A MÚSICA: UMA LINGUAGEM

 

Ana Cláudia Fernandes Ferreira anaclau@iel.unicamp.br

 

Este trabalho foi realizado durante minha graduação em Lingüística. É um trabalho para a disciplina Introdução à Apreciação Musical, curso multidisciplinar que foi ministrado pelo professor Moacyr Del Picchia (Instituto de Artes) no primeiro semestre de 2002.

Não existe atualmente, no campo de estudos sobre a linguagem, um único modo de tratar da música enquanto linguagem não verbal. Há uma perspectiva de estudos, elaborada pelo lingüista francês Émile Benveniste, para a qual a língua é concebida enquanto interpretante da cultura e conseqüentemente, de todas as outras formas de linguagem. A decorrência disso é a concepção de que a música também dependa, necessariamente, da língua (linguagem verbal) para ser interpretada. Vejamos, num artigo produzido em 1969 por este autor, intitulado “Semiologia da Língua”, qual é o tratamento dado à música e a outras formas de linguagem:

“A ‘língua’ musical consiste em combinações e sucessões de sons, diversamente articulados; a unidade elementar, o som, não é um signo; cada som é identificável na estrutura da escala da qual ele depende, não sendo dotado de significação. Eis o exemplo típico de unidades que não são signos, que não designam, sendo somente os graus de uma escala na qual se fixa arbitrariamente a extensão. Temos aqui um princípio discriminador: os sistemas fundados sobre unidades dividem-se entre sistemas com unidades significantes e sistemas com unidades não significantes. Na primeira categoria coloca-se a língua: na segunda, a música” (p.58, 59).

Benveniste considera que a língua, enquanto sistema de signos tem um duplo funcionamento, uma dupla significância: o semiótico e o semântico. Uma unidade como flor, por exemplo, deve passar pelo nível semiótico a fim de ser verificada sua existência na língua. Não é, nesse caso, a sua existência no mundo, mas a sua existência na língua, ou seja, a unidade flor deve ter uma significação na língua. Já no nível semântico, o sentido de flor é o seu sentido no interior de um enunciado. Em outras palavras, o sentido de a flor é o sentido de a flor em um enunciado do tipo a flor desabrochou. Benveniste não considera que a música funcione pelo semiótico, já que sua unidade (o som) não é dotada de significação. Este autor afirma que a língua é o único sistema de signos que funciona pelo semiótico e pelo semântico.

A tentativa de reduzir as linguagens à unidades resulta numa abstração das linguagens. Tal abstração exclui a materialidade própria e o modo de funcionamento específico a cada forma de linguagem, excluindo assim, seus diferentes sentidos. O sentido para Benveniste é, a meu ver, uma abstração. Antes de continuar com esta reflexão, vejamos mais um pouco das considerações benvenistianas a respeito da linguagem não verbal:

“As relações significantes da ‘linguagem’ artística são descobertas NO INTERIOR de uma composição. A arte não é jamais aqui senão uma obra de arte particular, na qual o artista instaura livremente oposições e valores que ele manipula soberanamente, não tendo nem ‘resposta’ a dar, nem contradição a eliminar, mas somente uma visão a exprimir, segundo critérios, conscientes ou não, de que a composição inteira dá testemunho e torna manifesto.

Pode-se então distinguir os sistemas em que a significância é posta pelo autor na obra e os sistemas em que a significância é expressa pelos elementos primeiros em estado isolado, independentemente das ligações que eles possam contrair. Nos primeiros, a significância da arte não remete então jamais a uma convenção identicamente recebida entre parceiros. É necessário descobrir a cada vez os termos, que são limitados em número, imprevisíveis por natureza, logo reinventados a cada obra, em suma, que não podem ser fixados em uma instituição. A significância da língua, ao contrário é a significância mesma, fundando a possibilidade de toda troca e de toda comunicação, e também de toda cultura” (p. 60, grifo do autor).

Aqui, vê-se que a solução para se compreender o sentido de uma obra de arte é descobri-lo apenas no seu interior, ou seja, no interior de cada obra de arte em particular. É interessante que tal solução, para mim, constitui uma das maneiras de se interpretar e compreender os sentidos da linguagem verbal.

Voltando ao que foi dito na citação anterior, quando o autor diz que os sons são “o exemplo típico de unidades que não são signos, que não designam, sendo somente os graus de uma escala na qual se fixa arbitrariamente a extensão”, tal afirmação lembra-me da hipótese formulada pelo lingüista francês, Oswald Ducrot (1973), sobre a existência de escalas argumentativas na língua.

Segundo este autor, para um enunciado do tipo O Júlio fala grego e até mesmo sânscrito, por exemplo, o até mesmo, funciona argumentativamente, dando a entender que saber sânscrito vale mais do que saber grego – no caso de tal enunciado ter uma conclusão do tipo Ele é um erudito. Em outras palavras, isso significa dizer que até mesmo sânscrito está, segundo o autor, situado numa posição mais alta de uma escala argumentativa com esta conclusão. Pode haver também, uma conclusão (dentre várias outras) do tipo Ele é muito arrogante. Nesse caso, o fato de saber sânscrito também contaria mais do que saber grego para se concluir a arrogância do Júlio; mas, note-se que as conclusões não funcionam na mesma escala e são, de certo modo, contrárias. Para ilustrar o que foi dito, vejamos como isso se formaliza:

Argumento A
Júlio fala grego
Argumento B
e até mesmo sânscrito
r 
conclusão possível

 

 

 

r   ele é um erudito r   ele é arrogante
 
B
e até mesmo sânscrito
B
e até mesmo sânscrito
A
Júlio fala grego
A
Júlio fala grego

Com este paralelo, procurei mostrar que as palavras, enquanto unidades, também podem funcionar como “graus em escalas da língua”.

A concepção de sentido com a qual me identifico, no entanto, é um pouco mais complexa do que a formulada por Ducrot. O sentido, para mim, pode ser entendido como o que nos diz Eni Orlandi (1995):

“O sentido tem uma matéria própria, ou melhor, ele precisa de uma matéria específica para significar. Ele não significa de qualquer maneira. Entre as determinações às condições de produção de qualquer discurso está a própria matéria simbólica: o signo verbal, o traço, a sonoridade, a imagem, etc. e sua consistência significativa não são transparentes em sua matéria, não são redutíveis ao verbal, embora sejam intercambiáveis, sob certas condições.

(...) há uma necessidade no sentido, em sua materialidade, que só significa, por exemplo, na música, ou na pintura, etc. Não se é pintor, músico, literato, indiferentemente. São diferentes relações com os sentidos que se instalam. São diferentes posições de sujeito, são diferentes sentidos que se produzem”. (www.labeurb.unicamp.br)

A partir desse ponto de vista, pude tirar duas conclusões a este respeito. Uma delas é que a linguagem verbal não precinde da musicalidade e da gestualidade, pois elas ajudam os sujeitos a interpretar a linguagem verbal. Ninguém fala sem uma certa musicalidade, ninguém fala sem movimentar os olhos, o corpo, ninguém fala sem uma gestualidade. Se não fosse assim, não seríamos, nesse ponto, muito diferentes de robôs falantes.

Não é difícil notar a presença e a importância da musicalidade na linguagem verbal na produção de sentidos. Para comprovar isso, basta observar os diferentes sentidos que trazem elementos musicais como: entonação, acentuação, ritmo, tonalidade, pausas, etc. Um simples oi, por exemplo, dependendo do modo como é temperado por tais elementos, vai adquirir um sentido específico. Há o oi alegre, o oi bravo, o oi triste, o oi cantado, o oi irônico e etc.

Um exemplo muito engraçado desse fato encontra-se em Diário de um Escritor de Dostoievski:

“Certa vez, num Domingo, já perto da noite, eu tive ocasião de caminhar ao lado de um grupo de seis operários embriagados, e subitamente me dei conta de que é possível exprimir qualquer pensamento, qualquer sensação, e mesmo raciocínios profundos, através de um só e único substantivo, por mais simples que seja [Dostoievski está pensando aqui numa palavrinha censurada de largo uso]. Eis o que aconteceu. Primeiro, um desses homens pronuncia com clareza e energia esse substantivo para exprimir, a respeito de alguma coisa que tinha sido dita antes, a sua contestação mais desdenhosa. Um outro lhe responde repetindo o mesmo substantivo, mas com um tom e uma significação completamente diferentes, para contrariar a negação do primeiro. O terceiro começa bruscamente a irritar-se com o primeiro, intervém brutalmente e com paixão na conversa e lança-lhe o mesmo substantivo, que toma agora o sentido de uma injúria. Nesse momento, o segundo intervém novamente para injuriar o terceiro que o ofendera. ‘O quê há, cara? Quem tá pensando que é? A gente tá conversando tranqüilo e você começa a bronquear!’ Só que esses pensamentos, ele o exprime pela mesma palavrinha mágica de antes, que designa de maneira tão simples um certo objeto; ao mesmo tempo, ele levanta o braço e bate no ombro do companheiro. Mas eis que o quarto, o mais jovem do grupo, que se calara até então e que aparentemente acabara de encontrar a solução do problema que estava na origem da disputa, exclama com um tom entusiasmado, levantando a mão: ‘Eureka’, ‘Achei, achei’. Ele simplesmente repete o mesmo substantivo banido do dicionário, uma única palavra, mas com um tom de exclamação arrebatada, com êxtase, aparentemente excessivo, pois o sexto homem, o mais carrancudo e mais velho dos seis, olha-o de lado e arrasa num instante o entusiasmo do jovem, repetindo com uma imponente voz de baixo e num tom rabugento... sempre a mesma palavra, interdita na presença de damas para significar claramente: ‘Não vale a pena arrebentar a garganta, já compreendemos!’ Assim, sem pronunciar uma única outra palavra, eles repetiram seis vezes seguidas sua palavra preferida, um depois do outro, e se fizeram entender perfeitamente” [1].

É interessante notar como essa única palavrinha pôde ser compreendida de diferentes formas que dependiam somente do modo particular com era produzida. Este modo, evidentemente, inclui uma certa musicalidade e gestos específicos.

A segunda conclusão é que, através das diferentes linguagens, produzem-se os mais variados sentidos. E estas diferentes linguagens podem se atravessar. Assim, sobre a linguagem verbal, afirmo que ela está atravessada por outras linguagens, as quais significam com ou sem ela. A música, os gestos[2] e outras tantas formas de linguagem podem produzir sentidos, independentemente da linguagem verbal. Sentidos estes, que vão além do que a própria linguagem verbal é capaz de transmitir. Isso significa dizer que tais linguagens não são dependentes da língua, da forma como entende Benveniste.

 Para mim, a linguagem que se aprende compreende várias outras linguagens: a língua, a musicalidade, os gestos, a linguagem das formas, das pausas e também dos silêncios. Intrínsecos a estas linguagens estão os sentidos. Eu diria que a linguagem são sentidos: sentidos que não nos dizem tudo, que não são transparentes, sentidos a aprender. E, dentre estes sentidos possíveis, alguns significam apenas na linguagem musical.

Bibliografia

Bakhtin, M. (1929) Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo, HUCITEC, 1988.

Benveniste, E. (1969) “Semiologia da Língua”. Problemas de Lingüística Geral II. Campinas, Pontes, 1989.

Ducrot, O. (1973) “As Escalas Argumentativas”. Provar e Dizer. São Paulo, Global Editora, 1981.

Orlandi, E. “Efeitos do Verbal sobre o Não-Verbal”. Rua 1. Revista do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade (NUDECRI). Campinas, SP, 1995. Na internet: (www.labeurb.unicamp.br)

Sacks, O. Vendo Vozes – Uma Viagem ao Mundo dos Surdos. São Paulo, Companhia das Letras, 1999.



[1]  Trecho extraído do livro Marxismo e Filosofia da Linguagem de Michail Bakhtin (p133).

[2]  A maioria de nós aprende da linguagem verbal, uma língua materna, e acredita então, que esta linguagem verbal seja a mais completa.  Mas esta não é a única possibilidade de existência de uma língua. Existem as línguas feitas de gestos: as conhecidas línguas de sinais dos surdos. Tais línguas não são uma transliteração do alfabeto da linguagem verbal (isso é um mito), elas têm sua própria estrutura, têm história, têm dialetos, metáforas, enfim, têm tudo o que é necessário para se dizer que são verdadeiras línguas, embora sejam em muito diferentes das línguas verbais. Sobre isso, há uma interessante reflexão no livro Vendo Vozes de Oliver Sacks, do qual extraímos dados para esta reflexão.