A ALTERNÂNCIA ENTRE OS PRONOMES "VOCÊ" E "SENHOR"

 

Alexandre Prudente Piccolo

 

Les indicateurs je et tu ne peuvent exister comme signes virtuels, ils n’existent qu’en tant qu’ils sont actualisés dans l’instance de discours, où ils marquent par chacune de leurs propres instances les procès d’appropriation par le locuteur.

Benveniste, E. – La nature des pronoms

 

Segue uma breve reflexão sobre alguns aspectos gerais da alternância entre os pronomes você e senhor, usados no português do Brasil. Não há pretensões elucidativas sobre o assunto, apenas a colocação de uma ou outra observação (e uma hipótese) que considero válida e relevante.

 

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O português, como outras línguas também neolatinas, possui diversos pronomes de tratamento específicos para se referir ao interlocutor de maneira cerimoniosa, reverente, formal e informal. No entanto, duas exclusivas palavras exercem verdadeiro papel de pronome pessoal no discurso cotidiano da língua: o substantivo senhor e o pronome de tratamento você. O emprego difundido e corriqueiro de ambas questiona definições e sistematizações já postuladas sobre as duas. E, diferente de outras línguas, o uso e a classificação destas palavras se diferenciam dentro da peculiar realidade de nosso português do Brasil.

 

O francês faz clara distinção entre tu (informal) e vous (formal) 1; o espanhol, entre e usted; o italiano, tu e lei2. Mesmo o alemão, de origem anglo-saxônica, possui os pronomes pessoais du e sie3 que também diferenciam o grau de informalidade e/ou polidez, respectivamente, no tratamento com o interlocutor. No português, você e senhor podem ser também diferenciados segundo a simples formalidade de seu emprego. Mas vale atentar para dois importantes detalhes: as classes em que se enquadram, pronome de tratamento (e não pronome pessoal) e substantivo (com função de tratamento pessoal), respectivamente, – e as peculiaridades sintáticas daí advindas – e as definições das variadas situações de uso.

 

Vejamos o que dizem trechos importantes do Dicionário Hoaiss da Língua Portuguesa sobre senhor e você:

senhor /ô/ s.m. 1 na idade Média, proprietário de um feudo 2 aquele que possui algo; dono, proprietário 3 dono da casa; patrão, amo 4 pessoa que exerce poder, dominação, influência 5 fig. aquele que tem pleno domínio sobre si, sobre uma coisa, sobre uma situação 6 aquele que tem autoridade como rei, imperador; soberano, chefe 7 possuidor de algum Estado ou Território 8 pessoa nobre ou distinta; homem da burguesia ou de outra condição social 9 homem de meia-idade ou idoso 10 tratamento cerimonioso ou respeitoso dispensado aos homens [abrev.: Sr.] 11 homem indeterminado; pessoa que não é conhecida ou cujo nome não se deseja revelar 12 abs. o Ser Supremo; Deus; Jesus Cristo; a hóstia consagrada, o viático (...) # ETIM lat. senîor,õris ‘mais antigo, mais velho’, comparativo de senex, senis ‘ancião, velho’; na baixa latinidade o vocábulo senîor tornou-se um termo de respeito, equivalente a domînus ‘dono da casa, senhor, proprietário’ (...) f. hist. sXIII senhor, sXIII senhur, sXIII senner, sXIII senor, sXIV ssenhor, sXV sëhor, sXV senõr, 1632 senior. (...) 4

 

você pron. trat. 1 aquele a quem se fala ou se escreve pron. indef. 2 pessoa não especificada; alguém # GRAM apesar de funcionar como forma de tratamento da segunda pessoa, esse pronome leva o verbo para a terceira pessoa # GRAM/USO a) excetuando-se a região do extremo Sul e alguns pontos da região Norte, no Brasil você toma lugar do tu como pronome de segunda pessa como: 1) forma de tratamento íntimo 2) forma de tratamento entre pessoas de mesmo nível social, econômico, etário etc. 3) forma de tratamento de superior para inferior b) em Portugal, você é basicamente usado como tratamento entre pessoas de mesmo nível, ou de superior (em classe social, em idade e em hierarquia) para inferior; em famílias de classes mais altas o você é usado como forma carinhosa de intimidade, emprego este considerado fino; tal tratamento jamais se ouve de inferior para superior o que seria considerado acinte # ETIM vossa mercê > vossemecê > vosmecê > você; f. hist. 1665 vossancé, 1721 vossancê, 1721 vossê # SIN/VAR vacê, vancê 5

 

A primeira diferença que salta aos olhos é a classificação das palavras: você é um pronome de tratamento enquanto senhor é definido como um substantivo masculino que pode ser usado como tratamento cerimonioso (definição 10) – como já dito. Curiosa e coincidentemente, ambos podem ser usados para indefinir ou indeterminar uma pessoa (vide definições 11 – senhor – e 2 – você), por exemplo em:

Se você não paga a conta, eles cortam.

Aquele senhor junto à janela foi o último a entrar.

Observa-se também o conjunto de sentidos “nobres” historicamente associados à palavra senhor. Logo, parece-me difícil, senão impossível, desvincular o respeito, a devoção, a pompa e a galanteria do emprego da palavra senhor, relacionado inclusive com o conceito de Deus, Pai e Criador.

Outro importante detalhe, lembrado pelo lexicógrafo na definição do pronome você, diz respeito ao funcionamento e à construção gramatical das orações com senhor e você. Ambas palavras, quando desempenham funções de tratamento com o interlocutor (aquele com quem se fala), devem ser acompanhadas de verbos flexionados na terceira pessoa. Ou, como bem resume Celso Cunha em sua Nova Gramática do Português, “embora designem a pessoa com quem se fala (isto é, a 2a.), esses pronomes levam o verbo para a 3a. pessoa.” 6

Acredito que o pronome você, no português do Brasil, não é usado simplesmente como tratamento, mas sim como substituto direto do pronome pessoal reto tu, de uso restrito a algumas regiões do país. Um evidente argumento desta hipótese é o emprego natural e indiferenciado das formas te, ti, contigo (formas pessoais oblíquas do pronome de 2a. pessoa, tu) combinadas despreocupadamente com o pronome você. Exemplos como

Você é uma pessoa maravilhosa, te adoro - vou viajar contigo.

são freqüentes e corriqueiros em diversas esferas sociais e regiões do português do Brasil em nossos dias. Sobre dados numéricos e estatísticos do uso característico dos pronomes em geral há, no quarto volume da Gramática do Português Falado, de Castilho e Basílio, um extenso estudo descritivo do emprego peculiar dos falantes brasileiros a respeito deste “pseudo-pronome-pessoal” no português7.

O papel de tratamento desempenhado pelo pronome você só pode ser definido como instância momentânea do discurso e exige a presença (física ou não) da pessoa com quem se fala. Como o locutor, o interlocutor tem seu papel definido e contraposto no ato de fala e constitui na verdade uma classe de referência (a 2a. pessoa ou com quem se fala), preenchido de significação, tempo e espaço durante o uso da palavra. Sobre esta problemática, há um saboroso texto que discute a questão ontológica da classe dos pronomes, la nature de pronoms, de Émile Benveniste8.

Mas voltando ao problema funcional do emprego de você e senhor, inúmeros são os fatores que interferem e podem ser apontados neste sistema de tratamento com o interlocutor. Daí se conclui a dificuldade de uma única e definitiva sistematização. Partindo do pressuposto hipotético que o pronome você pode (e deve) ser usado naturalmente com qualquer interlocutor (como real substituto de tu, o qual não carrega valor de formalidade), fica simplificado o problema à descrição dos casos em que se deve usar a palavra senhor(a) no lugar de você. Cabe ainda ressaltar o caráter “igualitário” ou “não-hierarquizado” atribuído ao pronome você por diversos estudiosos, bem como a conotação de intimidade dada por seu emprego. Este último tom íntimo discorda em teor da natureza da hipótese proposta, pois não há, no raro uso do pronome tu no português do Brasil, esta forma de intimidade a ele associada. Existe, sim, o emprego indistinto e irrestrito do pronome tu para se referir a qualquer interlocutor. E vale a dúvida deixada no ar: há vantagens em se oficializar tal uso aparentemente já disseminado em variados grupos de falantes?

A diferença de idade entre os interlocutores pode ser o primeiro de diversos fatores; afinal, aprende-se desde criança que se deve sempre respeitar os mais velhos. Para deixar evidente a boa educação do falante e o respeito com o interlocutor, netos e netas costumam chamar de senhor e senhora seus avôs e avós, muitas vezes (e ainda) filhos tratam seus pais e mães por senhor e senhora, um ou uma jovem educadamente se refere a um homem ou a uma mulher idosa (conhecidos ou não) por senhor e senhora, etc. Quanto maior e perceptível a diferença de idade entre interlocutores, maior a certeza no emprego de senhor ou senhora com um(a) falante mais velho(a), a fim de tornar evidente a polidez do falante e o respeito no tratamento, aprendidos desde cedo.

Quando duvidosa a diferença de idade entre interlocutores, outros fatores passam a influenciar no uso da palavra senhor. Costuma-se usar o(a) senhor(a), a fim de conservar o respeito no tratamento entre os falantes, em situações de evidente diferença hierárquica, sempre do “inferior” para o “superior”, seja o contexto econômico, social, profissional, escolar ou acadêmico, urbanização, sexo, etc.), bem como em ocasioões nas quais se desconhece o interlocutor (por exemplo, numa ligação telefônica ou num atendimento via chat na internet). Seguem alguns exemplos simples, colhidos no cotidiano:

O senhor não tem um trocado pra me dar?

(pedinte/mendigo nas ruas para condutor do veículo)

diferença econômico-social

 

Chefe, o senhor autoriza meu pedido de aumento?

(empregado se dirigindo ao patrão)

diferença profissional

 

Professora, a senhora já corrigiu os trabalhos?

(aluno questionando à professora)

diferença escolar e/ou acadêmica

 

Quanto o senhor vai pagar pelo carregamento do caminhão de banana?

(produtor rural ao negociante de um CEASA)

diferença na urbanização

 

Por favor, senhor, que horas são?

(mocinha ao rapaz “não tão mais velho”)

diferença de sexo

 

Neste último exemplo, troca-se às vezes a forma senhor por moço, ainda sem conotações de flerte. É também corriqueiro o uso de senhor entre profissionais que demonstram respeito mútuo, na maior parte das vezes quando desconhecidos. Talvez esteja já disseminada a fórmula “para não errar, use senhor ou senhora com um interlocutor desconhecido (normalmente mais velho) ou à distância (por exemplo, ao telefone)” como regra social de uso geral.

Também se observa o emprego sarcástico ou irônico da forma senhor para fazer notar ao interlocutor atenção, pretensão, soberba ou mesmo falta de modéstia, normalmente para se dirigir a um falante mais novo (quebra da regra), como em:

O senhor vai sair agora e vai voltar quando?

(pai perguntando ao filho)

diferença de idade realçada com uso irônico

As relações de intimidade ou igualdade, normalmente tomadas como explicações ao emprego do pronome você, são de fato observáveis no uso corrente da língua, bem como as conotações de respeito e cortesia atribuídas à palavra senhor(a), como demonstradas nestes parcos exemplos. No entanto, não vislumbro uma relação pura e simplesmente opositiva entre senhor e você, e sim uma forma complementar e paralela do uso de você ao uso do tratamento senhor. Formalmente não há tratamento cerimonioso no emprego de senhor (e sim de polidez) e os valores atribuídos ao emprego de um não devem (ou deveriam) influir pejorativamente sobre o uso de outro. Assim, não deve haver restrições ao uso de você com um interlocutor previamente anunciado como senhor. Em palavras mais simples, não me parece desrespeitoso a alternância no decorrer do diálogo da forma senhor (normalmente expressa no princípio do discurso para anunciar a priori o respeito no tratamento) e da forma você, esta muitas vezes ocasional e imperceptível no desenrolar da interlocução. Em todas as situações apontadas em que se prioriza o uso de senhor(a), cabe o uso do pronome você na evolução do diálogo, percebido sim como pronome substituto da 2a. pessoa – o que reforça a hipótese de sobreposição ao pronome tu.

Esta hipótese, aparentemente simplificada e simplificadora, acredito, vislumbra um panorama geral da realidade do já difundido uso do pronome você (usado como o pronome tu, excetuando-se a conjugação), oficializa a definição corriqueira e mais apropriada a este pronome (o qual funciona verdadeiramente como pronome pessoa da segunda pessoa) e compreende facilidades no ensino da língua portuguesa, para brasileiros e estrangeiros. Apenas relembro a dúvida: não é vantagem oficializar o já usual?

Outras conclusões, certamente mais profundas, ficam para um próxima reflexão. É isso.

 


 

1 O dicionário francês Le Robert define vous como pronome pessoal da segunda pessoa do plural (real ou de maneira polida); o uso como pronome singular, substituindo tu no uso polido, é descrito como vouvoiement.

2 Em italiano, o pronome reto da 2a. pessoa para tratamento formal (lei) também é usado como pronome reto da 3a. pessoa do feminino singular (ela, em português).

3 Em alemão, o mesmo pronome formal (sie), além de não distinguir número (um ou mais interlocutores), também é usado como pronome reto de 3a. pessoa do feminino singular (ela, em português) e da 3a. pessoa do plural, feminino, masculino e neutro (eles/elas, em português).

4 Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Objetiva, RJ, 1a. ed. 2001, pág. 2545

5 Idem, pág. 2877.

6 Cunha, C. & Cintra, L. F. L, Nova Gramática do português contemporâneo, Nova Fronteira, RJ, 2a ed. 1985, pág. 282

7 Castilho, Ataliba Teixeira de & Basílio, Margarida, Pronomes Pessoais do Português in Gramática do Português Falado (vol. IV – Estudos Descritivos), ed. Unicamp, SP, 1996, cap. 3, parte I, págs. 79 – 168.

8 Benveniste, E., La nature des pronoms in Problèmes de linguistique générale, Gallimard, Paris, 1971, pág. 251.