LÍNGUAS EM CONTATO: PORTUGUÊS E KAINGANG NO RIO GRANDE DO SUL
UMA BREVE DISCUSSÃO

 

Solange Aparecida Gonçalves*
solangeapg@gmail.com

 

I- Introdução

No Brasil muitas comunidades indígenas tiveram suas exigências lingüísticas ampliadas a partir de intensificação do contato com os não-índios, especialmente quando a colonização chegou muito próxima dessas comunidades. Interagir em Português passou, então, a ser uma necessidade.

Por viverem em um país onde a língua oficial não é a sua, necessitam adquiri-la ou dela se apropriarem, porque a necessidade de comunicação, seja com órgãos públicos, com empregadores, grupos religiosos, nas relações comerciais ou mesmo na escola, fazem com que os membros dessas comunidades precisem "entender" os vários discursos da sociedade que os envolve. Como para a maioria das sociedades indígenas no Brasil, os Kaingang precisaram empregar a língua portuguesa como recurso para estabelecer a maioria dos laços com a sociedade envolvente. Assim, no último século e meio, a língua portuguesa teve menor ou maior interferência, ou dito de outra forma, influência sobre a língua Kaingang.     

Os primeiros contatos oficiais e amistosos reconhecidos com comunidades Kaingang pela sociedade portuguesa acontecem a partir de 1812 nos Campos de Guarapuava, centro do Paraná (Cf. D’Angelis, 2001). E, a partir da expansão da economia pastoril, no século XIX, e da economia agrícola e exploração madeireira no século XX, a invasão e ocupação do território Kaingang foi sendo ampliada, e os contatos e interações igualmente se intensificaram.

Hoje os Kaingang representam cerca de 45% de toda população dos povos da família lingüística Jê e estão entre os cinco povos indígenas mais populosos do Brasil: cerca de 30 mil pessoas distribuídas em aproximadamente 30 áreas indígenas diferentes entre os Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A maioria é bilíngüe, falando ao lado de sua língua, o Português. Possuem escolas nas aldeias, na maioria das quais o ensino é bilíngüe (Português e Kaingang) e os professores também em sua maioria são falantes nativos.

A proposta deste ensaio é analisar alguns aspectos relacionados a mudanças induzidas por contato (“contact-induced changes”) que podem resultar dessa situação de bilingüismo nos Kaingang do Rio Grande do Sul hoje.

 

II- Metodologia

Nesse trabalho serão utilizados três textos originados de entrevistas realizadas por professores Kaingang do projeto Vãfy com membros de suas próprias comunidades no Rio Grande do Sul (nesse caso, da região de Guarita mais especificamente).

Iniciado em 2001, o Vãfy é um programa de formação de professores Kaingang na modalidade Magistério Específico Indígena de 2º Grau. É coordenado pela Funai - Passo Fundo, Unijuí, Universidade de Passo Fundo e Associação de Professores Bilíngües Kaingang Guarani.

As entrevistas foram gravadas no 2º semestre de 2002 e transcritas pelos próprios professores indígenas: alunos do Vãfy que se dividem em equipes por escolas.

No primeiro texto o entrevistado é Antônio Sales, de 47 anos e conta a história dos Kaingang na região hoje denominada Guarita. É uma narrativa livre. No segundo texto a entrevistada é Martina K. L. Amantino de 45 anos e apresenta-se na forma de perguntas e respostas, sendo que o assunto tratado é sobre escola na área indígena. E o terceiro texto sem identificação do entrevistado, também é uma narrativa sobre um tempo em que os Kaingang passaram por muitas dificuldades e viveram num regime de trabalho forçado, sob mando dos funcionários do SPI (Serviço de Proteção ao Índio). Os homens trabalhavam em roças do Posto e as mulheres faziam grandes panelas de comida, os chamados “panelões” para os que trabalhavam (os acontecimentos se passam na década de 50 até 80, quando as terras foram arrendadas). [1]

Os dados foram organizados de forma a permitirem a verificação de: a) palavras de origem não-Kaingang totalmente acomodadas à fonologia da língua e escritas segundo a ortografia Kaingang; b) palavras de origem não-Kaingang parcialmente adaptadas e escritas parcialmente segundo a ortografia Kaingang, e  c) palavras de origem não-Kaingang escritas segundo a ortografia do Português.

A proposta, com base nesses dados, é de se examinar alguns aspectos em relação a esses empréstimos no contexto de ordem de sintagmas, ou seja, o objetivo é verificar se há mudança na ordem de sintagmas ou aceitação de estruturas do Português no Kaingang sem comprometer a língua como um todo.

O termo empréstimo (‘borrowing’) será usado na acepção de Thomason e Kaufman (1988:37):

Borrowing is the incorporation of foreign features into a group’s native language by speakers of that language: the native language is maintained but is changed by the addition of the incorporated features. Invariably, in a borrowing situation the first foreign elements to enter the borrowing language are words.

 

III- Uma breve discussão dos dados

Em construções que envolvem datas encontramos empréstimos como em:

1.Uri tỹ 02 ne tumru ne 2002 vỹ hamã.

‘hoje é 2 de outubro de 2002’ [2]

2. 1956 kã isỹ mur kỹ nĩ 11 ne [3] janẽru.

‘em 1956, eu nasci em 11 de janeiro’

3. Uri isỹ 47 ỹnũ nĩ ha ham.

‘hoje eu tenho 47 anos’.

4. Tỹ oitenta kã kã,1900 kã ...

‘nos oitenta de 1900, ou seja, na década de oitenta’.

Nesses exemplos encontramos palavras emprestadas e adaptadas ao Kaingang, como tumru ‘outubro’ e ne ‘de’.

Em (1) a estrutura está emprestada numa ordem usual do Português, mas em (2) há possivelmente um processo estilístico ou de topicalização: 1956  ‘em 1956’ deslocado para o início da oração, porém mantendo a estrutura 11 ne janẽru ‘onze de janeiro’ no final da oração. Não se encontra nenhuma situação nos textos em que o fracionamento possa ser por exemplo: 02 ne ......outubro......1956 ou 1956.... 02 ne .....janẽru.

A interpretação em (3) de ser uma referência à década de 80 é porque o falante neste texto contava sobre fatos da década de 50 e no final (onde está mencionada essa data), ele fala sobre o arrendamento das terras que foi na década de 80.

Podemos pensar então, que as datas em Kaingang são usadas como na marcação do Português; eles operam com ela, reconhecem que há individualidade, mas que é uma estrutura de sintagma portuguesa. O interessante é que o falante adapta do Kaingang e opera na sintaxe do Português.

Quando há indicação de outras expressões que envolvem números encontramos a sintaxe do Português, mas também com adaptações:

5. Isỹ 47 ỹnũ

‘Eu tenho 47 anos’

 6. 15 kiru

 ‘15 kilo’

7. 30 nija

‘30 dia’.

A palavra ‘kilo’está totalmente acomodada à fonologia da língua e escrita segundo a ortografia Kaingang - kiru (os Kaingang não possuem a líquida //). Em 6. a palavra emprestada ‘dia’ está totalmente adaptada, já que no Kaingang não há oclusiva vozeada /d/ do Português e há a substituição da oclusiva alveolar pela nasal /n/ e também ao padrão silábico da língua, que não aceita VV, então há a utilização da aproximante /j/ para evitar o encontro vocálico não permitido, criando CVCV.

Os nomes próprios referentes a pessoas parecem ser vistos como termos que têm ordem no Português. No Kaingang não existe nome e sobrenome, então quando se fazem essas referências, são emprestadas tal como no Português:

8. Ãntõnio Sales

9.Paulino Sales kósin

‘ filho de Paulino Sales’

10. Maria Ribeiro

11. João Pedro Gavógsĩ Lopes

12. Bastãozinho Jacinto

13. Sebastião Alfaiate.

Uma expressão encontrada: 14. mũnĩja ! ‘bom dia !’ é usada como expressão idiomática, porque não é analisada pelo falante Kaingang como duas palavras separadas.

Encontramos também nos textos muitas referências a:

15. área ne Guarita / área no Guarita /área de Guarita

‘área de Guarita / área do Guarita’

16. setor Guarita

17. sefre no posto

‘chefe do posto’

18. sefre na Funai

‘chefe da Funai’.

Poderíamos pensar em (15) área de Guarita que seria possível ser dito ‘aldeia de Guarita’, utilizando a estrutura do Português, mas usando a palavra Kaingang para aldeia: jamã. Há, porém, o uso do termo “área” que é utilizado pelos não-índios. Dentro da área existem muitas aldeias, muitas vezes chamadas de ‘setores’ e como para os Kaingang ‘terra’ não tem esse sentido delimitado, então, no uso dos dois empréstimos da expressão ‘área de’ pode-se pressupor que ficou emprestada a expressão como um todo, empregando-a como uma locução e houve resistência no Kaingang de usar sua própria estrutura.

Encontramos também como em (16) área ki ‘na área’ que parece confirmar que “área” é uma palavra emprestada (ki é o indicador circunstancial: ‘em’, ‘dentro’; na língua Kaingang).

Em (16) se o falante usasse a sintaxe do Kaingang, teríamos setor tỹ Guarita. Quando encontramos isoladamente a palavra ‘setor’ (sem se referir especificamente a um lugar), ele encontra-se em uma estrutura sintática Kaingang: (19) setor mĩ  ‘dentro do setor, no setor’, o que talvez seja sugestivo que signifique para os Kaingang que ‘setor Guarita’ seja o nome próprio do lugar e então, novamente fica emprestado como uma expressão (como o nome das pessoas).

Quando pensamos nessas expressões surge a pergunta se já houve incorporação  das expressões como uma estrutura do Português e se a preposição ‘de’ também já foi incorporada no Kaingang. Ou dito em outras palavras, os sintagmas ‘área’, ‘setor’, ‘chefe’, são palavras emprestadas e usadas isoladas ou em expressões tipo locuções? (como no Português em ‘apesar de’).

Nossa hipótese é que a preposição ‘de’ não é uma palavra funcional ou uma preposição em Kaingang, porque no genitivo não há mudança, não há emprego da preposição do Português como pudemos verificar em 8. Paulino Sales kósin ‘filho de Paulino Sales’. Outro fator que corrobora essa hipótese é quando no uso de datas, não há fracionamento da expressão separando ‘dia X de’ e depois o mês ou o ano.

Como locução do Português, os Kaingang admitem usar as expressões ‘do’, ‘da’  (como em (17) e (18)), mas há o reconhecimento da estrutura, eles operam internamente com elas, não são expressões congeladas, pois note-se que há concordância, o que pode sugerir consciência do empréstimo.

Com relação a uso de empréstimos do Português com negação, não encontramos modificação na sintaxe Kaingang:

20. pi ã morsa mãn ra  (onde pi é a palavra de negação habitual)

‘não carrega a bolsa’.

Nas interrogativas existem diferenças no Kaingang quanto às perguntas que solicitam informações específicas e que utilizam na sua formação básica os pronomes interrogativos: hẽ, ũ e combinações destes; e as perguntas que pedem verificação e são feitas com o indicador de interrogação mỹ, que pode aparecer no início ou não da pergunta e as perguntas pedindo aceitação, também muitas vezes utilizando mỹ (Cf. Wiesemann, 2002:168).

De modo especial o 2º texto se presta a verificarmos as interrogativas construídas com utilização de empréstimos do Português em seu interior, como nos exemplos:

21. Ã professora fag mỹ ta fóg nỹtĩg nĩ?

‘ Suas professoras eram “fóg” (= não-índias)?’

22. Professora fag mỹ aluno castiga ke tĩ?

‘As professoras castigavam os alunos?

23. Ã escola primário jiji hẽ ke tĩ?

‘Qual o nome da tua escola “primário”?’

24. Guarita tá ãjag escola jiji hẽ ke tĩ?

‘Qual o nome da escola de vocês no Guarita?’.

Analisando a ordem dos sintagmas nesses exemplos, embora a estrutura interrogativa Kaingang não tenha sido modificada, vemos que há casos interessantes sobre fronteiras de constituintes (ainda que não seja o escopo desse trabalho) [4] , onde temos dois empréstimos do Português lado a lado obedecendo à sintaxe Kaingang, como em: (22) Professora ..... aluno castiga e os indicadores de interrogação estão sendo usados de maneira usual no Kaingang.

Em (23) embora os Kaingang tenham a palavra ‘escola’, parece que foi utilizada como expressão: escola primário, porque se fosse na sintaxe da língua, deveria ser ‘primário escola’ (determinante + determinado). Na questão (24) temos outro dado interessante para confirmarmos que a preposição ‘de’ não é funcional para os Kaingang. Há também um outro exemplo, no caso, uma das respostas:

25. colégio  professora  fag   ĩn  

colégio professora 3fempl. casa

‘a casa das professoras do colégio’,

onde se verifica que no genitivo não há uso da preposição e o exemplo é de um sintagma na estrutura Kaingang.

Em outro dado verificamos a sintaxe básica do kaingang para N + N (determinante + determinado):

26. escola parede

‘parede da escola’,

em contrapartida com:

27. finado pai

28. tempo de Luizo Izaque

29. óme pumriku

‘homem público’.

  O dado (28) sugere novamente o uso da expressão, uma locução inseparável: ‘tempo de’, como em outras do Português como: “além de”, “acerca de”.

Uma outra expressão interessante encontrada num dos textos:

30. puritika han

‘fazer política’

Veja-se que a estrutura sintática é da língua, mas o uso está estendendo o significado do verbo fazer, que para os Kaingang é concreto, para uma acepção como no português, que é bastante flexível em termos semânticos.

Finalmente é necessário chamar a atenção para o terceiro texto, mais especificamente, porque difere dos outros pelo falante fazer uso alternado da sintaxe do Kaingang e do Português (um possível code-swithing):

31. primeiro direto

‘primeiro diretor’

32. no meio das arve

‘no meio das árvores’

33. fim da semana

34. mandado do Romildo Izaque

35. toma conta

‘tomar conta’

36. trabalhar no panelão.

Possivelmente o falante deve ter muito contato e falar muito português (a inversão da ordem em (35) e o uso semântico de “tomar” do Português pode reforçar essa idéia, bem como em 36. que significa trabalhar no regime do ‘panelão’, na época em que se usavam panelas grandes para fazer comida; a palavra parece incorporada na língua). Talvez possa ser considerado code-swithing usando a definição de Grosjean (1982:204 apud Gouvêa, 1997): “uso alternado de duas línguas em uma mesma enunciação ou conversação”.

 

IV- Algumas considerações finais

O contato entre línguas conseqüência do contato entre sociedades faz com que surjam fenômenos lingüísticos como empréstimos (‘borrowing’) e mudança de código.

Para Mackey (1972:557 apud Gouvêa, 1997) a função é um dos pontos básicos da descrição do bilingüismo. Essas funções estão relacionadas aos diferentes usos que o indivíduo faz da língua e de características particulares do indivíduo como motivação e atitude em relação à língua.

Como observamos nos dados, embora os falantes sejam bilíngües, há diferentes atitudes com relação à língua de contato. Se por um lado há aceitação de empréstimos, parecem estar, em sua maioria, ligados a palavras ou expressões que não se encontram no kaingang (como datas e números, por exemplo) ou a estruturas que eles consideram como expressões do Português e utilizam-nas como tal. Há possivelmente, como já citado, consciência do empréstimo.

Importante verificar que o não empréstimo isolado da preposição ‘de’ do português reafirma uma interferência não profunda da língua majoritária, embora o contato seja longo e como sugere Thomason e Kaufman (1988:74), na escala de empréstimos com contato mais intenso há predisposição de palavras funcionais (preposições e posposições) serem emprestadas. Essa resistência no Kaingang nos mostra que mudanças gramaticais são difíceis de serem introduzidas na língua.

De qualquer modo, como nos diz Thomason e Kaufman (1988:35): “Both the direction of interference and the extent of interference are socially determined”.

Em outras palavras a língua reflete a história sócio-lingüística de seus falantes.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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GARCEZ, Pedro M. & ZILLES, Ana Maria S. Estrangeirismos: desejos e ameaças. In: Estrangeirismos: guerras em torno da língua. FARACO, Carlos Alberto (org). Parábola Editorial. São Paulo. 2001. p.15-36.

GOUVÊA DE PAULA, Luiz (1997). Semõ ãxeÈeg: reflexões sobre “codeswitching” em eventos de fala Tapirapé. Monografia. Luciara, Mato Grosso.

PAYNE, Doris L. (1992). Pragmatics of Word Order Flexibility. John Benjamins Publishing Company. Amsterdam/Philadelphia.

PAYNE, Thomas E. (1997). Describing Morphosyntax - A guide for field linguists. Cambridge University Press.

THOMASON, Sarah G. e KAUFMAN, Terrence (1988). Language Contact, Creolization, and Genetic Linguistics. University of California Press.

WEI, Li (1994). Three Generations, Two Languages, One Family: Language Choise and Language Shift in a Chinese Community in Britain. Multilingual Matters LTD.

WIESEMANN, Ursula (2002). Kaingáng-Português Dicionário Bilíngüe. Editora Evangélica Esperança. Curitiba (PR).



* PG - Mestrado UNICAMP

[1] No texto 1 os entrevistadores são os professores Kaingang: Ivone da Silva, Elaine Sales e Igedoria Moreira , da Escola  Herculano Joaquim. No texto 2 os entrevistadores são os professores Kaingang: Lourecir Ferreira, Daniel, Leila  e Martina. No texto 3 os entrevistadores são os  professores Kaingang: Dário Nin Su Sales, Marcos César Mĩg Fereira, Valdecir Nẽnhtenh Ferreira.

[2] A tradução utilizada no corpo do trabalho será livre. Os empréstimos serão destacados em negrito.

[3] A língua Kaingang não possui as oclusivas vozeadas (sonoras) /b/, /d/, /g/ do Português. Mas, as consoantes nasais diante de vogais orais ganham um contorno desnasalizado que as aproxima foneticamente das oclusivas vozeadas do Português. Assim, [m] passa a [mb]; [n] passa a [nd]; [] passa a [] (essa não tem correspondente no Português) e [] passa a [g]. Isso acontece mesmo havendo encontro consonantal, no qual o “r” ocupa sempre a segunda posição: /m/ + vogal oral (Vo) = [mb] + Vo, e, // + Vo = [g]+ Vo. Por se tratar de variação fonética, na ortografia a escrita das consoantes nasais não se altera na presença das vogais orais, somente a pronúncia.

[4] No Kaingang a ordem de constituintes é predominantemente SOV ou OVS, como confirma o    dado (21). Para uma discussão interessante sobre ordem de constituintes ver Payne, Doris L. Pragmactis of Word Order Flexibility, 1992.