UM CRÍTICO PARA INGLÊS VER: SÍLVIO ROMERO E SEU ESTUDO SOBRE MACHADO DE ASSIS

 

Fábio Della Paschoa Rodrigues

 

1. Em torno do “turbilhão” Sílvio Romero

O “turbilhão” que foi a obra de Sílvio Romero, para utilizar a imagem de Antonio Candido [1] , ainda hoje nos arrasta ou nos lança à longa distância. É tarefa difícil falar ou escrever sobre a obra do crítico sergipano de modo objetivo, evitando a mera esculhambação de seus julgamentos despropositados e de suas contradições. Mas, nesse necessário esforço, tentando pôr em termos justos um trabalho de reflexão crítica do porte da obra de Romero, é preciso equilibrar a balança do juízo crítico e tentar proceder à tarefa de crítico do crítico.

Para ler a obra de Sílvio Romero, precisamos seguir o conselho de Antonio Candido, quando se refere à obra maior do crítico, a História da Literatura Brasileira: “é preciso lê-la com o desconto de suas irregularidades, como as demasias, altos e baixos, digressões soltas, juízos sentimentais, pirraças, para sentirmos o quanto possui no fim das contas de monumental.” [2]

Mesmo José Veríssimo, com quem Romero travou hostil polêmica – chegando este a publicar as Zeverissimações Ineptas da Crítica (1909), reconhece a importância do trabalho do “adversário”. Comentando a História da Literatura Brasileira, diz Veríssimo:

Não é difícil, e já tem sido feito apontar-lhe as contradições, as incoerências, as repetições, as inexatidões de fato ou de juízo, os abusos de generalização, a carência de serenidade e imparcialidade crítica. (...) Não obstante, a História da Literatura Brasileira do Sr. Sílvio Romero é com certeza um dos livros mais originais, ou pelo menos mais pessoais, mais sugestivos, mais copiosos de opiniões e idéias, mais interessantes, de mais veias e temperamento que jamais se escreveram no Brasil. [3]

Suspendendo uma reserva a priori, tentemos analisar, então, Sílvio Romero, como um homem do seu tempo, mergulhado nas grandes correntes teóricas do final do século XIX, preocupado em compreender o Brasil à luz dessas grandes teorias e, mais que isso, reformar o pensamento brasileiro. Ele praticou a análise crítica tomando a literatura como produto do meio, como documento que revela o meio social, e como decorrência da personalidade do autor, esta também condicionada pelas influências externas (meio, raça). Nesse sentido, é dos primeiros a focalizar a importância da mestiçagem, e da mestiçagem de origem africana, na constituição de uma cultura brasileira. Para Sílvio Romero,

a cultura em geral, a literatura em particular, podiam ser entendidas no Brasil aferindo-se os seus produtos ao vasto processo de mestiçamento em sentido amplo, o que permitia não apenas descrever com objetividade, mas julgar com segurança, pois o critério de valor, muito coerente no contexto das suas idéias, era a verificação de como e em que grau o autor e a obra tinham contribuído para a diferenciação, aproximando-se progressivamente de um teor brasileiro, que se manifestava sobretudo na fidelidade com que eram reproduzidos a sociedade e os sentimentos. [4]

Para Romero, no campo das Letras, crítica é análise de uma obra de esteta, isto é, de uma obra que analisa a obra literária. Portanto, a crítica não se aplica diretamente ao fato literário, tarefa do esteta, que produz obra de ciência; a crítica atua sobre esta última, aferindo-lhe o êxito da aplicação das “leis científicas”. Pelas suas próprias palavras:

“Vê-se, pois, claro, que a crítica, na qualidade de disciplina mental, é alguma coisa que se pode aplicar, não diretamente aos fenômenos ou fatos quaisquer da natureza ou da sociedade porque essa é a função própria da ciência, senão às vistas, teorias, doutrinas, interpretações que de tais fatos deram os que deles se ocuparam”. [5]

Sílvio Romero, praticando análise de obras de arte e de obras de ciência, fundia em si as figuras de crítico e cientista. Como cientista, procurava compreender os fenômenos sociais e as manifestações culturais do país, em todas as suas vertentes. Como crítico, “controlava as vistas alheias”, utilizando a crítica como linguagem de aferição.

Mas, por sob a figura do crítico cientista, do demiurgo que  tudo e a todos julgava no alto do promontório, escondia-se, na verdade, sua insensibilidade para as questões estéticas, sua falta de aparelhos teóricos de análise formal. É isso o que nos diz Sílvio Rabelo:

É possível que Sílvio Romero, de todos os críticos do Brasil, tivesse sido o de mais extensa erudição – o que tivesse assimilado a mais vasta experiência de leitura. À crítica literária não repugam uma preparação como a que ele chegou a possuir – certamente maior que a de Araripe Júnior e a de José Veríssimo. Entretanto, toda essa soma de conhecimentos teria de ser mal utilizada à falta de qualidades propriamente artísticas. Sempre que se apresentava a oportunidade para a discussão de doutrina, de sistemas e escolas, ele se afirmaria com desembaraço e quase sempre com lucidez.A estrutura do seu espírito foi coerentemente a mesma em todos os momentos – um espírito geométrico que, por ausência de imaginação, se deixou comprimir dentro do já experimentado, do já discutido – da experiência feita em idéias e soluções que não se cansava de manipular com sensual volúpia. O que dependesse, porém, de uma apreensão pela sensibilidade ou pela intuição escaparia sempre à sua capacidade crítica. Por isso, Sílvio Romero cometeu em literatura os mais graves erros de julgamento. [6]

A intenção principal da crítica de Romero era buscar “diferenciação e progresso” nos escritores brasileiros, que lhes garantisse uma identidade nacional própria. O seu critério de valor ainda era o nacionalista. Isso explica a orientação dada às suas análises, que deixam de lado praticamente o estudo formal, dedicando-se a considerar os temas, os caracteres, as descrições, de que modo estes se relacionam com as condições sociais próprias do país. Seu enfoque era dado ao conteúdo, ao tema e aos efeitos sobre o leitor. Desloca-se da obra para os elementos externos que a condicionam e para a sua função social.

Analisando essa crítica, cujo maior representante e modelo era Taine, Antonio Candido anota que o resultado era

quase sempre decepcionante, uma composição paralela, em que o estudioso enumera os fatores, analisa as condições políticas, econômicas, e em seguida fala das obras segundo as suas intuições ou os seus preconceitos herdados, incapaz de vincular as duas ordens de realidade. [7]

Sempre contraditório – apesar de ser uma contradição que não o emperrava, mas ao contrário, que sempre o impelia a avançar, a revidar – Sílvio Romero não foge a isso: anuncia uma crítica imparcial, com regras e método, mas as mais das vezes sua crítica é evasiva, servindo de mero suporte à sua loquacidade, ao auto-elogio,  a mostras de erudição, à eleição de autores, a revides e ataques.

O turbilhão Romero, porém, sempre seguiu avante com suas convicções. Vendo no escritor um fator de diferenciação e progresso, produto de um meio que deve refletir-se na obra, é compreensível o porquê da implicância com Machado de Assis: o escritor era pobre, gago, mulato, recluso e avesso a polêmicas. Como, com tais características, poderia dele surgir um grande escritor, elevado à condição de gênio? Pior, suas obras não reproduziam o meio e a natureza brasileira, mas tentava-se um arremedo do romance de humour inglês e era anacrônica, apegando-se aos modelos clássicos.

 

2. O “turbilhão” arrastando Machado de Assis

Considerados um pouco o homem e a obra de Sílvio Romero, passemos à posição de crítico do crítico. E se é certo que é necessária uma empatia para com o autor ou a obra analisada, tomamos para nós uma tarefa difícil. E tanto mais difícil quando colocamos à nossa frente o Machado de Assis – estudo comparativo de literatura brasileira (1897), recheadíssimo de birras críticas de Romero para com um dos nossos escritores diletos. Aqui, ficamos com Mário de Andrade, quando dedica um artigo ao escritor fluminense: “Ele foi um homem que me desagrada e que eu não desejaria para o meu convívio. Mas produziu uma obra do mais alto valor artístico, prazer estético de magnífica intensidade que me apaixona e que cultuo sem cessar” [8] .

O romance machadiano, principalmente a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), promoveu um rebuliço na crítica coetânea, o que pode ser verificado pelos textos da chamada tríade naturalista da nossa crítica: Romero, Araripe Jr. e Veríssimo [9] . A reação de Araripe Jr., neste sentido, ilustra bem o problema da recepção crítica face aos romances de Machado de Assis. Em artigo de 1892, sobre Quincas Borba, o crítico, antigo colega de Romero na escola do Recife, faz uma espécie de mea culpa, declarando ter julgado mal o autor das Falenas e dos Contos Fluminenses, em crítica de 1870:

Nessa época eu andava muito preocupado com a idéia do romance nacional; sabia de cor o Brasil de Ferdinand Denis e lera pela oitava ou nona vez o Guarani de J. de Alencar. No que respeita à literatura, ignorava completamente a existência de uma coisa chamada proporções; pouco tinha observado, muito menos comparado, de modo que, segundo então pensava, não havia senão uma craveira: diante de uma obra de arte, ou tudo ou nada. (...) Escrevi o folhetim indignado e descansei no fim da obra, certo talvez de ter causado a ruína de um edifício colossal. [10]

O estudo de Romero seria a prova cabal da sobrelevância descabida que outros críticos davam ao escritor. A tarefa do “justiceiro” – é ele mesmo quem se define assim [11] – era pôr Machado de Assis no lugar que realmente lhe cabia na história da literatura brasileira:

Machado de Assis é um dos ídolos consagrados em vida ao nosso beatério letrado. Em parte merece-o ele, mas só em parte, e a pequena redução que se deve fazer e seu culto é exatamente o que este livro se destina a provar, e tenta-o asseadamente, honestamente, sem preocupações nem rancores. [12]

Silvio Romero com o papel que assumiu de árduo defensor das correntes teóricas de seu tempo, com seu desejo de mudança no cenário intelectual e cultural do país, não vê bem Machado de Assis, a quem chama “filho retardatário do romantismo” [13] , que não assimilou as novas tendências e, ainda por cima, fez troça delas pelo seu parvo Rubião e pelo “Humanitismo” de Quincas Borba.

Romero queria ver “o homem através do livro e a sociedade através do homem”, estudar o escritor como “diferenciação e progresso”, produto e agente do meio social. Machado de Assis é exemplo negativo disso:

E a prova mais evidente da negatividade de sua obra é que não teve continuadores, não teve nem poderá ter discípulos; porque ele nada inventou, não produziu uma só idéia que fosse um centro em torno do qual gravitassem as almas. [14]

Em seu “Prefácio”, o crítico indica que, assim como Araripe Jr., também reconsiderou sua crítica: “um estudo completo, e longamente meditado de todas as obras do ilustre homem de letras, levou-nos a rejeitar as conclusões demasiado negativas a que tínhamos chegado nos idos tempos de nossa puerícia literária” [15] . Não é bem o que encontramos, virando-se logo as seguintes páginas...

Seus petardos iniciais vão para “uma certa espécie de crítica”, que não se entrega a considerações de conjunto, tentando compreender o “movimento espiritual do país”. Essa é uma crítica de cotteries, de favoreza, feita por “louvaminheiros de profissão”.

O lugar do crítico, para Romero, é mais elevado, perto dos grandes filósofos e teóricos do seu tempo – Taine e Scherer à frente. À crítica cabe a tarefa de propor sínteses interpretativas, que liguem as artes e as letras ao povo, ao meio:

O meio de evitar estes desacertos díssonos e comprometedores é, repetimos, generalizar: ver o povo, onde de ordinário só se costuma enxergar o indivíduo; tomar a evolução das letras e das artes como alguma coisa de impessoal, de superior às cotteries de momento, uma como espécie de expoente da vida nacional, uma função da capacidade espiritual da raça. Olhada desta altura a região das ciências, letras e artes, não deixa ela ver os rancorosos conflitos do egoísmo, a pequenez dos temperamentos, o lado passageiro das paixões, para só descortinar aos olhos do observador os grandes, os nobres esforços da alma do povo para a luz, para a glória, para o belo, para os deslumbramentos do porvir. [16]

Para redimir Machado de Assis de críticos bajuladores, que o elogiam apenas “para inglês ver”, dizendo “as coisas mais feias” em certas rodas, e para proporcionar combate ao homem que “não teve o momento da luta”, é que Sílvio Romero dispõe-se a analisar a obra do escritor – numa série que seria dedicada a analisar os novos, mas que parou neste único escritor, que há tempos já não era um “novo”. Romero pretende assinalar-lhe o posto na “história espiritual do país”, estudando-o “à luz de seu meio social, da influência da sua educação, de sua psicologia, de sua hereditariedade fisiológica e étnica, mostrando a formação, a orientação normal de seu talento”. [17] Ele quer “descortinar o homem através do livro e a sociedade através do homem”. [18]

Definidos os parâmetros de seu estudo, o crítico passa à consideração de seus dados biográficos. A origem humilde e a pouca instrução foram compensadas pelo trabalho na tipografia, que pôs o escritor em contato com a literatura e os escritores do tempo. Machado de Assis, em mocidade, convivera com os epígonos do Romantismo e ficara entre os dois Josés, o Alencar e o Castilho, entre a inovação e o purismo, não se decidindo peremptoriamente por nenhum, espírito tímido e receoso que era. O crítico aproveita e já lança suas alfinetadas ao romancista, que alça seu vôo “ajudado pelo caráter de sua raça e até pelas próprias falhas de seu sistema nervoso” [19] , numa referência à epilepsia do escritor. Além disso, espia sua vida econômica e conjugal, dados sem os quais o esboço biográfico seria “falho”. Ironicamente, para o crítico, é perto dos seus sessenta anos que Machado de Assis mostra-se um “progressivo”, um “espírito em diferenciação”, exemplo aos novos; isso em 1897, quando Romero publica seu estudo.

Passada essa artilharia no plano pessoal, Romero nos dá uma contribuição que rendeu páginas à crítica posterior [20] . Segundo sua posição – contrária a de José Veríssimo, que não via em Machado de Assis um escritor nacional, mas universal –, o romancista podia e devia se julgado pelo critério nacionalista. Diz Romero: “o espírito nacional não está estritamente na escolha do tema, na eleição do assunto” [21] . E Machado de Assis era “um genuíno representante da sub-raça brasileira cruzada” e suas obras “encerram vários tipos brasileiros, genuinamente brasileiros” [22] .

Seguem-se as análises do poeta e do prosador, sempre seguidas da comparação com Tobias Barreto – daí o adjetivo de seu estudo. Na poesia, Romero rebaixa o escritor até o rés-do-chão. Faltam-lhe na poesia “vida, força, movimento, colorido, graciosidade, nem desenho e feição espontânea e natural”; é, quando escreve em versos, “contrafeito, fraco, incolor, insípido” [23] . Intercala seus juízos com longos trechos de poemas, dos quais facilmente depreender-se-ia a justeza de seus julgamentos. E termina com seus veredictos: “Que linguagem, que feia prosa metrificada!” ou “Completamente chato, inteiramente nulo, como fundo e forma” [24] .

No interior dessa trincheira Romero deixa escapar uma das razões que o levou a escrever este seu estudo: um texto crítico que Machado escrevera, “A nova geração” (1879), em que afirma que  “o Sr. Sílvio Romero não possui a forma poética” e que, pertencendo ao “movimento hugoísta” do Norte”, atribui-lhe “uma importância infinitamente superior à realidade” [25] . Era, finalmente, o revide de Romero: “Não o retruquei [à época] e o faço agora” [26] .

Grande parte de seu empenho será por mostrar a superioridade da escola do Recife, pelos seus maiores representantes: o crítico Romero e o injustiçado Tobias Barreto. O método comparativo de Romero resume-se a transcrever páginas de textos ora de um ora de outro escritor, não se dando ao trabalho de analisá-las em seus aspectos formais, deixando ao leitor a tarefa clara de averiguar o que o crítico judicioso afirma (e a coleção de adjetivos depreciativos é vasta: “banal”, “malfeito”, “insignificante”, “nulo”, e outros desse quilate). A poesia “chata” de Machado de Assis reflete seu romantismo “pacato” e, no plano psicológico, sua falta de emoção.

Sobre seu verbalismo virulento, Araripe Jr. dirá que é sua completa honestidade, a ausência de uma civilizada polidez hipócrita. [27] Deixando de lado um pouco nossa reserva que havíamos suspendido – ou que estamos tentando manter em suspenso, são curiosos os comentários que entremeiam a crítica. Não conseguimos ficar insensíveis, após todos esses juízos e a essa franqueza do crítico, ao seguinte comentário:

Não é coisa fácil um estudo completo de Machado de Assis, completo pelo acurado dos fatos, completo pela imparcialidade, que deve ser demonstrada e, por assim dizer, científica. [28]

Como em poesia Machado foi “desdenhoso” para com o povo brasileiro, Romero passa ao prosador. Ele propõe-se a analisar quatro aspectos do escritor em sua prosa: o estilo, o humor, o pessimismo, os tipos. Aqui é quando o crítico alcança melhor o escritor, ainda que não o agarre.

Para ele, e isso foi reproduzido por quase toda a crítica coeva, a qualidade de Machado de Assis assenta em sua correção gramatical. Que Romero considera como o único traço de estilo do escritor, a quem falta um período amplo, forte, vibrante, variegado, longo, cheio, imaginoso, fluente, cantante, seguro, articulado, movimentado etc. O estilo era trôpego, dando “a impressão dum perpétuo tartamudear”, provavelmente conseqüência “de uma perturbação qualquer nos órgãos da palavra” [29] . Para comprovar isso, Romero cita um longo trecho do conto “Miss Dollar” e conta quantas vezes aparecem certas mesmas palavras! Como estilista, Machado não vai além do que escreveu no conto “O cônego ou a metafísica do estilo”, a mútua atração entre substantivo e adjetivo. O crítico sentencia:

Ele é o artista da frase média, cadenciada, medida, onde a palavra é catada com peculiar interesse, o qualificativo é esmerilhado com especial apuro; onde certos e determinados vocábulos entram como indispensável ornato e acham-se ali como que rogando para eles a atenção do leitor, para que veja como são bonitos, como são chiques, como farfalham e como encadeiam os olhares, Esse perene artifício torna-se, muitas vezes, monótono e é por isso que, do meio para o fim, a leitura de Brás Cubas e de Quincas Borba já é levada com esforço. [30]

Tendo até agora analisado com “imparcialidade escrupulosa” [31] o autor, nosso crítico passa a considerar o humorismo e o pessimismo de Machado de Assis. Aqui é que as correntes teóricas e os críticos que norteiam a visão de Romero mais se fazem sentir. É aqui, talvez, que ele mais tenha contribuído para colocar questões sobre a obra machadiana que circulam até hoje. A análise do humorismo e do pessimismo será condicionada ao caráter e à raça do povo. Para Romero, humorismo e pessimismo são inconciliáveis à “alma” do povo tupiniquim. Assim, o humorismo e o pessimismo de Machado eram artificiosos, produzidos no fechado de seu gabinete.

Como o Brasil, enquanto nação, era produto histórico recente, ainda não havia nele um quadro de tradições, uma raça – formada pela aglutinação das raças colonizadoras e colonizadas –, uma economia própria, um governo forte. Sem esses paradigmas, o país carecia de um caráter genuinamente nacional e importava modelos estrangeiros:

(...) chegamos hoje ao ponto de termos uma literatura e uma política exóticas, que vivem e procriam em uma estufa, sem relações com o ambiente e a temperatura exterior. [32]

O Segundo Reinado só veio corroborar e acentuar a imitação, escancarando as portas à cultura estrangeira. Num país de mestiços, importávamos cultura de Paris; ou, então, enviávamos nossos moços à capital francesa para aprender todos os “vícios e desregramentos” do pensamento e caráter moderno. Os intelectuais e artistas brasileiros eram “pastiches para inglês ver” [33] .

Os epígonos do Romantismo se ataram a essa bagagem exótica e não tiveram pernas para tomar a trilha aberta pela escola do Recife, rumo às grandes teorias modernas. Como conseqüência disso, tornaram-se taciturnos, sardônicos:

Impotentes já, pela idade, para tomar um partido definitivo entre as grandes correntes filosóficas que dividem o século, materialismo, positivismo, evolucionismo, monismo transformístico, hartmannismo, ficaram a burilar frases com o ar enigmático de faquires, falando em nome de não sei que coisas ocultas que fingem saber. [34]

Daí o “humorismo de almanaque”, o “pessimismo de fancaria” desse grupo, cujo cabeça seria Machado de Assis.

Para comprovar essa farsa, Romero submeterá o humorismo do “célebre fluminense” às teorias de Hennequin, Taine e Scherer. O humour se daria na formação do escritor, de tal modo que ele não poderia ser outra coisa que não humorista. Seu caráter, sua psicologia, sua raça e seu meio o condicionariam – de fato, determinariam-no – assim. O humorismo, como esse traço determinado, estaria estritamente ligado aos povos anglo-saxões.

Assim como Araripe Jr. achava que Machado de Assis não criara uma figura feminina de porte – porque, “asceta dos livros e retraído ao gabinete” não podia sentir as mulheres, “cheirar-lhes o pescoço” [35] , também não poderia cultivar um humour que não estava nos traços de seu caráter. O que Machado de Assis fazia era cultivar um humorismo por capricho, afetado e artificial. E aqui Romero nos dá uma brilhante imagem desse humorismo/pessimismo machadiano:

O humor de Machado de Assis é um pacato diretor da secretaria de Estado, e o horrível de seus livros é uma espécie de burguês prazenteiro, condecorado com a comenda das rosas... [36]

A evolução do romance machadiano estaria, para Romero, não no veio humorístico e pessimista, incorporado a partir de Brás Cubas, mas sim na correção do estilo e no desenho dos tipos. Aliás, o crítico considerava que seu humor, que era na verdade um “gracejo ingênuo”, uma “ironia docemente velada” [37] , era presente de forma mais espontânea justamente nos primeiros livros. São justamente os livros da maturidade machadiana que tanto incomodam Romero, para quem há neles uma superfetação.

O pessimismo do autor de Brás Cubas será percebido pela mesma lente. O povo brasileiro não tem em seu gérmen o pessimismo; somos um povo falador, irrequieto, de uma franqueza descortês, mas não somos pessimistas. Os pessimistas – e aqui Romero já começa a utilizar a lente da psicologia – são pessoas desequilibradas – como eram Baudelaire e Poe. Machado de Assis –  apesar do crítico não ter intimidade com o escritor, de modo a permitir que suas observações tenham crédito suficiente para a análise – não se afigura um pessimista. O pessimismo machadiano é apenas “teorético”, e Romero dedica todo um capítulo a percorrer o Brás Cubas, transcrevendo páginas e páginas do romance e concluindo, sem fazer efetivamente uma análise, que não se pode tratar de pessimismo o que lemos nos textos.

Resta, finalmente, analisar os tipos que Machado de Assis criou e a sua representatividade como caracteres nacionais. Se no início do livro, contestando alguns prejuízos críticos (algumas das opiniões de Veríssimo), Romero afirmara que o escritor fluminense não ficara na “decoração exterior do quadro”, e que, “penetrante (...) chegou até a criação de verdadeiros tipos sociais e psicológicos, que são nossos em carne e osso” [38] , agora ele redimensiona essa posição: “Machado de Assis não conseguiu até hoje criar um verdadeiro e completo tipo ao gosto e com a maestria dos grandes gênios inventivos das letras” [39] .

Sintetizando sua opinião sobre o escritor, Romero assim o define:

Machado de Assis não é um satírico (...). Não é um cômico (...) Não é também plenamente um misantropo, um détraqué. (...) É, a meu ver, uma espécie de moralista complacente e doce, eivado de certa dose de contida ironia, como qualidade nativa que de quando em quando costuma enroupar nas vestes de um peculiar humorismo, aprendido nos livros, e a que dá também por vezes uns ares de pessimismo, também aprendido de estranhos. [40]

 

3. O “turbilhão” levando nossa crítica

Quase todos os críticos são unânimes em apontar as contradições, os exageros, os despropósitos de Sílvio Romero. E Machado de Assis foi quem mais sentiu o vergastar da tempestade romeriana. Mas, também, quase todos os críticos reconhecem a importância da figura de Romero para a constituição, no Brasil, de uma crítica literária militante, como diria depois Tristão de Athayde; uma crítica que chamasse a si as grandes questões teóricas e que se propusesse a analisar as manifestações literárias e culturais de maneira sistemática. E Sílvio Romero foi consciente desse seu papel.

Desempenhou a crítica como criação do espírito humano e não apenas como atividade parasitária à literatura. Elevou a crítica, a seu modo, ao status de arte. Diz ele, no mesmo estudo sobre Machado de Assis – como, aliás, costumava fazer, interrompendo a análise da obra ou do autor para expor seus princípios teóricos:

A crítica é também uma criação, é também um trabalho de arte. Bem sei que é costume de alguns ainda hoje dá-la por uma coisa inútil, espécie de impotência turbulenta de espíritos emasculados, incapazes de criação. Não pode haver maior injustiça, nem ponto de vista mais atrasado. [41]

Da posição privilegiada em que se colocou, Romero criava avalanches sobre um autor ou alçava-o ao cume, quando o autor não tinha toda aquela estatura, e o tempo encarregava-se de fazê-lo descer morro abaixo. [42] De qualquer modo, esse turbilhão, em seu movimento de vaivém, característico de suas contradições – que, já o dissemos, fazia-o avançar – levou consigo a crítica literária adiante no Brasil do fim do século XIX e começo do XX. Estabeleceu critérios – ainda que os desconsiderasse em suas análises; colocou em circulação questões, idéias, temas e autores; reservou ao crítico um lugar na história da literatura brasileira. Homem de seu tempo, recolocava na crítica brasileira as idéias européias, que gravitavam fora do centro de seu “turbilhão” [43] . Era um crítico para inglês (e brasileiro) ver.

 

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Mario de. “Machado de Assis” In: Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1974, pp.89-108.

ARARIPE Jr., Tristão de Alencar. “Quincas Borba” In: Obra crítica, v. 2. Rio de Janeiro: MEC/Casa de Rui Barbosa, 1960, pp..289-296.

_________________________. “Sílvio Romero Polemista” In: Araripe Jr.: teoria, crítica e história literária. Seleção e apresentação de Alfredo Bosi. Rio de Janeiro: LTC; São Paulo: USP, 1978, pp.319-382.

ASSIS, Machado de. Obras completas – Crítica Literária. Edição cotejada e revista por Henrique de Campos. São Paulo: Editora Mérito, 1959.

CANDIDO, Antonio. “Crítica e Sociologia (tentativa de esclarecimento)” In: Literatura e Sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1985, pp. 3-15.

_________________. “A literatura e a vida social” In: Literatura e Sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1985, pp. 17-39.

_________________. “Literatura e cultura de 1900 a 1945” In: Literatura e Sociedade. São Paulo: Editora Nacional, 1985, pp. 109-138.

GUIMARÃES, Hélio de Seixas. “Romero, Araripe, Veríssimo e a recepção crítica do romance machadiano” In: Estudos Avançados, 2004, vol.18, nº 51, pp.269-298.

ROMERO, Sílvio. História da Literatura Brasileira, tomos I e II. Organização de Luiz Antonio Barreto. Rio de Janeiro: Imago; Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001. (Obras completas de Sílvio Romero,)

_______________. Machado de Assis – Estudo Comparativo de Literatura Brasileira. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.

SCHWARZ, Roberto. “As idéias fora do lugar” In: Ao vencedor as batatasforma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1988, pp.13-28.

VERÍSSIMO, José. “História da Literatura Brasileira” In: Sílvio Romero. História da Literatura Brasileira, tomo II. Rio de Janeiro: Imago; Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001, pp.1237-1243.



[1] Antonio Candido. “Sílvio Romero: crítico e historiador da literatura” In: Sílvio Romero. História da Literatura Brasileira, t. I. Rio de Janeiro: Imago; Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001, pp. 13-34.

[2] Antonio Candido, op.cit., p.20.

[3] José Veríssimo. “História da Literatura Brasileira” In: Sílvio Romero. História da Literatura Brasileira, t. II. Rio de Janeiro: Imago; Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001, pp.1237-8.

[4] Antonio Candido. “Sílvio Romero: crítico e historiador da literatura” op.cit., p.27.

[5] Sílvio Romero. “Da crítica e sua exata definição” In: Literatura, história e crítica. Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2002, p. 396.

[6] Apud Antonio Candido. “Crítica e Sociologia” In: Literatura e Sociedade. São Paulo: Ed. Nacional, 1985, p.29

[7] Antonio Candido. “Crítica e Sociologia”, op.cit., p.9.

[8] Mario de Andrade. “Machado de Assis” In: Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1974, p.103.

[9] A respeito da recepção do romance machadiano pela crítica de sua época ver o artigo de Hélio de Seixas Guimarães, “Romero, Araripe, Veríssimo e a recepção crítica do romance machadiano” In: Estudos Avançados, 2004, vol.18, nº 51, pp.269-298.

[10] Araripe Jr. “Quincas Borba” In: Obra crítica, v. 2. Rio de Janeiro: MEC/Casa de Rui Barbosa, 1960, p.291.

[11] Sílvio Romero. Machado de Assis – estudo comparativo de literatura brasileira. Campinas: Editora da Unicamp, 1992, p.132.

[12] Sílvio Romero, Machado de Assis..., op. cit., p.32.

[13] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.33.

[14] Idem, p.34.

[15] Idem, p.35.

[16] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.43.

[17] Idem,  p.56.

[18] Idem, p.79.

[19] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.60.

[20] Lúcia Miguel-Pereira, por exemplo, começa seu grande estudo sobre Machado de Assis analisando justamente seu “nacionalismo”, claro que com enfoque diferente do de Romero.

[21] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.66.

[22] Idem, p.67.

[23] Idem, p.72.

[24] Idem, pp. 71 e 73.

[25] Machado de Assis. “A nova geração” In: Obras completas - Crítica Literária. São Paulo: Editora Mérito, 1959, p.225.

[26] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.74.

[27] Araripe Jr. “Sílvio Romero Polemista” In: Araripe Jr.: teoria, crítica e história literária. Rio de Janeiro: LTC; São Paulo: USP, 1978, p.319

[28] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.111.

[29] Idem, p.122.

[30] Idem, p.142.

[31] Idem, p.143.

[32] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.154.

[33] Idem, p.155.

[34] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit, p.157.

[35] Araripe Jr. “Quincas Borba”, op.cit., p.294.

[36] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit, p.162.

[37] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.213.

[38] Idem, p.67.

[39] Idem, p.307.

[40] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., pp.318-319.

[41] Sílvio Romero. Machado de Assis..., op.cit., p.262.

[42] Tal é o caso, por exemplo, de Aurelino Lessa, romântico menor que Sílvio Romero exalta, elevando-o quase à altura de Álvares de Azevedo e sobrepondo-o a Bernardo Guimarães (em poesia), seus colegas da Escola de Direito de São Paulo. A história literária esqueceu esse autor, relembrado apenas por Antonio Candido, em poucas linhas da sua Formação da Literatura Brasileira e por Alexandre Eulalio, no ensaio “Aureliano revisitado” (In: Escritos. Campinas: Unicamp, 1992). Antonio Soares Amora, que publicou o volume Romantismo, numa coleção da editora Cultrix, sequer menciona o poeta romântico mineiro; Alfredo Bosi apenas cita seu nome na História Concisa da Literatura Brasileira. Romero dispensou, da sua História da Literatura Brasileira, umas tantas páginas ao poeta.

[43] Claro que, aqui, utilizamo-nos das “idéias fora do lugar” de Roberto Schwarz, In: Ao vencedor, as batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1988.