrever, com base na perspectiva funcionalista de Dik e Hengeveld, o papel dos advérbios focalizadores (exatamente, principalmente, justamente, somente, também) e sua co-ocorrência com a ordem especial de constituintes no Português Falado do Brasil, de acordo com suas funções sintáticas, semânticas e pragmáticas. Em outras palavras, o nosso objetivo é  verificar se o uso dos advérbios focalizadores constitui um mecanismo utilizado pelo falante para focalizar e, ao mesmo tempo, preservar a ordem linear dos constituintes da oração.

 

INTRODUÇÃO

Centrado na perspectiva funcionalista de autores como Dik (1989; 1997) e Hengeveld (1997) [3] , o presente trabalho tem por objetivo descrever a funcionalidade dos advérbios focalizadores (exatamente, principalmente, justamente, somente, também etc.) e sua co-ocorrência com a ordem especial de constituintes no português falado do Brasil (PB). Em termos gerais, o nosso objetivo é analisar as razões sintáticas, semânticas e pragmáticas que favorecem o uso desses mecanismos de focalização na atribuição de Foco a determinados constituintes da oração. Dessa maneira, por estar situado no universo da ordem de palavras, o nosso objetivo maior é verificar se o uso desses advérbios constitui um mecanismo utilizado pelo falante para focalizar e, ao mesmo tempo, preservar a ordem linear dos constituintes na oração, isto é, se esse uso está relacionado à manutenção da ordem canônica dos termos da oração. Num segundo momento, a nossa tarefa é investigar por que esse mecanismo de focalização co-ocorre com uma outra estratégia, se a ordem especial de constituintes, bastante recorrente entre as línguas do mundo, por si só já bastaria para marcar a função Foco

Nesse contexto, considerando a importância da proeminência prosódica no Inglês, que é, segundo Van Valin & LaPolla (1997), uma língua de estrutura sintática rígida e estrutura de foco flexível, nossa expectativa é a de que os advérbios focalizadores (AdvFs) exerçam no PB a mesma função que a proeminência prosódica exerce no Inglês, que é a de focalizar qualquer constituinte da oração sem alterar sua ordem. 

 

1. SOBRE OS ADVÉRBIOS FOCALIZADORES

Em um conhecido trabalho sobre a classe dos advérbios, Ilari et alii (1990) e Ilari (1992) identificam a focalização como uma das muitas funções exercidas por essa classe, considerada extremamente heterogênea (cf. Mackenzie, 2001; Hengeveld, 1997). Advérbios como exatamente, justamente e principalmente, que “chamam a atenção para o papel semântico de uma expressão próxima” (Ilari et alii, 1990, p.76) ou “aplicam a algum constituinte um carimbo de ‘conferido’, sugerindo que o locutor está de posse dos resultados de alguma verificação” (id. ibid.) são agrupados ao lado de advérbios que indicam inclusão ou exclusão, como também e , por “darem destaque a um constituinte da sentença”.

A esse respeito, em um estudo voltado exclusivamente para o uso dos AdvFs no português, Ilari (1992) busca trazer uma definição um pouco mais refinada acerca do estatuto focalizador dos advérbios em questão, vista a seguir:

diremos que uma expressão adverbial realiza uma operação de focalização no sentido que estamos procurando caracterizar quando: (i) aplicada a um segmento da oração... (ii) explicita que esse segmento fornece informações mais exatas que a média do texto, em decorrência de uma operação prévia de verificação... (iii) que por sua vez implica um roteiro próprio, por exemplo, a comparação implícita com algum modelo ou parâmetro recuperável no co(n)texto. (Ilari, 1992, p.196)

Na ocorrência (1), por exemplo, o advérbio principalmente exerce a função de focalizador, atuando sobre um satélite s2 com a função semântica de Lugar (em Altamira).

         (1)     mas em alguns dos dese­nhos das cavernas principalmente em Altamira...há uma fidelida­de...linear à natureza que consegue mostrar os animais:: (EF/RJ/405:395) [4]

Como se pode observar na ocorrência acima, o satélite [5] em negrito constitui o escopo do advérbio em questão. Para o discurso, a expressão “em Altamira” caracteriza uma informação nova (Chafe, 1976), o que justifica a atribuição da função pragmática Foco a esse constituinte. Ao fazer isso, o emissor presume que o destinatário possui uma parte de informação correta, mas também acredita numa outra que está incorreta. Contudo, focalizar uma informação que o falante considera mais importante não é, a nosso ver, a única razão para o grande número de AdvFs no PB. Assim, sem perder de vista o nível sintático da oração, lugar em que se situa um dos principais objetivos do nosso trabalho, pode-se constatar que a maior parte dos estudos publicados sobre Foco, em especial, sobre o funcionamento dos AdvFs, não procura questionar a relação existente entre a estrutura de foco e a estrutura sintática. É claro que, para muitos autores funcionalistas e gerativistas, o Foco pode ser marcado pela ordem especial de constituintes, no entanto, o que nos interessa saber é o que os AdvFs fazem de diferente na estrutura da oração que as outras estratégias de focalização não fazem. Como dito anteriormente,  na introdução, a nossa expectativa é a de que o funcionamento desses AdvFs possa ser comparado ao da proeminência prosódica no Inglês, que focaliza um elemento sem alterar a ordem canônica da oração (cf. Van Valin & Lapolla, 1997), assim como se visualiza em (2) e (3):

           

         (2)     a.   DANA sent the book to Leslie yesterday.

                        DANA enviou o livro para Leslie ontem.

                  b.   Dana sent the book to LESLIE yesterday.

                        Dana enviou o livro para LESLIE ontem.

        

         (3)     a.   e você vai num país desenvolvido não há aquele que não trabalhe...que não faça alguma coisa...até os velhos...sujeito de setenta...setenta e cinco anos está fazendo alguma coisa... (D2/RJ/355:1040)

                  b.  eu por exemplo estou acostumada a comer verdura e carne...eu tive muita dificuldade em me alimentar lá [no norte]... (DID/RJ/328:128)

Como se vê, em ambas as línguas, a ordem SVO da oração mantém-se inalterada, sendo o Foco marcado ora pela proeminência prosódica ora pelos AdvFs. Em (2), o sujeito e o objeto da oração são focalizados por meio da proeminência prosódica, sem provocar nenhum tipo reestruturação sintática. Já em (3), o sujeito e o objeto são focalizados por meio de dois advérbios distintos (até e ), apresentando, assim, um comportamento bastante semelhante ao da proeminência prosódica no Inglês, em que as duas estratégias focalizam um constituinte sem alterar a ordem canônica da oração.

 

2. A RRG DE VAN VALIN & LAPOLLA

Apresentada atualmente como parte integrante da RRG (Role and Reference Grammar), a teoria de Lambrecht (1986; 1987) referente à Estrutura de Foco só foi devidamente absorvida em Foley & Van Valin (1993). A estrutura de foco é entendida nesse modelo como o sistema gramatical que serve para indicar o escopo da afirmação em uma expressão ou enunciado em contraste com a pressuposição pragmática. Uma inovação na RRG é a distinção entre o domínio de foco potencial (potential focus domain), isto é, o domínio sintático da oração onde o Foco pode cair, e o domínio de foco real (actual focus domain), isto é, a parte da oração que é de fato focalizada. Segundo Van Valin, as línguas variam em termos de como o domínio de foco potencial é restringido, seja em orações simples ou em orações complexas; e essa variação é reflexo de diferenças gramaticais importantes para as línguas. De posse dessa distinção, Van Valin (1999) destaca que a língua que apresenta uma estrutura de foco flexível é aquela cujo domínio potencial de foco pode ser qualquer constituinte da oração; já aquela cujo domínio potencial se limita a uma parte da oração apresenta uma estrutura de foco rígido.

Com uma definição bastante similar a de autores como Prince (1981), Van Valin & Lapolla (1997) assinalam que é a relação com uma informação velha que torna nova uma informação no processo comunicativo, pois é a informação velha que traz todas as pressuposições evocadas para formar o contexto necessário para a compreensão do enunciado. Para esses autores, o Foco é a parte da asserção que não está dentro da pressuposição pragmática do ouvinte ou que é irrecuperável no contexto. O que Dik (1989) entende por escopo do Foco, Van Valin & Lapolla entendem como domínio do Foco.

Embora mencione algumas línguas que apresentam casos especiais de atribuição de Foco, com regras bastante refinadas, Dik (1989) não desenvolve um sistema tipológico com base nas diferentes possibilidades de atribuição Focal, o que aparece mais bem trabalhado na RRG de Van Valin & Lapolla (1997). Conforme já destacado, em sua teoria sobre a estrutura de Foco (em relação com a estrutura sintática), Van Valin & Lapolla fazem uso de uma classificação proposta por Lambrecht (1994) para desenvolver os estudos tipológicos a partir das diferentes estratégias gramaticais de atribuição de Foco, cujos critérios de classificação se assentam na distinção entre Foco estreito (Narrow focus) e Foco amplo (Broad focus).

No que diz respeito às estratégias de focalização, mais especificamente no português, poucos são os trabalhos que tentam analisar a relação dos AdvFs com a manutenção da ordem canônica dos constituintes da oração. Daí, a nossa opção por estabelecer um diálogo entre a Gramática Funcional de Dik (1989) e  a Role and Reference Grammar (Gramática de Papel e Referência) de Van Valin & Lapolla (1997), para os quais a estrutura de Foco é sempre analisada em relação à estrutura sintática.

 

3. MODELO FUNCIONALISTA DE DIK

Segundo o ponto de vista funcional, uma língua natural deve ser considerada, primeiramente, “como um instrumento de interação social por meio do qual seres humanos podem se comunicar uns com os outros e, assim, influenciar mutuamente as atividades mentais e práticas” (Dik, 1980, p.1). Nesse sentido, o funcionalismo [6] considera que “a situação comunicativa motiva, restringe, explica ou determina a estrutura gramatical” (Nichols, 1984, p.97). No contexto da Gramática Funcional, mais especificamente nos limites teóricos da Gramática Funcional de Dik (1989), o Foco é entendido como a informação mais importante ou saliente em uma dada situação comunicativa, parte considerada pelo falante como essencial à informação pragmática do ouvinte. Nesse sentido, a informação focal constitui, nas palavras de Dik (op. cit.) e Braga (1999), o quadro de mudanças que o falante deseja efetuar na informação pragmática do ouvinte (adicionar ou substituir alguma informação).

Com base nesse arcabouço teórico, Dik (1989) assinala que a atribuição de Foco a um determinado constituinte da oração é o que justifica, por exemplo, a presença de uma ordenação especial dos termos da oração ou a utilização de AdvFs, uma vez que esses mecanismos constituem duas das principais estratégias de Foco [7] utilizadas pelo falante para colocar em destaque uma dada informação que ele considera importante para ser integrada à informação pragmática do ouvinte (cf. Braga, 1999).

Por essas e outras colocações, Halliday (1985) destaca que a gramática funcional procura concentrar a atenção nos usuários e nos usos da língua, mediante uma valorização do receptor, do emissor e da variação lingüística no quadro gramatical. De acordo com Neves (1997), no modelo teórico de Dik (1989), os componentes sintáticos e semânticos encontram-se integrados a uma teoria pragmática, que, por sua vez, envolve a intervenção:

a)       dos papéis envolvidos nos estados de coisas designados pelas predicações (funções semânticas);

b)       da perspectiva selecionada para apresentação dos estados de coisas na expressão lingüística (funções sintáticas);

c)       do estatuto informacional dos constituintes dentro do contexto comunicativo em que eles ocorrem (funções pragmáticas).

Trata-se de uma teoria que procura, segundo Gebruers (1984 apud Neves, 1997), oferecer “um quadro para a descrição científica da organização lingüística em termos das necessidades pragmáticas da interação verbal, na medida em que isso é possível” (p. 349). Tendo em vista esse princípio, Dik (1989; 1997) destaca que para se chegar às expressões lingüísticas superficiais, são necessárias regras de colocação para atribuírem posições aos constituintes de uma dada estrutura subjacente. Essas regras, segundo o autor, obedecem a certos princípios que determinam as possíveis seqüências dos constituintes da oração. Assim, essa teoria de ordenação postula que cada língua apresenta um ou mais padrões funcionais, segundo o esquema geral em (4).

         (4)     P2, P1 (V) S (V) O (V), P3 [8]

A operação das regras de colocação [9] , segundo Dik (1989), ocorre de tal maneira que, em primeiro lugar, são alocados os constituintes que podem ocupar a posição P1, tais como palavras-Qu, pronomes relativos e conectores subordinativos. Se nenhum constituinte desse tipo estiver presente, então, podem ser colocados em P1 constituintes com as funções pragmáticas de Foco (informação de maior saliência), Tópico (sobre o que se fala) ou Organizador de Cenário (situa o EsCo em relação às coordenadas de tempo, espaço e circunstância), proposta por Hannay (1991) e Bolkestein (1998), e investigada por Cucolo (2002) em seu trabalho sobre os satélites de nível 1 e 2, no português falado do Brasil. Dessa maneira, a ocorrência (5) a seguir indica um satélite s2 de Lugar que exerce a função pragmática de Organizador de Cenário, responsável por situar o EsCo no quadro espacial (de lugar) dos interlocutores.

(5) Inf      esse jantar dançante... é assim vamos (lá)...eles ah...(...) então depois naquele jantar eles sorteiam outros casais...uns:: quatro casais... para Organizarem outro...jantar (DID/POA/45:23)

Assim sendo, para Neves (1994, p.109), qualquer abordagem funcionalista de uma língua natural, na verdade, tem como questão básica de interesse a verificação de como se obtém a comunicação com essa língua. Isso implica considerar as estruturas das expressões lingüísticas como configuradoras de funções, sendo cada uma das funções vista como um diferente modo de significação na oração. É por essa razão que autores como Dik (1989), Pezatti (1998) e Connolly (1998) assinalam que as expressões lingüísticas só podem ser devidamente compreendidas, quando levadas em consideração as informações contextual e situacional disponíveis aos interlocutores no momento da interação, já que é durante esse processo em que muitas de suas propriedades (formais e funcionais) são codeterminadas.

 

4. ORDENAÇÃO DOS CONSTITUINTES DA ORAÇÃO NA PRESENÇA DE ADVFS

Como dito, uma de nossas perguntas de pesquisa está relacionada à funcionalidade dos AdvFs na oração. Dessa forma, a fim de verificarmos se o uso dos AdvFs é um mecanismo utilizado para focalizar e, ao mesmo tempo, preservar a ordem linear dos constituintes na oração, os dados [10] foram analisados com o intuito de constatar se esses mecanismos de focalização estão de fato relacionados à manutenção da ordem canônica dos constituintes da oração. É o que se observa nos dados da tabela 1 a seguir:

 

Ocorrências

 

n.

%

Ordem não-marcada

349

93

Ordem marcada

25

7

TOTAL

374

100

Tabela 1. Ordenação dos constituintes da oração na presença de AdvFs

Conforme se verifica na tabela acima, quando analisada na presença de AdvFs, a ordem dos constituintes só se mostrou alterada em 7% (25/374) das ocorrências contra 93% (349/374) dos dados em que a ordem aparece não-marcada. A esse respeito, Dik (1989) assinala que uma construção é mais marcada à medida que é menos esperada no contexto, conseqüentemente, quando uma construção marcada ocorre, ela exige mais atenção.

Sobre esse aspecto, Van Valin (1999), ao discutir questões de Foco, destaca que o russo, o polonês, o latim e o português são línguas que apresentam uma estrutura sintática menos rígida e, por isso, a ordenação especial de constituintes aparece como uma das estratégias mais utilizadas para a marcação de Foco, o que as difere do Inglês e do Toba Batak, língua do oeste da Indonésia, cujo Foco, em geral, é marcado pela proeminência prosódica [11] , em razão de sua ordenação sintática ser bem mais rígida. Segundo o autor, o que justifica a freqüência relativamente maior de proeminência prosódica no Inglês é o fato de essa estratégia não implicar nenhum tipo de reestruturação sintática para acomodar o Foco. Sendo assim, pode-se dizer que o uso expressivo de AdvFs no português brasileiro é, segundo Souza (2003b), perfeitamente comparável ao da proeminência prosódica no Inglês, tal como apontado por Martinez-Caro (1998) e Van Valin & Lapolla (1997). Além disso, quando observada juntamente com os AdvFs, nota-se que a ordem dos constituintes da oração só é alterada em razão de algum interesse comunicativo (especial) do falante, assim como mostram as ocorrências (6) e (7), que constituem claramente casos de objetos (A2) alocados na posição inicial da oração (P1), com a função pragmática Foco:

                                  

         (6)     Loc    a gente faz uma comida que a (titia) chama de jardineira com couvinha minei­ra...faz couvinha mineira junta com...aquela couvinha bem parti­dinha ba/ faz na::...na...frigideira...depois põe em cima da carne e põe os legumes em cima...a gente usa muito esse tipo de comida aqui em casa...por exemplo...chuchu também ela refo­ga...faz ((confuso)) e aí a gente come com a carne as/ por exemplo faz o que a gente chama aqui em casa de trouxinha... (DID/RJ/328:418)

         (7)     L1      eu tenho um conhecido...aliás...um amigo comum nosso que ele é especialista em comida internacional então vai faze(r) uma comida chinesa india­na...qualque(r) coisa...até incenso ele queima...ah...só falta música ambiental...só falta eu me vesti(r) a rigor (D2/POA/291:107)

Cabe notar que, em (6) e (7), os constituintes “chuchu” e “incenso”, alocados na posição inicial da oração, servem à função pragmática Foco, cujo objetivo é ressaltar a informação relativamente mais importante no contexto comunicativo. Nesses casos, o que leva o falante a focalizar, por meio de um elemento adverbial, um constituinte já alocado na posição P1 da oração é a tentativa de impedir que certos constituintes focais sejam interpretados pelo ouvinte como Tópico ou Organizador de Cenário. Assim, para evitar que isso aconteça, o falante utiliza duas ou mais estratégias de focalização para deixar bem claro qual é a sua intenção comunicativa. Ou seja, a intenção do falante é o que explica, na nossa opinião, a dupla marcação de Foco nos dados do PB (AdvFs + Ordem especial).

Resumindo o que se disse sobre essas ocorrências, temos o seguinte:

(6’)        chuchu                 também                  ela                 refoga

              P1Foco                AdvF                     S                     V

(7’)        até                       incenso                   ele                 queima

             AdvF                      P1Foco                  S                     V

Tanto em (6’) quanto em (7’), a ordem SVO dos constituintes da oração aparece alterada, com o objeto alocado no início da oração. Contudo ocorrências como essas correspondem, conforme já destacado, a apenas 7% (25/374) do total dos dados, o que, por sua vez, comprova a nossa hipótese de que os advérbios constituem uma das principais estratégias utilizadas pelo falante para focalizar algum constituinte, sem que para isso seja necessário alterar a ordem não-marcada dos constituintes da oração. Nesse sentido, os casos de co-ocorrência de estratégias de focalização atrelados à ordem especial são, certamente, os únicos exemplares do corpus que se mostraram responsáveis pela mudança de ordem dos constituintes oracionais. No tocante aos demais tipos de co-ocorrência de estratégias (AdvF + Proeminência prosódica; AdvF + Construção clivada), a ordem dos termos da oração permaneceu inalterada, com o Foco sendo marcado pelas formas adverbiais (aqui em discussão).

Com relação à ordem não-marcada, as ocorrências (8) e (9) exemplificam casos em que os advérbios também e focalizam, respectivamente, o sujeito “o Brasil” e o complemento verbal “o legume”, conforme se observa abaixo:

(8)     L1      agora...você falou em problema estatal...não é? o Brasil também está caminhando pra economia estatal...e como eu leio aí nos jornais – a gente não é dessa área..né? quer dizer...desse setor – mas você vê ...um absurdo o Brasil...a Companhia Siderúrgica Nacional no balanço apresentado..alto prejuízo...como é que uma companhia de aço... produtora...de...de aço...pode dar prejuízo? (D2/RJ/355:1140)

(9)     Inf      quando eu como muita coisa [...] bata::ta.. macarrão:::pão::‑‑ quando eu por um acaso...tiver comido isso de manha...à noite então eu faço um::um balanço...e procuro tirar as coisas as outras coisas que possam vir a engordar ‑‑feijão‑‑ então tudo aquilo ‑‑arroz‑‑ aí eu como o legume realmente e a fruta...o que eu não posso realmente é deixar...de comer coisas salgadas à noite... (DID/RJ/328:18)

Nessas ocorrências, para acomodar a função pragmática Foco, a ordem dos constituintes da oração não sofre nenhum tipo de mudança (em termos do padrão de ordenação SVO do português), o que mais uma vez corrobora a nossa hipótese defendida ao longo do trabalho. Resumindo o que dissemos das ocorrências acima, temos o seguinte:

(8’)       o Brasil          também         está         caminhando       para economia estatal

                  SFoco           AdvF             Aux                 V                       O

(9’)       eu                  como                só                     o legume

               S                    V                 AdvF                      OFoco

Até mesmo em construções do tipo VS, a ordem dos termos da oração costuma se manter inalterada (não-marcada), assim como se verifica na ocorrência (10):  

(10)    Inf      Brailowski não sei se... se esteve aqui foi Ba/Backaus... Jorge Demus... e tantos outros que têm aí que nem sei... mais outros pianistas que a gente foi...lembro quando o Rubinstein tocava mas estava CHEIO o:: . ..o teatro todo né?... até aquelas galerias o balcão de segunda a gente em PÉ... ahn:: nos corredores botaram cadeiras tudo... e depois veio também o Giglio não sei se vocês já...viram:: (DID/POA/45:591)

Em construções como essas, é natural que o sujeito venha posposto ao verbo da oração, principalmente naqueles casos em que P1 já estiver ocupada. Em (10), a ordem P1VS não sofre nenhum tipo de reestruturação sintática para marcar o Foco “o Giglio”. Segundo Pezatti (2003), pelo fato de ser uma língua SVO, o PB mostra-se relativamente rígido com relação à colocação dos argumentos sujeito, objeto e oblíquo (A1, A2 e A3), preservando geralmente o esquema P1SVO. Todavia, mostra-se mais acessível à alteração da ordem canônica com constituintes satélites, ou seja, constituintes lexicais opcionais que veiculam informação adicional a uma das camadas no modelo hierárquico da oração. A ocorrência (11) representa um caso de satélite (adjunto adverbial) alocado no início da oração, com a Função Foco [12]

           

         (11)    Inf      e podendo inclusive...eleger...representantes....para que esses mesmos representantes...sejam...seus porta vozes...possam com isso propor...legislar fazer ver inclusive ao poder executivo... ver que determinadas classes...são carentes de determinadas...questões...e que através desses representantes é que evidentemente se pode chegar... a um denominador comum...ou a uma solução... (DID/RE/131:311)

Em (11), verifica-se que, apesar de o satélite ser focalizado por meio do AdvF e da clivada é que, ele não poderia estar em P1, visto que ela já está ocupada pelo constituinte-P1 [13] , representado pelo relator subordinativo que. Assim, o fato de ser Foco e não estar em P1 é uma das justificativas para a incidência de outras estratégias de Foco sobre o satélite, tais como o advérbio e a clivada. Em outros termos, tem-se:

 

(11’)      que       só      através desses representantes       é que    se pode    chegar

                      P1   AdvF                 PaFoco                              Cliv         Aux         V

Nesse contexto, quando um falante opta, por exemplo, por alocar os constituintes adverbiais no início da oração, a ordem não-marcada dos satélites é alterada em favor de algum interesse pragmático. No entanto, quando o falante deseja focalizar algum constituinte sem alterar demasiadamente a ordem canônica da oração, ele faz uso dos AdvFs para tal tarefa. Em (11), diferentemente das ocorrências (6) e (7), a ordem não-marcada dos termos argumentais da oração (A1, A2 e A3) não sofre nenhum tipo de alteração; só o satélite de instrumento através desses representantes é alocado em Pa. 

A ocorrência (12), abaixo, exemplifica um caso em que o Adv focaliza um satélite s1 com a função semântica de Beneficiário, alocado em sua posição não-marcada:

(12)    L2      exatamente né? então vamos tentar:: ( ) ver se conseguem      

         L1      isso

L2      agora é uma carreira muito boa principalmente para mulher  (D2/SP/360:635)

Tanto em (11) quanto em (12), a ordem SVO da oração não sofre nenhuma alteração. Em (12), o satélite “para mulher”, focalizado pelo Adv principalmente, encontra-se alocado em sua posição não-marcada, isto é, a posição final da oração [14] . No tocante ao princípio de ordenação do PB, Cucolo (2002) e Pezatti (1998) acreditam que as alterações da ordem canônica dos constituintes da oração podem ser explicadas em função de razões pragmáticas e semânticas. Tendo trabalhado com essas mesmas funções, Martín Arista (1994) também assinala que é o componente pragmático que determina a ordem em que as estruturas prosódicas e sintáticas se sucedem, assim como a relação que se estabelece elas.

Com base nos exemplos apresentados aqui, pôde-se verificar que para preservar a ordem não-marcada da oração recorre-se aos AdvFs. No nosso caso, a ordem SVO só é quebrada em função de algum interesse pragmático ou, mais especificamente, naqueles casos em que o AdvF co-ocorre com ordem especial para a marcação do Foco.

 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como vimos, para a Gramática Funcional de Dik (1989), o Foco constitui a informação mais saliente ou importante que o falante deseja acrescentar ao conhecimento pragmático do ouvinte. Nesse sentido, o objetivo do falante ao focalizar, por exemplo, um satélite ou um constituinte qualquer, no interior da oração, por meio de AdvFs, é fornecer informações que ele considera essenciais para o seu interlocutor. Nesse contexto, foi possível verificar que os AdvFs constituem a principal estratégia de focalização utilizada pelo falante para focalizar algum constituinte da oração, sem que para isso fosse necessário alterar a sua ordem para acomodar a Função Pragmática Foco. Isso confirma que o uso expressivo de AdvFs no português brasileiro é perfeitamente comparável ao da proeminência prosódica no Inglês, cuja função é marcar o Foco sem alterar a ordem canônica da oração para a mesma finalidade, tal como apontado por Martinez-Caro (1998) e Van Valin & Lapolla (1997). No entanto, esse resultado aponta que o PB, diferentemente da classificação dada por Van Valin (2003), não apresenta uma estrutura sintática totalmente flexível.

No caso da co-ocorrência de estratégias de focalização, quando algum constituinte é alocado em P1, mesmo com a presença de AdvFs na oração, observou-se que a ordem não-marcada é alterada em favor de algum interesse especial do falante. O total de 25 ocorrências com ordem marcada se refere exclusivamente aos casos em que os AdvFs co-ocorrem com a ordem especial para marcar o Foco. Nesse sentido, por pressupor que a sua mensagem pudesse ser interpretada de forma equivocada pelo interlocutor, o falante procura lançar mão de outros mecanismos para reforçar que determinada informação deve ser entendida como Foco, e não como Tópico ou Organizador de Cenário, por exemplo (cf. Souza, 2004).

 

 

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Notas

[1] Neste artigo, apresento algumas questões da minha Dissertação de mestrado “Os advérbios focalizadores no português falado do Brasil: uma abordagem funcionalista”, desenvolvida sob a orientação da Profª Drª Marize Mattos Dall’Aglio Hattnher – UNESP/Campus de São José do Rio Preto, com o apoio da FAPESP (Proc. nº  02/12621-5).

[2] Doutorando do programa de Pós-graduação em Lingüística (IEL/UNICAMP) e membro do GPGF (Grupo de Pesquisa em Gramática Funcional), coordenado pela Profª Drª Erotilde Goreti Pezatti, com sede no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas  – IBILCE/UNESP.

[3] Conforme Neves, o que se analisa na Gramática Funcional são as frases efetivamente realizadas, para cuja interpretação se atribui especial importância ao contexto, tanto verbal como não-verbal.

[4] Nos exemplos, os AdvFs serão representados pelo sublinhado e o escopo pelo negrito. 

[5] De acordo com Dik et alii (1990) e Hengeveld (1997), os satélites (advérbios) podem ser classificados em cinco categorias: satélites de predicado 1): meio lexical que especifica o estado-de-coisas designado pela predicação nuclear; satélites de predicação 2): localiza o estado-de-coisas da predicação em um mundo real ou imaginário; satélites de proposição 3): especifica a atitude do falante acerca do conteúdo da proposição; satélites ilocucionários 4): meio lexical que modifica ou especifica o valor ilocucionário de um ato de fala; satélites oracionais5): localiza o enunciado do falante dentro do contexto discursivo, restringido o conjunto de perlocuções potenciais do enunciado.

[6] Pode-se dizer que a Escola Lingüística de Praga, em voga nos anos 40 e 60, constitui o berço do funcionalismo atual. Nessa época, Mathesius (1970 apud Firbas, 1974), visto como um dos principais representantes dessa corrente, já destacava, em seus trabalhos, que na comunicação as formas lexicais e gramaticais de uma língua são produzidas para servir a um propósito especial imposto sobre elas pelos falantes no momento da interação. Segundo Neves (2001), a Escola Lingüística de Praga é a designação que se dá a um grupo de estudiosos que começou a atuar antes de 1930, para os quais a linguagem, acima de tudo, permitia ao homem reação e referência à realidade extralingüística.

[7] Para Dik (1989), as funções pragmáticas intra-oracionais dizem respeito ao status informacional dos constituintes de uma oração em relação à situação comunicativa.  

[8] Para Pezatti & Camacho (1997), o padrão geral de ordenação para o PB é esquematizado por: P2, P1 (S) V (S) O X, P3, em que o X é usado para indicar a posição dos satélites adverbiais.

[9] P2 e P3 são as posições reservadas, respectivamente, para Tema (Theme) e Antitema (Tail), e as vírgulas indicam pausas entoacionais.

[10] Os dados são provenientes do corpus mínimo do Projeto de Gramática do Português Falado (PGPF), de diferentes capitais brasileiras, a saber: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Salvador.

[11] Em estudo sobre o uso das estratégias de focalização, Brentan (2001) verificou que a proeminência prosódica, de fato, é a estratégia mais utilizada no Inglês para a marcação de Foco.

[12] Como constituintes da oração propriamente dita, estamos considerando apenas os termos argumentais (A1, A2, A3). Já os termos não-argumentais, típicos da predicação estendida, também são considerados, porém, apenas para se referir ao processo de co-ocorrência de estratégias de focalização.  

[13] Segundo Cucolo (2002), ocorrências como (11), no entanto, mostram que o Português, assim como outras línguas, necessita de uma outra posição (Pa) para alocar constituintes com uma função pragmática especifica, quando a P1 já estiver ocupada por um constituinte-P1.

[14] Para maiores esclarecimentos, conferir também o trabalho de Souza (2003a) sobre a focalização dos constituintes adverbiais no interior da oração.