FRANKENSTEIN: CRIADOR E CRIATURA

Michel Jalil Fauza
mfauza@hotmail.com

 

Pensar é errar.
Fernando Pessoa

 

            No momento em que Mary Shelley publica Frankenstein, não só a Idade das Luzes entraria em xeque, como todo o pensamento pró-científico e, por que não dizer, pró-romântico. Não é mais segredo que Shelley estivesse realmente contestando seu contemporâneo movimento artístico ao colocar para o mundo um fruto tão malformado do Romantismo, ser que nem nome mereceu, mas que por outro lado cativou àqueles que, por qualquer motivo, já se sentiram injustiçados por algum tipo de rejeição colocada pela sociedade ou norma injusta a ela ligada.

            Bem ou mal, o discurso de Shelley é moralista, rousseauniano, conservador, e por conseqüência abridor de uma discussão dialética da evolução humana, sobre a qual este texto se debruçará na tentativa de desestabelecer os purismos associados. “Aprenda, se não pelos meus preceitos, antes por meu exemplo, o perigo que representa a assimilação indiscriminada da ciência, e quanto é mais feliz o homem para quem o mundo não vai além do seu ambiente quotidiano, do que aquele que aspira tornar-se maior de que sua natureza lhe permite” (1996: 26).

            Não por acaso, Shelley determina uma problemática no enredo, um erro pelo qual se desenrolam todos os desagradáveis acontecimentos da obra. A primeira pergunta a ser colocada, diante disso, seria o de apontar em que momento este erro acontece. Seu autor, Dr. Victor Frankenstein, o teria cometido na intenção de criar artificialmente uma forma de vida, nos procedimentos utilizados para tal tarefa ou em sua reação ao se deparar com o produto final de sua experiência? Ao que tudo indica, no desenrolar do próprio livro de Shelley, ficaremos com a primeira hipótese: “Por quê – ai de mim! – há-de o homem vangloriar-se de sensibilidades mais amplas do que as que revelam o instinto dos animais? Se nossos impulsos se confinassem à fome, sede e desejo, poderíamos ser quase livres” (1996: 51).

            O homem que intenciona, portanto, é o verdadeiro culpado, afinal deve-se restringir às limitações do ambiente em um modo praticamente epicurista de condução da vida. Porém, devemos acreditar na ingenuidade de Shelley ao afirmar que a contemplação dos mais naturais instintos humanos seria suficiente para assegurar uma convivência pacífica e harmoniosa? Seria, realmente, o homem este ser que não ambiciona, que não cria, que não almeja, que não vislumbra ou mesmo sonha diante das inúmeras possibilidades que este mesmo ambiente o proporciona e da vastidão do próprio pensamento?

            Em contraponto, temos pensadores como Nietzsche, que afirmam o caráter expansivo de nossa espécie, resultando, sob condições extremas, em conseqüências indesejáveis ou em progressos assustadores a certos grupos sociais. “Ainda combatemos palmo a palmo o gigante Acaso, e sobre a humanidade inteira reinou até agora a insensatez, o sem-sentido. Que vosso espírito e vossa virtude sirvam ao sentido da terra, meus irmãos: que o valor de todas as coisas seja renovado por nós! Para isso deveis ser combatentes! Para isso deveis ser criadores!” (1978: 233).

            Vale ressaltar que este texto não tem a intenção de se posicionar sob uma ou outra perspectiva, mas sim o de apresentá-las como pólos de pensamento concernentes aos caminhos da evolução (não propriamente biológica, mas sobretudo social), configurando na  dialética citada anteriormente. Estaríamos, pois, diante de duas provisões: aquela por base rousseauniana, de apego à natureza e a seus costumes, à cultura rústica e tribal que resulta em convivência justa; e a que dita o progresso, o desenvolvimento como percalço natural do homem, destino natural de sua espécie e que a ela faz jus como característica significante do processo vital e de suas gerações.

            É neste ponto que entra Shelley e sua advertência com relação ao furor científico vivido principalmente no século XVIII, colocando em plena Europa uma criança deformada, mal-amparada e, o que é pior, por ninguém aceita. “The being”, por vezes não propriamente traduzido como “o monstro”, não cresce de forma diferente aos párias das sociedades modernas, sem o mínimo possível de assistência ou compaixão, e dessa forma se transforma no assassino de consciência incomum. É, sem dúvida, o personagem mais humano da obra, mesmo sendo o único que não foi gerado como um.

            Por essa razão e a partir do pressuposto de sua época, Frankenstein é consensualmente considerado o pai da ficção científica, e não apenas um conto de horror, como assim se transformou para muitos leitores. “Na verdade, trata-se do grande, senão único mito original produzido pela idade da ciência e da técnica, a cujos primórdios sua autora assistiu na Inglaterra e cuja culminação estamos hoje vivendo pelo mundo todo com o advento da cibernética e da engenharia genética” (p. 232). A complementar estas palavras de José Paulo Paes, diríamos que a “culminação” ainda está por vir, já que no início do século XXI é difícil a tarefa de definir o que já aconteceu, o que está acontecendo e o que está por vir em termos de tecnologia e ciência. Porém, é certo que o “ser” de Frankenstein, criado a partir do casamento “homem & ciência” foi o primeiro de muitos humanóides da espécie na literatura.

            Ainda Paes a respeito deste tópico: “No capítulo V de Frankenstein, onde é descrito o momento decisivo em que o monstro se anima, inexiste qualquer indicação acerca dos meios utilizados pelo seu criador para insuflar-lhe a ‘centelha da vida’. Esta é produto, todavia, não de artes mágicas ou de recurso ao sobrenatural, como na ficção gótica, mas de uma descoberta científica; a artificialidade dessa recriação de vida está bem marcada, no prefácio de 1831, pela alusão ao uso de uma máquina para consegui-la e ao próprio caráter maquinal dos movimentos executados pelo monstro, que já parece participar dessa simbiose entre o mecânico e o biológico característica dos cyborgs da moderna ficção científica” (p. 235).

            Assim, os cientistas da área parecem ter preferido Nietzsche a Shelley, especialmente quando o primeiro nos diz que “o homem é uma corda, atada entre o animal e o além-do-homem – uma corda sobre um abismo. Perigosa travessia, perigoso a-caminho, perigoso olhar-para-trás, perigoso arrepiar-se e parar. O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim: o que pode ser amado no homem, é que ele é um passar e um sucumbir” (1978: 227). Ou seja, o projeto de criação em si não pode ser considerado, por si só, um erro, mas etapa natural daquilo que se considera como destino humano. A adequação da máquina ao homem (e vice-versa) já é uma realidade há muito presente na vida de nossa sociedade, mesmo nas classes menos favorecidas – afinal o que dizer da incursão dos celulares, da internet, dos satélites ou mesmo das próteses dentárias (que, se não são máquinas, servem como artifícios não naturais criados para modificação da constituição física do homem)?

            Neste momento cabe um útil paralelo com um conto moderno escrito por Isaac Asimov, “O homem bicentenário”. Nele, temos a história de Andrew, um robô doméstico adquirido por uma família de classe média, que percebe, ao longo de sua existência, um “defeito de fabricação” que lhe possibilita um desenvolvimento não imaginado nos protótipos da mesma espécie. Assim, Andrew começa a criar obras de arte e a escrever livros, dentre outras atividades consideradas exclusivamente humanas, e parte para a luta que se torna o principal mote da obra: sua aceitação como ser humano.

            “– Não só quero que me tratem como homem, mas que também seja judicialmente considerado como tal. Quero ser homem no sentido legal.

            – Isso é outra coisa – retrucou DeLong. Aí já estamos entrando no terreno do preconceito humano e do fato incontestável que, por mais que pareça, você não é homem.

– Como que não sou? – reclamou Andrew. Tenho aspecto de homem e órgãos equivalentes aos de um ser humano. Que, aliás, são idênticos aos de certas criaturas que têm de usar próteses. A minha contribuição artística, literária e científica para a cultura humana, tão importante quanto a de qualquer homem contemporâneo. Que mais se pode exigir?” (2001: 68).

É evidente que está em jogo para nós, homens, o sentido de “ser humano” – a criatura de Frankenstein também o é, sem que sua comunidade o aceite. Afinal, é difícil olhar para si mesmo e encontrar tantos defeitos, assim como é difícil para alguns encarar o fato de que um simples operário pode ocupar um cargo como a presidência de uma nação. A questão não é propriamente a de o olhar sobre o outro, mas o de sobre si mesmo. Os argumentos contrários a esta aceitação (geração induzida, suposta imortalidade, não-organicidade etc.) são censores a nossos próprios defeitos e tão incoerentes quanto dizer que só determinada raça é merecidamente humana, ou tal biótipo, tal cultura. A pluralidade nos faz conscientes, desta forma é dever da autoaceitação fazer parte do mesmo processo.

Diante de tal problema, Andrew se humaniza até as últimas conseqüências – abdicando, em última instância, ao direito à vida:

“– O meu próprio comportamento positrônico já durou quase dois séculos sem nenhuma modificação perceptível e é capaz de durar muito mais ainda. Não é essa a objeção fundamental? A humanidade pode tolerar um robô imortal, porque pouco importa quanto tempo a máquina dure, mas não pode tolerar um homem imortal, uma vez que a própria mortalidade só é sustentável na medida em que for geral. E por esse motivo não concordam com minha exigência de me tornar humano.

            – Aonde é que você quer chegar, Andrew? – perguntou Li-hsing.

            – Acabei com esse problema. Décadas atrás, o meu cérebro positrônico foi ligado a nervos orgânicos. Agora, uma última operação conseguiu dar um jeito para que essa ligação, aos poucos, paulatinamente, perdesse esse potencial do meu comportamento. [...]

            – Mas não vale a pena, Andrew. Você é um idiota.

– Como que não vale a pena, se conseguir a minha condição humana? E, se não conseguir, vai acabar com toda essa luta e, portanto, também vale a pena” (2001: 78).

Porém, o ser de Frankenstein não teve direito a um ouvidor, a um júri a qualquer direito que lhe fosse compatível. A ele, erro de intenção, ficou o cargo passivo de exemplo-mor da insolência humana. E ao medo Shelley ata a complacência – voltemo-nos à vida simples da natureza, para que tais atropelos sejam a todo custo evitados. A dialética existente entre o rousseaunismo a inventividade faz-se valer, crendo-se que um aspecto anula o outro, o que é falso, se nos atentarmos mais propriamente.

Afinal, o mesmo homem que constrói é o que destrói, o que ama, odeia, o que progride, regride, e separar tais instintos é comparável a separar os braços, afirmando que não são partes constituintes de um mesmo corpo. O temor por eles é sim justificável, mas não evitável, haja vista que o ser humano, se nem ao menos nos damos conta de defini-lo, dificilmente é ou será explicado. Hoje, confunde-se o nome de Dr. Victor com o de sua criatura, talvez não por acaso – aceitar que um, como o outro, possui características dissociáveis e, não paradoxalmente, componíveis de um mesmo ser é exercitar o saber, a tolerância de que jamais seremos o que almejamos (purismos à parte) e possibilitar, assim, o livre caminho da vida, à mercê de todos os seus agentes.

 

BIBLIOGRAFIA

ASIMOV, Isaac. O homem bicentenário; trad. de Milton Persson. Porto Alegre: L&PM, 2001.

NIETZSCHE, Friederich W. Obras incompletas, col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

PAES, José P. Gregos & baianos. São Paulo: Brasiliense.

SHELLEY, Mary W. Frankenstein; trad. de Éverton Ralph, 5ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.