UM ENVELHECER PECULIAR DO IDOSO NA PERSPECTIVA PSICANALÍTICA FREUDIANA

 

Geralda Maria de Carvalho Zaidan (mestranda em Lingüística)
gerazaidan@uol.com.br

 

Tecendo algumas considerações teóricas sobre o idoso asilado na perspectiva Psicanalítica Freudiana

Este trabalho de pesquisa e análise que  desenvolvo sobre a velhice surgiu em virtude do grande número de idosos no Brasil e o interesse que a mídia e sociedade têm demonstrado sobre essa população. Pois, a temática velhice e seu correlato envelhecimento nos demonstram  um aspecto de fundamental importância nas relações do idoso asilado com suas perspectivas de vida. São estas idéias, relacionando velhice e tempo, que apontam para um sujeito que não investe no presente e nem projeta o futuro. É essa negação de futuro que coloca esse sujeito em confronto  com a morte implicando numa decadência psico-social. No que tange o nosso corpus a teoria Psicanalítica contribuirá para  evidenciar conceitos os quais desejamos nos associar.  

Cabe ressaltar que, atualmente em nossa sociedade, o conceito cultural do jovem em relação ao idoso está muito próximo de nós, pois o que  é considerado velho e decadente está posicionado, imaginariamente, em uma relação secundária. Este estado secundário se torna evidente quando o indivíduo perde seu papel central no qual representa um lugar socialmente estabelecido pelas relações  de seu meio. Essa perda ocorre de diferentes formas, dependendo muitas vezes da natureza do trabalho e de valores desenvolvidos por este sujeito  em seu meio social.

Com efeito, esse processo em que a velhice é um momento de isolamento, retração, de espera da morte – é retratado através de textos literários que abordam o abandono e a solidão dos velhos, através de depoimentos de indivíduos de mais idade que traçam um quadro sombrio da velhice desde os tempos antigos, ou então pela descrição de comportamentos e atitudes capazes de fornecer uma caricatura dos dramas associados à velhice nos dias atuais. 

Em uma posição metafórica, surge um conceito do que é renegado pela sociedade, o lixo, é antes de tudo uma questão de cultura que existe fundamentalmente como realidade simbólica. O significado do lixo tem uma história e uma maneira da sociedade lidar com esses dejetos que  é guardados em porões ou depósitos e outros conjuntos que não se faz necessários aqui. Mas, o asilo surge como modo de guardar o que a sociedade não quer enxergar e conviver. Desta maneira, os asilos se representam como porões ou depósitos para guardar velhos e moribundos. 

É nesta perspectiva de pesquisa sobre o idoso, que retrata um envelhecer peculiar dentro de nossa realidade, a qual podemos perceber que o envelhecimento é um processo ambíguo de forma que os indivíduos vão lidando com perdas: físicas, sociais e psicológicas e vão adquirindo ao longo de suas vidas experiências que não se conquistam senão vivendo este processo.  E conseqüentemente, essa representação do sujeito idoso e da sociedade contemporânea fundamentam  a idéia de que o sujeito e a sociedade perdem a marca do absoluto e passam a ser concebidos essencialmente como históricos, isto é, como algo onde as dimensões do tempo e da temporalidade passam a ocupar um lugar teórico essencial, e mais, o sujeito passa a ser representado não apenas como um ser histórico, mas também como agente crucial da sua  própria história.

Diante deste aspecto sobre a marca do tempo, do ponto de vista psicológico, podemos observar essa manifestação como uma  forma quase masoquista. Pois, para o idoso asilado o tempo parece ser mais insuportável em virtude de quando surgem os momentos em que as horas se repetem sem perspectivas aparentes, permitindo, no entanto, que a meditação seja freqüente. O tempo tem uma importância sinistra, faz da vida o que quiser. Raros são os sujeitos que o acolhem com serenidade, desapegados de todas as coisas contemplativas.

Alguns idosos passam por sofrimentos  que não têm fim, muitos  brincam com o tempo para tirar dele o máximo. Outros ainda, sofrem seus efeitos com uma passividade surpreendente. Na relação do idoso com o tempo ninguém pode descrever, aproximar-se das longas horas de insônia, tão próximas de uma lucidez extravagante que faz e refaz a cada noite um balanço, a aproximação da morte, horas, sobretudo, de verdadeira solidão em que nada pode ser compartilhado, em que não há nada além da memória, do medo de ficar louco, do sentimento de não existir.

Nesse sentido, há dois psiquismos que se opõem: a vida de todo o dia, com suas regras sociais, o controle das emoções, o investimento nos outros, e depois, há uma vida roubada, entregue aos “demônios que tomam o poder, o qual exige às vezes um exorcismo. A idade do envelhecimento não é necessariamente a passagem da “primeira” vida para a “segunda”. Também, não é menos verdadeiro que o acúmulo das emoções, dos fracassos, das renúncias, das decepções que constroem uma pirâmide alta, misteriosa, intransponível que, sedimentando-se com o tempo que passa, torna-se um dique, um muro que não permite mais recuar.   

Desta forma, com o avançar da idade, depois de ter sofrido várias perdas o idoso enfrenta a proximidade de uma perda em sua vida que é irreversível, o sentimento de morte, causando-lhe medo, muito embora nunca se saiba quando uma pessoa possa morrer. O medo da morte é um sentimento assustador, carregado de emoções que abate as pessoas de forma insuportável, pois morrer é um fato desconhecido, é um  deixar de existir. Segundo Freud [1] “Somos incapazes de imaginar nossa própria morte”. Essa pulsão de morte  se expressa com ambivalência de pulsão de vida, pois a pulsão de morte retorna ao sujeito na forma do sentimento de medo e agressão.

Nesse sentido,  o sujeito anímico adquire para si ontologicamente  a pulsão de morte que será interno/externo à vivência de uma constituição do seu eu com o supereu. Essa relação com a morte para o sujeito idoso demonstra que não é a proximidade com a morte efetiva que o angustia, mas pelo fato do outro  (dos entes queridos, dos conhecidos) que está ao seu redor   morrer. E, é nessa ambivalência de vida/morte em relação ao objeto que faz que o sujeito idoso desenvolva a agressividade na relação conjugal, e nessa estruturação melancólica o sujeito se identifica com o objeto que morreu e com isso gerando nele próprio a agressão e a culpa.

Desta forma a estrutura no supereu do sujeito se organiza em relação as perdas, se culpando pelos objetos perdidos e olhando para si com melancolia. Este processo melancólico ocorre em função da perda da libido visto que, há um investimento do objeto perdido, o sujeito idoso fica  desestruturado porque a libido surge como angústia de morte. Em virtude desse processo a melancolia aparece a partir do momento que o sujeito concebe a si mesmo como objeto, ele sente que não realizou tudo para com o objeto perdido, então o sujeito idoso passa a tecer uma relação com a morte para si.

Esse efeito produz uma reordenação das instâncias do supereu em relação angustiante e depressiva com a morte. Assim, desenvolve o sentimento inconsciente de que é melhor o outro  morrer do que eu. Visto que o sujeito morre por causas internas quando ocorre o dano físico, a libido é retirada do mundo e é colocada narcisicamente na relação com o princípio do prazer, a qual é direcionada para o local onde está a agressão. Deste modo, a doença serve para manutenção do princípio do prazer, visto que se  não acontece, a quantidade de libido não é descarregada dessa forma e, por conseguinte, o sujeito idoso não vive porque essa quantidade de libido por não ter onde ser descarregada.

Então, o fator emocional é importante na relação estabelecida do idoso com a doença, sendo isto fundamental para a sua adaptação a esse processo de envelhecimento, pois os fatores psicológicos interferem no seu envelhecimento e se caracterizam em fatores como: solidão, aflição, dependência e medo. A solidão leva muitas vezes os idosos a ter pouco contato com as pessoas, a aflição ou angústia da perda de parentes próximos ou de amigos, seja por morte, seja por mudanças de local e  por perdas de órgãos em decorrência de doenças. Também, a dependência física ou psico-social afeta a saúde dos idosos causando doenças, isolamento,  falta de companhia para desenvolver atividades básicas como: alimentar, higiene pessoal, caminhar etc.

Esses aspectos, acima descritos,  desencadeiam em ações que podemos denominar segundo Freud como estímulos [2]   que atuam na mente, surgindo dentro do próprio organismo, de modo que estes estímulos atuam diferentemente sobre a mente, e diferentes ações se tornam necessárias para removê-los, pois, tudo que é essencial num estímulo fica encoberto.

Dentro da classe dos instintos podemos entender que o sadismo é uma dos seus representantes, e com base teórica ancorada na biologia, apresentaremos a hipótese de um instinto de morte, cuja tarefa é conduzir a vida orgânica de volta ao estado inanimado. Por outro lado, imaginamos que o instinto de Eros [3] ,  por ocasionar uma combinação de conseqüências cada vez mais amplas das partículas em que a substância viva se acha dispersa, visa a complicar a vida e, ao mesmo tempo, naturalmente, a preservá-la. Agindo dessa maneira, os instintos seriam conservadores no sentido mais estrito da palavra, visto que ambos estariam se esforçando para restabelecer um estado de coisas que foi perturbado pelo surgimento da vida.

O surgimento da vida seria, então, a causa da continuação da vida e também, ao mesmo tempo, do esforço no sentido da morte. E, a própria vida seria um conflito e uma conciliação entre essas duas tendências. Assim, o problema da origem da vida permaneceria cosmológico, e o  problema do objetivo e propósito da vida seria respondido dualisticamente. Percebemos que, para fins de descarga, o instinto de destruição é habitualmente colocado a serviço de Eros. Visto isso,  suspeitamos que a defusão instintual pronunciado do instinto de morte exigem considerações específicas entre os efeitos de algumas neuroses graves, tais como por exemplo: neuroses obsessivas.

            Então, diante destes aspectos, podemos fazer uma generalização de que a essência de uma regressão da libido reside numa defusão de instintos. Sendo assim, é natural que voltemos a indagar com interesse,  se poderia haver vinculações instrutivas a serem traçadas entre, de um lado, as estruturas que presumimos existir – o ego, o superego e o id – e, de outro, as duas classes de instintos que poderiam demonstrar que o princípio de prazer que domina os processos mentais tem alguma relação constante tanto com as duas classes de instintos quanto com essas diferenciações que traçamos na mente.

Parece existir um fato para a oposição entre as duas classes de instintos que podemos encontrar nas duas polaridades do amor e ódio como representante de Eros, mas há dificuldade em encontrar um representante evasivo para o instinto de morte no instinto de destruição, o qual o ódio aponta o caminho. Portanto, a partir das considerações teóricas acima, compreendemos que no espaço do asilo o amor é regularmente,  acompanhado pelo ódio sendo este sentimento um precursor do amor. Mas, também, encontramos em algumas circunstâncias, o ódio se transformando em amor e o amor em ódio. Observamos este aspecto no momento em que os idosos são retirados de suas letargias para uma prática de esporte, por uma consulta ao Centro Geriátrico, enfim, de sua rotina. Há, momentos em que eles são violentos, brutos e mal educados e no mesmo instante passam a ser educados, dóceis e amáveis. É como se fosse um lampejo de transição do inconsciente e consciente  diante da realidade. 

E a partir disso, podemos facilmente passar a presumir que essa libido deslocável é empregada a serviço do princípio de prazer, para neutralizar bloqueios e facilitar a descarga. Com relação a isso, identificamos uma certa indiferença no que se refere o caminho ao qual a descarga se efetua, desde que se realize de algum modo. Podemos dizer, então,  que este processo faz parte dos processos de catexias no Id e  é encontrado nas catexias eróticas, onde se manifesta uma indiferença peculiar com relação aos objetos, sendo especialmente evidente nas transferências que surgem na análise dos indivíduos no interior do asilo.

Para a teoria da psicanálise, o idoso não consegue se adaptar a diferentes objetos, se fixa apenas em um objeto, se ele o perde, ocasiona   angústia porque tem dificuldade em repor esses objetos e também, não tem motivação. Aqui, entendemos por angústia o disfarce do desejo, do conteúdo latente, porque ele não consegue construir outro objeto de significação. Isto é, o idoso para  expressar a angústia se utiliza das relações de prazer/desejo, repressão/recalque, desprazer visto que na relação destes aspectos constituem o mundo e o sujeito. Essa decorrência se dá através  de Isso, este representa o passado herdado, que expressa a intenção da vida, mas não expressa a intenção de sobrevivência.

Vale dizer que a vida anímica se expressa pela primeira vez na expressão do corpo, lugar da conservação da vida, que não é a sobrevivência, mas é uma natureza de conservação do deslocamento do somático para a sobrevivência de si mesmo, o qual não pode ser atribuído a Isso porque a pulsão é causada pela exigência corporal, pois o sujeito anímico da conta de ser corpo e Isso da conta de uma realidade corporal de repetição e não de sobrevivência.

Por fim, Freud em sua teoria diz  que,  para o idoso reconstruir o objeto (de afeto) do libido rígido para  outro, o flexionado porque é mais interessante para ele. Se o idoso não consegue construir esse processo tem como causa a depressão em relação ao objeto angustiante, pois ele necessita permanecer seguro em relação aos seus objetos, não deseja que seus objetos sejam flexionados, isto parece implicar uma importante ampliação da teoria do narcisismo. Desta forma, o idoso se relaciona nas pulsões que podem alterar e substituir as outras pulsões do Eros e o Instinto destrutivo, contraste em autopreservação e a preservação, visto que a pulsão de morte tem uma repetição portadora de sentidos, de destruição dele mesmo.

 

BIBLIOGRAFIA

FREUD, Segmund. Esboço de Psicanálise. Trad. REGO, Mª Apdª Moraes, Imago, R.J., 2001.

FREUD, Segmund. Obras Completas. Vol. I, Trad. Directa del aleman por LOPEZ,Luiz-BALLESTEROS Y de TORRES, La Organizacion Y Revision de los textos há sido realizada por el Doctor Germain. Editorial Biblioteca Neuva, Madrid,1967.

FREUD, Segmund. Essais de Psychanalyse. Consideratións axtueles sur la guerre et sur la mort. Au-delà du principe de plaisir. Psicologie des foules et enalyse du Moi. Le Moi et le Ça. Trad. De L’allemand, sous la responsabilité de André Bourgignon, par J. Altounian, A. Bourguignon, O. Bourguignon, A. Cherki, P. Cotet, J. Laplanche, J. B. Pontalis, A. Rauzy. Ed. Petite Bibliotèque Payot/15 1981.



[1] No livro nº 10 da pequena coleção das obras de Freud – Moisés e o monoteísmo,  dificuldades.

[2] Diferente do ângulo da fisiologia.

[3] Pode ser entendido como instinto sexual.