LANCELOTE E OS MOLDES DO AMOR CORTÊS

 

Fernanda Salomão Vilar

pherfeita@yahoo.com.br

 

 

INTRODUÇÃO

Antigamente, o casamento não era lugar do amor como conhecemos hoje em dia. No limiar do século XII, o casamento era considerado o embasamento da ordem social, sendo assim uma instituição séria, baseada na relação de desigualdade entre as duas partes, o homem e a mulher.

De qualquer forma, o casamento não é o lugar do que se define então como o amor. Pois é proibido ao esposo e à esposa lançarem-se um ao outro no ardor e na veemência. (...) o sentimento que liga o homem e a mulher não deve ser da mesma natureza no interior e fora da célula conjugal. (Duby, 1989)

Todos os casamentos eram arranjados, a mulher não possuía direito algum de pronunciar seu desejo ou sua palavra. O único amor que ela era legítima em possuir era o amor a Deus. Já o homem tinha o direito ao corpo da mulher, já “que ela está destinada a servir o homem no casamento e que o homem tem o poder legítimo de servir-se dela.” (Duby, 1989)

Surge na França do século XII o amor cortês: um modelo de relação e de conjunção sentimental e corporal entre um homem e uma mulher. Alguns autores enxergam esse modelo como uma possibilidade de promoção da condição feminina na época medieval.

A dama é quem ocupa o centro do molde desse amor. Está em posição dominante e é casada. Um jovem, isto é, um solteiro, repara nessa dama e a partir daí, ferido pelo amor (que é o desejo carnal) sonha em apoderar-se dessa mulher (Duby, 1993). Ela é a esposa de um senhor e dona da casa que ele freqüenta. Em virtude das hierarquias da casa ela está em posição superior a dele, o que ele compreende fazendo gestos de obediência, assim como um vassalo, e faz “à maneira de um servo, a doação de si mesmo” (Duby, 1993).

O poder feminino se revela na medida em que a mulher pode acatar ou recusar a oferta. O homem nesse momento é posto à prova e deve mostrar o que vale. Contudo se a dama se deixa envolver, torna-se prisioneira, pois nessa sociedade toda dádiva merece uma contra-dádiva. As regras do amor cortês exigiam que a eleita se entregasse inteiramente.  Esse tipo de amor era um jogo em que os homens eram os mestres e jogadores e estavam animados em ganhar, “capturar a presa”.

Algo relevante é a mulher não ser dona de seu corpo, este pertencia a seu pai e posteriormente ao marido. Por essa razão ele era atentamente vigiado. Se a mulher demonstrasse o menor indício de afronta, era passível dos piores castigos que ameaçavam igualmente seu cúmplice. “O excitante desse jogo vinha do perigo a que se expunham os parceiros” (Duby, 1993), portanto o cavaleiro que decidia tentá-la sabia dos riscos dessa aventura. Obrigado à prudência e à discrição deveria encontrar um local secreto para fechar-se com sua amada e nesse espaço de intimidade esperar a recompensa, os favores que sua amiga lhe deveria conceder.

O ritual do amor cortês prescrevia que a mulher “aceitasse primeiro ser abraçada, depois que ela oferecesse os lábios ao beijo, depois que abandonasse a ternuras cada vez mais insistentes” (Duby, 1993), nesse aspecto do código amoroso a mulher retomava a vantagem ao impor que a “recompensa e os favores” fossem minuciosamente dosados.

O prazer do homem nesse jogo já não residia no prazer e sim na espera: “O prazer culminava no próprio desejo”, o que revela a natureza onírica do amor cortês.

O fino amor, não se deve esquecer, é uma criação literária. É fruto de uma literatura de evasão em que a corte depositava nos poetas o poder de alimentar seus sonhos e os levassem para longe das inquietações e ciladas da vida quotidiana. Esses escritos foram compostos para o entretenimento dos jovens cavaleiros, os homens de guerra. Prova disso é serem exatamente eles as personagens heróicas que os autores dos romances celebram, e as figuras femininas que aparecem no romance têm o papel de valorizar e realçar suas qualidades viris. Nesses romances os “heróis praticavam certas virtudes na perfeição, mas não deviam parecer totalmente inimitáveis” (Duby, 1993). Em virtude de tal acordo entre poesia e verdade pôde eclodir na França do século XII a “neurose cortês” e o seu desenvolvimento.

A corte foi evidentemente o lugar onde o jogo do fino amor tomou forma. Os homens esforçavam-se por tratar as mulheres “com mais refinamento, demonstrando sua capacidade de capturá-las, não pela força, mas por carícias verbais e manuais (...)” (Duby, 1993) e dessa maneira os homens de corte pretendiam mostrar que pertenciam ao mundo dos privilegiados, marcando assim sua diferença relativa ao vilão, lançado no mundo da incultura e bestialidade. Nota-se então que o amor cortês era um critério de distinção na sociedade masculina e pode ser considerado o impulso de progresso da sociedade do século XII, pois é ele o instrumento e o produto do crescimento que liberava a sociedade feudal da selvageria, que a civilizava, uma vez que o jogo era visto como um processo educativo para os jovens, que tinham que aprender a controlar seus impulsos. 

No seio dessa classe dominante opunham-se dois tipos de homens: os clérigos, cuja função era rezar e os cavaleiros, cuja função era combater. Uns e outros disputavam os favores do príncipe e as vantagens do poder. Esta rivalidade em um momento de crescimento econômico favoreceu a consolidação de uma cultura de guerra. O poema em língua românica foi um expoente da cultura cavaleiresca. São nesses poemas que aparecem os traços dessa cultura fundada na exaltação do amor profano, do desejo masculino e do prazer que as mulheres dão (Duby, 1993).

Portanto, para compreender a razão pela qual o amor cortês foi adotado no século XII pela aristocracia devem-se considerar as práticas matrimoniais que tinham como finalidade a procriação, enquanto o amor (desejo sexual) era condenado nessa prática, porque o casamento era sagrado. Por essa razão as sociedades dos cavaleiros, homens cancioneiros e romanceiros, se preocupavam em cativar as damas. Sentiam ciúme dos maridos, mas não porque sua atividade sexual fosse reprimida. Eles podiam libertar seu ardor com as concubinas, criadas, bastardas. Entretanto estas eram presas demasiado fáceis. A glória ia para aqueles que conseguiam seduzir uma mulher de sua condição e tomá-las.  Para isso foram criadas as regras do jogo do amor cortês.

Sendo assim, será a partir desses conceitos e definições do que é o amor chamado cortês que iniciaremos a análise da obra de Chrétien de Troyes: Lancelote ou o cavaleiro da carreta, na qual evidenciaremos os traços do amor cortês e como ele se realiza.

 

SOBRE A OBRA

Lancelote ou o cavaleiro da carreta é uma novela “de atrativo ambíguo e misterioso” (Gual, 1990). Trata-se de um pedido feito pela condessa Maria a Chrétien. Ela escolheu o tema e o sentido geral da história (matière et sen), enquanto o autor somente reinvidica para si a aplicação e o esforço em realizar a obra. Não deixa de ser curioso que o autor tenha deixado a história inacabada, legando a outro o seu desfecho. Devemos lembrar que quando ele a abandona, o caminho que se faz até o final é de fácil dedução, pois as aventuras surpreendentes já estavam cumpridas. A seguir faremos um resumo da obra acompanhado da análise das evidências e marcas do amor cortês.

 

OS MOLDES DO AMOR BURGUÊS EM LANCELOTE

O culto ao amor acabou extrapolando a poesia para se transformar num código de ética: o chamado amour courtois (amor cortês) ou fin’amors (amor refinado). Sua grande novidade foi colocar o homem numa posição subalterna à mulher, para cortejar e servir àquela que até então era uma cidadã de segunda classe e mais uma posse masculina em quase todas as culturas.

Uma das bases do amor cortês é justificar o adultério, tanto em suas leis de conduta quanto em casais arquetípicos como Tristão e Isolda (ele era primo e ela esposa do rei) e Sir Lancelot e Ginevra (a esposa do rei Artur e seu guerreiro mais valoroso).
Na obra Lancelote ou o cavaleiro da Carreta, percebemos todos os movimentos desse amor chamado cortês. A obra compõe-se de peripécias, conforme a tradição do gênero: a rainha Ginevra, esposa do rei Artur, acompanhada do senescal Keu, é levada à força pelo maldoso Meleagante, filho de Baudemaguz, para o reino deste. Nas terras do reino de Baudemaguz encontram-se exilados vários cavaleiros e suas famílias, todos seqüestrados por Meleagante. O único modo possível de resgatar os prisioneiros e salvar a rainha é vencendo o carcereiro.

Lancelote, um dos cavaleiros preferidos do rei Artur, que sempre amou a rainha em segredo, sai à sua procura. O romance consiste nas aventuras, combates e perigos enfrentados para salvar Ginevra. As aventuras por que passa Lancelote tem o sentido de prova, são “provas em que o herói deve exibir suas qualidades físicas de força, destreza e bravura, quanto uma prova moral de significação escatológica” (Nizia, 1996). Lancelote é conhecido como o cavaleiro da Carreta, justamente porque a prova mais difícil porque passou foi a de subir numa carreta, símbolo da infâmia e, quem nela subisse mereceria o desprezo de todos. O anão que conduzia a carreta disse que subir na carreta era o único meio de ele saber onde estava a rainha. Por uns instantes Lancelote vacila, essa demora é breve, mas custosa para ele, comenta o novelista. Finalmente sobe - já que o impulso do amor o induz a isso: “Esse gesto enquadra-se perfeitamente no código do amor cortês, pois por sua amiga o cavaleiro devia arriscar-se a tudo: a perder a vida e até a honra” (Harvey, 1994).  Nota-se pela passagem do romance transcrita abaixo: “É esse o desejo do Amor e o cavaleiro obedece. Pouco lhe importa a vergonha se é isso o que Amor deseja e manda.” (Troyes, 31, 1994)

O romance explicita a gravidade do ato de Lancelote subir na carreta através da fala dos moradores do vilarejo a que chega:

“A que suplício está sendo levado esse cavaleiro? Será esfolado vivo, enforcado, afogado ou queimado na fogueira de espinhos? Conta, anão, já que o estás conduzindo, em que crime ele foi apanhado. Está provado que foi roubo? Ou foi assassinato? Foi vencido em combate na liça?” (Troyes, 32, 1994)

O desprezo por Lancelote haver subido na carreta não pára por aí. A donzela que oferecia o leito para os cavaleiros dormirem disse a Lancelote:

Foi para a comodidade de vossos corpos que se prepararam estes leitos. Mas naquele ali só pode descansar que merecer. Aquele leito não foi feito para vós (...) Maldito o cavaleiro que subiu numa carreta. Não seria sensato querer dormir naquela cama (...) Não a mandei arrumar com tanta pompa para que nela vos deitásseis. (Troyes, 33,1994)

 A história da carreta volta a ser tema mais adiante, quando dizem:

 Se não fosse ela [a carreta[ , em todo o mundo, não se encontraria um cavaleiro cuja coragem, tantas vezes experimentada, se igualasse à dele. Se imaginássemos todos os bravos reunidos numa assembléia, não veríamos nenhum mais nobre e mais belo, se a verdade fosse dita. (Troyes, 66, 1994) 

Posteriormente no meio do caminho encontra uma donzela que lhe dá instruções em troca de uma recompensa que depois escolherá. Nessa parte se anuncia um dos desafios que Lancelote terá que passar para encontrar a rainha: atravessar uma ponte “cortante como uma espada” (Troyes, 36, 1994), a ponte da espada. Mas o cavaleiro de tão dominado pelo Amor sequer se abate ao saber desse desfio.

Durante os desafios que passa, Lancelote afirma sempre seu amor pela rainha. É o que notamos no episódio em que uma donzela bela e graciosa o acolhe para passar a noite em seu castelo e em troca quer que ele se deite com ela. Depois do jantar a donzela vai para seu aposento. Lancelote em seguida escuta gritos de socorro que vêm do quarto da donzela e a acode. Lá encontra um homem que tenta estuprá-la, na porta existem guardiões. Lancelote combate contra todos e salva a donzela. Nesse episódio ele supera a covardia “Se me deixar dominar pela covardia, não chegarei ao meu destino” (Troyes, p.43, 1994) e isso demonstra uma atitude cavalheiresca.

Porém, após a proeza, Lancelote por amor à rainha, não consegue cumprir o juramento de se deitar com a donzela. Explica o novelista como nessa comprometedora situação a fidelidade a outro amor lhe imuniza e retém: “o cavaleiro só tem um coração e este não lhe pertence mais. Foi entregue a alguém e, assim, ele não pode de forma alguma dá-lo a outrem. Amor, que reina sobre todos os corações o faz permanecer fiel” (Troyes, 44, 1994). A donzela admira sua conduta extraordinária. A falta que cometeu em não cumprir seu juramento para com a donzela, atitude indigna de um cavaleiro, é compensada pela proteção que ele lhe promete “ninguém vos causará dano sem ter que se haver comigo” (Troyes, 46, 1994). No dia seguinte a donzela acompanha o cavaleiro em seu caminho.

Nessa cavalgada encontram uma fonte onde mais uma prova do Amor acontece.  Lancelote encontra nesse local o pente de Ginevra com alguns fios de seus cabelos: “Guarda-os perto do coração, entre a camisa e a pele. Não os aceitaria trocá-los nem por uma carrada de esmeraldas e rubis. Sentia-se protegido da úlcera e de todos os males” (Troyes, p.48, 1994).

Continuam suas marchas pelo bosque, quando encontram um cavaleiro que amava a donzela e que pretendia arrebatá-la de seu desconhecido acompanhante. Chrétien nesse momento explica um costume que vale para o mundo da cavalaria: enquanto que é desonroso assaltar uma donzela solitária e obrigá-la a amores contra a sua vontade, um cavaleiro pode arrebatar a amada ou companheira de outro, sempre que o derrote previamente. Lancelote aceita o combate e os três vão procurar um lugar mais amplo para disputar a donzela. Chegam a uma pradaria onde damas e cavalheiros se divertem e dançam. O combate não se realiza porque o pai do desafiante, um velho nobre, o impede de lutar contra Lancelote. Mais uma vez evidencia-se a postura cavalheiresca de Lancelote.

Durante a história várias vezes ocorrem retomadas de episódios de obras já conhecidas e outros da “tradição céltica”, como o do pente de Ginevra, o anel que Morgana lhe dá para desfazer qualquer encanto e o da lápide que ninguém pode remover, por exemplo. Quando chegam a um cemitério que um ancião toma conta, ocorre o prenúncio de que Lancelote será o salvador da rainha e que libertará ela e os outros prisioneiros. Ele consegue levantar sem o menor esforço a lápide “que para levantá-la seriam necessários sete homens mais fortes do que vós ou eu” (Troyes, 55, 1994). Sobre essa lápide há a inscrição:

Quem levantar sozinho esta lápide libertará aqueles e aquelas que estão presos nesta terra da qual não pode sair nem servo nem fidalgo desde que aqui entrou; nunca nenhum deles viu o caminho de volta, pois todos os estrangeiros aqui permanecem prisioneiros enquanto os da terra vão e vêm, dentro e fora das fronteiras como bem lhes apraz.  (Troyes, p.55, 1994).

Depois dessa aventura a donzela e Lancelote se separam e o cavaleiro segue sozinho até o anoitecer, quando um hospitaleiro senhor lhe oferece albergue. Quando este descobre que o cavaleiro está ali para libertara todos os prisioneiros do reino de Baudemaguz, dois filhos do anfitrião, que eram cavalheiros, se oferecem para acompanhá-lo em sua arriscada empreitada. No dia seguinte partem e atravessam um perigoso desfiladeiro depois de derrotar o seu chefe guardião.

O reconhecimento da valentia do cavaleiro é expressa quando chega à terra do rei de Baudemaguz, e, em companhia dos dois irmãos enfrenta várias adversidades: “Nunca vi cavaleiro tão valente. Não, não há ninguém igual à ele! Não foi um prodígio o que ele fez, passando a força pelo desfiladeiro” (Troyes, 61, 1994). Logo em seguida comentam: “A gente de Logres admira-se ao ver o cavaleiro combater (...) é ele quem vai nos tirar a todos do exílio e desta grande desgraça em que vivemos(...) pois para nos tirar do cativeiro passou por muitos lugares perigosos e ainda passará por outros” (Troyes, p.63, 1994).

Todos ficam alvoroçados com a braveza do cavaleiro, discutem entre eles, oferecem-lhe hospedagem. Lancelote demonstra mais uma vez seu caráter cavaleiresco, dominando a situação, acalmando os camponeses e demonstrando que a discussão não lhes será positiva.

Surge então um outro cavaleiro, que, após um diálogo tenso, desafia-o para um combate. O trecho a seguir mostra a intenção do autor de afirmar Lancelote como um cavaleiro nato:

“O cavalo e o escudo pareciam ter-lhe sempre pertencido, pois lhe convinham prodigiosamente. A cabeça encaixava-se tão bem no elmo que este não parecia ter sido emprestado. Vós teríeis jurado, ao verdes como parecia feito à sua medida, que o nosso cavaleiro já usava aquele elmo ao nascer, e juntos, tinham crescido” (Troyes, 66, 1994).

Nessa luta, após ter vencido seu oponente, este implora por misericórdia, enquanto Lancelote afirma só aceitar seu pedido de desculpas se este aceitar subir numa carreta. Neste momento, chega uma donzela montada em uma mula, desejando e pedindo que Lancelote lhe entregue a cabeça de seu rival, que para ela é o mais traiçoeiro cavaleiro.

Lancelote fica então dividido entre a o pedido da bela donzela e a vida de seu oponente, havendo então mais uma vez o reconhecimento das qualidades de caráter do cavaleiro: “Generosidade e piedade lhe ordenam que contente os dois, pois ele possuía as duas virtudes”.Lancelote decide por dar uma segunda oportunidade ao vencido, que mesmo assim acaba sendo decapitado e tendo suas cabeças oferecidas à donzela, que promete a Lancelote um agradecimento.

Lancelote continua sua jornada acompanhado dos dois irmãos. Eles são acolhidos na mansão de um cavaleiro, onde são tratados com muita cortesia e polidez. Ao amanhecer, partem novamente, até chegarem à ponte da espada, “mais afiada do que uma foice”. Seus companheiros tentam persuadi-lo a desistir, mostrando-lhe todos os sofrimentos carnais que o aguardava, mas o cavaleiro não desiste, reafirmando sua coragem e seu amor incondicional pela mulher amada: “Mas Amor, que o conduz, acalma-o e cura-o”. Lancelote tira as botas e a luva para atravessar a ponte, podemos deduzir que faz isso numa tentativa de maior sofrimento para demonstrar seu amor por Ginevra, que por ela vale sofrer qualquer coisa. Então atravessa a ponte, chegando à outra margem sangrando e ferido.

Meleagante, enfurecido por sua cólera, desafia o bravo cavaleiro a um duelo em suas terras, mesmo contra a vontade de seu pai, o rei Baudemaguz que prefere a paz. Começa então o combate. Lancelote, ao avistar sua amada observando-os de uma das janelas da torre, tem sua força aumentada cada vez mais, até que o bravo cavaleiro derrota seu oponente. Sente que “cumpriu seu dever de vassalo para com a dama” (Troyes, 84, 1994).

A rainha, a pedido do rei Baudemaguz, pede que a vida do rival seja poupada e, como deve obedecê-la, Lancelote pára de combater, mas é contra-golpeado por Meleagante, que cai desesperado de vergonha ao escutar de seu pai que já fora derrotado e agia como covarde. Vencido, Meleagante deve libertar seus cativos, que abençoam Lancelote de alegria.

Quando Lancelote vai ver a rainha, esta lhe recebe com um ar de indiferença, não se mostrando interessada na visita do gentil cavaleiro. Nesse encontro, a rainha questiona Lancelote porque demorou a subir na carreta: se realmente a amava não deveria ter titubeado um só instante. Mas a prova do amor é evidente, ele subiu e passou por todas humilhações. Essas atitudes demonstram uma das situações que competem ao jogo do amor cortês.

Lancelote parte para seu reino de origem com parte dos ex-prisioneiros. No meio do caminho, os moradores, que não haviam assistido ao combate, pensaram que agradariam ao rei se trouxessem Lancelote preso. Lancelote e seus acompanhantes estavam desarmados e por isso foram facilmente capturados. Foi conduzido de volta ao palácio, com os pés atados por baixo do cavalo. Chegam notícias à rainha de que Lancelote está morto. Essa se desespera e se arrepende de tê-lo tratado mal. Tratar mal a quem tanto lhe amou e dedicou sua vida. Se arrepende profundamente, fica muito triste e desolada “e por pouco não se matou ao saber do que acontecera a Lancelote” (Troyes, 90, 1994). Lancelote fica sabendo que a rainha morreu e “teria dado cabo da vida se tivesse podido!” (Troyes, 94, 1994) e a rainha, ao saber disso, aprecia a notícia e “por nada no mundo teria admitido que tal desgraça acontecesse ao cavaleiro” (Troyes, 94, 1994).

Lancelote reaparece vivo e a rainha fica muito feliz ao reencontrá-lo. Combinam um encontro e passam a noite juntos no quarto da rainha. Porém, ao retirar as grades da janela do quarto da rainha, o bravo cavaleiro corta seu dedo menor, sem se dar conta, salpicando o lençol da cama com seu sangue. Meleagante acusa a rainha de ter se deitado com Keu, mas essa situação se resolve rapidamente com um combate.

Lancelote então, no caminho para reencontrar seu velho amigo Gauvain, é enganado por um anão, caindo na armadilha de Meleagante, sendo então mantido prisioneiro pelo mesmo.

Todos estranham a súbita desaparição de Lancelote. A rainha sofre com o sumiço de seu amado: “Ela já perdera as cores rosadas da face; sem nada saber de Lancelote, sentia tanta tristeza que uma estranha palidez lhe alterava a beleza”. (Troyes, 108, 1994)

Um torneio acontece no reino e a rainha declara que estará presente. A notícia chega aos ouvidos de Lancelote, que faz um pacto com a dama que o vigia, prometendo sobre o livro sagrado voltar logo após o término do torneio.

No torneio, Lancelote logo demonstra suas características de cavaleiro bravo, combatendo com coragem todos os outros oponentes. A rainha certifica-se de que aquele é mesmo Lancelote quando pede a uma donzela que mande uma mensagem ao bravo cavaleiro, de que deve ser [lutar] “o pior possível”.

Lancelote, como bom vassalo, obedece a sua amada, tornando-se derrotado combate após combate. Depois a rainha lhe pede que seja “o melhor possível”, e este volta a lutar com bravura e a encantar aos espectadores e especialmente à rainha. É o vencedor do torneio, mas foge antes da premiação. Lancelote então retorna à prisão como prometido e Meleagante, ao saber do ocorrido, resolve manter o bravo cavaleiro preso em uma torre, onde não poderia nunca mais escapar, mantendo-a em absoluto segredo.

Lancelote passa longos dias de tortura dentro da torre, ficando muito fraco e doente, até que uma donzela, a qual ele havia oferecido um favor há algum tempo, resolve ajudá-lo. Enquanto isso, sem saber que Lancelote está prestes a deixar o cativeiro, Meleagante se dirige ao reino de Arthur, para travar combate com Lancelote, como haviam combinado no reino de Baudemaguz: lutar novamente após um ano no reino de Artur.

Gauvain, sem saber também que seu amigo está prestes a chegar, promete combater no lugar de Lancelote. Ele já estava armado sobre seu cavalo quando se depara com o companheiro, que não permite que Gauvain combata em seu lugar. A rainha, ao saber da volta de Lancelote, fica muito satisfeita, porém não pode demonstrar essa alegria, uma vez que muitas pessoas estavam à sua volta. “Mas a razão domina-lhe o coração e o desejo insensatos”.(Troyes, 135, 1994).

Lancelote então luta com Meleagante como nunca havia lutado antes, cheio de ódio. E finalmente o nosso bom cavaleiro derrota o cruel vilão, cortando-lhe a cabeça.

 

CONCLUSÃO 

O sentido principal da novela é a glorificação de um amor adultero à moda cortês entre Lancelote e a esposa do rei Artur. Durante toda a narrativa seguimos as aventuras e peripécias por que passa o herói até chegar a sua amada. “Aqui encontramos pela primeira vez o esquema da busca, a quest,..., a busca de Lancelote por sua amada Ginevra” (Gual, 1990). O sentido da aventura nessa busca, como já dissemos, é “para pôr a prova o valor e a coragem do cavaleiro” (Nizia, 1996) e são as provas que demonstram a grandeza, a coutois de Lancelote.

O rei Artur não é mostrado como herói. Ao contrário, entrega a mulher a Keu, que a leva ao inimigo, e ao invés dele mesmo ir resgatá-la, confia a tarefa a Lancelote e a Gauvain. Ele parece não perceber a infidelidade da mulher e do amigo. “A condição de marido traído prejudica-o aos olhos do leitor mas, segundo a técnica neste tipo de narrativa, só o herói pode brilhar”(Harvey, 1994). Dessa forma, Gauvain e Artur perdem seu prestígio para que se sobressaia Lancelote. Seu pior inimigo, Meleagante, é posto de forma extremamente forte e astuciosa - “Meleagante, um cavaleiro alto e robusto” (Troyes, 35, 1994) - para valorizar a vitória de Lancelote sobre ele. Através dos atos de Lancelote é que se vê aplicado o amor cortês, a dedicação a qualquer custo à sua amada.

A substituição de Artur por Lancelote, do marido pelo amante, tem vantagens do ponto de vista narrativo. O paladino, misterioso e sem nome durante boa parte do livro, deve mostrar seus méritos em uma série de provas, aventuras variadas, eróticas e belicosas, para deixar patentes seu valor e fidelidade. “As provas impostas pelo destino se complementam pelas impostas pela rainha Ginevra, domina bastante rigorosa” (Gual, 1990). O tipo de Lancelote, fiel ao amor por cima da honra e da morte, é uma criação genial, que expressa o ideal romântico de um momento histórico.  A rainha Ginevra, depois da excessiva dureza com que tratou Lancelote no primeiro encontro, concederá ao cavaleiro seus “mais íntimos favores, recompensa de tanta fidelidade e de serviços tão árduos” (Gual, 1990). Esse encontro noturno chega até as últimas etapas de um adultério segundo a pauta do fino amor trovadoresco. Nesses amores a adoração do amante pela dama tem feições quase religiosas; Lancelote tem gestos quase sacrilégicos ao reverenciar Ginevra como a um corpo santo ou ao apreciar seus cabelos mais que qualquer relíquia. O serviço ao amor é mais poderoso que a própria honra e por ele o cavaleiro pode se expor à infâmia. “O impávido guerreiro se converte em um submisso vassalo de sua dama até extremos inverossímeis” (Gual, 1990).

Como se pôde comprovar, Lancelote é valente, leal, sábio, eloqüente, bravo. Sua amada, a rainha Ginevra corresponde também a cortois feminina, ela é sincera, bela, sensata e elegante (Nizia, 1996). 

O amor cortês é, portanto, um relacionamento amoroso entre um jovem cavaleiro e uma mulher casada. Um de seus caracteres fundamentais é sua conexão com o valor cavaleiresco, com a coragem guerreira, a valentia do guerreiro associada ao amor, essa “conexão necessária entre amor e valor cavalheiresco é uma característica própria ao amor cortês: combater bem, e não apenas cantar bem, é prova de que se ama, e é também a condição para ser amado”. Provamos assim a cortesia presente em Lancelote, um jovem com qualidades nobres e cavaleirescas, capaz de se conduzir bem em sociedade em relação a quem quer que seja. Um vassalo pronto para servir sua amada:

 “Quem ama sabe obedecer.

 E faz bem depressa e de bom grado

 o que deve agradar sua amiga,

se ama de todo o coração”. (Nizia, 1996)

 

BIBLIOGRAFIA

AUERBACH, Edgar “A saída do cavaleiro Cortês” in: Mimesis, SP, Perspectiva, 1976.

DUBY, Georges Idade Média, Idade dos Homens. Do amor e outros ensaios, SP, Companhia das Letras, 1989.

_______ “O modelo cortês”, in Georges Duby e Michelle Perrot, História das Mulheres no Ocidente(vol. 2 A Idade Média). Lisboa, Afrontamento, 1993.

GUAL, Carlos García Primeras novelas europeas, Madrid, Istmo, 1990.

TROYES, Chrétien de Lancelote, o cavaleiro da carreta Trad. de Vera Harvey. RJ, Fancisco Alves, 1994.

Nizia, Cristiane Marchello- “Cavalaria e Cortesia” In Levi, G e Schmitt, J-C. História dos Jovens, vol. 1, Da Antiguidade à Era Moderna. SP, Cia das Letras, 1996.