O FAZER POÉTICO EM DRUMMOND

 

Fábio Della Paschoa Rodrigues

 

 

Drummond, nos livros que compreendem o período do Modernismo, ou seja, entre 1922 e 1945, dedicou sempre alguns poemas sobre o fazer poético, sobre a função da poesia. Em Alguma Poesia (1930), Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), José (1942) e A Rosa do Povo (1945), Carlos Drummond de Andrade nos deu belíssimos poemas que comportam uma poética própria que, na análise cronológica de seus livros, ora se transforma com alguns nuances ou mais dramaticamente, ora conserva outros conceitos e idéias.

Como Drummond resolve sua poética? Tentemos buscar nos poemas sobre poesia uma tentativa de resposta a essa questão, verificando uma possível coerência e o desenvolvimento da poética de Drummond, já que, poeta torto, ele vacila entre suas produções mais voltadas ao indivíduo (como no livro de estréia, Alguma Poesia) e a poesia mais social, coletiva.

 

“Mundo mundo vasto mundo

mais vasto é meu coração”[1]

Em Alguma Poesia, temos um poeta que vive na solidão. E sua poesia basta a ele. A poesia surge quando aparece uma pedra no meio do caminho do poeta. Ela “surge quando o universo se torna insólito, enigmático, embaraçoso – quando a vida já não é mais evidente” (Merquior, 1975:25).

A figura do poeta é sempre elidida, o que se afigura nos poemas é tão somente a mão, ou a pena que escreve.

A mão que escreve este poema

não sabe que está escrevendo

 

(“Poema que aconteceu”, AP)

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever

(“Poesia”, AP)

Ao reduzir a figura do poeta à sua mão, Drummond parece privá-lo de sua consciência: o poeta parece não ter consciência do seu fazer poético e, “se soubesse”, talvez “nem ligasse”  (“Poema que aconteceu”, AP). Em “Poema que aconteceu” (AP) a composição do poema é involuntária, “o poema ‘aconteceu’ num sentido completamente impessoal. Presumimos que há um poeta”. O poeta, “o eu não é criador, mas vítima da sua poesia” (Gledson, 1981:80-1).

Quando aparece a figura do poeta, ele não se apresenta no seu fazer poético, senão na sua vida cotidiana.

O poeta chega na estação.

O poeta desembarca.

O poeta toma um auto.

O poeta vai para o hotel.

E enquanto ele faz isso

como qualquer homem da terra,

uma ovação o persegue

feito vaia,

 

Bandeirolas 

abrem alas.

Bandas de música. Foguetes.

Discursos. Povo de chapéu de palha.

Máquinas fotográficas assestadas.

Automóveis imóveis.

Bravos...

O poeta está melancólico.

(“Nota Social”, AP)

Por vezes, ele aparece inconsciente, bêbado de tudo, cantor inconseqüente de seu canto.

O poeta ia bêbedo no bonde.

(“Aurora”, BA)

Nos dois primeiros livros de Drummond, a poesia parece ser a redenção do poeta, sua “consolação”. O verso do poeta serve-lhe e somente a ele. É seu muro de lamentações.

Meu verso é minha consolação.

Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua cachaça.

(...)

Para louvar a Deus como para aliviar o peito,

queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos

é que faço meu verso. E meu verso me agrada.

(“Explicação”, AP)

Faz-se verso como se faz qualquer outra besteira, como se bebe, como se xinga. O poeta faz besteiras e convida os outros:

Vamos fazer um poema

ou qualquer outra besteira.

(“Convite triste”, BA)

As necessidades do poeta são postas no poema, como se assim, a carência delas fosse suprida:

É preciso salvar o país,

é preciso crer em Deus,

é preciso pagar as dívidas,

é preciso comprar um rádio,

é preciso esquecer fulana.

(“Poema da necessidade”, BA)

Mas não se espere que o canto do poeta transforme as pessoas: “A poesia é incomunicável” (“Segredo”, BA). E no entanto, o poeta crê na necessidade de mudar o mundo e credita muito valor ao poema. Mas o coração do poeta é mais vasto que o mundo.

 

“Não, meu coração não é maior que o mundo.

É muito menor.”[2]

No terceiro livro, Sentimento do Mundo, Drummond revê o fazer poético. Amadureceu o poeta individualista de Alguma Poesia, tomando consciência do mundo, apesar de não se esquecer de seu coração: “agora, o órgão sensível da poesia-acontecimento não é mais a instância individualista do coração, é a consciência individual (mas socializável) do sofrimento coletivo” (Merquior, 1975: 40).

O poeta de Sentimento do Mundo constata que vive em “um tempo em que a vida é uma ordem” (“Os ombros suportam o mundo”, SM), que vive num mundo grande, onde os homens de “diferentes cores”  vivem suas “diferentes dores” e que não é possível “amontoar tudo isso/num só peito de homem” (“Mundo grande”, SM). Ele constata, arrependido, que se voltou para si e para seus ínfimos problemas:

Outrora escutei os anjos,

as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.

Nunca escutei voz de gente.

Em verdade sou muito pobre.

(“Mundo grande”, SM)

Mais que constatar ele se recusa a ser  o poeta de um mundo caduco”,  a ser “o cantor de uma mulher, de uma história”. O poeta não será uma ilha, mas cantará “o tempo presente, os homens presentes,/a vida presente” (“Mãos dadas”, SM). O verso-cachaça dá lugar ao verso-combate, que alimenta o coração do poeta, para lhe dar forças para lutar:

Então, meu coração também pode crescer.

Entre o amor e o fogo,

entre a vida e o fogo,

meu coração cresce dez metros e explode.

Ó vida futura! nós te criaremos.

(“Mundo grande”, SM)

 

“Lutar com palavras

é a luta mais vã.”[3]

Num livro em que Drummond se volta novamente ao indivíduo (o nome do livro já é uma indicação disso), a poética de José apresenta a luta do poeta com as palavras e prenuncia a poética que guiará o livro seguinte, A Rosa do Povo.

É no belo poema “O lutador” (J), que Drummond expressa a luta do poeta com as palavras, tentando atraí-las para perto de si. Este poema representa uma certa ruptura com a poética do vivido, que predomina até Sentimento do Mundo (cf. Merquior, 1975:72). O poeta-lutador é vulnerável, mais que isso, impotente ante as palavras: “são muitas, eu pouco” (“O lutador”, J). Mas ele não desiste da luta: tenta apanhar as palavras, delas não apanhar.

Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhes-ei escravo

de rara humildade.

(“O lutador”, J)

Em cada palavra há uma essência, que tem de ser captada pelo poeta. No entanto, elas deslizam e fingem: “as palavras parecem entidades rebeldes e múltiplas, que o poeta procura atrair, mas que fogem sempre, quer ele as acaricie, quer as maltrate” (Candido, 1977:116). Se as palavras o desafiam, ele aceita o combate, pois é dessa luta que nascerá a poesia, luta contínua, que inicia “mal rompe a manhã” e que prossegue “nas ruas do sono” (“O lutador”, J). As palavras são o sustento de vida do poeta-lutador.

Esse lutador pode ser qualquer um, um Jão-Todo-Mundo ou João-Ninguém: qualquer um pode ser um poeta.  O poema “José” configura uma outra condição solitária do indivíduo gauche:

E agora, José ?

A festa acabou,

a luz apagou,

 povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José ?

e agora, você ?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama protesta,

e agora, José ?

(“José”, J)

 

“Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.”[4]

De poeta-lutador a poeta-viajante, ele terá de adentrar no reino das palavras, numa “viagem mortal”, movendo-se “em meio/ a milhões e milhões de formas raras,/ secretas, duras.” (“Consideração do poema”, RP). O local onde as palavras se encontram em estado de latência, a deduzir de “Poesia” (AP), pode ser o próprio poeta, seja na sua “mente”, no seu “espírito”, ele está “cá dentro/inquieto, vivo”.

Em “Procura da poesia”, poema de seu livro A Rosa do Povo, como em “O lutador”,

a poesia está escondida, agarrada nas palavras; o trabalho poético permitirá arranjá-las de tal maneira que elas a libertem, pois a poesia não é a arte do objeto, como pareceria ao jovem autor de Alguma Poesia, mas do nome do objeto, para constituir uma realidade nova.

(Candido, 1977:117)

Mas já agora não se trata de uma poética de luta com as palavras, mas de relações entre as palavras:

As palavras não são necessariamente hostis; (...) elas não se esquivam sistematicamente ao poeta – aguardam-no, pois a linguagem “em estado de dicionário” encerra os poemas “que esperam ser escritos”.

(Merquior, 1975:77)

Parece nulo o poder do poeta sobre as palavras. Elas existem autônomas em estado latente. Mas não basta apanhá-las e justapô-las. Não se faz poesia assim. No entanto, se as palavras rodopiam na frente do poeta, elas também não podem prescindir dele, pois é a chave do poeta que abrirá as portas para que elas saiam da latência em que se encontram.

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma

tem mil faces secretas sob a face neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta,

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

(“Procura da poesia”, RP)

Elas “se refugiaram na noite”, “ermas de melodia e conceito” e “ainda úmidas e impregnadas de sono” (“Procura da poesia”, RP). A tarefa do poeta não é senão hercúlea: tirar as palavras do limbo, trazê-las à luz, dar-lhes novos significados, novos sentidos que nos revelarão, no poema, o que o cotidiano opressor nos ofusca.  As palavras estão em estado de dicionário, o poeta tem de ir buscá-las e combiná-las de tal forma que se revelem, adquirindo sentido pelas relações que se estabelecem entre elas, transformando palavras em poemas. O poema é a sedimentação das palavras, e ele sim é do poeta: “estes poemas são meus” (“Consideração do poema”, RP).

Drummond persegue as palavras e aqui parece estar uma chave de interpretação para compreender sua poética: a poesia existe enquanto realização material através das palavras. É a palavra o elemento material que o poeta busca para alcançar seu objetivo artístico, estético e conceitual. São elas que dão vida à poesia. Os fatos passam, os temas esquecem-se, mudam-se. As palavras ficam. São elas que vão significar. “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia” (“Procura da poesia”, RP) – a intenção, poderíamos dizer consciência, do poeta não aparece, e se aparece é através das palavras que estão lá no poema, não as que o poeta talvez gostasse de ter usado. Para o poeta,

a experiência não é autêntica em si, mas na medida em que pode ser refeita no universo do verbo. A idéia só existe como palavras, porque só recebe vida, isto é, significado, graças à escolha de uma palavras que a designa e à posição desta na estrutura do poema. O trabalho poético produz uma espécie de volta ou refluxo da palavra sobre a idéia, que então ganha uma segunda natureza, uma segunda inteligibilidade.

 (Candido, 1977:117-8)

A poesia, de consolo, de cachaça ou do povo, arrebenta o muro opressor da realidade, para respirar, mostrar-se e mostrar ao mundo a melodia que seu canto ecoa e o conceito que carrega, assim como a flor que fura o asfalto:

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.

Seu nome não está nos livros.

É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.

Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

(“A flor e a náusea”, RP)

Assim como a flor furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio, o poema, as palavras já sedimentadas pela pena do poeta, faz vibrar seu canto, que

(...) é tão baixo que sequer o escuta

ouvido rente ao chão. Mas é tão alto

que as pedras o absorvem. Está na mesa

aberta em livros, cartas e remédios.

Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,

o uniforme de colégio se transformam,

são ondas de carinho te envolvendo.

(“Consideração do poema”, RP)

A poesia é um canto pessoal, mas também coletivo. A inquietação de Drummond é a oscilação do poeta entre esses dois lugares. Mas a poesia é sempre um canto. Um canto de amor, de guerra, de lamúria, mas um canto que ecoa e sensibiliza. Seu poder é imenso: ele penetra todas as esferas da vida, cotidiana e espiritual. Poderíamos inverter a ordem das palavras nos últimos versos de “Consideração do poema” (RP): “Tal uma lâmina, o poema, meu povo, te atravessa”. É a crença na redenção do poeta, do homem, do mundo pela palavra.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969.

CANDIDO, A. “Inquietudes na poesia de Drummond” In: _______. Vários escritos. São Paulo: Duas Cidades, 1977, pp.94-122.

GLEDSON, John. “Alguma Poesia” In: _______. Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Duas Cidades, 1981, pp. 57-88.

MERQUIOR, José Guilherme. Verso universo em Drummond. Rio de Janeiro: José Olympio/SECCT, 1975.

 



[1] “Poema de sete faces” (AP). Indicaremos os poemas seguindo uma convenção que a crítica já consagrou: apondo ao poema a sigla do livro a que pertence: AP – Alguma Poesia, BA – Brejo das Almas, J – José, RP – A Rosa do Povo.

[2] “Mundo grande” (SM)

[3]O lutador” (J)

[4] “Procura da poesia” (RP)