MECANISMOS DE COESÃO TEXTUAL EM LATIM

Robson Tadeu Cesila 

 rcesila@iel.unicamp.br  /  robson.cesila@ig.com.br

 

Introdução

Todos sabemos que o português se originou, em sua essência, do latim, embora essas duas línguas se apresentem extremamente diferentes em muitos aspectos, sobretudo no que se refere à sintaxe e à morfologia. Assim, muitas vezes, observações feitas a respeito do latim “servem” também para explicar fenômenos referentes à língua portuguesa, o que não é de se estranhar, dada essa relação genética que liga as duas línguas. Por outro lado, se pensarmos que, quando se aprende uma nova língua – e o latim é, queiramos ou não, uma nova língua para nós –, é inevitável que se utilize (conscientemente ou não), a fim de entendê-la, analisá-la e assimilá-la, dos conhecimentos lingüísticos e metalingüísticos de que dispomos a respeitos de nossa própria língua, pode-se dizer também que algumas observações ou análises que fazemos a respeito do português podem “servir” para entendermos ou estudarmos fenômenos do latim.

 É com essa crença que pretendo apresentar, neste trabalho, alguns mecanismos de coesão textual em língua latina, servindo-me dos estudos modernos sobre o tema feitos a respeito do português e de outras línguas modernas. A adoção deste meu método de análise – uma espécie de caminho inverso – pode parecer estranha, mas se justifica se se verifica que a maior parte dos estudos sobre coesão textual foram produzidos nos últimos trinta anos, quando a Lingüística Textual se estabeleceu como ciência (Koch, 2002: 150), de modo que seria muito difícil estudar, baseando-se em gramáticos, retóricos ou filósofos da Antigüidade, a atuação em latim de um fenômeno que, embora sempre tenha existido, teve sua conceituação formulada recentemente. Não estou querendo, com isso, ignorar a contribuição dos antigos para os estudo da Lingüística Textual e da Lingüística como um todo, já que, como sabemos, a própria análise gramatical tem sua origem na Antigüidade – quando o latim, sobretudo, era objeto desses estudos –, e a maior parte da metalinguagem da gramática tradicional tem suas raízes profundamente mergulhadas nesse húmus greco-romano.

            Assim, procurarei demonstrar, em textos latinos, a presença dos mecanismos de coesão textual elencados e analisados por Koch (1989). Além desta obra-base, utilizarei, quando necessário, outras obras da autora, bem como produções de outros estudiosos de Lingüística Textual. Não é minha intenção, no entanto, dar conta de todos os mecanismos expostos por Koch, nem de produzir uma análise aprofundada e incansável da coesão em língua latina – esta última, tarefa que exigiria um estudo mais demorado e, provavelmente, mais delimitado –, mas apresentar o maior número possível de recursos de coesão disponibilizados pelo latim.

            É necessário ainda fazer outras duas importantes observações preliminares. A primeira diz respeito ao recorte temporal desta análise, que se limitará aos textos em latim clássico, ou seja, àqueles produzidos, em sua maior parte, até a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.). Isso porque, a partir do século VI, ainda que o latim clássico permaneça como língua de cultura, sua variante oral (o latim vulgar) começa a dar origem às ancestrais das línguas modernas, influenciando o próprio latim escrito (o latim escrito medieval, por exemplo, apresenta grandes diferenças com relação ao da Antigüidade). A outra ressalva diz respeito aos textos orais e escritos: embora a Lingüística Textual trabalhe com ambos, limitar-me-ei àqueles escritos, pelo simples fato de não nos terem chegado textos orais em latim, com exceção de alguns escritos em latim vulgar.

 

Mecanismos de coesão textual em latim

Comecemos com a análise detalhada da coesão em dois textos: um discurso e uma fábula. Depois, exemplificaremos em outros textos ou fragmentos apenas mecanismos coesivos que não forem contemplados nesses dois textos principais.

 

TEXTO 1: Cícero, Catilinárias, 1, III-IV

Quid est, Catilina, quod (1) iam amplius expectes, si (2) neque (3) nox tenebris obscurare coetus(4) nefarius, nec (3) priuata domus parietibus (5) continere uoces coniurationis tuae (6) potest, si (7) illustrantur, si (7) erumpunt omnia (8)?

O que há, Catilina, para esperares mais, se nem a noite pode ocultar a [tua] congregação nefasta, nem a casa particular conter em [suas] paredes as vozes da tua conjuração? Se todas as coisas estão esclarecidas, se se manifestam?

Muta iam istam mentem (9), mihi (10) crede; obliuiscere caedis atque incendiorum. Teneris undique; luce sunt clariora nobis (11) tua (12) consilia omnia, quae (13) iam mecum (14) licet recognoscas.

O dii immortales! Ubinam gentium sumus? In qua urbe uiuimus? Quam rem publicam habemus? Hic, hic (15) sunt in nostro (16) numero, patres conscripti, in hoc (17) orbis terrae sanctissimo grauissimoque consilio, qui (18) de nostro (19) omnium interitu, qui (20) de huius (21) urbis atque                             adeo (22) orbis terrarum exitio cogitent!

Muda já essa intenção, crê em mim; esquece-te da matança e dos incêndios. Estás preso por todos os lados; são, para nós, mais claros do que a luz todos os teus planos, os quais convém já reconheceres comigo.

 

Ó deuses imortais! Em que nação estamos? Em que cidade vivemos? Que república temos? Aqui, aqui estão em nosso número, ó pais conscritos, nesta mais santa e mais importante assembléia do orbe da terra, os que planejam a morte de todos nós, os que planejam a ruína desta cidade e até do orbe terrestre!

 

            O texto acima foi extraído[1] do primeiro dos quatro discursos proferidos por Marco Túlio Cícero, em 63 d.C., contra Catilina, cidadão romano que conspirou contra a República. O orador, na primeira Catilinária, exorta o conspirador a se retirar da cidade, uma vez que todos os seus planos já foram descobertos. Assim, como o trecho acima faz parte de um discurso que foi efetivamente proferido (e posteriormente transcrito pelo orador), possui um forte caráter dêitico, o que se comprova pelos elementos de dêixis discursiva nele presentes, isto é, elementos que se referem ao contexto, à situação discursiva, não sendo, portanto, elementos de coesão textual. É o caso, por exemplo, de mihi (10): “crê em mim”; nobis (11): “para nós”; mecum (14): “comigo”; hic, hic (15): “aqui, aqui...”; nostro (16): in nostro numero, ou seja, “em nosso número”, “em nosso meio”, “dentre nós”; hoc (17): in hoc consilio, “nesta assembléia”; nostro (19): de nostro interitu omnium, “a nossa morte de todos”, isto é, “a morte de todos nós”; huius (21): huius urbis, “desta cidade”.

            Pode-se, no entanto, vislumbrar, no texto, elementos de coesão textual. Vejamos alguns, de acordo com sua tipologia:

 

1- Coesão referencial

 

1.1. Formas remissivas não-referenciais presas

No texto 1 aparecem com essa função apenas os pronomes possessivos. Assim, em (6), a forma remissiva tuae (tuae coniurationis: “de tua conjuração”), pronome possessivo, remete ao referente textual Catilina, da 1a. linha do texto. O mesmo vale para tua (12), em que “teus planos” (tua consilia) são os planos de Catilina. É importante ressaltar aqui, no entanto, que o emprego do pronome possessivo não é muito comum em latim clássico, sobretudo se o possuidor é evidente (o seu emprego em (6) se dá, ao que parece, para efeito de ênfase). É por isso que se poderia considerar também como caso de coesão textual a ocorrência (4), em que o pronome possessivo (tuus), cujo referente seria o mesmo de (6), foi omitido[2]: tem-se coetus nefarius (“congregação nefasta”), em que a “congregação” é a congregação criada e liderada por Catilina. Outra solução seria incluir casos como o de (4) no grupo dos mecanismos de coesão por elipse.

Já em (5), percebe-se claramente que as “paredes” (parietibus) pertencem a domus (referente), embora não tenha sido expressa a forma referencial suis. Aqui tem-se também, a meu ver, um caso de coesão textual, talvez através de elipse, como em (4). A diferença é que, em (5), parece contribuir na compreensão do trecho uma relação meronímica, ou seja, o conhecimento de que “casas” têm “paredes”.

Convém fazer aqui algumas observações sobre os pronomes possessivos latinos[3], uma vez que as regras que regem seu emprego são bastante complexas, sobretudo com relação ao possessivo de 3a. pessoa. Não quero me aprofundar no assunto, mas apenas tratar alguns pontos que afetam, a meu ver, o processo de coesão textual.

 

1o. Em latim, não se costuma usar pronomes possessivos se o possuidor é evidente, como foi lembrado acima:

 

 Sapientes estis, ita parentes amate. (Sois sábios, amai, portanto, [vossos] pais.)

 

A forma referencial uestros não foi expressa; ela remete ao referente uos, indicada pelas terminações dos verbos. A hipótese que deixamos aqui é a de que se trata de casos de coesão elíptica.

 

2o. Para expressar a posse em 3a. pessoa, usa-se suus, sua, suum se o possuidor é, ao mesmo tempo, sujeito: Filia matrem suam amat. (A filha ama sua mãe) A forma remissiva suam tem como referente filia. Se, no entanto, o possuidor não é o sujeito, o latim recorre a uma outra família de pronomes, que as gramáticas latinas classificam como demonstrativos e como os pronomes anafóricos por natureza. Trata-se de is, ea, id, que podem significar “esse”, “essa”, “isso”; “ele”, “ela”, “o”, “a”, “lhe”; “aquele (homem)”, “aquela (mulher)”, sempre como anafóricos. No caso da indicação de posse, os latinos utilizam a forma genitiva desses pronomes: eius (sing.); eorum, earum (pl.). Vejamos o exemplo:

 

Patri amant filios, sed uitia eorum reprehendunt. (Os pais amam [seus] filhos, mas repreendem seus vícios/os vícios deles.)

 

Aqui, eorum é forma remissiva que tem como referente filios, que não é sujeito da oração precedente. Em português diríamos que, para identificarmos o referente de seus / deles, ou seja, se eram os vícios dos pais ou dos filhos, recorreríamos a mecanismos sócio-cognitivos, ao contexto e ao cotexto: ora, o ato ilocucional de repreender não poderia incidir sobre características do próprio sujeito; em geral ninguém repreende a si próprio; logo, “seus vícios” são os vícios dos filhos. Em latim clássico, no entanto, a resolução dessa ambigüidade é facilitada pela diferenciação lexical operada pela língua entre suus, sua, suum (o sujeito é o possuidor) e eius, sing./eorum, earum, pl. (o sujeito não é o possuidor).

 

1.2. Formas remissivas não-referenciais livres

            Neste momento, é importante chamar a atenção para duas particularidades do latim que têm enormes implicações quanto ao que se chama, em Lingüística Textual, instruções de conexão. Primeiro, o latim é uma língua de casos; segundo, possui, além do gênero masculino e do feminino, o gênero neutro. Assim, as instruções de conexão para a identificação, dentre dois referentes, daquele ao qual a forma remissiva remete, são mais ricas que as do português, uma vez que há um gênero a mais e que é obrigatória em latim a concordância de caso, gênero e número entre os nomes e seus determinantes. Um pronome como id, por exemplo, só pode remeter a um referente neutro, e que esteja no caso nominativo ou no acusativo. É claro que nem tudo é “um mar de rosas”, já que também há em latim coincidências de formas e de terminações, o que pode dificultar esse processo de identificação do referente (uma forma como hoc – “este”, “isto” –, por exemplo, pode remeter a um referente masculino/ablativo/singular, neutro/ablativo/singular, neutro/nominativo/singular ou neutro/acusativo/singular). Vejamos os casos de (1), (18) e (20), que são pronomes relativos, para ilustrar os efeitos dessa característica latina nas instruções de conexão do processo coesivo.

 

a) Pronomes relativos: No início do texto 1, tem-se: Quid est, Catilina, quod iam amplius expectes...? (literalmente: “O que há, Catilina, que ainda por mais tempo esperes...?”, isto é, “o que está ainda esperando?”). Nessa frase, o pronome relativo quod (1), por estar no neutro/singular, só pode retomar, do cotexto precedente, o pronome interrogativo quid (“o que?”), que se encontra no mesmo gênero e número. Assim, em latim clássico, o pronome relativo (forma referencial) concorda necessariamente com seu antecedente (referente) em gênero e número. O mesmo não se dá quanto à concordância de caso, que pode não ocorrer: o pronome relativo latino toma a terminação casual de acordo com a função sintática que exerce na oração relativa. No exemplo acima, quid está no caso nominativo (exerce a função de sujeito), enquanto que quod está no caso acusativo (é objeto direto). O mesmo se dá em (13):

 

“...luce sunt clariora nobis tua consilia omnia, quae (13) iam mecum licet recognoscas.” (“...são, para nós, mais claros do que a luz todos os teus planos, os quais convém já reconheceres comigo.”),   

 

em que o referente consilia (nominativo/neutro/plural), que exerce a função de sujeito na oração principal, é retomado pela forma referencial quae (acusativo/neutro/plural), que possui na oração relativa a função de objeto direto.

            Quanto a (18) e (20), constituem exemplos interessantes de formas remissivas não-referenciais livres. O referente de ambos é o mesmo, e não aparece expresso no texto, sendo necessário restabelecê-lo. O que ocorre é que, em latim clássico, os pronomes relativos masculinos e femininos (qui, quae e suas respectivas formas declinadas) podem significar “esse homem que”, “essa mulher que”, “aquele homem que”, “aquela mulher que”. Basta restabelecer o antecedente que falta, através dos pronomes is, ea, etc, que significam “esse (a)”, “aquele (a)”. Assim, no texto 1, em (18), tem-se: “[estão entre nós] os homens que (ei qui) planejam a morte de todos”; e, em (20): “os homens que (ei qui) planejam a ruína desta cidade...”.

 

b) Pronomes indefinidos: a ocorrência (8), omnia (“todas as coisas”, “tudo”), está, em meu entender, resumindo uma enumeração efetuada no cotexto precedente: “O que há, Catilina, para esperares mais, se nem a noite pode ocultar a [tua] congregação nefasta, nem a casa particular conter em [suas] paredes as vozes da tua conjuração? Se todas as coisas (omnia) estão esclarecidas, se se manifestam?” Pode-se dizer, então, que omnia é a forma remissiva que retoma todo o enunciado anterior, fenômeno bastante comum em português com as formas demonstrativas isto, isso, aquilo, o e mesmo com indefinidos como tudo e nada. Nas gramáticas latinas, omnis (“todo”, “toda”; neutro omne) é considerado adjetivo, mas resolvi agrupá-lo como pronome indefinido porque em (8), por estar na forma neutra plural, sua função é de indefinição, significando “tudo”, “todas as coisas”. É importante dizer também que quase todos os demonstrativos latinos, quando no gênero neutro, podem, assim como em português, retomar uma oração, um enunciado, parte de um enunciado ou todo um cotexto anterior: hoc (isto), istud (isso), id (isso), illud (aquilo), ipsum (isso mesmo).  Além disso, as formas hoc, id e illud, quando nos casos nominativo e acusativo, podem exprimir a idéia precisa de “essa notícia”, “esse fato”, mas aí teríamos já formas remissivas referenciais, pois instruções de sentido estariam também sendo fornecidas sobre as partes precedentes do texto.

 

1.3. Formas remissivas referenciais

            Há apenas uma ocorrência, no texto 1, de formas de coesão desse tipo. Trata-se de (9), istam mentem (“essa intenção”). No cotexto imediatamente anterior a essa expressão, o orador aconselhara Catilina, que hesitava em deixar a cidade, a não esperar mais, já que todos os seus planos tinham sido descobertos. A forma nominal essa intenção retoma como referente essa postura hesitante do conspirador, exposta no cotexto precedente, fornecendo sobre ela instruções de sentido e categorizando-a como intenção. Não sei se se pode falar aqui em encapsulamento anafórico, tal como foi definido por Conte (1996), pois, parece-me, a expressão não se torna argumento para predicações posteriores.

 

2- Coesão Seqüencial

            Em (2) e em (7), a conjunção latina si, normalmente usada em orações condicionais, funciona como conjunção de causa-conseqüência, podendo ser traduzida por “já que”, “pois”, etc. Tem-se, assim, seqüenciação frástica por conexão, em que a relação lógica estabelecida é a seguinte:

Catilina deve deixar logo a cidade, já que            1- a noite não consegue ocultar sua congregação                             

                                                                        nefasta nem a casa particular conter em suas 

                                                                        paredes as vozes da conjuração

                                                                        2- todas as coisas estão esclarecidas

                                                                        3- todas as coisas estão manifestas

 

Parece haver, além da relação lógica, um efeito argumentativo digno de nota. Os argumentos (1, 2 e 3), que provam a Catilina que ele deve deixar a cidade, vão sendo somados um após o outro, sempre introduzidos pela conjunção si, que é constantemente repetida. Tal repetição nos leva a pensar que, mesclados aos mecanismos de seqüenciação frástica do trecho, podem estar operando ainda os de seqüenciação parafrástica, caracterizados, aqui, pela recorrência da conjunção si.

Outro caso de repetição ocorre no mesmo trecho, em (3), com a conjunção neque/nec (“e não”, “nem”). Aqui, tem-se também a seqüenciação frástica por conexão, possibilitando efeitos argumentativos através da soma de argumentos para uma mesma conclusão: “nem (neque) a noite consegue ocultar tua congregação nefasta, nem (nec) a casa particular conter em suas paredes as vozes de tua conjuração.”

            Por fim, pode-se classificar como um elemento de coesão seqüencial a expressão atque adeo (22): “e até”, “e até mesmo”. No trecho “...estão em nosso número ... os que planejam a ruína desta cidade e até do orbe terrestre!”, tal expressão acrescenta a um dos intentos dos conspiradores (a ruína da cidade) um outro de maior gravidade (a ruína de todo o orbe terrestre, isto é, do mundo), provocando, assim, uma certa intensificação gradativa que tem por função argumentativo-retórica tornar mais odiosos aos ouvintes do discurso os planos dos conspiradores.

 

TEXTO 2: Fedro, Fábulas, Ap., 19

Serpens et lacerta

Serpens (1) lacertam (2) forte auersam (3) prenderat;

quam (4) deuorare patula cum (5) uellet (6) gula (7),

arripuit illa (8) prope iacentem surculum (9),

et pertinaci morsu (10) transuersum tenens (11)

auidum sollerti rictum (12) frenauit (13) mora (14).

Praedam (15) dimisit ore (17) serpens (16) irritam

 

Moral: Ubi (18) leonis pellis déficit,

uulpinam induendam esse, hoc est (19), ubi (20) deficiunt uires, astu utendum. 

A cobra e o lagarto

Uma cobra havia agarrado por acaso um lagarto pela cauda;

Como [ela] quisesse devorá-lo com a gigantesca garganta,

ele agarrou um ramo que estava perto

e, segurando[-o] atravessado na violenta dentada,

conteve, com o hábil obstáculo, a ávida bocarra.

A cobra soltou da boca a presa malograda.

 

Moral: Quando falta a pele do leão,

deve-se vestir pele de raposa, isto é, quando desfalecem as forças, deve-se usar astúcia.

 

            Vejamos agora, nesta pequena fábula de Fedro, poeta do século I a.C., mais alguns mecanismos de coesão textual, alguns deles do mesmo tipo que os utilizados no texto 1.

1- Coesão referencial

            Uma outra grande diferença entre o português e o latim é que neste último não há artigos definidos nem indefinidos. É bem verdade que a indefinição pode ser feita, em latim, através de alguns pronomes indefinidos, mas, nesse caso, visam-se efeitos específicos (ênfase, etc.). Assim, se, em português, um referente introduzido por artigo indefinido só pode ser retomado por um SN introduzido por artigo definido, e se um SN introduzido por artigo definido só pode ser retomado por outro introduzido também por artigo definido (Koch, 1989: 35), não se pode verificar o mesmo fenômeno em latim, em que inexistem esses determinantes[4]. Ao se traduzir para o português um texto latino, é necessário valer-se do cotexto para saber se se deve acrescentar o/a ou um/uma diante dos nomes latinos. Na fábula acima, serpens (1) foi traduzido como “uma cobra” e lacertam (2) como “um lagarto”, uma vez que estão aparecendo pela primeira vez no texto. Já na ocorrência (16), traduziu-se serpens por “a serpente”, uma vez que esta personagem já fora introduzida em (1) e já era familiar aos receptores do texto. Creio, no entanto, que, no caso do texto 2, essas determinações ou indeterminações são um tanto dependentes do tipo de texto, a fábula. Como a cobra e o lagarto (assim como o leão, o jabuti, a coruja, o lobo, o carneiro, etc) são personagens comuns no fabulário – e por isso conhecidos dos leitores/ouvintes de fábulas –, talvez mesmo as ocorrência (1) e (2) pudessem receber como determinante, em português, o artigo definido. Atuaria, nesse processo, a “capacidade metatextual” (Koch, 2002: 53) do receptor.

            Vejamos como ficariam as cadeias coesivas referenciais (Hasan, 1980) do texto 2:

• a personagem “cobra”, introduzida em (1), é retomada como referente, através de elipse, em (6), em que o verbo uellet tem serpens como sujeito oculto[5]; depois, em (7), gula (“garganta”) remete também a (1), uma vez que é a garganta da cobra. Em (10), pertinaci morsu (“na violenta dentada”) retoma (7), pois a mordida ou dentada fora produzida pela boca ou garganta da cobra; ocorre o mesmo em (12), em que rictum (“bocarra”) retoma gula (7). De certa forma, (10) e (12) também retomam (1), serpens, já que são todas partes do animal ou atos produzidos por ele. Quanto a (16), tem-se a remissão a (1) com a repetição do termo serpens; por fim, em (17), ore, (“da boca”) refere-se à boca da cobra e remete a (16), que, como se acabou de dizer, remete a (1).  A cadeia referencial para o referente “cobra” seria, então: 1-6-7-10-12-16-17.

Em (6) tem-se referência por elipse, e, em (16), pela repetição do SN do referente. Em (7) e (10), talvez se possa pensar em anáforas indiretas. Em (7), por exemplo, gula (“a garganta”) não possui um referente explícito, pois não há uma forma referencial (um pronome possessivo, por exemplo) indicando qual é esse referente. Em outras palavras, não está textualmente explícito de quem é a garganta, que poderia ser, inclusive, do lagarto. Na verdade, gula funciona apenas como uma âncora que ativará estratégias cognitivas (neste caso semânticas) para se chegar ao referente. Assim, utilizando-se de recursos do cotexto e do contexto, chegar-se-ia ao seguinte raciocínio: gula (a garganta) é uma parte do corpo de serpens (a cobra), mas também de lacerta (o lagarto); no entanto, pelo cotexto, é a cobra que está “querendo” praticar a ação de “devorar” (uellit deuorare); se a ação de devorar implica a utilização ou participação da boca ou garganta (papel temático instrumental do verbo deuorare), o referente de gula só pode ser serpens, sujeito de deuorare. Através de mecanismos parecidos se descobre que a expressão nominal pertinaci morsu (10), ou seja, “a violenta dentada” se refere a gula, já que a dentada foi produzida pela boca (gula). Quanto a (12), rictum auidum (“a ávida bocarra”), prefiro ver essa expressão como um caso de descrição definida que retoma “a gigantesca garganta”(patula gula) de (7).

• a personagem lagarto (em latim é um nome feminino, lacerta) é introduzida em (2) e retomada pela primeira vez logo em (3), em que auersam (“pela cauda”) refere-se à cauda do lagarto. A seguir, é retomada como referente pelo relativo quam (4), que se encontra no mesmo gênero e número que lacertam (neste caso, coincidentemente, também no mesmo caso); tem-se, assim, apenas instruções de conexão (feminino/singular), o que permite classificar quam como forma remissiva não-referencial livre[6]. Depois, lacertam é retomado com illa (8), de novo uma forma remissiva não-referencial livre, que se encontra no feminino/singular, como seu referente[7]. A seguir, tem-se, a meu ver, referenciação elíptica em (11), no particípio presente tenens (“segurando”), cujo sujeito é illa (8), ou seja, lacertam (2). O mesmo mecanismo de coesão por elipse se dá em (13), frenauit, em que o sujeito continua sendo illa. Por fim, em (15), tem-se uma expressão que retoma o referente lacertam, predicando-o, sob a ótica da cobra, como “a presa malograda” (praedam irritam), isto é, “a presa fugidia”. A coesão referencial se dá, portanto, através de descrição definida, operada pela forma referencial praedam irritam. A cadeia referencial do referente lagarto é, então, a seguinte:  2-3-4-8-11-13-15.

• O referente surculum (“raminho”) também forma uma cadeia coesiva, ainda que pequena. Depois de introduzido em (9), é referido elipticamente em (11), funcionando como objeto do particípio presente tenens; se estivesse explícita a forma referencial que, neste ponto, remeteria ao referente surculum (neutro/singular), ela seria id, neutro do pronome anafórico latino is. Por fim, o referente surculum é retomado pela última vez em (14), com a descrição definida sollerti mora (“o hábil obstáculo”), em que se procede, como se vê, a um julgamento valorativo (“hábil”) sobre o expediente adotado pelo lagarto, além de classificá-lo como um “obstáculo” ao fechamento da boca por parte da cobra. A cadeia referencial de surculum é, portanto, 9-11-14.

 

2- Coesão seqüencial

            Como elemento de coesão seqüencial no texto 2, pode ser citado cum (5), que liga dois enunciados estabelecendo entre eles uma relação de causa-conseqüência; tem-se, assim, seqüenciação frástica por conexão:

- Como/porque (cum) a cobra quisesse devorar o lagarto, ele agarrou um ramo e segurou-o atravessado na boca da cobra.

- A cobra queria comer o lagarto, por isso, ele agarrou um ramo e segurou-o atravessado na boca da cobra,

 

Há ainda, como elemento de seqüenciação de mesma natureza, a forma verbal tenens (11), que significa “segurando”. Ela expressa o modo como se realizou a ação contida na oração seguinte:

 

A) “... (o lagarto), segurando (tenens) (o ramo) atravessado em meio à violenta dentada,

B) conteve, com o hábil obstáculo, a ávida bocarra.”

 

Outro elemento de seqüenciação frástica por conexão aparece em (18) e em (20): a conjunção temporal ubi, utilizada, no texto 2, com matiz condicional:

- Quando/se falta a pele do leão, (então) deve-se vestir pele de raposa.

- Quando/se desfalecem as forças, (então) deve-se usar astúcia.

            Nesse mesmo trecho há um caso de seqüenciação parafrástica por recorrência de conteúdos semânticos, operada pela expressão hoc est, “isto é” (19).

 

Quando falta a pele do leão, deve-se vestir pele de raposa, isto é, quando desfalecem as forças, deve-se usar astúcia.

 

A primeira oração expõe a moral da fábula metaforicamente, enquanto que a segunda, introduzida por isto é, constrói uma paráfrase que explica o conteúdo da primeira.

 

*        *        *

 

            Agora, passemos à exemplificação, em textos latinos, de outros mecanismos de coesão, de preferência não contemplados nos textos 1 e 2. Para isso, serão utilizados fragmentos[8] de textos antigos em que tais mecanismos aparecem claramente. Além disso, proceder-se-á a uma demonstração individual, analisando-se apenas os mecanismos coesivos enfatizados em cada item desta exposição; os demais, inéditos ou não neste estudo, serão apenas indicados em itálico:

 

1- Progressão temática (seqüenciação frástica)

            No exemplo abaixo, a progressão temática ocorre através da derivação do tema em temas parciais:

TEXTO 3: Santo Isidoro, Origines, 5, 30

Dies (1) dicti sunt a deis quorum (2) nomina Romani quibusdam stellis (3) dedicauerunt. Primum (4) enim diem a Sole appellauerunt, qui princeps est omnium (5) stellarum ut idem (6) dies caput est

omnium (7) dierum. Secundum (8) diem a Luna

appellauerunt, quae ex Sole lucem accepit.

Tertium (9) ab stella Martis quae Vésper

appellatur.

      Os dias foram designados a partir dos deuses, cujos nomes os romanos dedicaram a algumas estrelas. O primeiro dia chamaram a partir do Sol, que é a primeira de todas as estrelas, como o mesmo dia é a cabeça de todos os dias. O segundo dia chamaram a partir da Lua, que recebeu a luz do Sol.                                             O terceiro a partir da estrela de Marte, que é chamada Vésper. (...)

 

 

O tema dies (1), cujo rema é dicti sunt a deis quorum nomina Romani quibusdam stellas dedicauerunt, subdide-se depois nos subtemas primum diem (4), secundum diem (8), tertium [diem] (9), cada um destes com seu respectivo rema.

 

2- Coesão referencial por formas remissivas presas

            No mesmo texto 3 podem ser vistas algumas formas de referenciação do tipo “presas”, que acompanham um nome. É o caso do pronome relativo quorum (2), que concorda em gênero e número com o nome que acompanha (ou seja, nomina: neutro/plural). Quanto ao seu caso, está no genitivo, de modo que significa “dos quais”, “cujos”. A forma referencial quorum retoma como referente dies (1).

            Outra forma presa é o pronome demonstrativo idem (“mesmo”), na ocorrência (6), que também concorda em gênero, número e caso – como é regra em latim para os demonstrativos – com o nome que determina (dies: nominativo/masculino[9]/singular). A remissão que faz nos leva ao referente primum (4) diem. Aliás, primum (4) e secundum (8), como acompanham o nome diem (com o qual concordam em gênero, número e caso: acusativo/masculino/singular), também são formas remissivas não-referenciais presas, retomando o referente dies (1). O mesmo não ocorre com tertium (9), que é forma remissiva não-referencial livre. Conclui-se, assim, que os numerais latinos podem, como em português, atuarem como formas remissivas, tanto presas quanto livres.

            Por fim, as ocorrência (5) e (7) apresentam também formas presas, desta vez através de pronome indefinido (omnis, omne, que, como mencionei acima, é considerado adjetivo pelas gramáticas latinas). Em (5), omnium concorda em gênero, número e caso com o nome que acompanha, stellarum (genitivo/feminino/plural) e remete ao referente (3), ou seja, stellae (“estrelas”). Já em (7), omnium concorda com dierum (genitivo/masculino/plural), retomando,em última instância, dies (1).

 

3- Função das formas remissivas livres de localização de seus referentes no texto

TEXTO 4: Quintiliano, Institutiones Oratoriae, IX, 3, 2
Verum  schemata   lecseos    duorum sunt  generum (1):  alterum (2) loquendi rationem uocant, alterum (3) máxime collocatione exquisitum est. Quorum tametsi utrumque (4) conuenit orationi, tamen potius illud (5) grammaticum, hoc (6) rethoricum magis dicere.
Em verdade, as figuras de palavras são de dois gêneros: a uns consideram um modo de se exprimir, a outro, que deve ser buscado sobretudo na colocação. Embora ambos convenham ao discurso, aquele, contudo, diz  mais respeito ao gramático, este, ao retórico  

 

            (5) e (6), illud (“aquele”, “o primeiro”) e hoc (“este”, “o segundo”, “o último”) têm, no texto 4, uma dupla função: além de fazerem remissão a seus referentes – (2) e (3), respectivamente –, localizam-nos no texto. Em latim, os pronomes ille, illa, illud, que significam “ele”, “ela”, mas também “aquele”, “aquela”, “aquilo”, podem ser utilizados em oposição a hic, haec, hoc (“este”, “esta”, “isto”). Os primeiros indicam, assim, afastamento, e os últimos, proximidade.

            Quanto a (2) e (3) não se pode dizer o mesmo; a dupla ocorrência do pronome indefinido alterum não está localizando o referente (duorum generum) no texto, mas apenas retomando-o. Além disso, procede à divisão desse referente, que faz parte do rema do enunciado anterior, fazendo com que a progressão textual se dê pelo desenvolvimento das partes desse rema maior:

A) As figuras de palavras → B) são de dois gêneros:

B1) um → C) consideram um modo de se exprimir

B2) outro → D) deve ser buscado sobretudo na colocação

Assim, ao que parece, contribuem, na progressão textual, não só esses mecanismos de seqüenciação frástica como também os de referenciação, representandos por (2) e (3), (5) e (6).

            Por fim, há que se comentar outro caso de referenciação que aparece no texto 4, embora não tenha também função localizadora. Trata-se da expressão quorum utrumque (4), que significa “dos quais os dois”, “dos quais ambos” (utrumque é neutro; as formas masculinas e femininas são, respectivamente, uterque e utraque). Essa expressão referencial, que se pode classificar como “livre”, retoma o duplo referente alterum de (2) e de (3).

 

4- Demonstrativos neutros com referentes amplos

            Segundo Koch (1989: 38), pronomes demonstrativos como isto, isso, aquilo, o remetem, em geral, a referentes amplos, como “fragmentos oracionais, orações, enunciados ou todo o contexto anterior”. O mesmo pode ser observado em latim com as formas neutras de praticamente todos os pronomes demonstrativos, como já mencionei anteriormente: hoc, istud, illud, id, ipsum. Veja-se um caso desses no texto abaixo:

TEXTO 5: Sêneca, De beneficiis, II, 3, 1-2

Si beneficia in rebus, non in ipsa bene faciendi uoluntate consisterent, eo (1) maioria essent quo (2) maiora sunt quae accipimus.

Id (3) autem (4) falsum est: nonnumquam enim (5) magis nos obligat qui dedit parua magnifice, qui exiguum tribuit sed libenter (...).

 

Se os benefícios consistissem nas coisas e não na própria vontade de fazer o bem, seriam tanto maiores quanto maiores são os que recebemos. Isso, porém, é falso, pois, às vezes, mais nos torna gratos quem deu coisas pequenas, quem deu o exíguo, mas de bom grado...

 

            Id (“isso”), em (3), retoma todo o cotexto anterior, ou seja, a afirmação de que a importância de um benefício depende do tamanho desse benefício, como se tal importância dependesse do resultado, e não da intenção.

 

5- Seqüenciação frástica: comparação, contraste, justificativa

            Aproveitando ainda o texto 5, vejamos as ocorrência (1) e (2). Com a utilização coordenada de eo e quo[10], se estabelece uma relação de comparação que não deixa de contribuir para a argumentatividade desse texto filosófico.

            Em (4), autem (“porém”, “no entanto”, etc.) introduz um contraste com o que fora dito no primeiro parágrafo, ou seja, introduz a afirmação de que é falso (falsum est) o que fora dito no cotexto precedente. A explicação, o porquê disto ser falso vem logo a seguir, em (5), introduzido pela conjunção enim (“pois”, “porque”).

 

6- Seqüenciação parafrástica por paralelismo sintático

           

TEXTO 6: Marcial, Epigramas, I, 109

Issa est passere nequior Catulli,

Issa est purior osculo columbae,

Issa est blandior omnibus puellis,

Issa est carior Indicis lapillis,

Issa est deliciae catella Publi.

(...)

Issa é mais maliciosa que o pássaro de Catulo,

Issa é mais pura que o beijo de uma pomba,

Issa é mais carinhosa que todas as moças,

Issa é mais preciosa que as pérolas da Índia,

Issa é a cadela de estimação de Públio.

(...)

 

            A recorrência de estruturas sintáticas como mecanismo coesivo de seqüenciação é comum na poesia. No epigrama acima, percebe-se claramente o efeito que o poeta pretendia obter com tal paralelismo sintático: o nome Issa, repetido no início dos quatro primeiros versos, recebe predicações que levam o receptor do texto a pensar que Issa é uma moça;  ao final das recorrências, porém, percebe-se que Issa é apenas a cadelinha de Públio.                                                                                                                                                                                                                 

 

7- Seqüenciação parafrástica por recorrência de sons

TEXTO 7: Salústio, De Coniuratione Catilinae, XIV, 1

In tanta tamque corrupta ciuitate Catilina, id quod factu facillimum erat, omnium flagitiorum circum se (...) stipatorum (...) habebat.

Em uma tão grande e tão corrompida cidade, Catilina possuía ao seu redor – e, ali, isso era muito fácil de acontecer – todas as vergonhas e crimes.

 

            Não é difícil de perceber que ocorre, no trecho em itálico, aliteração dos fonemas consonantais /t/ e /k/. A recorrência desses sons, juntamente com uma intensificação gradativa e negativa que vai desembocar na palavra Catilina – o vilão da conjuração –, promove a progressão e desenvolvimento do texto, além de contribuir na construção de uma imagem negativa do conspirador.

 

8- Seqüenciação parafrástica por recorrência métrica e rítmica

            Para terminar esta exposição dos mecanismos coesivos em latim, vejamos a seqüenciação por recorrência de elementos métricos e rítmicos. Tal seqüenciação, juntamente com aquela operado pela rima, é comum na poesia de qualquer língua; o latim, no entanto, possui uma particularidade que é a ausência de rima (ao menos na poesia clássica) e a utilização dos pés poéticos, recurso ao mesmo tempo métrico e rítmico. Não cabe aqui uma exposição detalhada desses mecanismos, apenas exemplifiquemos, mais uma vez recorrendo a Marcial, com um epigrama construído em dístico elegíaco, um caso em que se dá seqüenciação parafrástica através de pés poéticos:

TEXTO 8: Marcial, Epigramas, V, 43

De Thaide et Lecania

Thais habet nigros, niueos Lecania, dentes:

Quae ratio est? Emptos haec habet, illa suos.

Sobre Taís e Lecânia

Taís tem dentes pretos, Lecânia, brancos como a neve:

Qual a razão? Aquela tem dentes próprios, esta, comprados.

 

            O receptor dos textos antigos estava acostumado aos pés poéticos; seus ouvidos eram sensíveis a elementos que, para nós, passariam despercebidos, como a quantidade vocálica, os tipos mais comuns de sucessão de breves e longas, a disposição fluida das palavras na frase, etc. Essa sensibilidade é que permitia que tais elementos poéticos se constituíssem em uma forma de progressão textual, de coesão seqüencial através da recorrência de estruturas, de pés métricos conhecidos, de seqüências familiares e repetidas de breves e longas. No epigrama acima, por exemplo, tem-se um dístico elegíaco, ou seja, o primeiro verso é um hexâmetro e o segundo um pentâmetro. Isso quer dizer que o primeiro é composto por seis pés, sendo quatro dátilos ou espondeus, um dátilo e um espondeu ou troqueu. O segundo, o pentâmetro, é composto por cinco pés, sendo dois dátilos ou espondeus, uma sílaba longa, mais dois dátilos e uma sílaba longa ou breve:

                       HEXÂMETRO   (  _ )  ( _ )  ( _ )  ( _   )  ( _   )   (  _  _ )

                                                   (  _  _  )    (  _  _  )   (  _  _  )   (  _  _  )   ( _ ∪∪ )     (  _ )

 

                       PENTÂMETRO   (  _ )  (  _ )  (  _  )  //  ( _ )  (  _ )  (  _  )

                                                     (  _   _  )   (  _  _  )  (  _  )  //   ( _ )   (  _ )  ( )

 

 

            Assim, o leitor antigo de Marcial sabia perceber esses efeitos métrico-rítmicos e a progressão textual operada por eles, razão pela qual incluo a recorrência de pés poéticos como uma forma de coesão em língua latina.

 

 

Conclusões

 

            Conforme mencionado no início deste estudo, o objetivo do mesmo não era dar conta de todos os mecanismos de coesão textual possíveis em latim, mas enumerar um número razoável deles. É evidente que muitos outros poderiam ser estudados, assim como dezenas de outras formas referenciais latinas, como, por exemplo, as inúmeras conjunções que essa língua possui, e que formam um complexo sistema de regras de subordinação. No entanto, um estudo englobando tantos elementos não se adequaria aos propósitos deste trabalho, e demandaria análises muito mais demoradas e aprofundadas.

            De qualquer forma, pôde-se chegar, através da exposição feita, a algumas conclusões bastante gerais, ao se comparar os mecanismos coesivos do português e do latim:

1) Grande parte dos mecanismos de coesão textual em português também pode ser constatada em latim;

2) A coesão em latim apresenta, no entanto, com relação à do português, particularidades motivadas pelas enormes diferenças que há entre as duas línguas, como a existência, em língua latina, dos casos, a ausência de artigos, a existência de quantidade vocálica (e, conseqüentemente, de pés poéticos), etc.

           

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Bibliografia

 

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CONTE, E. “Encapsulamento anafórico”. In: Belgian Journal of Linguistics: Coherence and Anaphora, 10, p. 1-10. Trad. livre: Mônica Magalhães Cavalcante, 1996.

FURLAN, O. A. Das letras latinas às luso-brasileiras. Florianópolis: Edição do Autor, 1984.

GONÇALVES, A. M. Fábulas de Fedro. Rio de Janeiro: H. Antunes Ltda, 1937.

HASAN, R. “Coherence and cohesive harmony”. In: FLOOD, J. (org.). Understanding reading comprehension. Delaware, International Reading Association, p. 181-219, 1987.

KOCH, I. G. V. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 1989.

____________  O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.

____________  Desvendando os segregos do texto. São Paulo: Cortez, 2002.

_____________ & L. C. TRAVAGLIA. A coerência textual. São Paulo: Contexto, 1990.

MARCUSCHI, L.A. O barco textual e suas âncoras. Mimeografado, 2000.

MARTIAL. Épigrammes. Trad. H. J. Izaac. Paris: Les Belles Lettres, 1930, Vol. 1.

SALÚSTIO. Conjuration de Catilina. Trad. J. Roman. Paris: Les Belles Lettres, 1924.

 

 


 

 



[1] A análise da coesão em um fragmento de texto (e não no texto integral) pode oferecer alguns inconvenientes, como a ausência do cotexto precedente completo. Tive o cuidado, no entanto, de escolher um trecho em que não houvesse remissão a nada que extrapolasse os limites do fragmento.

[2] Em minha tradução, incluí entre colchetes os pronomes ou outros termos subentendidos.

[3] Relembremos rapidamente todos os pronomes latinos, em seu caso nominativo, pois esta lista será útil em todas as análises deste trabalho:

Pronomes pessoais: ego, tu, nos, uos

Possessivos: 1a. pes.: meus (masc.), mea (fem.), meum (neutro), noster, nostra, nostrum, 2a. pes.: tuus, tua, tuum, uester, uestra, uestrum, 3a. pes. : suus, sua, suum

Demonstrativos: hic, haec, hoc; iste, ista, istud; ille, illa, illud; is, ea, id; idem, eadem, idem; ipse, ipsa, ipsum.

Relativos: qui, quae, quod

Interrogativos: quis?/qui?, quae?, quid?/quod?

Indefinidos: quis/qui, quae/qua, quid/quod; aliquis, aliqua, aliquid/aliquod; quispiam, quaepiam, quidpiam/quodpiam; quisquam, quidquam; quiuis, quaeuis, quiduis/quodquis; quidam, quaedam, quiddam/quoddam; quisque, quaeque, quidque/quodque; alius, alia, aliud; nemo; nihil; totus, tota, totum; alter, altera, alterum; etc.

[4] Lembremos que outra língua antiga, o grego, possui artigos definidos.

[5] Em latim, assim como em português, as desinências verbais dão conta de indicar qual é o sujeito expresso pelo verbo.

[6] Note-se que a tradução mais freqüente de quam é “a/o qual”, mas pode-se traduzi-lo também com os pronomes átonos o ou a.

[7] Poderia haver ambigüidade referencial com relação a serpens, que pode ser de gênero masculino ou de feminino. Illa poderia ter por referente, então, tanto lacertam como serpens. Pelas predicações posteriores do cotexto, no entanto, desfaz-se a ambigüidade, uma vez que a cobra não introduziria um pedaço de madeira na própria boca.

[8] Ver nota 1.

[9] Dies também é usado, em latim, no gênero feminino, emprego, aliás, mais comum que no masculino.

[10] As gramáticas latinas classificam tais expressões como advérbios de intensidade.