A Gramática da Emília
Maria Augusta Bastos de Mattos
Quando Lobato escreveu A menina do Narizinho Arrebitado em 1921, ele o fez para que fosse um livro de leitura para as escolas e escreve então a Godofredo Rangel: Mando-te o Narizinho escolar. Quero tua impressão de professor acostumado a lidar com crianças. Experimente nalgumas, a ver se se interessam. Só procuro isso; que interesse ás crianças.
Aliás, em diversas cartas que manda a seu correspondente de tantos anos, é clara sua preocupação com o que as crianças têm para ler. Numa, já de 1916, ele declara: é de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos. É por isso que ele pensa – e de fato o realiza – em vestir á nacional as velhas fábulas de Esopo e La Fontaine, tudo em prosa e mexendo nas moralidades. Lobato quer recriar a literatura infantil, revendo criticamente seus valores e adaptando-a ao público brasileiro.
Ganhando forma a sua preocupação com a literatura para crianças, Lobato vai escrevendo sua série fabulosa de livros infantis mas agora já não mais como livros didáticos, ao contrário do que fora o Narizinho Arrebitado.
Sua literatura infantil compõe-se de alguns livros que poderiam ser chamados de paradidáticos se por isso entendermos aqueles que recriam os conteúdos ensinados nas escolas. entrariam aí a Geografia de Dona Benta, a Aritmética da Emília, a Emília no País da Gramática. Quanto a seus livros considerados de pura diversão como O Saci, Caçadas de Pedrinho, O Picapau Amarelo, A Reforma da Natureza, A Chave do Tamanho e outros, não notamos que apresentem mais fantasia que os seus paradidáticos. Nesse aspecto, uns e outros não se diferenciam. Tampouco se nota qualquer diferença de profundidade dos paradidáticos em relação àqueles que refletem interesses que ultrapassam a mera visão escolar referindo-se seja à astronomia, seja à civilização grega, às grandes descobertas da humanidades, seja mesmo ao problema do petróleo nacional.
Isto é, de um lado Lobato não apresenta às crianças a matéria escolar nos moldes em que esta é ensinada nas escolas e, de outro, não reflete diferentemente sobre aquilo que é tido, por tradição, como conhecimento “para as crianças” e sobre o que seria um conhecimento – digamos assim – mais “erudito”. Ele se põe inteiro em toda a sua obra, ele, o Lobato pai, o Lobato escritor, o Lobato editor, o Lobato adido cultural, o Lobato nacionalista.
Lobato vai refletir igualmente três tendências suas: o divertimento, a formação das crianças e a atenção aos problemas pelos quais ele, na sua reflexão de adulto, está passando.
Analisando mais de perto:
• haverá mais magia ao se receber o Peter Pan no Sítio do que ao se visitar o bairro das sílabas na Cidade das Palavras?
• o que é mais “didático”: Dona Benta ensinando geografia aos netos ou a incrível viagem ao céu?
• e o seu fabuloso A Reforma da Natureza não é o eco do seu romance O Presidente Negro, publicado como folhetim no jornal A Manhã, em 1926, no qual temos uma mostra do que seria o mundo no ano de 2228 se fosse Lobato a reformá-lo?
• e o Poço do Visconde não é uma obra na qual Lobato claramente mostra, através das personagens do Sítio, a sua disposição para dotar o Brasil de petróleo, que ele considerava essencial para o progresso industrial?
É nessa perspectiva que falaremos um pouco da sua obra Emília no País da Gramática: paradidática sim, mas com iguais porções de divertimento, de magia e de reflexo das suas preocupações como escritor, adulto, editor e brasileiro.
Muitos estudiosos de Lobato já afirmaram que ele tenha escrito a Emília no País da Gramática por “vingança” de ter siso reprovado aos quatorze anos de idade na prova de Português. Realmente, em suas cartas, sempre transparece essa questão. dezenove anos depois da reprovação, ele ainda lembra o fato com igual ressentimento: Da gramática guardo a memória dos maus meses que em menino passei decorando, sem nada entender, os esoterismos do Augusto Freire da Silva. Ficou-me da ‘bomba’ que levei, e da papagueação, uma revolta surda contra a gramática e gramáticos, e uma certeza: a gramática fará letrudos, não faz escritores. E mais tarde: Estou com aquele conto gramatical a me morder a cabeça como um piolho. Vida, aventuras, males, doenças e morte trágica dum sujeito, tudo por causa da gramática. Nasce em conseqüência dum pronome fora do eixo e morre vítima de outro pronome mal colocado.
Não é de se espantar, pois, que um dia, quase vinte anos depois da intenção, em 1934, a desforra de Monteiro Lobato se transformasse num livro para crianças no qual ele descreve as aventuras de Emília, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa e Quindim no País da Gramática. E que o livro se iniciasse com Pedrinho, então porta-voz de Lobato, no início relutando em ter aulas de português com a avó, nas férias, e depois descobrindo interesse nelas: Se meu professor ensinasse como a senhora, a tal gramática até virava brincadeira. Mas o homem obriga a gente a decorar uma porção de definições que ninguém entende. Ditongo, fonema, gerúndio...
Os gramáticos são vistos sempre como apegados às tradições e, portanto como entrave para a língua evoluir e o estilo florescer. Diz Pedrinho rodeando a casa de Dona Etimologia: Chi!... está ‘assim’ de carranças lá dentro. Impossível que ela nos receba hoje. Os carranças estão de óculos na ponta do nariz e lápis na mão, tomando notas. Os tais “carranças” a que o menino se refere eram filólogos, gramáticos e lexicógrafos.
Isso, transposto para a reflexão de Monteiro Lobato adulto e escritor, assim se revela: Aqui em São Paulo o brontosauro da gramática chama-se Alvaro Guerra, um homem que anda pela rua derrubando regrinhas como os fumantes derrubam pontas de cigarro. As regras desse homem tremendo, quando vem ao bico da pena dos escritores, matam, como unhas matam pulgas, tudo o que é beleza e novidade de expressão – tudo que é lindo mas a Gramática não quer.
A sua atenção para o estilo também é perceptível paralelamente na Emília no País da Gramática e nas cartas a Godofredo Rangel: Emília comenta que gosta de advérbios porque eles prestam enormes serviços a quem fala e o nosso autor, ao elogiar o estilo de Euclides da Cunha, afirma que este é alérgico aos advérbios terminados em -mente preferindo, com muito acerto, as suas formas analíticas.
Euclides da Cunha é visto como modelo de estilo sóbrio, pessoal e vigoroso. Ele, por exemplo, nunca antepõe adjetivos a substantivos e é justamente essa a ordem que a Dona Sintaxe vai ensinar aos visitantes do País da Gramática.
Na sua busca de um estilo pessoal, sem vícios, Lobato se entrega à história das palavras. Não é por acaso que as crianças do Sítio visitam com vivo interesse a Dona Etimologia e concluem que o povo muda a língua com os sus ditos erros, ou seja, que o erro, num certo momento, passa a ser considerado uso. E, assim como certas palavras passam a pertencer ao acervo de uma língua, outras morrem por desuso ou, pelo menos, se transformam em arcaismos. Observemos esta conversa entre a palavra Bofé e as crianças:
– Então, como vai a senhora?
– Mal, muito mal – respondeu a velha. Nos tempos de dantes fui moça das mais faceiras e fiz o papel de ADVÉRBIO. os homens gostavam de empregar-me sempre que queriam dizer EM VERDADE, FRANCAMENTE. Mas começaram a aparecer uns advérbios novos, que caíram no goto das gentes e tomaram o meu lugar. Fui sendo esquecida. Por fim, tocaram-me de lá do centro. “Já que está velha e inútil, que fica fazendo aqui?” – disseram-me. “Mude-se para os subúrbios dos Arcaismos” e eu tive de mudar-me para cá.
As palavras novas também são contempladas pelo escritor: numa carta ele emprega um certo
neologismo e comenta que se arrepiara ao ouvi-lo pela primeira vez mas que depois compreendera o seu valor expressivo. Emília, ao visitar os vícios da linguagem encarcerados por Dona Sintaxe, revolta-se ao encontrar o Neologismo entre eles e o solta.
– Não mexa, Emília – gritou Narizinho. Não mexa na língua que vovó fica danada...
– Mexo e remexo! replicou a boneca batendo o pezinho –e foi e abriu a porta e soltou o Neologismo, dizendo: Vá passear entre os vivos e forme quantas palavras novas quiser.
Lobato é tão partidário do neologismo como recurso estilístico que inventa um, o verbo josezar,
para indicar a atividade estafante do substantivo José a batizar todas as crianças que têm esse nome.
E quando comenta que as traduções das obras de Grimm estão numa linguagem muito lusitana e que é preciso abrasileirar a língua, não está muito longe da atitude da Emília ao libertar das grades também o Provincianismo.
Tantas outras semelhanças se notam: Emília quer visitar a Dona Prosódia pois errava muito na pronúncia e queria aprender. Lobato descobre certo dia, em 1909, ao pesquisar em dicionários, que acentuava erradamente certas palavras: epifania, homilia, índigo, liturgia, hílare e outras tantas.
também na acentuação gráfica os dois se aproximam: Emília concorda com a Ortografia Simplificada, condenando por exemplo o uso do trema e do acento grave. Lobato, mesmo nas cartas posteriores à reforma de acentuação, resiste marcando a crase através do acento agudo.
Interessante é se observar, por fim, a atualidade das ponderações acerca da relação linguagem/mundo. Monteiro lobato se interessa igualmente pela fazenda que herdara do avô, pelo petróleo, por jogo de xadrez, pelas crianças, pela editora e pela linguagem: estuda-a, discute-a com os amigos, luta para que ela seja limpa, nacional, clara; não a quer acadêmica, não a quer rançosa; quer vê-la liberta de gramatiquices, expressiva, atual, viva.
As suas personagens também “vivem” a língua: brincam de cortar as palavras, arrancando-lhes a desinência para daí derivar outras.
As crianças do Sítio lidam com as palavras sem diferenciá-las das coisas. Vejamos este diálogo entre Dona Sintaxe e Emília:
– [...] a boa ordem das palavras na frase ajuda a expressão do pensamento, ensinava a Dona Sintaxe.
– A senhora tem toda a razão – concordou a boneca. Lá no sítio de Dona Benta o Substantivo Nastácia também gosta de dar ordens a tudo, porque a ordem facilita as coisas, diz ela.
E mais tarde, quando aprende que na mesóclise o pronome fica embutido no verbo, a bonequinha
reflete: Tal qual tia Nastácia costuma fazer com os pimentões. Abre os coitados pelo meio, tira as sementes e enfia dentro uma carne oblíqua. E, de repente, caindo numa gargalhada: Estou me lembrando dos pimentões mesoclíticos que tia Nastácia faz sem saber...
Através de toda a Emília no País da Gramática nota-se essa fusão de palavras e coisas. Ao explicar á Dona Etimologia que o Quindim é africano, Emília lhe pergunta: A senhora conhece a África? E Dona Etimologia: Sim, é uma palavra de origem latina, ou melhor, puramente latina, porque não mudou.
E finalmente mais uma passagem que atesta bem que Lobato, através de suas personagens, viveu a língua portuguesa: quando as crianças estavam no bairro do refugo, viram uma praça muito maltratada, cheia de capim, sem calçamento nem polícia, onde brincavam bandos de peraltas endiabrados. Eram as palavras da Gíria. Ao conversar com algumas, todas muito malandras, Pedrinho por precaução abotoou o paletó: A Gíria dos gatunos metia-lhe medo...
Bem, muito se poderia
dizer sobre esse livro “delicioso”, nas palavras do
escritor Jorge Amado, mas vou encerrar aproveitando o último
parágrafo da obra, logo depois da Emília ter obrigado
o pobre do Visconde de Sabugosa a devolver á língua
portuguesa o ditongo ão que ele
roubara:
Meia hora mais tarde já estavam todos no sítio,
contando ao Burro Falante o maravilhoso passeio pelas terras da
Gramática.
Sabemos que o Burro Falante era cultíssimo e que, portanto, tudo o que ele terá ouvido das crianças já lhe seria muito conhecido. É nessa perspectiva que me valho desse parágrafo para finalizar minha fala, já que, sem ele, ela deveria vir revestida de desculpas por eu ter falado de Monteiro Lobato a seus conterrâneos e por ter falado de língua e este grupo de lingüistas.