EM BUSCA DO PRAZER DE ESCREVER

– breve discussão sobre o prazer de escrever –

 

Fábio Della Paschoa Rodrigues

 

O que é bom, Fedro, e o que não é bom ¾ será preciso pedir a alguém que nos ensine isso?

 

 

Livre. Antes de começar o texto eu tinha de soltar as amarras que me impediam de produzi-lo. Produzi-lo com prazer.

Por que o medo e a insegurança, essas amarras, sempre emperram a produção? Se temos algo a falar, por que ele não sai naturalmente, prazerosamente?

Por que é tão penoso, para mim, escrever?

 

Às vezes sinto falta de um ambiente apropriado, uma biblioteca ou um escritório talvez. (Mas o que eu tenho a falar depende de um ambiente?) O trabalho, a família, as paixões. Ou, então, são os prazos ¾ escrever com data marcada me angustia, torna-se uma obrigação. Mas tudo isso parece-me desculpas, que eu mesmo preciso, para disfarçar meu medo. Este sim é o verdadeiro obstáculo. Ele ainda supera meu desejo, minha paixão. Sinto-me novamente como quando estava descobrindo a sexualidade: o prazer estava lá, guardado, esperando-me, seduzindo-me. Meu desejo de conquistá-lo era forte, mas o medo sobrepujava. Não me dei conta quando consegui vencê-lo. De repente, eu estava lá também, tinha alcançado o prazer, meu desejo transbordava e eu, finalmente, era eu mesmo, me libertara. Mas, até hoje, não sei como isso se deu. Com o texto, agora, volto a viver o drama. O texto ainda inatingível. Mas será que ele existe assim, à minha espera, bruto? Quero a consciência de estar conquistando-o, quero ver o medo se extinguir, sentir o desejo, viver as paixões...

 

Sou pego desprevenido. Leio textos que me encorajam, me batem , me insultam, me fazem enfrentar o problema. Eis-me aqui escrevendo, enfim.

Mas ainda hesito... tenho medo de que essa indecisão contamine o texto, que seja fraco, titubeie. Ele ainda não me seduziu, tenho olhos para outros.

Por que insisto nele, então? Se não me dá prazer, se ele tagarela, reclama, resmunga, por que não o abandono? Talvez eu o entenda, sofro tanto quanto ele.

 

Louco não posso, são não me digno, neurótico sou.

Barthes me adivinha. Só a neurose permite escrever. Ela me encoraja. Quero abolir as barreiras, soltar as amarras. Tenho de aceitar o prazer, pois só assim me libertarei das normas e dos julgamentos. Não haveria o medo de ser original, não haveria o clichê ou o piegas. Haveria somente o prazer de ler e escrever.

Mas o que me assegura escrever um texto no prazer? Receio escrever apenas algo de que gosto e isso não me assegura o prazer do texto. Talvez devesse buscá-lo aos poucos, como pequenos prazeres que sentimos com coisas simples. Mas ele me angustia, quero-o inteiro.

 

Na tentativa de buscar o prazer do texto, lembrei-me da Qualidade de Robert Pirsig. Senti-me como um dos alunos de Fedro que nada tinham a dizer. Apavorei-me. Naquele texto, todo o meu medo era revelado, todos os artifícios desmascarados, meus trabalhos: imitações sofisticadas. O que destruirá meu bloqueio?

Percebi que a Qualidade de Fedro pode ser entendida como o prazer de Barthes. O texto de Qualidade é o texto de prazer, que excede a procura, ultrapassa a tagarelice. Ao analisar essa suposição, coloquei em conflito o prazer e a função social da literatura. O texto deve provocar uma transformação ¾ essa seria a premissa básica de um texto de qualidade. Se admito o prazer como parâmetro de um texto de qualidade caio na subjetividade, na inércia social, a arte pelo puro prazer. Caio? Depois de refletir, cheguei à conclusão de que forcei uma dicotomia que não precisa existir. Há realmente conflito entre prazer e função social? Prazer e transformação não podem caminhar juntos (ou, ainda, devem)? O texto comprometido com o social, então, estaria fadado a ser aborrecido, mal-humorado? Pensando em minhas leituras, com alívio, verifiquei que o conflito não precisa existir. Por que não gostei de Sartre e adorei Boal, quando ambos pregam uma literatura engajada? Porque Boal me deu prazer, é crítico e prazeroso ao mesmo tempo. Tem o poder de abalar e arrebatar. Brecht já dizia que seu teatro não era um teatro enfadonho, ele também divertia a platéia. A acusação de uma literatura chata era injusta e perniciosa.

 

Eu não consigo dialogar com o texto. Quando participo de discussões, as idéias me afloram, as palavras fluem soltas, os argumentos vêm e se tornam coesos, fortes. Mas, quando estou sozinho, as palavras se fecham em minha mente. Me desespero. Essa mudez me retira o hábito da produção de texto, quero escrever, mas fico inerte. É como se eu precisasse de um interlocutor presente, ao mesmo tempo em que escrevo.

Mas os textos que li provocaram um diálogo dentro de mim. No momento em que escrevo isto já estou de alguma forma afrouxando as amarras. É como tirar um sapato apertado, que machuca a unha encravada ¾ sei que a unha ainda está ferida, mas já é um alívio o cessar da dor.

Minha expectativa é que, ao final deste texto, eu tenha alcançado o prazer do texto ou, pelo menos, que este seja um texto prazeroso. É muita pretensão, de qualquer forma. É como se eu, escolhendo o prazer por tema, conseguisse senti-lo, trazê-lo para o texto. Mas eu me dou o direito de tal pretensão. Tenho de aceitar os riscos que o prazer possa me trazer. Quero ser amante do texto e, ausente de ciúme, arrumar novos amantes para ele. Quero ter um orgasmo, múltiplos orgasmos com ele.

 

Preciso escrever, publicar o que escrevo, socializar minhas idéias. Como seguir na literatura (em qualquer campo de atuação) se não produzo textos? Minha “carreira literária” parece não passar de uma ficção de Borges. Falta-me ainda maturidade para tal empreendimento.

Talvez eu deva aproveitar os professores que tenho para isso: amadurecimento. Eles podem me indicar qual o caminho do prazer do texto. Não que haja uma fórmula, disso estou consciente. Mas posso sair da inércia, ampliar meu campo de visão, desabafar com eles. Na verdade, este texto já se constitui num desabafo. É bom contar meus medos, me fez bem. Sei que agora tenho um cúmplice e creio posso encontrar nele um amigo, não somente um professor (num sentido doutrinário). Quero entender como me fechei para o texto. Quero bater um papo gostoso com ele. Disso dependerá meu prazer, minha vida, se pretendo seguir a carreira literária. Terei de ser amigo íntimo dele, para que ele me confesse seus segredos e até seus medos. Aí passarei para o outro lado: eu é que ajudarei meu futuros alunos. Serei eu o cúmplice de seus medos. Porque pretendo seguir na licenciatura, me dá prazer. Quero sonhar com as aulas sem notas de Fedro, poder falar sobre Barthes, Proust, Sartre, Boal, Brecht, Borges com prazer e entendimento. Nada daqueles “papos cabeça” chatíssimos de roda de faculdade. Quero o prazer do texto, o prazer de aprender e ensinar. O hedonismo, enfim.

 

Notas. Escrever pela nota. Incrível como estava na minha frente um grande problema e eu não tinha percebido. Foi uma revelação que me fez repensar todo o meu trabalho, universitário e profissional. Quando chegará o dia em que aboliremos o sistema de avaliação e passaremos a buscar a Qualidade? Afinal o texto não deve se reduzir a um número. Quando buscarmos o prazer, o texto tem de dar prova de que ele me deseja. Muda-se completamente um paradigma.

 

Desnudo-me aqui, arrisco-me. É apenas um desabafo, mas faço parecê-lo muito mais, uma confissão. Confio em você, estranhamente... Não me esqueço de quando ouvi que alguns textos sofrem e choram “eu tenho de ser escrito”. Era o meu texto falando comigo e sofrendo. Como posso deixá-lo assim?

 

dezembro/1999