Genolino Amado e seus Leitores-Ouvintes

Jeová Santana1

Ainda são muitas as vicissitudes enfrentadas pelos que se arvoram a ser pesquisador neste país. Na era FHC, esta empreitada tornou-se mais árida, principalmente nas cercanias das universidades. Empreender esforços às custas de renúncias e sacrifícios pessoais, sustentado por bolsas exíguas, só mesmo, usando uma expressão bem nossa, com muito "sangue no olho". Mas já que estamos no fogo, acendamos as maravalhas que nos cabem para iluminar as pequenas, mas significativas recompensas.

É evidente que todos os que adentram no "paraíso dos ácaros" - como ainda são conhecidos a maioria dos arquivos brasileiros - esperam viver a experiência de Daniela Callipo, a professora da Unesp - Universidade estadual de Assis - que, em 1998, encontrou uma crônica inédita de Machado de Assis na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, quando colhia material para sua tese de mestrado.

Os dados do acaso fazem isso uma vez em um milhão. Mas a possibilidade de estudar autores, textos e idéias fora de nosso lugar por causa do lavor do tempo, nos permite ver com olhos renovados os moldes que forjaram os nichos da História. Tais impressões me vieram à mente no dia em que pude ter acesso à correspondência do jornalista, cronista e ensaísta Genolino Amado (Itaporanga - SE, 1902 - Rio de Janeiro, 1989)2 sobre o qual dediquei dois anos de minha vida para elaborar uma dissertação de mestrado para o Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp3.

Embora lamentasse não ter tido acesso àquela documentação na fase em que elaborava o texto acadêmico, foi com entusiasmo de principiante que me lancei aos manuscritos que, por algumas horas, abriram-se a minha frente nos arquivos da paisagística Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio.

A carta é o instrumento com o qual se chega mais perto de um autor. A imagem deste, somente através de textos publicados, será sempre desfocada. Ter acesso à sua correspondência, mais que satisfazer o espírito de voyeur que há em nós, é encontrar os laivos psicológicos que ajudam a remontar as iluminuras entre ele e seu tempo.

Ver, por exemplo, como Genolino atuava nos bastidores para promover o romance Os interesses da companhia, de Gilberto Amado, seu irmão mais famoso, é descobrir uma personalidade que, nem de longe, faz lembrar o "cronista das mudanças de mentalidade"4 que lhe atribuiu José Guilherme Merquior. O que ali se revela é um homem atado às exigências da esfera familiar, ardendo na fogueira das vaidades, lutando de forma renhida para fazer com que ninguém ficasse indiferente ao livro que se encontrava no prelo.

"Eu sei que o livro será enorme e o espero com o coração aceso, mas tranqüilo. Vou viver esses meses ou essas semanas que faltam para recebê-lo com o mesmo anseio feliz de quem espera a mulher gostosa e amada que volta de uma longa viagem." (22/08/1940)

Seu empenho transita por assuntos técnicos, tais como a revisão "em questões de fato, informação, gramática, pontuação"; a qualidade do material gráfico, "pois será difícil arranjar papel melhor, infelizmente. E isso se explica pela guerra"; e até pela comparação de taxas de publicação entre o Brasil e o país onde Gilberto Amado encontrava-se: "o livro impresso aí, não sendo em português, paga realmente, como disse na outra carta, o imposto de $ 570 (quinhentos e setenta réis)" . Além disso, há a preocupação em se buscar vozes que colocassem o romance na dimensão que supunha, pois todo seu trabalho "é e será para que se fale do livro, para que se faça debate em torno dele , e não coro declamatório... o debate é que dá interesse, é que situa o livro, é o que fica."

Contudo, para atingir este objetivo, Genolino vê como inimigo todo aquele que se tornar indiferente a seu apelo: "O Graciliano, preguiçoso, tímido, achando o livro grande demais para ele, ainda não escreveu, mas o José Olympio prometeu arrancar-lhe o artigo, que será naturalmente belo, pois é o mais entusiasta e um dos agudos comentadores."

Tais relatos nos fornecem uma visão diferente do autor que, no apagar das luzes da belle époque carioca, fez com que as características da crônica e do ensaio jornalístico se fundissem para falar sobre temas caros à realidade brasileira, tais como o sentimentalismo do cinema, a popularidade do futebol, os desmandos administrativos e a natureza do Rio, a presença do pobre-diabo na literatura, o fastio da tradição do romance regional etc.

Embora tenha sido mínima nossa incursão subjetiva, pois só tivemos acesso a vinte seis cartas da correspondência ativa, escritas entre 1940 e 1968, fomos recompensados ao encontrar algumas mensagens de leitores e ouvintes de Genolino Amado. Um pequeno mas significativo registro de uma relação estabelecida em mais de vinte anos como autor de textos para jornais e rádios paulistas e cariocas. O prestígio que ele alcançou nessa atividade pode ser medido, por exemplo, nos quinze anos do programa Crônicas da Cidade Maravilhosa, que era apresentado pelo locutor César Ladeira na rádio Mayrink Veiga, no Rio. Além deste, ainda produziu Biblioteca do Ar e Crônica da Cidade.

Dois aspectos nos chamaram a atenção.O primeiro foi perceber como as pessoas escreviam bem, não do só do ponto de vista da caligrafia, mas também na exposição do assunto. O segundo, quanto ao grau de cumplicidade existente entre o cronista e seu público. Este vê no homem que ama, crítica e elogia a cidade um amigo para quem pode estender os elos do jeito carioca de ser.

Os poucos exemplos aqui alinhavados podem dimensionar melhor esta relação. O primeiro deles nos é dado por Paulino da Costa, morador de Bauru que, em carta datada de 04/07/1952, toma a liberdade de corrigir uma informação dada por Genolino Amado em uma de suas crônicas diárias:

"O preclaro professor equivoca-se quando diz que ´Gravatá do Bezerro é uma ´pequena vila sertaneja´ de Pernambuco. Não senhor. Gravatá de Bezerros (não de Bezerro) é cidade. É uma bela cidade. Fica a menos de três horas de trem de Recife, e é cortada quase pelo meio pela estrada-de-ferro. A estação está localizada quase no centro da cidade."

Esta correção, porém, não deve ser vista como preciosismo, pois o leitor reconhecia como "em alto conceito é tido o magnífico escritor que risca de seu vocabulário as palavras difíceis e imita Coelho Neto". Uma comparação que não deixa de ser curiosa, já que estamos diante "de um homem que sabe escrever"5. Mais ainda se levarmos em conta a posição que Coelho Neto ocupa em nosso imaginário com a sua prosa fundamentada no fato de se considerar "o último dos helenos", além de ter sido alvo da pena impiedosa de Lima Barreto que o retrata na pele do personagem Veiga Filho, em Recordações do escrivão Isaías Caminha, como exemplo do artista da Belle Époque brasileira que tem o perfil "vaidoso, preciosista e bajulador."6

Uma das características básicas da crônica é possuir um viés de utilidade público em sua mensagem, o que a transforma em uma espécie de porta-voz dos que transitam no anonimato da cidade. Não é outra a impressão que nos trazem estas palavras da leitora Ângela, em carta de 4/11/1952:

"Senhor Genolino Amado.
Sou uma dessas tantas moças que o senhor fala em suas crônicas. Pobre, sim, mas, porém (sic) de espírito elevado (desculpe a pretensão)."

Muitas vezes o cronista extrapolava o mero comentário dos fait divers para se tornar cúmplice e "resolvedor" de problemas pessoais, como atesta a carta de Odália de Queirós Cunha, sem data, que pede a colaboração do autor para diminuir os estragos de um furto do qual fora vítima:

"Desejaria que o prezado cronista da Cidade Maravilhosa fizesse uma crônica, um apelo ao larápio para devolver os documentos, cujo endereço e telefone se encontram nos mesmos.
PS: Caso o assunto interesse , peço ao prezado amigo omitir meu nome. O larápio foi felicíssimo´, pois a minha carteira continha mais de CR$ 500, ABI, Banco de Sangue, cartões de visita, meus e de meu marido, vários retratos, etc. "

O espírito de irreverência e a verve carioca, mesmo em uma situação adversa, podem ser medidos no efeito do uso do superlativo "felicíssimo", prova inconteste de que o cronista escrevia para um público bastante afinado com as mazelas do cotidiano, mas capaz de usar o humor como forma de vencê-las.

Muitas vezes, escrevia-se somente para um agradecimento singelo, como se lê no texto de Margarida que, em 07/01/1953, diz: "Ouvi a ´Crônica da Cidade´ de hoje, e aqui estou para agradecer- lhe a referência que fez ao meu Piauí." Entranhada no dia-a-dia da cidade, a crônica radiofônica, da qual Genolino é considerado um dos pioneiros, tinha um prestígio que diminuiria com a chegada de formas mais sedutoras de informação como as que vigorariam na televisão. O depoimento da leitora Laura revela a importância do rádio como um meio eficaz para a expansão da palavra escrita:

"Minhas amigas não compreendem porque exijo que às 13 hs (sic) esteja livre e em casa. Se lhes dissesse que era apenas para ouvir um programa de cinco minutos rir-se-iam de mim, mas que não compreenderiam quão interessantes são estes cincos minutos." (Rio, 12/12/1952)

A relação de intimidade e a perspectiva de que o cronista fosse um prestador de serviço ficam mais explícitas na mensagem enviada no dia 27/01/1953.Nela, um funcionário da Marinha sugere, em nome dos colegas, um "tema" para o escritor que fez da crônica um "exercício das idéias".7

"Quem lhe escreve é um simples servidor do Q.G. (Ministério da Guerra) em nome dos demais servidores civis. Não deixamos de apreciar as coisas belas, por isso tomei a iniciativa junto aos meus colegas para que nos atenda no seguinte pedido: fazer uma Crônica da Cidade para uma funcionária desse Q.G. Bonita, elegante e atraente e de uma personalidade única. Entra às 11, 30 h. com seus passinhos apressados, com seu cordial cumprimento a todos, não olha para ninguém porque sabe que é de fechar o Q.G sem ser dia feriado. Com os seus cabelos castanho-claros muito curtos para trás, com os seus sapatinhos Kalu e caras de gato nas orelhas, vai para sua seção onde sai mais tarde para voltar no dia seguinte, mais cheia e bela. Chamaram-na e chamam-na rainha. Perguntei o porquê, então me disseram porque tinha carinha de boneca e seu nome é Rosa.

Aí está o nosso pedido. Desde já lhe agradecemos, e pedimos que faça a sua crônica a este respeito numa quinta ou num sábado.

Felicidade, saúde e abraços dos servidores deste Q.G."

O tempo era curto, a vida precisava ser tocada, mas deixei o Rio com o desejo de voltar, pois um outro projeto ficou no meio do caminho: ouvir as crônicas que Genolino Amado escreveu para o rádio. Elas, contrariando a fina ironia de José Guilherme Merquior não repousam num "museu imaginário do som"8, mas no Museu da Imagem e do Som, do Rio, segundo informações obtidas junto a uma editora carioca.

Quiçá tal empreitada possa vir à luz sob os auspícios da comemoração do centenário do autor de Um menino sergipano, que acontecerá no dia 2 de agosto deste ano. A ele dedico meu modesto trabalho para que se possa afazer algum "agito" e a data não passe em branco. Afinal, de silêncio, basta o que condena todo aquele que usa a efemeridade da crônica e do ensaio jornalístico como forma de registrar seu tempo e marcar sua passagem pelo mundo dos vivos, pois lembrando as palavras de Herman Lima, "nunca os mortos se vão tão depressa, como no setor das letras nacionais.9"

BIBLIOGRAFIA

AMADO, Genolino. O reino perdido (Histórias de um professor de História). Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971.

BROCA, Brito. Horas de leitura: 1ª. e 2ª. Séries (coord. de Alexandre Eulálio), Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1992.
LIMA, Herman. Revista Leitura, ano IV, no. 42, Rio de Janeiro.

PRADO, Décio de Almeida. Apresentação do teatro brasileiro moderno - crítica cultural de 1947-1955. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001.

MERQUIOR, José Guilherme. O elixir do apocalipse. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983.

Notas:

1.
Jeová Santana é autor de Dentro da casca (Fundesc, 1993) mestre em Teoria da Literatura pela Unicamp e professor de Literatura Brasileira e Portuguesa do Departamento de Letras da Universidade Federal de Sergipe. Voltar

2.
É importante lembrar duas outras atividades exercidas pelo autor: tradutor e dramaturgo. Nesta, ele escreveu a comédia Avatar, editada pela Sociedade Brasileira de Autores Teatrais em 1948. Neste mesmo ano, foi premiado com a medalha de ouro da Associação de Críticos Teatrais por Dona do mundo. Como tradutor, destacam-se A cidadela (The citadel) , de A. J. Cronin; A vida errante de Jack London (Sailor on Horseback), de Irving Stone; Zadig (Zadig), de Voltaire, A outra comédia, de Somerset Maugham (teatro); História da minha vida (My autobiography), de Charles Chaplin; Chuva (Rain), Somerset Maugham (Teatro); Anna Christie, de Eugene O´Neill, (teatro) e Medéia, de Euripedes, na adaptação de Peter Jeffers. (Teatro). Em relação ao livro de A. J. Cronin Genolino assim se expressou em uma das cartas (s/d) a Gilberto Amado: "A cidadela abriu caminho e marcou uma época nova. Venderam-se em poucos meses quarenta mil exemplares, a dezoito mil réis." Voltar

3.
A crítica cultural no ensaio e na crônica de Genolino Amado, sob a orientação da professora doutora Orna Messer levin, defendida em 20 de outubro de 2000. Voltar

4.
MERQUIOR, José Guilherme. "A crônica como crítica cultural", in: O elixir do apocalipse. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, p. 184. Voltar

5.
PRADO, Décio de Almeida. "Graça Melo", in: Apresentação do teatro brasileiro moderno - crítica cultural de 1947-1955. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001, p. 183. Voltar

6.
ZILBERMAN, Regina. "Imprensa e literatura no Brasil". In: Jornalismo cultural cinco debates. Florianópolis: FFC EDIÇÕES, 2001, p. 19. Voltar

7.
BROCA, Brito. "As marionetes de uma civilização", in: Horas de leitura: 1ª. E 2ª. Séries. (coord. de Alexandre Eulálio), Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1992, p. 127. Voltar

8.
MERQUIOR, José Guilherme. Op.cit., p. 182. Voltar

9.
LIMA, Herman. Leitura, ano IV, no. 42, Rio de Janeiro. Voltar