ENTRE DEUS E O SÉCULO: UMA REFLEXÃO SOBRE AS METÁFORAS CONTÁBEIS NO DISCURSO RELIGIOSO DE DOM CASMURRO

Danielle Crepaldi Carvalho

1           Apresentação: Dom Casmurro e as metáforas

Ao esboçar uma breve análise dos temas apresentados por Machado de Assis em seus romances, Antonio Candido apresenta como sendo o cerne de questão no Dom Casmurro a relação entre o fato real e o fato imaginado. Tal relação, ressalta o crítico, coloca-nos defronte a um problema muito contemporâneo de Machado: a impossibilidade de se compreender objetivamente o mundo, de traçar uma divisão sólida entre conceitos que até então eram tidos como bipolares - real e imaginado, no caso de Dom Casmurro, mas também lucidez e loucura, no caso, por exemplo, do Alienista [1] . Partindo destas ponderações, discutamos primeiramente o enredo de Dom Casmurro para em seguida salientarmos como a questão da "realidade" é trabalhada no romance.

Em linhas gerais, a obra é narrada em primeira pessoa e tem, segundo o protagonista e escritor [2] , intenção memorialística. O enredo é a vida do protagonista (Bentinho, na aurora de sua vida, e Dom Casmurro, depois de ancião) especialmente a juventude, já que grande parte dos capítulos (100 dos 148) referem-se dos 15 aos 17 anos do autor - momento este que compreende o início de seu namoro com a vizinha Capitu e sua ida para o seminário, do qual, por desejo da mãe haveria de sair padre. As reflexões do protagonista a respeito da fase em que esteve casado com Capitu cobrem do capítulo 101 ao 140 - aproximadamente 30% do livro -  sendo que em 18 deles o narrador destila sua raiva por ter sido traído pela moça. Os últimos 8 capítulos referem-se aos momentos após a separação do casal.

No entanto, não é apenas nos momentos derradeiros da obra que Bentinho dá lugar à Dom Casmurro. Toda a narração está vazada de comentários do escritor, que discute os fatos apresentados, salienta alguns, pede especial atenção do leitor para outros... Na verdade, é ponto assente e quase prescinde de longos comentários o fato de se sentir a presença do escritor na história que narra. Juracy Assmman Saraiva, ao explicitar a relação entre a linguística e a literatura, afirma que "qualquer que seja o aspecto do discurso (...) ele somente se atualiza por intermédio do agente que o enuncia" [3] , o que significa que mesmo o discurso pretensamente objetivo, de narrador onisciente, recebe interferência do autor.

Esta influência, pondera Saraiva, é sentida no próprio modo construir a narrativa, e isto porque as temporalidades da história e do discurso são divergentes, ou seja, ao passo que a história é pluridimensional, o discurso é linear [4] . Já afirmava Saussure a impossibilidade do falante falar tudo ao mesmo tempo. Aliás, nem mesmo duas coisas podem ser ditas em concomitância, o que denota que aquele que fala - no nosso caso, o escritor - deve organizar aquilo que ele deseja expressar, excluir informações menos importantes, etc. Enfim, uma organização em seu todo subjetiva.

Ao refletirmos sobre estas informações à luz de Dom Casmurro podemos começar a questionar a suposta traição de Capitu. Na verdade, Bento em nenhum momento vê a traição ser consumada. A prova do delito é seu filho, que segundo o autor era muito semelhante ao amigo Escobar. O conhecimento da suposta traição faz o autor visivelmente construir toda sua narrativa no sentido de corroborar, aos olhos do leitor, as suas suspeitas de marido traído. Discutiremos com maior pertinência essas articulações do autor no próximo capítulo. O que nos importa assinalar no momento é que o relato memorialístico do autor está vazado do rancor que ele passou a sentir.

Daí obtemos informações que muito nos ajudarão a responder ao questionamento que fizemos a respeito do que é o "real". Candido afirma que a maior preocupação de Machado de Assis ao escrever o romance é mais uma reflexão sobre a tênue fronteira que divide o real do irreal do que a explicitação correta dos dois pólos desta dicotomia. Não nos é possível saber se Bento tinha razão ao ver na esposa uma adúltera ou se tudo não passava da imaginação do autor. O que importa é que aquilo que afirma como sendo "realidade" destruiu sua vida [5] . No entanto, ousamos imaginar que esta questão vai além. Vemos no Dom Casmurro uma reflexão não apenas sobre a vida, mas também a respeito da "arte de narrar".

Em certo momento da narrativa, afirma o autor que a "verossimilhança (...) é muita vez toda a verdade" [6] . Ora, a verossimilhança é gerada pela coerência dos fatos, o que significa que, uma vez que forma um todo coerente, não importa se o que se está narrando é verdade ou mentira. Temos a partir daí que a "realidade" passa a ser relativizada. Indo um pouco mais adiante, lembremo-nos do que Saraiva afirma sobre o discurso ser construído a partir de uma hierarquização e escolha dos fatos a serem narrados. Tal constatação no leva a pensar que Dom Casmurro objetivava tornar verossímil a traição engendrada pela sua esposa e seu amigo Escobar, e portanto, ao escrever suas memórias, tratou de enfatizar o máximo possível o quanto a postura da moça e do amigo desde sempre denotava o caráter fingido e interesseiro dos mesmos. A literatura, neste sentido, é responsável por criar uma realidade menos dúbia - porque verossímil - e portanto mais apetecível para o ciumento autor que quer a todo custo provar-se correto em suas conjecturas. [7]

Assim como a Antonio Candido, não nos interessa averiguar se Capitu realmente traiu Bentinho, já que, tendo em vista as condições nas quais o romance foi produzido, é impossível obtermos tal resposta. Tampouco nos interessa discutir o quanto de intuito biográfico ou de comentários políticos podem ser encontrados no texto. Objetivamos, sim, analisar quais as artimanhas que o autor utilizou para impingir ao leitor o seu ponto de vista sobre os fatos.  Nos concentraremos em uma destas artimanhas, a metáfora, que segundo João Alexandre Barbosa "trata-se (...) da tendência fundamental em descobrir parentescos entre os objetos e em uni-los sob um aspecto novo" [8] .

A metáfora, importante característica da obra literária, nos permite perceber bastante bem como a intencionalidade de Dom Casmurro é vertida por cada página da obra que ele várias vezes chega a afirmar que "é a pura verdade".

Propomos, portanto, uma reflexão sobre a obra Dom Casmurro nos valendo da parca bibliografia que tivemos a ventura de mobilizar, bem como de uma "dose" de imaginação, a qual tencionamos dosar do melhor modo possível com a bibliografia localizada. Nos concentraremos nas metáforas contábeis e religiosas, sendo que procuraremos primordialmente analisar os momentos em que ambas essas categorias de metáforas se encontram no interior de um mesmo enunciado. Nosso objetivo é analisar como o autor utiliza essas metáforas para construir uma imagem bastante tendenciosa de si mesmo e de Capitu.

2           "Deus e o século": As metáforas religiosas e contábeis de Dom Casmurro

Eugênio Gomes afirma que Machado de Assis imitou mais a arte que a vida, o que significa que é grande a influência, em suas obras, de "aparato retórico" dos mais diversos gêneros literários [9] . Exemplos dessa influência sobejam no Dom Casmurro, obra na qual transparece, segundo o crítico, deste  o estilo mitológico, bíblico, épico, dramático e contábil. Como afirmávamos adiante, refletiremos sobre a utilização do estilo religioso e contábil, cuja primeira confluência já pode ser notada no capítulo 14.

O capítulo em questão refere-se ao momento em que Bento encontra-se com Capitu após ouvir a "denúncia" de José Dias de que o garoto andava "metido pelos cantos" com a moça. Bento faz questão de salientar ao leitor que as palavras de José Dias só fizeram denunciar o que o garoto sentia por Capitu: "com que então eu amava Capitu, e Capitu a mim?". Tal descoberta faz Bentinho correr, "tonto, atordoado, as pernas bambas, ..."ao encontro da vizinha, e, após atravessar o portão que separava ambas as casas e encontrá-la rabiscando no muro o nome de ambos, o menino pega em sua mão [10] . O capítulo denomina-se "A inscrição", e o relevante para nossa análise encontra-se abaixo:

"Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. A boca podia ser o cálix, os lábios a patena. Faltava dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende, e é a língua católica dos homens. Não me tenhas por sacrílego, leitora minha devota; a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica." [11]

Ao longo do capítulo, observamos predominantemente a utilização de metáforas religiosas, algo compreensível, já que Bentinho preparava-se para ser padre devido a uma promessa que a mãe fizera antes de seu nascimento. Notamos, no entanto, que ao longo do enunciado essas metáforas vão adquirindo um sentido deveras sexual e profético. Ora, ele após afirmar-se um futuro padre, afirma prestar à moça a mesma reverência que prestaria se estivesse defronte de um altar, ou seja, defronte de um local sagrado no qual é celebrado o sacrifício religioso. Uma vez que a moça é comparada à um espaço sagrado, no qual se realizam cerimônias santas, sua boca e seus lábios são, respectivamente, os cálices que contém o vinho e a hóstia sagrada.

Seguindo esta reflexão, ao afirmar que faltava a ele "dizer a missa nova, por um latim que ninguém aprende", o escritor deixa implícito o seu desejo de tomar a moça (altar) e experimentar sua boca e lábios (o cálix e a patena). Afirma em seguida que de modo nenhum está sendo sacrílego, já que a "limpeza" da intenção lava o menos "curial" de suas palavras - uma vez que os vocábulos "curial" e "limpeza" são ambos polissêmicos e possuem conotação religiosa (aquele pode significar "relativo à cúria - conjunto de organismos governamentais da Santa Sé" ou "conveniente", e este "castidade" ou "qualidade de limpo"), tais vocábulos só enfatizam o paralelo entre a religião católica e Capitu. E uma vez que as mãos de ambos unidas transformava-os numa só criatura seráfica, que tinha o céu dentro deles, também Bentinho afirma-se um criatura celestial, que supomos ter sido transformada em tal devido à influência daquela, que ele classifica como um pouco divina.

No entanto, como dizíamos adiante, verte sensualidade desse paralelo - os olhos estavam metidos uns nos outros, ambos eram feitos um só - expressões que aludem ao intercurso sexual. Daí começamos a notar um certo caráter profético da assertiva. Saraiva afirma que a alusão religiosa é um dos fatores que enfatiza o sentido profético das reflexões de Dom Casmurro [12] , isso porque efetivamente Bentinho vai escolher  rezar a "missa nova" pelo "latim que ninguém aprende", já que casa-se com Capitu.

Nesse sentido, convém ressaltar que a polissemia do vocábulo "latim" é bastante bem explorada na obra. A primeira digna de nota encontra-se no mesmo capítulo do trecho analisado: "Tinha orgias no latim e era virgem de mulheres". O vocábulo "latim" remete-nos a dois campos semânticos distintos, já que por um lado era por definição a língua da igreja, na qual as missas eram rezadas, e por outro a língua na qual foi expressa porção importante da cultura ocidental. No entanto, a metáfora "orgias" para se referir à desenvoltura do autor com o latim arrasta-nos novamente à esfera sensual - já que o vocábulo significa "Bacanal, festim licencioso" - e faz com que principiemos a pensar que essas orgias condizem mais com a leitura de poetas como Ovídio que de textos para fins sacros. E observamos nós que ao longo da obra é a conotação mais "mundana" e profética que predominará quando o autor utiliza este vocábulo. Exemplo disso é o capítulo 57, no qual ele propõe-se a relatar um dos fatos que vieram a sua lembrança ao ler o "Panegírico de Santa Mônica".

"Quisera contá-la aqui em latim", afirma Dom Casmurro, fazendo-nos esperar por um capítulo grave, já que essa assertiva encontra-se no capítulo "De Preparação", anterior ao denominado "O Tratado" e, portanto, a primeira vista uma espécie de prefácio a uma reflexão séria. No entanto, o autor pretendia narrar em latim um episódio que desenrolara-se certa vez diante de seus olhos: o tombo de uma senhora na rua "(e é isto que eu quisera dizer em latim) porquanto, a senhora tinha as meias mui lavadas, e não as sujou, levava ligas de seda, e não as perdeu" [13] - tombo este que deixou marcas indeléveis na mente do adolescente, marcas cujo sentido só poderia ser expresso naquele "latim" com o qual ele tinha "orgias".

Ora, tão logo o adolescente principia a fazer o caminho de volta para o seminário, pondera:

 "(...) não vi mulher na rua, a quem não desejasse uma queda; a algumas adivinhei que traziam meias esticadas e ligas justas... Tal haveria que nem levasse meias... Mas eu as via com elas... Ou então... Também é possível... (...) Vou esgarçando isto com reticências, para dar uma idéia das minhas idéias, que eram assim difusas e confusas (...)" [14]

Dispensam explicações as idéias confusas que naquele momento tomavam conta da mente do rapaz. Imprescindível é explicar como ele decide malográ-las, já que para tal arma-se de um artifício deveras interessante: considerar as imagens encarnação dos vícios.

"As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios, e por isso mesmo contempláveis, como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida(...) E por alguns dias, era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me, e não as rejeitava, senão quando elas mesmas, de cansadas, iam-se embora." [15]

Acreditamos ser este trecho uma paródia bastante irônica das hagiografias - nas quais são invariavelmente descritos os confrontos entre os santos e os pecados que eles eram obrigados a combater, sendo esses pecados na maioria das vezes representados pelas figuras femininas. No entanto, se o pecado aborda Bentinho de modo semelhante àquele empreendido com os santos, a reação destes e daquele é em seu todo diferente, já que ao passo que Bentinho afirma evocar as moças (imagens de vícios) e permitir que elas tomem conta de si até que lhes aprouver - implicitando obter tamanho deleite com aquilo - os religiosos expulsavam-nas com veemência, nem que para isso tivessem de punir suas próprias carnes.

S. Gregório Magno apresenta-nos exemplo da atitude daqueles religiosos. Ao contar como São Bento venceu a tentação carnal, afirma que certa vez a lembrança de uma  mulher de grande beleza fez com que lhe sobreviesse "uma tentação carnal tão violenta, como nunca sentira o santo varão". Sem titubear, o santo resolveu trocar "o deleite pela dor", "vendo ali perto um espesso matagal de espinhos e urtigas, tirou suas vestes e lançou-se nu sobre aqueles espinhos abrasadores (...) curou a ferida da alma pelas feridas do corpo" [16] .

Aliás, a seguinte reflexão de Bentinho, formulada numa de suas conversas com Capitu, faz o claro contraponto entre a sua postura e aquela dos religiosos: 

"Sim, havíamos de ter um oratório bonito, alto, de jacarandá, com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Demorei-me mais nisso que no resto, em parte porque éramos religiosos, em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas." [17]

Assim como São Bento, também Bentinho propõe despir-se de sua batina, no entanto, para jogar na urtiga não seu corpo abrasado pelo desejo e sim a própria batina. O contraponto se mostra mais assombroso na medida que ambos os homens possuem o mesmo nome, o que talvez denote a intenção de Machado de Assis de marcar essa dessemelhança, já que desde o início da obra o modo como as metáforas religiosas são utilizadas ressalta que Bento, ao contrário do que ele mesmo afirma, carecia de sentimento religioso. [18]

Vamos ilustrar esta falta de vocação religiosa com mais um exemplo do vocábulo "latim" - este no capítulo 101, no qual Dom Casmurro narra seu casamento com Capitu e a ida de ambos para o "ninho de noivos" [19] .

"S. Pedro, que tem as chaves do céu, abriu-nos as portas dele, fez-nos entrar (...). Em seguida, fez-se sinal aos anjos, e eles entoaram um trecho do Cântico, (...) Depois visitamos uma parte daquele lugar infinito. Descansa que não farei descrição alguma, nem a língua humana possui formas idôneas para tanto. (...) nada mais natural a um ex-seminarista que ouvir por toda parte latim e Escritura" [20] .

Concretiza-se neste capítulo o que o escritor professa no 14. No capítulo 14, Bentinho olha Capitu como se esta fosse a própria divindade - ambos transformam-se em um só e o céu reflete-se dentro deles. Neste, eles têm permissão para adentrar o céu e os próprios hinos bíblicos são cantados para abençoá-los, hinos estes cantados em latim - mesma língua que carrega durante toda a obra conotação religiosa e "mundana".

Pensaríamos até esse momento que os céus conspiram a favor do casal, no entanto, não é exatamente a imagem de um Deus benévolo que o autor reforça em suas memórias. Então, Reflitamos com mais vagar a respeito da maneira como Deus é visto por Dom Casmurro. Comecemos com as palavras do padre Cabral - figura que na obra representa a autoridade eclesiástica - palavras estas que comentam a postura de Pádua frente à perda do cargo de interino:

"o padre Cabral, que levava tudo para a Escritura, dizia que o vizinho Pádua se dava a lição de Elifaz a Jó: 'Não desprezes a correção do Senhor; ele fere e cura'." [21]

As palavras do padre são tiradas do livro de Jó, mais especificamente da resposta de Elifaz ao questionamento de Jó a respeito da relação entre Deus e os homens. Jó fora desde sempre um homem bom, temente a Deus, e tinha uma vida feliz. Certo dia alguns anjos apareceram à Deus, entre eles Satã, e este lhe afirmou que Javé lhe era temente apenas porque tinha uma vida estável e protegida por Deus. Então, provavelmente a guisa de testar a fidelidade de seu servo, Deus permite que Satã interfira na vida do homem, sem contudo matá-lo. Todavia, depois de ter seu rebanho roubado, seus filhos mortos e sua saúde destruída, Jó continua sendo servo fiel de Deus [22] .

Na opinião de comentadores da Bíblia, a passagem a respeito de Jó procura discutir o "dogma da retribuição" segundo o qual Deus retribui "o bem com o bem e o mal com o mal", dogma que arrisca produzir uma religião de comércio. Elifaz, em debate com Jó, expõe-lhe ironicamente o dogma da retribuição para em seguida refutá-lo, e instrui o amigo a recorrer Deus - que é um mistério insondável - e colocar sua causa nas mãos dele, já que com as mesmas mãos que fere, ele cura [23] .

Nesta passagem salta aos olhos o acordo travado entre Satã e Deus - até então seu anjo - para que aquele torturasse um dos servos deste. No entanto, o acordo em questão apenas objetivava mostrar que Deus não aceita comercializar a sua proteção.

Curiosamente, também no Dom Casmurro nos é apresentado um acordo que Deus trava com Satanás. Tais são, em linhas gerais, os termos desse irônico acordo - do qual Dom Casmurro afirma ter tomado ciência numa conversa com um tenor que havia perdido a voz. Segundo ele Satanás era um músico que fora expulso do céu por tramar uma rebelião. Para emendar o erro, o expulsado tomou o libreto de uma ópera, escrito por Deus, e compôs a partitura do mesmo. Deus, no entanto, não quis ouvir a composição e criou a Terra para que a ópera fosse apresentada. Isso significa que o planeta é regido por ambos - Deus e Satanás - e muitas vezes padece com o desleixo da montagem, já que sem a "colaboração amiga" de Deus nem sempre letra e música fluem no mesmo ritmo [24] .

À Deus, mais que à Satanás, é atribuída a culpa pelos problemas na "produção" do mundo. Ademais, é o destino o dramaturgo, que seleciona os papéis a serem representados, e o contra-regra, que "designa a entrada dos personagens em cena" [25] , o que denota que a interferência divina recai na "encenação" da peça. Então, uma vez que Dom Casmurro acredita haver sido traído por duas das pessoas que mais afirma ter amado na vida, ele atribui a Deus toda a culpa pelos seus sofrimentos.

Tal fato faz com que Dom Casmurro subverta a teoria católica sobre o que seja o destino, pois enquanto a religião católica apregoa ser o destino uma dádiva divina que guiaria o cristão ao bom caminho - e portanto caberia ao seu arbítrio afastar-se do caminho proposto por Deus - o que o Casmurro faz é tentar provar que desde o princípio sua vida estava fadada ao fracasso, e que a ira divina pautou cada instante de sua existência.

Tendo em vista esta reflexão, voltemos ao versículo de Jó citado pelo padre Cabral. Lembremos que as palavras de Elifaz iam no sentido de colocar em questionamento a tese de que a relação do cristão com Deus baseia-se no princípio da "retribuição". Elifaz nega o princípio, mas não Bentinho, que em suas memórias refere-se à igreja com vocábulos do campo semântico contábil. Assim reflete ele sobre o seu hábito de infância de não pagar as promessas que fazia:

"Desde pequenino acostumara-me a pedir os seus favores, mediante orações que diria, se eles viessem. Disse as primeiras, as outras foram adiadas, e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas (...). Assim cheguei aos números vinte, trinta, cinqüenta. Entrei nas centenas e agora no milhar. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações; além disso, cada promessa nova era feita no sentido de pagar a dívida antiga" [26] .

Na verdade, Machado de Assis explora de um modo incrível a conotação "financeira" do vocábulo "pagar". Não existe em português, cremos nós, outro modo de referirmo-nos ao pagamento de uma promessa. No entanto, o vocábulo "pagar" (satisfazer o preço ou valor de alguma coisa; gratificar, recompensar, remunerar; embolsar alguém do que lhe é devido) só possuem conotação financeira, o que dá margem para que pensemos na religião católica exatamente do modo como não queria Elifaz, ou seja, uma troca de favores.

A promessa, então, é vista como "dívida", e o pagamento não pode ser menos que "muito dinheiro":

"Deus podia muito bem, irritado com os esquecimentos, negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro... (...) Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. Não achava outra espécie em que, mediante a intenção, tudo se cumprisse, fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. (...) As missas eram numerosas, podiam empenhar-me outra vez a alma."

A cobiça divina chega a tanto que, na opinião do escritor, apenas se fosse assaz reembolsado Deus ouviria novamente o rapaz. E, na opinião de Dom Casmurro, um cérebro tão calculista quanto o de Deus só poderia merecer uma profusão de metáforas contábeis: uma vez endividado, fazia-se necessário o protagonista "resgatar" (liquidar uma obrigação ou dívida que se tenha com terceiros, efetuando o pagamento adequado) a "dívida espiritual", resgate para o qual não encontrava outra "espécie" (alusão ao dinheiro em papel) que saldasse seu déficit, ou seja, que deixasse receita em seu orçamento [27] . Neste sentido, sua "consciência moral" é vista como um livro comercial, cuja contabilidade deveria fechada com saldo e disso dependia o pagamento à Deus.

Fazia-se necessário pagar as promessas de qualquer modo, pois como Dom Casmurro coloca na boca de sua mãe, o descumprimento destas

"São coisas que não se fazem sem pecado, e Deus que é grande e poderoso, não me deixaria assim não, Bentinho; eu sei que seria castigada e bem castigada" [28] .

Deus, portanto, engendraria severas punições àqueles que não efetuassem o pagamento da dívida contraída com Ele. Além disso, ironicamente a grandeza e poder de Deus seriam mais utilizadas por Ele como formas de coação do que denotariam sua magnanimidade. É por esse - e só por esse motivo - que Bentinho adentra o seminário. Até o momento em que Escobar interfere:

"Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote, não é? Pois bem, dê-lhe um sacerdote, que não seja você. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão, fazê-lo ordenar à sua custa, está dado um padre ao altar, sem que você..." [29]

Neste trecho é denotado perfeitamente o comércio entre os homens e Deus. Segundo o "instinto comercial" de Escobar - que anteriormente afirmara a Bentinho que apesar de ser religioso, o comércio era a sua paixão [30] - uma vez que a promessa da mãe de Bentinho era entregar à Deus um sacerdote, qualquer um serviria. Acreditamos que tal assertiva retoma com presteza a metáfora que Dom Casmurro utilizara um pouco antes para referir-se a si mesmo. O autor destas memórias afirma ser ele o "preço ajustado" [31] por sua mãe no momento em que ela fizera a promessa, o que significa que considerava-se uma mera moeda, que serviria para saldar um contrato puramente comercial. Deste modo, podemos considerar que a proposta de Escobar só fazia salientar esse caráter financeiro da relação entre o humano e o divino, caráter homologado pelo padre e pelo bispo instantes depois.

Todavia, é importante ressaltarmos que momentos há nas memórias em que o narrador relativiza a imagem interesseira que faz de Deus, no entanto, mesmo na relativização pulsa a ironia das metáforas contábeis.

"Jeová, posto que divino, ou por isso mesmo, é um Rothschild muito mais humano, e não faz moratórias, perdoa as dívidas integralmente, uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar as despesas." "Ora, eu não queria outra coisa; dali em diante não faria mais promessas que não pudesse pagar; e pagaria logo as que fizesse". [32]

Apesar de Deus ser considerado um Rothschild "muito mais humano", ele continua sendo considerado um. Uma vez que Rothschild era poderoso credor britânico em cuja bolsa, segundo Gomes, "viviam presas as nações pobres" [33] , Deus é considerado uma espécie de credor moral. Afirma o escritor que ele "perdoa as dívidas integralmente".

No entanto, o decorrer das memórias não nos autoriza a acreditar piamente nesta afirmação, já que, mesmo depois de casado, quando resolve pagar as promessas tão logo as faz - "Já não era como em criança; agora pagava antecipadamente, como os aluguéis da casa" [34] - o escritor afirma ter sido tripudiado pelo destino, que desde sempre havia arquitetado a sua destruição [35] . E para dar às suas memórias uma caráter profético que simbolize a ação do destino, as constrói de modo a mostrar que fatos que aconteceram quando jovem prenunciavam sua desgraça futura.

Escolhemos refletir sobre as metáforas religiosas e contábeis da obra, e tentamos ressaltar o caráter "prenunciador" das mesmas. Detemo-nos logo no início na utilização do vocábulo "latim", vimos a conotação religiosa e sexual do mesmo e enfatizamos o paralelo entre a religião católica e Capitu. "Latim" é apenas um dos vocábulos de denotação religiosa que o escritor utiliza para comparar a igreja à Capitu. Já citamos outros, citaremos um último: "anjo". Ao declarar-se para Capitu, após tecer várias comparações entre ela e a igreja, Bentinho pega em sua mão e sente-se uma "criatura seráfica [36] "; momentos adiante, ao comparar sua mãe à Abraão, afirma que "Capitu era naturalmente o anjo da Escritura" [37] , que salvou o filho do holocausto como um anjo salvara o filho de Abraão. Tais citações podem ser contrapostas à menção a Satanás, que também era um anjo. Neste sentido, a santidade de Capitu é relativizada, já que nem todo anjo é benévolo.

Acreditamos que a instauração de metáforas que aproximem Capitu da religião são utilizadas para ressaltar o rancor que Dom Casmurro guarda de ambas, rancor de Capitu, por ela tê-lo traído, e da religião, já que o destino é colocado como o grande culpado pelos sofrimentos do autor. Por fim, como fecho de nossas reflexões, supomos que a grande parcela de metáforas contábeis nas referências à religião devem-se ao caráter venal que o escritor deseja atribuir a esta - caráter, aliás, que implicitamente é impingido à Capitu quando o escritor traça paralelos entre a moça e a religião que tanto ele critica.


Bibliografia geral

BARBOSA, João Alexandre, A metáfora crítica, São Paulo: Editora Perspectiva S.A.

Bíblia Sagrada (católica) - Edição Pastoral, São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional e Edições Paulinas, 1990, Jó; introdução ao livro de Jó. CANDIDO, Antonio, Esquema de Machado de Assis, in: Vários Escritos, São Paulo: Duas Cidades, 1995, pp. 17-39.

DICIONÁRIO MICHAELIS - UOL.

DICIONÁRIO MODERNO ILUSTRADO COGRAE, sob a supervisão geral do Prof. Fernandes Soares, São Paulo: Consórcio Gráfico Editorial Ltda, 3 volumes.

DUBY, Geroges, Eva e os padres - Damas do século XII, Companhia das Letras, 2001.

GLEDSON, John, A Política, in: Machado de Assis: Impostura e Realismo - uma reinterpretação de Dom Casmurro, tradução Fernando Py, São Paulo: Companhia das Letras.GOMES, Eugênio, O enigma de Capitu, ensaio de interpretação, coleção documentos brasileiros dirigida por Afonso Arino de Melo Franco, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora.

GOMES, Eugênio, O Enigma de Capitu, ensaio de interpretação, Coleção documentos Brasileiros, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora.

MACHADO DE ASSIS, Dom Casmurro, Espanha, Barcelona: Editora Sol90, 2004.

MAGNO, São, Gregório Magno (593), Cap. II. Como venceu uma tentação da carne, in: Vida e Milagres de São Bento.

SARAIVA, Juracy Assmann, O Estatuto do Narrador; Dom Casmurro: Confissão e Representação, in: O circuito das memórias em Machado de Assis, São Paulo: Edusp; Editora Unisinos, pp. 25-41, 93-145.



[1] CANDIDO, Antonio, Esquema de Machado de Assis, in: Vários Escritos, São Paulo: Duas Cidades, 1995, pp. 30-31.

[2] A partir daqui, sempre que dissermos "autor" ou "escritor" estamos nos referindo a Dom Casmurro.

[3] SARAIVA, Juracy Assmann, O Estatuto do Narrador; Dom Casmurro: Confissão e Representação, in: O circuito das memórias em Machado de Assis, São Paulo: Edusp; Editora Unisinos, pp. 35.

[4] Idem, pp. 37.

[5] CANDIDO, Antonio, op. cit.,  pp. 30-31.

[6] MACHADO DE ASSIS, Dom Casmurro, Espanha, Barcelona: Editora Sol90, 2004, pp. 22, cap. 10.

[7] João Alexandre Barbosa afirma que "a realidade não é aquilo que vem depois ou que está fora do texto, mas o que o texto instaura nos limites do seu espaço de construção". Cf. BARBOSA, João Alexandre, A metáfora crítica, São Paulo: Editora Perspectiva S.A., pp. 13.

Acreditamos que esta assertiva nos ajuda a afirmar a postura de Dom Casmurro ao escrever suas memórias, que passariam a ser analisadas com base unicamente no que fala o autor.

[8] BARBOSA, João Alexandre, A metáfora crítica, São Paulo: Editora Perspectiva S.A., pp. 16.

[9] GOMES, Eugênio, O Enigma de Capitu, ensaio de interpretação, Coleção documentos Brasileiros, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, pp. 23, 24.

[10] Machado de Assis, Dom Casmurro, Espanha, Barcelona: Editora Sol90, 2004, pp. 24-26, cap. 12.

[11] Machado de Assis, Dom Casmurro, pp. 29, cap. 14.

[12] SARAIVA, Juracy Assmann, Dom Casmurro: Confissão e Representação, op. cit., pp. 129.

[13] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 96, cap. 58.

[14] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 96, cap. 58.

[15] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 97, cap. 58.

[16] MAGNO, São, Gregório Magno (593), Cap. II. Como venceu uma tentação da carne, in: Vida e Milagres de São Bento.

[17] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 83, cap. 49.

[18] Exemplo deste fato encontra-se no relato do autor sobre as circunstâncias que o fizeram lembrar do tombo da mulher. Primeiramente ele louva os livros omissos, já que neles sobra espaço para o leitor colocar as suas ponderações. Em seguida, considera o Panegírico de Santa Mônica um livro omisso e dispara: "pus-lhe não só o que faltava da santa, mas ainda coisas que não eram dela. Viste o soneto, as meias, as ligas (...)" (pp. 98, cap. 60), explicitando o que ele faz durante todo o livro, ou seja, tratar de matéria religiosa com total despudor e ironia, usualmente pelo viés sexual.

[19] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 154, cap. 101.

[20] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 154, cap. 101.

[21] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 33, cap. 16.

[22] Bíblia Sagrada (católica) - Edição Pastoral, São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional e Edições Paulinas, 1990, Jó: introdução ao livro de Jó; Jó cap. 1-3.

[23] Bíblia Sagrada (católica) - Edição Pastoral, op. cit., Jó: introdução ao livro de Jó; Jó-Intervenção de Elifaz, cap. 4-7. Dom Casmurro cita o cap. 5, vers. 18.

[24] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 19-22, cap. 9.

[25] SARAIVA, Juracy Assmann, Dom Casmurro: Confissão e Representação, op. cit., pp. 42; Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 118, cap. 73.

[26] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 39, cap. 20

[27] Dom Casmurro atribui reflexão semelhante a sua mãe, ao afirmar que ela desejara pagar a promessa de outro modo: "Quisera um modo de pagar a dívida contraída, outra moeda, que valesse tanto ou mais, e não achava nenhuma". Cf. Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 74, cap. 41.

[28] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 73, cap. 41.

[29] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 148, cap. 94.

[30] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 123, cap. 78.

[31] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 126, cap. 80.

[32] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 114, cap. 68.

[33] GOMES, Eugênio, op. cit., pp. 125.

[34] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 157, cap. 103.

[35] "(...) uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu melhor amigo (...) quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...". Cf. Machado de Assis, op. cit., pp. 209, cap. 148.

[36] Machado de Assis, Dom Casmurro, Espanha, Barcelona: Editora Sol90, 2004, pp. 29, cap. 14.

[37] Machado de Assis, Dom Casmurro, op. cit., pp. 127, cap. 80.