2006 – CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE CYRO DOS ANJOS

 

Celia M.Tamura
celiatamura111@yahoo.com.br
Mestre em Teoria Literária

 

Cyro Versiani dos Anjos, autor de O Amanuense Belmiro, completaria 100 anos em 5 de outubro de 2006. Nascido em Montes Claros, Minas Gerais, décimo terceiro dos quatorze filhos do comerciante e fazendeiro Antônio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos, estudou Direito em Belo Horizonte, tendo passado a maior parte da vida na carreira pública, vindo a ocupar, entre outros cargos, o de Diretor da Imprensa Oficial e de Presidente do Conselho Administrativo do Estado, ambos em Minas Gerais.

 Em 1933, como redator de A Tribuna, Cyro dos Anjos publicou uma série de crônicas que viriam a compor o romance O Amanuense Belmiro, publicado em 1937. Mais tarde, publicou os romances Abdias, em 1945, e Montanha, em 1954. Suas experiências da infância e da juventude são narradas no livro de memórias A Menina do Sobrado, de 1979, composto de duas partes, “Santana do Rio Verde” e “Mocidade, Amores”, sendo que, à primeira, foi incorporado o conteúdo de uma publicação de 1963, Explorações no Tempo. Produziu um livro de ensaio, A Criação Literária, de 1954, e um de poesia, Poemas Coronários, de 1964.

No Rio de Janeiro, exerceu as funções de Diretor do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores da União, no governo de Eurico Gaspar Dutra, e de subchefe do Gabinete Civil da Presidência da República, durante o governo de Juscelino Kubistchek. Em Brasília, foi Ministro do Tribunal de Contas do Distrito Federal, cargo em que se aposentou, em 1976.

Lecionou Literatura Portuguesa na Faculdade de Filosofia de Minas Gerais, entre 1940 e 1946, da qual foi fundador. Ministrou, no período entre 1952 e 1955, a convite do Itamarati, a disciplina de Estudos Brasileiros na Universidade do México e na de Lisboa. Participou do planejamento da Universidade de Brasília, vindo a ocupar a função de coordenador do Instituto de Letras da mesma Universidade. Ali regeu, na qualidade de professor titular extraordinário, em 1962, o curso “Oficina Literária”. Depois de aposentado, continuou a ministrar, na Faculdade da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o curso “Oficina Literária”.

Foi membro da Academia Brasileira de Letras, na qual ingressou em 1969, para a cadeira nº 24, na sucessão de Manuel Bandeira. No Rio de Janeiro, residia desde sua aposentadoria, vindo a falecer em 1994.

 

O Romance Introspectivo

Cyro dos Anjos faz parte de uma geração de escritores surgidos entre as décadas de 1930 e 1950, que se destacam pela ficção regionalista, retrato de decadência do sistema patriarcal escravocrata e do advento da fase urbanizadora, com os conflitos internos da burguesia entre provinciana e cosmopolita, de acordo com o crítico Alfredo Bosi. Bosi refere-se aos decênios de 30 e 40 como “a era do romance brasileiro”, incluindo não só a ficção regionalista, representada por Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Érico Veríssimo, mas também a prosa cosmopolita de José Geraldo Vieira, além da sondagem moral e psicológica de Lúcio Cardoso, Cornélio Pena, Otávio de Faria e Cyro dos Anjos. De acordo com o crítico, é possível classificar a prosa destes quatro últimos como portadores de tensão interiorizada, na qual o herói não se dispõe a enfrentar a antinomia eu/mundo pela ação: evade-se, subjetivando o conflito. Bosi ainda classifica, como romances de educação sentimental, O Amanuense Belmiro e Abdias, pois em ambos são narradas as ressonâncias na alma de homens voltados para si mesmos, refratários à ação, flutuantes entre o desejo e a inércia, entre o projeto veleitário e a melancolia da impotência. O crítico destaca a condição de memorialista de Cyro, assinalando que o enredo tende a perder os contornos, as divisões nítidas, diluindo-se no fluxo da memória, que vai evocando os acontecimentos. Atribui à prosa de Cyro uma elegância simples e clássica, que utiliza os recursos tradicionais do diálogo, do relato irônico e da análise sentimental, abrindo mão de recorrer ao monólogo interior.

Antonio Candido estabelece a característica fundamental de Cyro, ao classificá-lo como escritor estrategista, em oposição aos escritores táticos, bem mais comuns em nossa literatura. Candido destaca a questão da interioridade de Belmiro, como fonte de desajustes entre a realidade e o sonho. Para alcançar certo equilíbrio, Belmiro utiliza o diário. Através da escrita, o amanuense evade-se da vida, analisando-a, pensando-a, estabelecendo, assim, um movimento de báscula entre a realidade e o sonho. [1]

João Luiz Lafetá também destaca a predominância da interioridade como traço constitutivo de Belmiro. O conflito é gerado pela interioridade em choque com o mundo convencional. Ao tentar definir o caráter de Belmiro, Lafetá conclui que não é totalmente sonhador, nem totalmente pragmático, mas um misto dos dois. Retomando as palavras de Antonio Candido, ressalta que “o movimento de báscula entre o sonho e a realidade”, entre duas realidades distintas, constitui o verdadeiro eixo da obra. Tal conflito traduz-se em termos de efabulação, na paixão platônica nutrida pelo amanuense. Para o crítico, “É a consciência viva da insuficiência de sua interioridade que o torna um ser dividido e infeliz”. [2] Essa inadaptação ao mundo corresponde ao que Lukács chama de “romantismo da desilusão”, o qual deriva do fato de a alma do herói “ser mais ampla e mais vasta do que todos os destinos que a vida pode oferecer”.

José Aderaldo Castello, como Antonio Candido, atribui ao romance O Amanuense Belmiro o estatuto de obra-prima da ficção brasileira moderna. De acordo com Castello, o que prevalece nesse romance é a lírica investigação do mundo interior, em sua solidão e vazio afetivo em busca do mito amoroso. O crítico destaca a marca machadiana, visível na linguagem, no processo de abordagem temática de natureza psicológica e filosófica conduzida pela investigação da problemática do tempo e memória. Com O Amanuense Belmiro e Abdias, segundo Castello, Cyro dos Anjos coloca-se entre os representantes mais destacados da linhagem machadiana, conjuntamente com Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles e Murilo Rubião. [3]

 

 O Memorialismo        

É marcante o caráter autobiográfico da obra de Cyro dos Anjos, que, tanto em seus romances quanto em seu livro de memórias. Já na epígrafe a O Amanuense Belmiro, Cyro explica a fonte autobiográfica, por meio das palavras de Georges Duhamel:

Pour écrire l’histoire d’um autre, je collabore avec ma propre vie. Qu’on ne cherce pas à savoir ce qui, dans cette fiction, est indubitablement moi. On s’y tromperait. Et mes proches s’y tromperaient autant et plus que les autres. [4]

Tal epígrafe revela o procedimento que norteia a obra de Cyro, sempre fundamentado na experiência real do escritor. Os protagonistas são identificáveis como variações do Autor, que se veste de Belmiro, de Abdias, ou do narrador não nomeado das memórias de A Menina do Sobrado. A cidade de Belo Horizonte é o destino das personagens, que vão estudar e estabelelcer suas vidas, mas todas provêm de uma cidade comum, do interior, a Montes Claros natal, que, na literatura de Cyro, adquire outros nomes, como a Vila Caraíbas, em O Amanuense Belmiro, a Várzea dos Buritis, em Abdias, ou a Santana do Rio Verde, das memórias.

Pode-se dizer, dessa forma que, em seus romances, Cyro caracteriza as personagens principais como “disfarce leve do romancista”, já que seu lado memorialista é bem marcado. Entretanto, esse leve disfarce permite uma invenção, que mantém vínculos necessários com a realidade individual do romancista. Ao criar personagens com relativa fidelidade aos modelos da vida real, transpõe as pessoas com as quais o romancista teve contato direto, que servem de eixo ou ponto de partida. Por meio desse recurso, o trabalho criador desfigura o modelo, que todavia se pode identificar. Na construção de Belmiro, ainda, o autor obedece a uma certa concepção de homem, a um intuito simbólico, a um impulso indefinível, ou quaisquer outros estímulos de base, que o autor corporifica, de maneira a supormos uma espécie de arquétipo. [5] Pode-se dizer que o arquétipo traçado por Cyro dos Anjos é o do mineiro, sintetizado na figura de Belmiro, que, por sua vez, guarda traços do Quixote, em sua fantasia e busca de um amor mítico.

 

Mineiridade e Belmiridade

O crítico Álvaro Lins considera Cyro dos Anjos escritor de um livro em vários livros, referindo-se à similaridade entre as personagens Belmiro e Abdias. Segundo o crítico, há uma inter-relação entre tais livros, estabelecida por desdobramento e comunicação entre si. A figura de Belmiro Borba, com sua rica vida interior, transformou-se num símbolo representativo de certos aspectos da mineiridade, delineando uma das personagens centrais e freqüentes da literatura brasileira.

Cyro destaca o caráter do mineiro em todos os seus livros, inclusive em Montanha, nome fictício dado a Minas Gerais. O romance narra os bastidores do cenário político da década de 50. É o único livro de Cyro em que se toca no assunto político, já que, em todos os outros, evidencia-se uma reserva em relação à política e aos políticos, preferindo o autor não tratar diretamente dela.

Álvaro Lins chama de “filosofia belmiriana” à inteligência aguda associada à incapacidade para a ação, o lirismo e o ceticismo, além da criação de um mundo imaginativo que constitui compensação para as existências solitárias de inadaptados ao mundo real. Roberto Schwarz ressalta a “mistura belmiriana” de perspicácia, cultura, banalidade e lirismo como características de uma personagem central e freqüente na literatura brasileira. [6]

Pode-se dizer que Cyro esboçou, por meio da personagem Belmiro, a alma mineira, desenhando alguns de seus traços mais característicos. Muitas foram as tentativas de se caracterizar a mineiridade, pelos escritores e poetas da terra mineira, numa preocupação em encontrar e revelar a substância que diferencia os mineiros de outros brasileiros em geral. Numa nação de etnias, culturas e hábitos tão diversos, o mineiro vem dar a sua contribuição para a configuração do que é brasileiro. O “montanhês”, segundo Cyro, é aparentado ao inglês, em seus costumes severos e austeros.

Reserva, timidez, por vezes expressão de modéstia, são muito bem retratadas num artigo de Aníbal Machado, “Esboço de Retrato” [7] , em que o autor traça um perfil  do mineiro, comentando particularidades da sua personalidade e do seu comportamento. Machado atribui a índole introspectiva do mineiro em grande parte ao meio ambiente montanhoso, rico em minérios.

Noventa por cento de ferro nas calçadas.

Oitenta por cento de ferro nas almas – dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, singular mistura humana do minério de Itabira. [8]

Segundo Machado, a montanha representa a estabilidade, ao passo que o mar caracteriza-se pelo movimento. A influência telúrica e moral da montanha explica traços do caráter e do comportamento social dos mineiros.

Cercado de severa e majestosa paisagem, é de admirar a reduzida capacidade de exteriorização do mineiro em geral. Falta-lhe “o senso da vida exterior” (expressão de Machado de Assis referindo-se a Coelho Neto). [9]

Ser escravo da natureza é para o mineiro perder o domínio de si mesmo, e ficar à mercê de forças cegas – situação que teme e evita, porque, além de lhe tirar a paz de espírito que preza acima de tudo, o diminui na consideração social que timbra em merecer. Como entre os chineses da velha China, faz questão de guardar a fachada. [10]

O mineiro desgosta dos exagerados, que gesticulam muito e discutem alto. Prefere ouvir a falar. Aníbal Machado atribui à sobriedade no trato a falsa impressão de frieza. Os “montanheses” amam o equilíbrio, a proporção, e temem o ridículo.

Passada a crise, o homem de Minas apressa-se em voltar a casa para contar o caso. O momento mais tipicamente mineiro de seu dia, pois é fundamentalmente homem do lar. Como Goethe, prefere a injustiça à desordem. Sabe que com habilidade e paciência obterá resultados que a violência não consegue. Quase sempre a inteligência crítica está a corrigir-lhe os excessos da paixão. [11]

No volume de memórias A Menina do Sobrado, Cyro dos Anjos, ao falar de sua mãe, recorda sua característica pouco efusiva, mesmo no trato com os filhos:

Herdara o temperamento dos Versianis, que, sendo de procedência italiana, antes pareciam ingleses, pelo ar cerimonioso, contido, senão frio. Não me lembro de que me haja feito outro afago, além do olhar manso que acaso pousava em mim.  Em Santana, acariciar meninos era coisa desacostumada, mas dir-se-ia que tal comportamento se ajustava a seu gênio pouco efusivo. [12]

Até mesmo as relações entre irmãos obedecia a um rigor cerimonioso, a certas regras de conduta, que deveriam ser respeitadas, para garantir a harmonia do lar.

Associada ao sentimento de hierarquia, tal conduta – nascida dos atritos da convivência e do comum temor ao Pai – chegou a criar em nossa casa um estilo de comunicação: o mais velho nunca se dirigia diretamente ao que vinha abaixo; se tinha necessidade de lhe falar, fazia-o com ar vago, aparentando entender-se com um interlocutor imaginário. Assim, reduzia a importância do outro, ao mesmo tempo que imprimia tom impessoal à conversa. [13]

No mineiro, ocasionais paixões “imorais” são reprimidas, e levadas para o plano introspectivo, em que são satisfeitas sem maiores riscos. “Os ‘amanuenses Belmiro’ ocorrem com freqüência em certos meios da pequena burguesia”, como identifica Aníbal Machado. “Como Ulisses, amarra-se ao mastro da prudência ao atravessar a zona das sereias; passado o perigo, dá-se ao gosto de evocar as visões perturbadoras da travessia. São orgias secretas no campo subjetivo”.

A Carmélia real, inatingível, será sempre de outro, terá filhos. Mas a que construí será sempre minha, e o tempo não exercerá sobre ela sua ação desagregadora, porque está fora dos domínios do tempo. [14]

Luiz Roncari apresenta, em seu artigo “Machado de Assis, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa e Marques Rebelo: variações em torno do mesmo tema”, uma relação de obras literárias que trazem o tema do amor, em que se observa uma concepção comum, não só em relação a representações míticas, como também questões fundamentadas sociológica e empiricamente. No artigo, Roncari demonstra que a questão amorosa tem sido retratada pela literatura brasileira, como constituída, tradicionalmente, por um casamento sem amor, ao qual era atribuída a função de procriação, enquanto o contato amoroso, sensual, ocorria com mulheres fora do casamento, quer por escravas ou por amantes. Além do círculo de mulheres, o homem se relacionava com uma roda de amigos, que era, esta sim, a grande fonte de prazer.

Porém, se nós olharmos para o lado dos homens, veremos que, entre as duas especializações do amor, a sexual com as escravas ou amantes e a funcional com a mulher oficial, ficava um vazio que era justamente o da intimidade. Com quem estabelecer a interlocução sobre as questões mais relevantes que ultrapassavam as da esfera familiar, fossem as pessoais, fossem as econômicas, políticas e intelectuais, que nem uma nem outra das mulheres estava preparada para compartilhar? A discussão dessas questões e a confissão dos problemas mais íntimos eram feita na roda dos amigos ou com o amigo íntimo, dependendo do caráter mais ou menos secreto do assunto. Era aqui que crescia o amor com traços misóginos e homossexuais: a atração e o amor do amigo, sempre disposto a ouvir e a compartir as agruras do outro. Isto tornava o amor pela mulher mais o cumprimento de uma necessidade dos instintos e das exigências sociais do que de fato um prazer de se estar junto. A boa hora mesmo era a da mesa do bar ou restaurante, com o amigo íntimo, para as confissões, e na roda de amigos, para as fanfarronices e cafagestagens. Dessa “perturbação” também a literatura brasileira está impregnada, como veremos adiante, com alguns exemplos que poderiam ser multiplicados. [15]

Tais relações representam os paradigmas vigentes na sociedade patriarcal. Os heróis dos romances comentados por Roncari, segundo ele, representam heróis profundamente “brasileiros”. Diante de tal situação, questiona:

A pergunta que nos fica é: como poderia o autor de romance, a partir de tais costumes, tratar do amor elevado? Como o escritor brasileiro poderia desenvolver esse tema tão caro à literatura européia do século XIX, sem cair na comédia ou derivar para a sátira de costumes? [16]

Entretanto, a idéia de amor, delineada por Cyro dos Anjos, em sua obra, pode ser definida como amor elevado, típico de romances de cavalaria, que difundiram o chamado “armo cortês”. É uma modalidade de amor que coloca a mulher em posição elevada, sendo ela pertencente a uma classe social superior ao do homem, razão que a coloca em condição inatingível. [17] Nos romances medievais, combinavam-se dois elementos narrativos, a idealização religiosa e o erotismo cotidiano. Segundo Ian Watt, nesse tipo de romance, “o amor é sinônimo de adoração religiosa; e essa é a tradição que leva Dom Quixote a manter-se quieto enquanto não aparece a sua senhora Dulcinéia, a quem, como é próprio da conduta de um cavaleiro, poderá dedicar as suas gloriosas ações.” [18] Nesse âmbito do universo quixotesco é que nasce o amor idealizado, construído pela fantasia, representado pela fascinação pela donzela Arabela.

Esta solidão da Rua Erê, a tristeza de viver de carícias compradas, a distância, sobretudo a distância da moça em flor, é que geraram a lenda. E o Cavaleiro da Triste figura se pôs em marcha, pela sua Dulcinéia. [19]

O culto às Deidades, em A Menina do Sobrado, é mais um exemplo de amor elevado, sentimento que Cyro procura sempre explicar, por meio da teorização.

Se não havia ciúme é porque, efetivamente, a Deidade não tinha corpo, já que o perdia dentro de nós. Deixar-nos-ia boquiabertos quem afirmasse que o sexo estava na raiz daquele culto. Fascínio de beleza havia, não impulso erótico. Contemplação pura, sem desejo. Amava-se por superabundância sentimental, se é que amor exprime plenitude, e não carência. Daí não nos afeta que a outros se abrissem os seus precavidos e casamentícios corações. Nós as trazíamos de garupa, no cavalo da fantasia. Quem nos poderia arrebatá-las? [20]

Este tipo de amor idealizado, em que domina a fantasia, é definido como um sentimento totalmente diverso do amor físico. Paralelamente ao amor imaginário, coexiste o amor meramente sexual.

Não se pense que seríamos uns emasculados. Nada disso. Amávamos, paralelamente, o amor físico. A iniciação encetada em Santana, pela Vênus Vulgívaga da Rua do Marimbondo, fora rematada pela Vênus Hotentote da república. Sucedia é que, em se tratando de namoradas, a nossa jovem sexualidade, reprimida nas profundezas, buscava outra saída, sem que houvesse efetiva dissociação entre amor e desejo. Assim me acontecera com Priscila no tempo mais antigo, e de tal modo que, muito depois, ao desejá-la, passei a acreditar que por isso já não a amasse. Que força seria esta, capaz de subjugar instintos? Teria essência idêntica à daqueles amores meninos que nasciam de cantigas de roda e se alimentavam da própria chama, em si mesmos encontrando o seu objeto? [21]

O Autor das memórias considera-se um Don Juan platônico, já que, além das Deidades, era facilmente atraído por qualquer moça. A figura feminina capaz de despertar a admiração e a deificação é representada pela imagem da moça em flor, a jovem casadoira, de classe social elevada, digna de ser cultuada. Da mesma forma como Carmélia, a moça em flor desperta o sonho, a fantasia, a mitificação, talvez pela própria impossibilidade de realização do amor.

Como remate, gostaria de acrescentar se acaso sobreviverá à revolução sexual dos nossos dias esse tipo de amor, que, afinal, é velho, bem velho, perde-se nos limbos da história. [...]

[...] Não duvido que o amor-paixão, que de tão longe vem, acompanhe sempre o homem, mesmo quando a humanidade mude de planeta e carregue a sua trouxa pelo cosmos. [22]

Pode-se concluir, dizendo que o amor belmiriano representa um exemplo de como a imaginação atua, elaborando mitos. Por isso, trata-se de um modelo singular na literatura brasileira, quando se fala em amor elevado. O amor fiel e casto é aqui delineado, num âmbito restrito à imaginação, o que remete ao quixotesco. O imaginário constitui, na obra de Cyro dos Anjos, um mundo à parte, já que a realidade não comporta meios de realização para os desejos humanos.

Les souvenirs que j’ai de ma vie réele ne sont ni plus vibrants que ceux de mes vies imaginaires. [23]

          



[1] Antonio Candido. “Estratégia”, in: Cyro dos Anjos. O Amanuense Belmiro. Belo Horizonte: Garnier, 2002.

[2] João Luiz Lafetá. “À Sombra das Moças em Flor”, in: A Dimensão da Noite. São Paulo: Ed. 34, p. 35.

[3] José Aderaldo Castello. A Literatura Brasileira: Origens e Unidade. Vol. II. São Paulo: EDUSP, 1999.

[4] Georges Duhamel. Remarques sur les Mémoires imaginaires, Paris – Mercure de France – Sixième édition.

[5] Cf. Antonio Candido. “A Personagem do Romance”, in: A Personagem de Ficção. São Paulo: Perspectiva, 2002.

[6] Roberto Schwarz. “Sobre o Amanuense Belmiro”, in: O Pai de Família e Outros Estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

[7] Aníbal Machado. “Esboço de Retrato”, in: João Ternura. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984. Artigo publicado originalmente na revista Leitura, nº 54, em setembro de 1949.

[8] Idem, ibidem, p. XXVII.

[9] Idem,ibidem, p. XXVII.

[10] Idem, ibidem, p. XXVIII.

[11] Idem, ibidem, p. XXX.

[12] Cyro dos Anjos. A Menina do Sobrado. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Garnier, 1994, p. 35.

[13] Idem, ibidem, p. 36.

[14] Idem, ibidem, p. 145.

[15] Luiz Roncari. “Machado de Assis, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa e Marques Rebelo: variações em torno do mesmo tema”, in: Scripta,Belo Horizonte, v. 8, n. 15, p 191-197, 2º sem. 2004.

[16] Idem, ibidem, p. 196.

[17] Ver Octavio Paz.A Dupla Chama: Amor e Erotismo. São Paulo: Siciliano, 2001.

[18] Ver Ian Watt. Mitos do Individualismo Moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

[19] Cyro dos Anjos. O Amanuense Belmiro. Belo Horizonte: Garnier: 2002, p. 156.

[20] Cyro dos Anjos. A Menina do Sobrado. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: Garnier, p. 284.

[21] Idem, ibidem, p. 285.

[22] Cyro dos Anjos. A Menina do Sobrado. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Garnier, 1994, p. 296.

[23] Georges Duhamel. op. cit. Epígrafe utilizada por Cyro dos Anjos para O Amanuense Belmiro. Belo Horizonte: Garnier, 2002.