DIRCEU DE MARÍLIA: A INTERPRETAÇÃO DA LÍRICA DE GONZAGA POR ANTÔNIO CANDIDO

Paula Ferreira Vermeersch

paulavermeersch@hotmail.com

Resumo: Este artigo pretende elucidar alguns dos aspectos da complexa dualidade entre os conceitos de indivíduo e sociedade, um dos temas mais caros à Sociologia, através de uma análise da visão do crítico e sociólogo Antônio Candido, em seu clássico Formação da Literatura Brasileira, de uma das obras líricas mais consagradas de nossas letras, Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga. Sendo o escritor agente do processo de formação da literatura nacional, Antônio Candido considera que as escolhas estéticas são, ao mesmo tempo, produto e produtoras das estruturas mais amplas que se formam durante este processo.

“Não sei, Marília, que tenho,

Depois que vi o teu rosto;

Pois quanto não é Marília,

Já não posso ver com gosto.

         Noutra idade me alegrava,

Até quando conversava

Com o mais rude vaqueiro:

Hoje, ó Bela, me aborrece

Inda o trato lisonjeiro

Do mais discreto pastor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de Amor?

Saio da minha cabana

Sem reparar no que faço;

Busco o sítio onde moras,

Suspendo defronte o passo.

         Fito os olhos na janela,

Aonde, Marília bela,

Tu chegas ao final do dia;

Se alguém passa, e te saúda,

Bem que seja cortesia,

Se acende na face a cor.

Que efeitos são os que sinto?

Serão efeitos de Amor?

“Lira XXI”, Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga

            Eram os idos de 1785. O centro da mineração, (a atividade econômica que enchera a colônia lusitana na América do Sul de prosperidade), as freguesias de Vila Rica e Antônio Dias, agitavam-se no final de mais uma tarde. Nas ladeiras cobertas de pedregulhos, escravos iam e viam, carregando sacos, bacias com dejetos, liteiras; alguns senhores empoados discutiam. De uma porta, sai um homem bem-vestido, nos seus quarenta e poucos anos, o Ouvidor e Procurador dos Ausentes. O homem desce uma ladeira, e numa esquina vê um casarão. Numa das janelas, uma mocinha de dezessete anos espreita, conversando discretamente com mucamas e outras moças, suas primas.

            O homem não sabe o que fazer. Está encantado com a beleza da moça, e tentou averiguar se os parentes se oporiam a uma corte. Tanto se opuseram que quase não pode vê-la. Até levá-la da cidade já a levaram; não vêem com bons olhos que um homem mais velho e mais pobre a corteje. Querem lhe arrumar um outro pretendente, tendo por objetivo sua ascensão social; o homem esforça-se, usa de suas relações, mas a coisa não vai muito bem.

            Seria mais uma história esquecida no tempo se este homem, chamado Tomás Antônio Gonzaga, não fosse um poeta. À noite, quando chega em sua casa, o advogado formado em Coimbra (e professor universitário frustrado) recebe amigos, com alguns dos quais discute a situação política do momento e como escrever em versos o seu amor por Maria  Dorotéia Joaquina Seixas.

            Tomás Antônio Gonzaga não havia começado a escrever poemas apenas depois de conhecer Dorotéia: reescreve algumas liras, dedicadas à muitas musas, e lhes dá uma outra roupagem, persuadido pela força do amor novo, e inspirado num amigo mais velho e experiente, um dos responsáveis pela renovação dos cânones poéticos em Portugal, Cláudio Manuel da Costa. Suas liras ficam repletas de referências à Marília, a doce Dorotéia travestida de pastorinha rococó, e à Glauceste, o ilustre Cláudio, como o pastor que acompanha Dirceu em suas peripécias amorosas.

            Nas linhas que escreve, Tomás emociona-se, vibra, lamenta-se da frivolidade da amada, afirma seu valor próprio diante das recusas da família dela, faz brincadeiras mitológicas, preocupa-se com o passar do tempo e o envelhecimento, exalta a paz conjugal. Depois de muito insistir, torna-se noivo de Dorotéia e espera uma transferência para a Bahia.

            Mas algo inesperado faz mudar o rumo dos acontecimentos. Há muito tempo, Cláudio e Tomás discutem política com algumas figuras da cidade. São padres, fazendeiros, comerciantes, e um oficial militar de baixa patente. Nas reuniões noturnas, discute-se a independência da colônia: não é mais possível pagar os pesados impostos que a Coroa portuguesa exige, e não é condizente com o progresso da nova terra que não existam universidades, imprensa, os últimos avanços da civilização ocidental. A cobrança dos impostos se aproxima: o oficial quer um levante.

            Alguém trai; conta das reuniões, da bandeira que fizeram, dos planos. Todos são presos, mesmo quem não tinha participação direta, como o poeta de Marília. Na cadeia, escreve mais alguns versos à amada; escapa da forca e vai para o exílio, em Moçambique, onde casa-se com uma moça de família rica. Os seus poemas são publicados de maneira tortuosa, e uma terceira parte falsificada teria se juntado ao que realmente eram de seu punho [1] .

            Na época que Tomás Antônio Gonzaga escreveu suas liras, não existia ainda em sua totalidade a idéia de uma literatura brasileira, de um jeito de escrever que fosse intrinsecamente nacional. Mas o fato é que escritores que vieram depois se inspiraram em Marília de Dirceu para constituir uma esfera social de obras, autores, críticos e público no novo Estado que surgia, no desenrolar do século seguinte. Este processo é analisado numa das maiores obras de crítica literária no país, Formação da Literatura Brasileira [2] , de Antônio Candido.

            O crítico dedica um capítulo à produção lírica de Gonzaga (as Cartas Chilenas, durante muito tempo anônimas, são da autoria do poeta segundo o autor, e merecem um estudo à parte) e começa seus comentários afirmando ser impossível compreender tal produção se não se tem em vista que ela surge da experiência pessoal do poeta, do fato de ele ter se apaixonado por Dorotéia,  e conhecido Cláudio, o árcade que trouxe ninfas para os ribeirões das Minas Gerais. Gonzaga surge como um grande poeta ( um dos maiores da literatura nacional, segundo Antônio Candido) justamente num período de crise afetiva e política. Se Cláudio, poeta importante para o autor, por ser um criador de parâmetros poéticos, foi um artesão da palavra que trabalhou durante anos a fio, Gonzaga expande seu talento num intervalo de tempo preciso, de 1782 a 1792.

            Marília de Dirceu seria, para Antônio Candido, um poema de lirismo amoroso baseado numa experiência concreta, e uma exposição serena e altiva da personalidade de Gonzaga. Esses dois pólos não se excluiriam: juntos, seriam a chave para a compreensão do livro. O juízo crítico do autor divide-se em três pontos principais: a aventura sentimental de Gonzaga, sua formação poética e as características de sua poesia.

            O primeiro ponto explica-se pela presença marcante da personagem Marília, tão forte que chega até a ser física. Os poemas criam um mito feminino, dos poucos existentes em nossa literatura ( Iracema e Capitu seriam suas “descendentes”). As musas dos outros poetas árcades, como Silva Alvarenga, tinham existências despersonalizadas; Marília aparece na janela com suas tranças, suas estratégias amorosas, mau-humor e doses de frieza diante de Dirceu apaixonado,e, simultaneamente,  a musa de Gonzaga, escreve Antônio Candido, despede-se da vida cotidiana para se tornar uma figura de Fragonard, um bibelô delicado ora louro, ora moreno, ora com flores, ora com cordeiros.

            Mesmo lidando com a hipótese de que algumas liras dedicadas à Marília sejam poemas reescritos, o fato é que a poesia de Gonzaga tomou corpo somente no momento em que a bela Dorotéia entrou em sua vida: “Foi um acaso feliz para a nossa literatura esta conjunção de um poeta de meia idade com a menina de dezessete anos. O quarentão é amoroso refinado, capaz de sentir poesia onde o adolescente só o vê o embaraço cotidiano; e a proximidade da velhice intensifica, em relação à moça em flor, um encantamento que mais se apura pela fuga do tempo e a previsão da morte” [3] . Neste ponto, Gonzaga enaltece a vida conjugal que terá ao lado de Dorotéia, e não a idealiza mais mitologicamente. A experiência amorosa do poeta, primeiro nas esquinas de Vila Rica, e depois nos cárceres do Rio de Janeiro, tornaria-se um dos roteiros literários mais dignos produzidos no Brasil.

            A influência de Cláudio Manuel da Costa, o Glauceste, foi fundamental nesse processo. As Obras de Cláudio foram publicadas no mesmo ano em que Gonzaga se formava em Coimbra ( 1768), e com certeza foram lidas por ele. Quando teve oportunidade de conviver com o colega mais velho no Brasil, o fez com toda a intensidade possível. Cláudio o incentivou a seguir os caminhos da poesia, e o clareou com seu profundo amor pela terra das Minas Gerais. Nas declarações dos Autos da Devassa, Gonzaga sempre procura retirar de Cláudio qualquer responsabilidade.

            Trinta anos antes, Cláudio fora um dos escritores que buscaram, através de uma reforma consciente no fazer poético em Portugal, encher o Arcadismo lusitano de frescor, a partir da idéia de naturalidade. Afirma Antônio Candido que Gonzaga continua e leva às últimas conseqüências as reformas propostas por Cláudio.

            O terceiro ponto levantado pelo autor são as características dos versos de Gonzaga. Já começa suas análises expressando, mais uma vez, o apreço que tem pelo amante de Marília: “Em nossa literatura é dos maiores poetas, dentre os sete ou oito que trouxeram alguma coisa à nossa visão de mundo” [4] . Suas poesias antes da prisão são compostas em verso leve e casquilho, mas depois dos episódios da Inconfidência começou a preferir formas mais austeras. Suas mais belas imagens serão inspiração para Casimiro de Abreu, entre outros, por exemplo.

            O que une todos os seus escritos, para o crítico, são o realismo e o individualismo. À forma graciosa e fútil dos primeiros árcades, Gonzaga contrapõe o cotidiano visto de modo caloroso e delicado. A importância de sua obra surge justamente do leitor poder acompanhar as etapas de sua crescente maturidade psicológica, assim como no caso de Manuel Maria du Bocage. Gonzaga surge atrás da capa transparente de Dirceu, e é o único dentre os árcades que a obra é a biografia, e vice-versa.

            Mas a maneira com que descreve seus estados de ânimo não é a dos românticos, seus sucessores: enquanto estes escrevem no momento da inspiração, sedentos por revelar o impulso afetivo que sentem, Gonzaga constrói a média de sua alma, não seus extremos; escreve Antônio Candido: “A obra de Gonzaga é admirável graças a tal capacidade de extrair uma linha condutora dentre a variedade de afetos e estados d’alma, construindo um só movimento (....)” [5] . Dirceu revela, minuciosamente, sua posição, o que acha da vida a dois, o medo do envelhecimento, e o leitor começa a conhecer o poeta, apaixonado e vivendo num momento político difícil. E o crítico arremata: “Suponhamos, com efeito, que o triunfo na carreira judicial, o prestígio na sociedade não bastassem para satisfazer certas necessidades espirituais. O malogro da carreira universitária, a falta de oportunidade e estímulo para a literatura, teriam bloqueado parte de suas aspirações; o encontro de Dorotéia e Cláudio ( do amor e da técnica...)abriu novo trilho para ela e a poesia surgiu deste modo, de repente, como veículo para afirmar brilhantemente seu ser (...)” [6] . No cárcere, isso só se intensificaria.

            A personalidade total do poeta é vista, pela poesia que celebra o amor, e amarga a desgraça política no cenário luxuoso de Vila Rica. Marília de Dirceu é, para Antônio Candido, uma “aventura humana e artística”, modelada pelas presenças de Dorotéia e Cláudio.

            Lendo as análises concisas e articuladas do crítico, nos perguntamos: quais serão os pressupostos metodológicos que guiam sua leitura das linhas deixadas por Gonzaga? Qual é o ponto onde se iniciam as retas que compõem as estruturas de seu pensamento? Tais elementos se encontram na “Introdução” de Formação da Literatura Brasileira, que, apesar de fugir dos padrões brasileiros de introduções pomposas, foi um dos textos mais discutidos do autor. Nele, é exposta sua metodologia e objetivos de modo claro e contundente. Muitos autores se ocuparam da discussão desta “Introdução” [7] .  No “Prefácio à segunda edição”, Antônio Candido se ressente da extrema importância que foi dada à exposição dos esquemas teóricos, e da falta de cuidado com as análises em si.  Explica tal acontecimento pelo interesse exagerado que nós brasileiros possuíriamos em relação às questões de metodologia. No país, para ele, existiria mais uma tradição na discussão da maneira de fazer crítica do que o fazer crítica propriamente.

            Isso é surpreendente, tendo em vista que o autor foi da primeira geração de alunos de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo. Junto com Florestan Fernandes, Antônio Candido se ocupou, durante muito tempo, do magistério e da pesquisa em Sociologia. Em suas discussões, apesar de se mostrar atento aos novos desenvolvimentos da Teoria Literária e da Literatura Comparada, áreas que ajudou a estabelecer nas universidades paulistas, Antônio Candido nunca esqueceu dos parâmetros da discussão sociológica.

            A “Introdução” é a tentativa consciente do autor em pensar na conexão entre os esquemas teóricos macro e micro, desenvolvidos na disciplina de Durkheim e Weber, e o cuidado com as obras, que segundo ele não podem ser consideradas apenas como produtos de um dado contexto social. O interesse do autor é estudar a literatura brasileira a partir do momento em que ela se configura como um sistema articulado: um circuito delimitado entre autor, obra e público, elementos reunidos numa interação dinâmica que possui continuidade no tempo.

            Este momento é o século XVIII, o período onde o processo formativo que começou antes e continuará depois toma um corpo definitivo. Nos movimentos Arcadismo e Romantismo, começa a existir um espaço social para obras literárias, escritores e público leitor. Se as atitudes estéticas separam os dois movimentos, diz Antônio Candido, a “vocação histórica” é a mesma: constituir a Literatura como sistema no país. Para o autor, esse ângulo de visão requer um método histórico e estético ao mesmo tempo. Um exemplo seria a investigação de como certos elementos da formação social levam o escritor a escolher determinados temas para seus romances.

            Antônio Candido ressalta o que denomina de “precedência do estético”: ou seja, o pressuposto de que as obras não são produtos, e sim possuidoras de funções nos processos culturais. Em sua tese de livre-docência [8] , o crítico procurou demonstrar a inviabilidade de qualquer crítica de Artes determinista ( mesmo, e principalmente, a sociológica): o estudo dos fatores externos, escreve ele, só tem valor quando aplicado ao princípio básico de que a obra é uma entidade autônoma.

            Esclarecido este ponto, o crítico continua em sua jornada de esclarecimento de seus objetivos. Para ele, o processo de formação da literatura brasileira é uma síntese entre tendências universalistas e particularistas. No caso, o Arcadismo seria responsável pelas primeiras, devido aos esforços dos poetas árcades mineiros em realizar uma Literatura que estivesse de acordo com os parâmetros ocidentais, e o Romantismo, pelas segundas, em sua busca incessante das origens do ser brasileiro ( o indianismo é um dos gestos nesse sentido). Ao contrário do que ocorria antes, onde as manifestações literárias feitas na Colônia faziam parte do circuito cultural do grande império português [9] , nos dois movimentos a Literatura se consagra como um sistema simbólico, onde os elementos da natureza social e psíquica são organizados e se tornam partes orgânicas da civilização, a partir da ação de agentes mais ou menos conscientes de seu papel de manipuladores de mecanismos transmissores para atingir os receptores.

            No processo de formação, o decisivo é que exista uma continuidade entre os produtores, a existência de uma tradição ( definida pelo autor como o conjunto de elementos transmitidos formando padrões que se impõem ao pensamento ou ao comportamento). Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, os amigos de desventuras amorosas e políticas em Vila Rica, foram agentes centrais na construção de uma Literatura genuinamente nacional, atores principais de Formação da Literatura Brasileira, nada mais nada menos do que a “história dos brasileiros no seu desejo de ter uma literatura” [10] .

            Tanto Cláudio quanto Tomás acreditavam ser possível provar que os brasileiros eram tão bons poetas quanto os portugueses. Esta é a marca dos neoclássicos: colocar a nação que engatinhava na trilha dos estudos e discussões literárias do momento na Europa. Depois da Independência, esse processo se acentuou, mas com a ênfase voltada para um programa de diferenciação e particularização de temas e modos de exprimi-los, explica Antônio Candido. Assim, as liras delicadas de Gonzaga são tão nacionalistas quanto os versos épicos e retumbantes de Gonçalves Dias. Isso ocorre porque uma marca de nascença de todas as obras produzidas aqui era justamente a consciência da necessidade do nacional ( por conta desse fato o crítico chama a literatura brasileira de “empenhada”).

            A urgência terrível de auto-definição, muitas vezes, prendeu a imaginação e tolhiu vôos mais altos: “(...) a coragem e a espontaneidade do gratuito é prova de amadurecimento, no indivíduo e na civilização; aos povos jovens e aos moços, parece traição e fraqueza” [11] . Essa “imaturidade” deu à Literatura produzida em terras tupiniquins um sentido histórico e um poder comunicativo, porém. Ela tornou-se o espelho de uma sociedade em busca do auto-conhecimento, e atingiu uma expressividade que faz com que os leitores se identifiquem e compreendam as agruras de Dirceu apaixonado.

            A historicidade é peça-chave no esquema de Antônio Candido, mas o crítico não considera as obras meros sintomas. Para atravessar as páginas de Marília de Dirceu, o autor levou em conta o contexto cultural da época, mas respeitou o autor em sua integridade estética. A busca incessante de Antônio Candido é a de uma síntese de fatores externos e internos, que devemos levar em conta quando no estudo de obras literárias; a valsa entre o universal e o particular é constante, em Formação.

            A crítica é a área do conhecimento responsável pela compreensão de tal conjunção, para Antônio Candido. Da primeira impressão causada pela leitura, surge o trabalho de pesquisa e exegese, e por último o juízo final. A obra literária, para Antônio Candido, é a soma dos fatores externos ( sociais, culturais, históricos) e dos fatores individuais ( as idiossincrasias de cada autor, sua visão pessoal dos acontecimentos que o cercam). O resultado, o texto, além de ser uma soma destes fatores, possui ainda outros não reduzíveis a estes. O crítico precisa dar conta destas três esferas: outros profissionais, como o psicanalista, o sociólogo, o historiador, podem explicar tais esferas em separado. Porque a Literatura, afirma Antônio Candido, é um conjunto de obras, não de autores ou fatores.

            Tendo em vista todos estes pressupostos, podemos compreender o que o autor exprime sobre o momento onde surge a personalidade viva e exuberante de Gonzaga. O Arcadismo, ou Ilustração, ou Neoclassicismo, usados pelo autor de forma indiferente, foi a marca decisiva em que as manifestações literárias brasileiras adquirem características de sistema. No caso das nossas Luzes, o século foi beato, escolástico, inquisitorial, temperado pelo “despotismo relativamente esclarecido” do marquês de Pombal.

            Inspirados em Luís de Camões, nos classicistas franceses e na imitação greco-latina, os árcades lusitanos buscaram uma mímesis perfeita, uma poesia que fosse a expressão racional para a manifestação da verdade. Em oposição à exuberância barroca, os árcades exaltavam a ordem lógica, a clareza, a simplicidade, a adequação do pensamento. Homens como Verney e Candido Lusitano buscavam um ideal de perfeita inteligibilidade; para isso, as poesias deveriam se inspirar em situações genéricas, vividas por todos: o nascimento, o casamento, a morte, tudo retratado num tom epistolar, dirigido para os salões dos “bem nascidos”; um charmoso leitor, declamando palavras simples e agradáveis, enquanto mulheres e homens equilibram perucas brancas e tomam chá.

            Para esse público, que conhecia os códigos eruditos, era necessário citar abundantemente os modelos clássicos. A Antigüidade era, para os neoclássicos, a garantia de excelência e um recurso perfeito para a despersonalização do lirismo, além de uma solução adequada para o problema formal, já que fornecia regras muito precisas.

A moderação, a vida interior do adulto, branco, normal, eram as regras. Antônio Candido sabe que existe um “estranhamento” quando se pensa que este século, contido pelo ideal da mediocridade bem educada, estoure em Bocage, em Blake, no Marquês de Sade...e em Gonzaga: “Na literatura luso-brasileira, podemos avaliar este culto da mediania pelas figuras dos escritores, que, mesmo quando revoltos, inquietos, procuravam dar a impressão de equilíbrio e urbanidade, não só nos escritos, como também na própria vida” [12] . Tais homens eram cidadãos pacatos, na maioria advogados formados em Coimbra, funcionários públicos zelosos, convivas amenos.

            Diferentemente dos antecessores lusitanos, o equilíbrio em Gonzaga é conseguido não pela moderação extrema, mas pela expansão de uma personalidade brilhante. A sua poesia nasce da sua vida, e sua vida foi alterada para sempre pela força da poesia. A análise de Marília de Dirceu empreendida por Antônio Candido é uma demonstração de fé no poder criador de um indivíduo, quando em contato com as exigências do amor, da profissão e da época. A Arcádia, antes mero cenário, desce à terra e se estabelece em Vila Rica.

            Antônio Candido, como sociólogo, conhece bem uma das dicotomias que cortam as Ciências Humanas de fora a fora: a existente entre indivíduo e sociedade, ou, em outros termos, entre ação e estrutura. Para Os parceiros do Rio Bonito [13] , cuja pesquisa realizou logo após os trabalhos em Formação, procurou pensar numa maneira de sintetizar as conquistas da Antropologia e da Sociologia. Se a primeira disciplina havia dado passos decisivos no estudo do cotidiano de pequenos grupos, a segunda avançava nos estudos das grandes conjunturas, e o autor considerava ambas imprescindíveis na compreensão do modo de vida dos pequenos agricultores de Bofete. O esforço é o mesmo: se em Formação Gonzaga é um agente dentro de um sistema em formação, e um agente relevante, sem o qual o sistema não existiria ( e vice-versa: Marília de Dirceu não seria escrito se a geração de Cláudio Manuel da Costa não tivesse deixado parâmetros poéticos novos, e se o autor tivesse nascido em outro espaço e outro tempo), em  Os parceiros o avanço da fronteira da expansão agrícola no estado de São Paulo não se explica somente por índices, e sim pelo término de um estilo de viver tradicional, do qual esses pequenos produtores são portadores.

            Formação surgiu da necessidade de explicar um sistema social, a Literatura, e Os parceiros, do desejo de estudar a dança Cururu. Mas essas intenções iniciais são pontos de partida: não impedem Antônio Candido de realizar passagens de um nível de entendimento para outro. Nesse sentido é que sua obra é crivada pela extrema influência de Karl Marx, e sua célebre frase em O dezoito brumário: “Os homens fazem a história, mas não como querem”.

            Roberto Schwarz, em “Os sete fôlegos de um livro” [14] , afirma que os escritores, para Antônio Candido em Formação, são agentes do processo formativo da literatura brasileira, com posições bastante demarcadas num esquema geral. Não se pode rotular de brasileiros indiferentemente índios, José de Anchieta, Gregório de Matos e Padre Vieira. A formação da literatura no país, para Schwarz, é uma estrutura histórica com um sentido próprio, com uma lógica de funcionamento que é preciso entender. Uma de suas leis de funcionamento seria a necessidade do nacional; outra, a combinação de aspectos universalistas e particularistas. O tom do livro de Antônio Candido é o estrutural-histórico, para Schwarz: “Antônio Candido é seguramente, e de longe, o mais estrutural entre os críticos brasileiros, se entendermos o termo em suas acepções exigentes, para além dos cacoetes terminológicos” [15] . A pesquisa de Formação seria, para Schwarz, o da historicidade das estruturas.

            Pode-se observar tal preocupação na exposição articulada de Antônio Candido, ao invés de uma mera descrição linear: “ (...) a descoberta de uma estrutura e um movimento reais, cujas articulações, sumamente interessantes, se devem estudar e não negar- a não ser, naturalmente, que se trate de demonstrar a sua inexsitência, o que seria legítimo ( e talvez difícil)” [16] . Antônio Candido se interessa pelo testemunho amoroso de Tomás Antônio Gonzaga porque tal escrito faz parte de uma galáxia nascente e que é seu objeto de estudo; nisso Schwarz aponta com clareza. Mas será que a galáxia seria a mesma sem Alfa do Centauro? Ou sem o sistema solar, mesmo considerando que este pequenino grupo não está no centro da massa estelar?

            Para Schwarz, o ponto enigmático é a compreensão de como a Literatura surgiu num país atrasado economicamente. Todos os passos decisivos na formação desta arte apontados por Antônio Candido surgiram antes da Abolição da Escravatura, em 1888. Se considerarmos, como Schwarz considera, que a esfera cultural é determinada em última instância pela produção dos meios de sobrevivência, como explicar tal descompasso, tal inorganicidade? Ao invés das respostas dadas por Sérgio Buarque de Hollanda e Caio Prado Júnior, Antônio Candido chega à conclusão de que a sociedade brasileira está definida, não em vias de se completar. Não foi necessário abolir os escravos, dar dignidade à população, criar uma indústria: os rumos do modo de produção capitalista no Brasil foram o da extrema exclusão social: enquanto que a elite cria e lê livros de alto padrão literário, ganha dinheiro tanto quanto a burguesia européia: os traços do arcaico continuam sem desaparecer.

            Schwarz conclui seu texto em homenagem ao antigo mestre afirmando que hoje tal constatação chega ao seu máximo, quando todas as novidades do neo-liberalismo são implantadas, sendo que nem o liberalismo chegou a funcionar direito no país. Tanto Schwarz quanto Paulo Eduardo Arantes em seus textos no volume Dentro do texto, dentro da vida [17] discutem de maneira aprofundada a idéia de formação, e todas as suas conseqüências. Não é do nosso interesse esmiuçar tais discussões, bastando concluir que as análises sobre os poemas de Tomás Antônio Gonzaga feitas por Antônio Candido em Formação da Literatura Brasileira foram feitas sob o prisma do processo formativo, uma estrutura dotada de historicidade. O problema que buscamos explicitar, percorrendo com Gonzaga os caminhos de seu coração, é que a “dialética por todos os lados” na obra do crítico [18] faz com que a discussão fique mais rica.

            Gonzaga não é um mero “títere”, para usar uma expressão do verdadeiro herói de nossa Literatura, Machado de Assis. Sem sua participação direta, a estrutura não se afirmaria. Por isso, podemos pensar, a partir da sugestão de Arantes, que a busca de síntese, realizada em certos momentos com muito sucesso por Antônio Candido, é que o faz sempre movimentar seu pensamento de um nível de análise para outro. Em Antônio Candido, os agentes sociais, no caso os escritores, são dotados de um poder para comandar minimamente o rumo do que ocorre. Esse poder não é total: tampouco o crítico cai na falácia das individualidades herméticas que criam o mundo em seis dias: existe um papel preponderante dos fatores externos à cada individualidade.

Todas essas questões teóricas são complexas, e este pequeno texto não se aventura a dar respostas. Mas, de definitivo, fica a certeza de que a Literatura brasileira, para Antônio Candido, tal qual a conhecemos hoje, seria muito mais pobre e teria tomado outros rumos se Tomás Antônio Gonzaga tivesse resistido aos “efeitos de Amor” e desviado o olhar daquela janela onde estava a bela e inesquecível Marília.

“Minha bela Marília, tudo passa;

A sorte deste mundo é mal segura;

Se vem depois dos males a ventura,

Vem depois dos prazeres a desgraça.

                        Estão os mesmos Deuses

Sujeitos ao poder do ímpio Fado:

Apolo já fugiu do Céu brilhante,

                        Já foi Pastor de gado. (...)

Que havemos de esperar, Marília bela?

Que vão passando os florescentes dias?

As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;

E pode enfim mudar-se a nossa estrela.

                        Ah! não, minha Marília,

Aproveite-se o tempo, antes que faça

O estrago de roubar ao corpo as forças

                        E ao semblante a graça. Lira XIV

 

BIBLIOGRAFIA

CANDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira ( momentos decisivos). 1o volume (1750-1836). Belo Horizonte e Rio de Janeiro, Editora Itatiaia, 1993

______________. O método crítico de Sílvio Romero. São Paulo, EDUSP, 1988

______________.Os parceiros do Rio Bonito. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 1987

ALEXANDER, Jeffrey C. “O novo movimento teórico”, in Revista Brasileira de Ciências Socias, junho de 1987

D’INCAO, Maria Ângela, e SCARABÓTOLO, Eloísa ( orgs.). Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antônio Candido. São Paulo: Companhia das Letras e Instituto Moreira Salles, 1992

AGUIAR, Flávio ( org.). Antônio Candido: pensamento e militância. São Paulo, Humanitas Publicações FFLCH/USP, 1999

ARANTES, Paulo Eduardo. Sentimento da Dialética na experiência intelectual brasileira ( Dialética e dualidade em Antônio Candido e Roberto Schwarz). Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1992

GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu. Rio de Janeiro, Ediouro, 1997

______________. Obras Completas. Edição crítica de Rodrigues Lapa. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942



[1] Antônio Candido segue o estabelecimento dos textos de Gonzaga pela edição crítica de LAPA, Rodrigues. Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1942. A interpretação de Antônio Candido deve, e muito, a Rodrigues Lapa, que pesquisou a obra do poeta em Portugal.

[2] CANDIDO, Antônio: Formação da Literatura Brasileira ( momentos decisivos). 1o volume ( 1750-1836). Belo Horizonte e Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 1959 ( 1o edição)

[3] idem, pg. 113

3 idem, pg. 116

4 idem, pg. 118

5 idem, ibidem

[7] Por exemplo SCHWARZ, Roberto.

[8]   anos mais tarde, publicada como O método crítico de Sílvio Romero. São Paulo: EDUSP, 1988

[9]   seria o caso do Padre Antônio Vieira. Gregório de Matos, o primeiro grande poeta brasileiro, foi uma figura isolada, não deixou discípulos e por isso não faz parte do livro de Antônio Candido. Esta escolha suscitou polêmica: ver CAMPOS, Haroldo. O seqüestro do barroco na formação da literatura brasileira: o caso Gregório de Matos. Salvador: FCJA, 1989, e uma possível resposta a sua argumentação: CHIAPPINI, Lígia: “Os equívocos da crítica à Formação”, in D’INCAO, Maria Ângela, e SCARABÓTOLO, Eloísa Faria( orgs.): Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antônio Candido. São Paulo: Companhia das Letras e Instituto Moreira Salles, 1992

[10] CANDIDO, Antônio: Formação da Literatura Brasileira ( momentos decisivos). 1o volume (1750-1836). Belo Horizonte e Rio de Janeiro: Editora Itatiaia, 1959, pg. 25

[11] idem, pg. 27

[12] idem, pg. 52

[13] CANDIDO, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1987. Neste livro, Antônio Candido expressa suas influências: a Antropologia inglesa de Malinowski e Radcliffe-Brown, entre outros e os textos de Marx e Engels em A ideologia alemã . A sua concepção de estrutura é similar à utilizada no funcionalismo na Antropologia. Sobre os últimos desenvolvimentos da dicotomia ação-estrutura na Teoria Social, ver ALEXANDER, Jeffrey. “O novo movimento teórico”, in Revista Brasileira de Ciências Sociais, junho de 1987

[14] SCHWARZ, Roberto. “Os sete fôlegos de um livro”, in AGUIAR, Flávio(org.). Antônio Candido, pensamento e militância. São Paulo: Humanitas Publicações FFLCH/USP e Editora Fundação Perseu Abramo, 1999

[15] idem, pgs. 86 e 87

[16] idem, pg. 88

[17] D’INCAO, Maria Ângela, e SCARABÓTOLO, Eloísa Faria. op.cit

[18] idéia principal de ARANTES, Paulo Eduardo. Sentimento da Dialética na experiência intelectual brasileira. Dialética e dualidade segundo Antônio Candido e Roberto Schwarz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992