"MEIO" E "LÍNGUA", DOIS CONCEITOS NA CRÍTICA DE JOSÉ VERÍSSIMO

 

 

João Carlos Monteiro Paschoal

 

            Nas últimas décadas do século XIX a vida cultural brasileira recebeu um impulso dinamizador da jovem geração saída da “Escola do Recife,como então era conhecido o centro intelectual que gravitava em torno da faculdade de Direito do Recife, de onde se irradiava uma nova mentalidade em que se mesclavam o positivismo, o evolucionismo científico e o ardor republicano. Tobias Barreto, figura emblemática e liderança mitológico da “Escola”, reuniu ao redor de si uma geração combativa seduzida por seu republicanismo radical. Muitos dos estudantes saíram dali militantes da “nova idéia” e buscando implantá-la nas diversas áreas em que mais tarde atuariam, desde o direito, a historiografia até a literatura.

            Esta última sofreu o influxo dessa nova geração, como não poderia deixar de ser.Silvio Romero, sergipano como Barreto e que fora seu aluno no Recife, dono de um apetite intelectual bastante diversificado, iniciou por volta de 1870 [1] seus primeiros ensaios na crítica literária. Seus primeiros trabalhos trazem a marca do positivismo e, logo após,do evolucionismo [2] , sob o influxo direto da “Escola do Recife”.

            O tributo pago às novas idéias teve desdobramentos apreciáveis. De imediato percebe-se um avanço quando comparados aos trabalhos de crítica anteriores, especialmente os românticos. Candido [3] divide a crítica romântica brasileira em três grandes grupos: as coletâneas de poesia (Varnhagen, Norberto, Pereira Barbosa e Januário da Silva); os manuais retóricos (Pinheiro, Honorato e Freire de Carvalho); os estudos (Magalhães, Junqueira Freire e Azevedo). Neles não se encontra, ainda segundo Candido, um esforço consistente e continuado de reflexão teórica a respeito do fenômeno literário ou da literatura brasileira.

            A obra de Romero irrompe em meio a essa tradição carregando o sinal da ruptura. Onde as observações e juízos românticos fundados ora nos moldes da retórica clássica, ora em avaliações carentes de sustentação teórica, Romero introduziu uma teorização literária robustamente fincada o terreno da ciência (pelo menos assim pretendia). Tinha especial cuidado em apresentar teses de onde extraia o aparato com o qual se debruçava sobre o fato literário. Tudo envolvido numa linguagem eivada de citações a teóricos estrangeiros, acima de tudo alemães, e de termos que evocavam conceitos científicos apropriados de áreas como a química, a biologia e a filosofia. Seu juízo crítico retirava sua relevância desse pano de fundo teórico exibido de forma por vezes esmagadora para o pobre leitor desavisado. Em suas mãos,a reflexão crítica erguia-se em nova armadura mais resistente.

Em busca dessa objetividade, Romero quer definir o campo de atuação da crítica: Que é a crítica? É uma ciência? É uma arte? É um capítulo de estética? É um capítulo da lógica aplicada? Tem seus métodos especiais? Ou emprega os processos comuns a todas as ciências? Aplica-se somente à literatura e à arte, ou pode-se aplicar a todas as criações espirituais da humanidade? Neste último caso, em que se distingue das ciências que destas se ocupam?qual o sentido das expressões – crítica filosófica, crítica científica, crítica política, crítica jurídica, além de crítica artística e crítica literária? [4] Ai o esforço para dar à crítica uma trilha própria .Depois a distinção entre esse novo esforço crítico e a retórica: Em poética não passou de preceitos [a Retórica] acerca do poema épico, do gênero lírico em seus vários matizes, do gênero dramático que consistia somente na tragédia e na comédia, escritas sempre em versos. (...) Os bons gregos não sabiam, e nem o podiam, e isto os desculpa que a genuína técnica tem de suceder à ciência perfeita e positiva (...)não tinham na devida conta que sua poética e retórica não podiam passar de meros conselhos sem valor científico [5] . Declarava-se o divórcio da retórica. Indubitavelmente era um salto.

            No ponto de chegada, a pretensão de transformar a crítica numa reflexão de valor científico a ser garantido pela presença de um método objetivo calcado, por sua vez, em conceitos bem estabelecidos e individualizados. Romero mirava uma profunda transformação no papel que a crítica literária – e a própria literatura – viesse a desempenhar na evolução da vida intelectual brasileira ao conferir-lhe espessura teórica. Sob esse novo ângulo, a crítica não poderia se restringir a uma coleção de textos acompanhados da biografia do autor, ou a uma apreciação nos moldes retóricos, que se limitava a verificar a adequação de uma obra ao cânone clássico. Ao contrário, seria extensão do campo científico e agente propiciador de conhecimento da cultura brasileira, além de meio de intervenção. Esse aspecto traduzia a vocação militante de Romero e toda a “Escola do Recife” de onde ele e outros saíram.

            Se do ponto de vista do projeto esse modelo é sedutor, o mesmo não é possível dizer de sua consecução. A abrangente História da Literatura Brasileira que Romero escreve ao fim do século XIX dá bem testemunho dos tropeços a que seu projeto estava sujeito. Quando da publicação, foram vários os críticos que apontaram contradições, lacunas e certos juízos temerários (ficou famosa a afirmação de Romero de que Tobias Barreto era melhor poeta do que Castro Alves.). Além da abrangência muito elástica do conceito de literatura , no qual Romero fez caber da literatura popular ao ensaio, há que apontar a exagerada importância dada a fatores como a “raça” na constituição da obra literária. Considere-se, por exemplo, sua afirmação sobre a brasilidade da obra de Machado de Assis: O caráter nacional, esse “quid” quase indefinível, acha-se (...) na índole, na intuição, na visualidade interna, na psicologia do escritor. (...) Tomasse Machado de Assis um motivo, um assunto entre as lendas eslavas, havia de tratá-lo sempre como brasileiro, queremos dizer, com aquela maneira de sentir e pensar, aquela visão interna das cousas, aquele “tique”, aquele “sestro” especial, se assim nos podemos expressar, que são o modo de representação espiritual da inteligência brasileira. (...) Machado de Assis não sai fora da lei comum,não pode sair, e ai dele se saísse.Não teria valor. Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça brasileira. [6] . Dificilmente alguém negaria que Machado é o mais proeminente criador da literatura do século XIX , e, no entanto, Romero o reduz à lei comum, obrigando a obra a curvar-se à moldura crítica previamente estabelecida.

            Porém, o mesmo trecho dá mostra de uma contribuição importante que Romero vai buscar no determinismo de Taine: o conceito de meio. Pondo a obra de Machado como produto de um elemento exclusivamente nacional, Romero acaba vinculando a literatura ao ambiente em que foi criada, pois somente nele essa especificidade pode ser encontrada. Ficava dada uma fórmula estimulante: subordinar a vida literária - e a vida intelectual junto com ela – aos fatores históricos, sociais e culturais que a formaram. Em que pesem os percalços e os equívocos, a obra de Romero traçou um roteiro para a crítica a partir de então. Os que se seguiram a ele estavam obrigados de uma forma ou de outra a atuar em função dessas orientações, ainda que o fizessem no intuito de desmerecê-la (e não foram poucos).

            Do projeto romereano que emoldurou o debate crítico no Brasil daquele final de século XIX, há um item cuja consideração merece mais cuidado porque traduz melhor o tipo de dificuldade que se enfrentava. Trata-se do conceito de “meio”.

            A busca de fundamento científico levou críticos como Romero, Veríssimo e Araripe Júnior a se voltarem para as fontes do cientificismo em voga. As obras de Buckle, Hartman, Spencer e Taine eram lidas em primeira ou segunda mão e citadas as mancheias (principalmente por Romero) como evidência insofismável do caráter científico, ou objetivo ao menos, de qualquer teorização. Neles, sobretudo Buckle e Taine, são sublinhadas a preponderância do meio como fator decisivo para o comportamento do indivíduo, logo para a constituição do ambiente social e cultural. È fato que o conceito ajuda a desatar muitas das amarras que impediam àquela altura uma investigação mais apurada do percurso literário nacional, pois colocava a obra da literatura no campo das manifestações sociais, oferecendo base mais confiável para as sínteses críticas. Mas também é fato que se trata de um conceito perigosamente amplo. Nele cabem fatores puramente físicos como o clima, ao qual Buckle dá especial atenção, além de outros de natureza um pouco mais fluida, como o ambiente social em cujo interior o indivíduo se desenvolve, com suas determinantes econômicas, históricas, ideológicas e culturais. Há, portanto,uma vocação para “guarda-chuva” nesse conceito e seu uso pode se tornar impreciso. Embora sujeito a certa variabilidade em seu emprego, “meio” foi uma categoria amplamente empregada para compreender e explicar a especificidade do fenômeno literário brasileiro e por essa razão lugar privilegiado para o estudo de alguns obstáculos que embaraçaram a crítica da época.

            José Veríssimo é dos principais críticos da última década do XIX e da primeira do XX. Só por essa razão já poderíamos considerá-lo exemplar da reflexão teórica dominante naquele momento. Mas é preciso acrescentar ainda seu lado militante. Foi intelectual engajado desde a juventude no Pará, escrevendo estudos de interesse etnográfico e antropológico; passou pelo Recife e acabou no Rio, onde, além de crítico, foi intelectual atuante que defendeu a necessidade de reformas no ensino e colaborou na fundação da Academia Brasileira de Letras [7] , sendo o fundador da cadeira nº18. Foi homem de letras atuante e influente. E sua obra reflete esse aspecto pelo que revela do seu esforço de compreender e dar ordem à nossa formação literária. Sua ação crítica acontece a partir daquele contexto que Romero delineou, apesar dos problemas. Veríssimo era sabidamente desafeto de Romero, mas não se podia furtar à obrigação de apanhar a crítica no patamar em que aquele a havia deixado e procurar levá-la adiante. O que fez, mas não sem percalços.

            Na obra de Veríssimo, bastante variada, seus estudos de literatura sobressaem pela reflexão acerca das singularidades e desafios da literatura feita no Brasil naquele momento. Um de seus principais temas foi compreender (e descrever) o processo de formação da literatura brasileira, o que ele buscou fazer especialmente na sua História da Literatura Brasileira (1916). Valeu-se a princípio do corpo teórico da crítica naturalista, sendo-lhe especialmente caro conceito de “meio”, através do qual explicou o florescimento, já nos primeiros séculos de nossa história, do sentimento de apego à terra entre os colonos e daí se projetando sobre algumas obra do período colonial: Certo é que na segunda metade do século XVII e princípio do XVIII, poetas brasileiros (...)sem intenção nem insistência mostraram-se impressionados pela sua terra, cantaram-lhe as excelências naturais com exagero de apreço e entusiasmo em que é lícito perceber o abrolhar do sentimento nacional, começado a gerar-se com os sucessos da guerra holandesa [8] . Esse apego ,que mais avante Veríssimo chamará nativismo, como se vê resulta do contato do homem com o meio, das impressões que dele recebe e que aos poucos moldam sua disposição intelectual e sentimental.

            Note-se, contudo, que Veríssimo apropria-se de modo particular do conceito. A par do sentido mais habitual de meio físico, a última assertiva da citação revela que não lhe escapa o fator cultural. Não apenas o clima e a vegetação atuaram na alma dos primeiros colonizadores e produziram-lhe um impacto forte o bastante para alterar sua disposição mental. Também os laços sociais e a história que foram construindo distanciados da metrópole influíram na nova configuração de mundo que aos poucos delinearam. O conceito sai, desta forma, mais refinado e atento a nuances que até aí não eram considerados de modo muito efetivo. Veríssimo tinha o olhar sensível aos matizes brasileiros.

            Em um de seus estudos há uma definição um pouco mais precisa do conceito. Veríssimo a assim se refere a ele ao comentar a obra de um crítico francês, Emilio Michel: As causas que, segundo o Sr. Michel, podem influenciar na produção das artes são as condições geográficas, o regime religioso, político ou social, a herança psicológica, o nascimento, o meio familiar, a educação, a leitura, a sociedade, as viagens, a excitação provocada elas outras artes. [9] No decorrer do texto onde se encontra tal passagem, Veríssimo verifica como cada uma dessas causas atuaram o processo de formação literária do Brasil. E o faz com espírito independente, pois que não considera significativa a contribuição do meio geográfico para a criação artística [10] . Ainda assim, salta aos olhos a abrangência do conceito, o que lhe dava um caráter inescapável. Não haveria produto humano ao qual faltassem as impressões digitais de pelo menos uma dessas causas, quando não de todas. E a elas Veríssimo acresce ainda a cultura, [11] com que alarga a herança taineana ao mesmo tempo em que busca mantê-la viva.

            Essa fidelidade ao modelo,mesmo permeada de pontuações de própria lavra, mergulha a perspectiva crítica de Veríssimo na ambigüidade. Há que ressalvar, antes, o que houve de positivo no emprego e tal aparato analítico. O meio é um conceito que ofereceu uma chave importante para delimitar os contornos da especificidade da vida literária brasileira. Assim, ao sustentar que nossa existência espiritual – e, com ela, a literatura – é produto do meio, o crítico via-se obrigado a concluir pela existência de um quê caracteristicamente nacional em nossa literatura. O antigo anseio nacionalista romântico ficava agora, em nova chave,firmemente amarrado a uma conceituação objetiva e científica que o tornava incontestável.

            Por outro lado, o mesmo conceito ameaçava estreitar perigosamente o espaço de movimentação da própria crítica. Uma das conclusões possíveis daquela concepção é que o trabalho do crítico deveria restringir-se a apontar quais os elementos do meio atuaram de modo mais decisivo na consecução da obra e como teriam contribuído para a estruturação de sua forma.

            Justamente no trânsito entre esses dois pontos – meio e obra – o crítico poderia encontra-se às voltas com várias dificuldades. Ao considerar o período colonial, Veríssimo admite o atraso material e espiritual do ambiente brasileiro, povoado por indígenas selvagens, negros e a gene ínfima, também em número pouco avultado da raça colonizadora, inteiramente votada às coisas materiais da vida, à veniaga e à chatinagem [12] . Ele mesmo se indaga como de um meio assim depauperado de vida espiritual pode florescer qualquer manifestação cultural apreciável. E, todavia, surgem, com atestam Gregório de Matos Guerra e Bento Teixeira, para ficar nos exemplos do próprio Veríssimo. Ou seja, o mesmo conceito que a princípio parecera instrumento fundamental para a compreensão  do processo literário brasileiro induzia o crítico e historiador da literatura ao paradoxo. O meio era o que nos garantia uma literatura própria, mas também a impedia.

            Nesse ponto Veríssimo atingia um impasse. Sua fonte teórica mostrava-se incapaz de desvendar por inteiro o fenômeno literário, uma vez que o aprisionava num esquema determinístico. Nada poderia fugir às imposições e limitações do meio. O que lhe escapasse ainda assim seria depositado no escaninho das exceções curiosas, de interesse apenas especulativo. Apesar de muito elástico, já não era possível estender mais o conceito.

            A saída para o impasse Veríssimo esboça ao apoiar-se em outro conceito, que podemos chamar de “tradição literária”. A literatura foi uma manifestação de vida intelectual introduzida no Brasil pelo colonizador – certamente por aqueles que não estavam entregues nem à chatinagem, nem à veniaga. Mesmo vivendo em solo brasileiro, a literatura produzida nos primeiros séculos de nossa existência pertencia espiritualmente ao código cultural português. Ao longo dos séculos ela foi se afeiçoando ao ambiente nacional, principalmente quando este deu sinais de opulência – como nas Minas Gerais do ciclo do ouro, quando se dá o surto árcade entre nós. O que explica a persistência entre nós de uma prática literária, ainda quando não lhe fosse adequado o ambiente social, é esse cordão umbilical com a cultura da metrópole, vivificado pelos filhos da gente abastada que lá ia estudar.

            É interessante notar que a resposta de Veríssimo à tensão criada pelo seu aparato crítico é de ordem cultural. Ainda que ele porventura entendesse que a cultura fosse uma daquelas muitas faces do conceito “guarda-chuva” de meio, o que lhe preservaria o valor razoavelmente intacto, não há como negar o quanto se distanciava de uma concepção puramente física que parece predominar em algumas de suas fontes estrangeiras e às vezes até em Romero. Em face do esgotamento do instrumental determinista, Veríssimo foi ousado o bastante para criar uma solução.

            Todavia, não é possível fugir que em meio ao esforço criativo, Veríssimo deixou intacto um ponto de vista depreciativo do ambiente brasileiro. Devotados à ambição pecuniária e ao domínio do território, dificilmente teriam seu apetite pela vida espiritual despertado. Isso era verdade no período colonial e continuava a sê-lo ainda no momento em que Veríssimo escrevia. O índice de analfabetismo de 1890 que ele cita – acima dos 80% [13] - e a afirmação de que No Brasil, mesmo no Rio de Janeiro, não encontra ainda o escritor a reação das belas artes, os contatos estéticos que lhe podem ser úteis estímulos e lições ao seu pensamento e à sua forma. A sua cultura puramente estética fica assim falha, se ele não pode viajar, ver e estudar os grandes mestres [14]  dão bem a medida de como o crítico encarava a vida intelectual brasileira. De um meio assim mesquinho só poderia brotar uma literatura incaracterística, sem um caráter claramente demarcado [15] . Veríssimo revela-se um conservador que deita um olhar bem pouco entusiasmado sobre a vida brasileira.

            Não espanta que na seqüência de sua análise das condições de produção literária no Brasil acabasse defendendo a necessidade de uma aristocracia do espírito como condição para o progresso intelectual e literário. O caso português era exemplar. Foi no ambiente aristocrático do século XVI que floresceu, segundo Veríssimo [16] , a grande literatura do classicismo. Já no Brasil republicano dava-se o contrário, fosse pela ausência de público leitor, fosse pelo incaracterístico de nossa vida literária, fosse pelas restrições à liberdade impostas nos primeiros anos da República [17] - numa referência ao período florianista. Em suma, Veríssimo lamentava a condição atrasada do meio brasileiro e a literatura que dele brotava. O quadro era pouco animador e o intelectual, desacorçoado, tinha ganas de recolher a bandeira.

            Em A Tradição do Impasse, João Alexandre Barbosa observa nesse afastamento do intelectual, para não dizer confronto, o mais forte sinal da crise vivida pela crítica na virada do XIX para o XX. Ele fala de uma ambigüidade fundamental da “intelligentzia” brasileira daquele período: o sentido de impotência dos que faziam uma cultura sem ressonância nas próprias articulações da estrutura social [18] . Daí o pessimismo destilado por Veríssimo. Afinal de contas, um dos fundamentos teóricos em que se calçava – o meio – levava a descrer do avanço civilizacional brasileiro. Nesse mundo atrasado, o intelectual era empurrado para as bordas. Dali sua voz era pouco audível e tornava-se inócua, quase sem interlocutor. O papel militante que Veríssimo, sob o influxo da “Escola do Recife”, continuamente imprimiu à sua ação intelectual ia agora minguando.

            Tal situação exigia uma resposta. Veríssimo foi buscá-la no impressionismo crítico francês [19] . Novamente procurava no aparato teórico estrangeiro a solução para a equação brasileira. Dessa vez o conceito chave era o “estilo”.

            Estilo, no caso, resulta do emprego pessoal de uma linguagem vernácula –consoante o conservadorismo de Veríssimo - , o que conduz ao beletrismo. Apreciar a obra literária, avaliar-lhe a qualidade estética, seria medir a maestria do autor no emprego do registro culto, pois no demais ela seria incaracterística. Mais uma vez o campo ficava estreitado. Assim, no estudo Gonçalves Dias e o Português do Brasil (1907) [20] faz a defesa de uma índole da língua portuguesa que lhe define o caráter. As mudanças lexicais e sintáticas a que estaria sujeita, por exemplo, no Brasil seriam lentas e não atingiriam a essência da língua. Essa formulação do problema resolve em favor de uma perspectiva conservadora o debate aberto desde o romantismo acerca do emprego literário de um registro lingüístico brasileiro (e que interessava à literatura indianista principalmente). Por ai vislumbra-se as bases que enformam o conceito de estilo com que Veríssimo opera. Seria um registro culto e o mais próximo possível do modelo herdado do classicismo.

            Posta nestes termos,a questão do estilo não resolve aquele impasse. Cria outro. Num segundo estudo, Um Livro de Crônicas [21] , Veríssimo faz a crítica de O Ateneu, de Raul Pompéia, do qual se lançava uma segunda edição. A atenção do crítico foca-se principalmente no estilo de Pompéia, medido pela régua do vernáculo. Tudo o que for desabonado pelo exemplo dos clássicos portugueses é rejeitado como imperfeito. O juízo de valor que brota desse critério é bem pouco lisonjeiro ao autor. Ao tom caricato de certas passagens, ao volteio mais rebuscado da frase, à intensidade cromática da linguagem, enfim, a vários traços que marcam a contribuição original de O Ateneu, Veríssimo torce o nariz. O estudo separa estilo e enredo (e do debate nele implicado) e trata-os como entidades autônomas. O texto esgota-se numa espécie mensuração da distância entre a língua literária de Raul Pompéia e o modelo vernacular. No confronto, O Ateneu sai perdendo.

            A mesma fórmula crítica é aplicada em outro estudo, Um Livro de Crônicas [22] É um breve comentário do lançamento de Contrastes e Confrontos de Euclides da Cunha. Veríssimo se diz impressionado pelo que chama de “simbiose” de ciência e literatura ao aludir à linguagem de Euclides. Entretanto,mais abaixo a mesma página em que faz essa observação, adverte para o risco de que a imitação do estilo euclidiano gerasse um mau gosto literário, observação torna ambígua a admiração pela tal simbiose. Veríssimo reconhece em Euclides a presença de um estilo original, mas não se indaga sobre a pertinácia daquela linguagem ao assunto. Essa fusão escapa-lhe, assim como maiores considerações a respeito das proposições  do autor acerca dos contrastes brasileiros.

            Nos três estudos a língua ocupa lugar privilegiado no aparelho crítico de Veríssimo e essa opção revela-se fonte de novo impasse. Ela limita o olhar crítico a um aspecto restrito da obra, além de colocá-lo numa perspectiva que induz à subordinação da produção literária brasileira ao escopo de um modelo vernacular lusitano. Tal atitude arrisca a perder de vista o elemento especificamente nacional da literatura brasileira, justamente o alvo que esteve na alça da mira da geração de Veríssimo desde 1870. A crítica, novamente, era prisioneira de seus pressupostos.

           

            Os desencontros, as idas e vindas do percurso de Veríssimo são sintomáticos das dificuldades de construir uma reflexão teórica apta a desvendar por completo a natureza da literatura brasileira e de seu percurso histórico. Quando se volta para o aparato teórico europeu evolucionista e determinista em busca de legitimação para o próprio esforço de reflexão crítica, Veríssimo coloca-se na contingência de sobrepor os conceitos formulados num outro percurso  teórico às circunstâncias do trajeto histórico da literatura brasileira. Resulta daí um inevitável deslocamento. Essa sobreposição deslocada provoca fraturas no projeto crítico que Veríssimo pretende erigir. A maior delas é exposta ao se aplicar a noção de meio ao processo de formação intelectual brasileiro. A condição de colônia e uma população mestiça carente de instrumentos de ilustração deram oportunidade a um ambiente pouco afeito à vida das letras que se estendeu até o período republicano. Essa constatação induziu o crítico a admitir a impossibilidade de surgir aqui qualquer manifestação literária superior, exceto quando se fizesse sentir a influência dos centros mais avançados (Lisboa, no período colonial, e depois Paris). A despeito do quadro desolador, surgiu o nativismo, aquele sentimento de apego à terra que foi vagarosamente laborando na alma do colonizador por força da conformação ao meio, mais tarde transmutando-se em nacionalismo. É a semente daquela brasilidade buscada por Veríssimo e sua geração, mas que não chega a originar um organismo literário forte e autônomo, pois lhe faltava o pano de fundo que somente uma cultura individualizada, de caráter firmemente delineado poderia oferecer. O elemento literário brasileiro sai enfraquecido desse painel. Na verdade é incipiente . O projeto crítico de Veríssimo via-se ameaçado e necessitava reformulação.

            É quando uma nova categoria é chamada a campo; o estilo. Seu aparecimento no percurso teórico de Veríssimo é posterior ao seu entusiasmo com a crítica naturalista e sinaliza o limite de sua aplicação. Porém, não oferece uma solução à altura. Transformar o uso vernacular da língua em instrumento de aferição da obra é na prática separar conteúdo e forma, relegando o primeiro a um plano “menos literário” e ao mesmo tempo submeter a expressão literária nacional ao jugo de um registro lusófilo.

            Em ambas articulações Veríssimo arisca borrar os contornos do alvo de seu esforço crítico: a singularidade da manifestação literária brasileira. Dificilmente ela estaria no registro lingüístico sempre mais próximo do clássico, e só poderia surgir como reflexo tênue de um ambiente empobrecido tanto do ponto de vista material quanto espiritual. Em seu ofício de crítico de jornal, restava-lhe a resignação melancólica de se debruçar sobre páginas quase sempre distanciadas do ideal vernacular de sua admiração e das quais os grandes temas pareciam ausentes em virtude do meio anêmico de que brotavam. Haveria certamente algumas exceções isoladas, mas sem continuidade.

            Não nos deixemos levar, contudo, pelo pessimismo. Veríssimo, assim como Romero, deixa um legado valioso. Aprimorou a qualidade da crítica exercida entre nós ao cobrar-lhe maior consistência teórica; ao refletir sobre os impasses com que se deparava e ao buscar soluções inventivas. Isso produziu uma crítica mais rigorosa no emprego de conceitos e teses. Deu-se conta da complexidade do fenômeno literário, libertando-o da clausura determinista alargando seu escopo. Veríssimo introduziu um ingrediente novo: o fator cultural, quando considera o tráfego de idéias entre metrópole e colônia, entre Brasil independente e Europa. O fato é da maior relevância porque sinaliza uma atitude corajosa em face de soluções chanceladas pelas culturas ditas mais avançadas. Sua análise do papel que o sistema literário trazido da metrópole exerceu nas obras do período colonial e de sua interação com o meio social que se ia firmando ao sabor dos eventos particulares da terra, como a guerra aos holandeses e o aparecimento de comunidades um pouco mais refinadas acompanhando as etapas de nossa vida econômica e política – como o ciclo do ouro em Minas e o estabelecimento de governos- gerais em Salvador e no Rio – abriu novas perspectivas para compreender o percurso da literatura brasileira. Mesmos os impasses com que se viu às voltas podem ser vistos, pelo reverso, como contribuição. Afinal, deixaram em aberto questões que caberiam às gerações seguintes responder. Exemplo disso é o aspecto incaracterístico de nossa literatura. Os modernistas rearticulariam essa tese invertendo seus termos. O incaracterístico de nossa literatura, a falta de um caráter individualizado para nossa cultura, seriam acompanhados a partir de 22 por um sinal positivo. Sinal de vitalidade de um processo cultural rico, original e pleno de potencialidades.

            A obra de Veríssimo, em suma, situa-se entre dois momentos da vida literária nacional. Com suas hesitações e contradições, ela sintetiza o momento de esgotamento do determinismo e vai em busca de novos paradigmas. Veríssimo fecha um capítulo de nossa história intelectual e deixa a caneta para que outros escrevam o próximo.



NOTAS

[1] CANDIDO, Antonio – O Método Crítico de Silvio Romero, cap.2                                                     

[2] idem

[3] idem, cap.1

[4] ROMERO, “Da Crítica e sua Exata Definição”, in História da Literatura Brasileira, vol.I, José Olympio / Instituto Nacional do livro, Rio 1980, pág. 319

[5] idem, pág. 323

[6] ROMERO,idem, 1502

[7] BARBOSA, João Alexandre – A Tradição do Impasse, Atica, SP, 1974.

[8] VERÍSSIMO, José – “Introdução”, in História da Literatura Brasileira, José Olympio, Rio, 3a. edição, pág. 11

[9] VERÍSSIMO, José – “Das Condições da Produção Literária no Brasil”, in Estudos de Literatura Brasileira, 3a. série, Rio, Garnier,1903, pág.55

[10] idem, págs. 60 e 61

[11] idem, pág.56

[12] idem, pág. 62

[13] idem, pág. 81

[14] idem, pág. 84

[15] idem, pág. 72

[16] idem, págs. 74 e 75

[17] idem, pág. 78

[18] BARBOSA, João Alexandre – idem, pág. 67

[19] idem, cap. III

[20] VERÍSSIMO, José – Últimos Estudos de Literatura Brasileira , série 7, Edusp / Itatiaia, 1979

[21] idem

[22] idem

 

BIBLIOGRAFIA

1-   BARBOSA, João Alexandre – A Tradição do Impasse, Ática, SP, 1974.

2-   CANDIDO, Antonio – O Método Crítico de Silvio Romero, Edusp, SP, 1988.

3-   ROMERO, Silvio - “Da Crítica e sua Exata Definição”, in História da Literatura Brasileira, vol.I, José Olympio / Instituto Nacional do livro, Rio 1980

4-   VERÍSSIMO, José – “Introdução”, in História da Literatura Brasileira, José Olympio, Rio, 3a. edição

                                   “Das Condições da Produção Literária no Brasil”, in Estudos de Literatura Brasileira, 3a. série, Rio, Garnier,1903

                                   VERÍSSIMO, José – Últimos Estudos de Literatura Brasileira , série 7, Edusp / Itatiaia, 1979