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Entre os livros mais lidos no Brasil, no período de 1808 a 1826,
está o título português O Piolho Viajante divididas
as viagens em mil e uma carapuças. A obra foi publicada em
1802, anonimamente, em folhetos semanais que completam 72 "carapuças",
ou capítulos correspondentes à vida das pessoas cuja cabeça
o piolho narrador visita e comenta. Em 1821 os folhetos foram reunidos
em volumes, com autoria atribuída a António
Manuel Policarpo da Silva, volumes que vieram a ser reeditados em
1837, 1846 e 1857. Já no ano seguinte ao lançamento em
Portugal os folhetos foram enviados
ao Brasil, por solicitação de Simão Taddeo
Pereira, e aqui parecem ter alcançado sucesso de público
semelhante ao que obtiveram na sociedade portuguesa. Afinal, estavam
entre os títulos
mais enviados, na época, de Portugal para o Brasil, a pedido
de livreiros e particulares. Além disso, o fato de D. Pedro I
usar o pseudônimo Piolho Viajante nos artigos
que escreveu para a imprensa carioca, por volta de 1823, pode ser considerado
mais um indício da popularidade, inclusive entre pessoas da classe
dirigente, alcançada pela obra satírica de Policarpo da
Silva.
Mas foi entre as camadas populares que os folhetos de O Piolho Viajante
se notabilizaram, enquanto eram desprezados ou denegridos pela crítica
e pelos homens letrados da época. No entanto, a crítica
começa, hoje, a rever e mesmo a valorizar inúmeros aspectos
da obra, como aqueles que aponta
o professor português João Palma-Ferreira:
O
bom senso utilitarista, o equilíbro entre a sátira
e a tendência para a descrição do pitoresco
lisboeta (...), a preocupação moralista, o doseamento
entre o real quotidiano e o fantástico (...), o desejo de
"escapismo" para o universo das aventuras pícaras
tardias (...) fazem desta obra um documento social, literário
e moral de inexcedível interesse. Uma linguagem direta, eivada
de galicismos, é certo, mas vivíssima e popular, repondo-nos
no seio mesmo de uma sociedade tão tranqüilamente abjeta
quão curiosamente estabilizada e padronizada.; uma facilidade
de exposição de intrigas, de intersecção
de numerosos episódios, de interpelação ao
próprio autor e de estruturação de um autêntico
livro de viagens no íntimo de obra de costumes (...); a ausência
das intoleráveis erudições que estropiaram
tanta obra nossa do século XVIII; a novidade, em suma, de
O Piolho Viajante, reconduzem-nos para o convívio
de um dos mais ricos e desprezados setores da literatura portuguesa
desde Gil Vicente a D. Francisco Manuel de Melo, desde os panfletários
do século XVII aos esquecidos ironistas do século
XIX, desde a Arte de Furtar às sátiras de Tolentino.
É
realmente engenhoso o modo como o autor estruturou a narrativa, construída
como relato de viagem, para satirizar os costumes da sociedade portuguesa.
O piolho narrador, que viaja de cabeça em cabeça relatando
os vícios e misérias dos mais diferentes tipos sociais,
é imitador burlesco de Telêmaco, o filho de Ulisses que,
na obra de Fenelon, viaja de ilha em ilha à procura do pai; do
pícaro Gil Blas, protagonista da obra de Lesage; e também
de Gulliver, herói de Swift que safou-se do esquecimento em que
caíram os dois primeiros. As
Aventuras de Telêmaco, Gil
Blas de Santillana e Viagens
de Gulliver foram três dos mais populares romances do século
XIX, e sua temática - a do homem que percorre diferentes terras
e aprende com os erros e virtudes de diferentes povos - é retomada
de maneira inventiva e humorística por Policarpo da Silva. O
piolho viaja por um arquipélago de cabeças as mais variadas,
entre elas as de um estudante, uma cigana, um filósofo, um poeta,
um ladrão, um camponês, um vendedor, um juiz, uma lavadeira,
um boticário, além de dezenas de outras, todas quais têm
suas "carapuças" tecidas, por vezes de forma impiedosa,
pelo narrador.

Pintura integrante
da série Costumes Nacionais
Zacarias Félix Doumet - c. 1806
Lisboa, MC, invº 263
Imagem disponível no site No
Tempo de D. João VI
Gil Blas, diversas vezes invocado pelo piolho, parece
ter sido a principal influência de Policarpo da Silva, ainda que
referências a Gulliver e a outros romances sobre viagens ocorram
ao longo da obra. Aliás, são inúmeras as passagens
em que o narrador focaliza o ato da leitura, como no trecho abaixo,
extraído da Carapuça V, a respeito de um barbeiro:
De tarde, quando não tinha que fazer, lia
Carlos Magno ou dizia mal da vizinhança. De forma que estava
já tão senhor destes autores que citava as folhas
e conhecia os vizinhos pelos seus nomes, ocupações
e costumes.
A História do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França,
opúsculo de cordel publicado em 1742 em Lisboa, foi das obras
mais lidas em Portugal e no Brasil nos séculos XVIII e XIX. Outros
títulos populares, como Bertoldo, Bertoldinho e Cacasseno,
poema jocoso do século XVIII, também são referidos
pelo piolho, que relata leituras realizadas coletiva ou solitariamente,
e comenta os livros possuídos por determinadas personagens para
caracterizá-las, como se pode observar no seguinte trecho, da
Carapuça XXVIII, relativo a um estudante:
(...)
não era qualquer cabeça e muito tentado com livros.
No dia que eu lhe passei para a cachimónia, vendeu ele a
Prosódia e o Quintiliano para comprar Bertoldo,
umas comédias e umas pinturas do jogo do pau.
A troca de um compêndio de gramática e o tratado pedagógico
De Institutione Oratoria, de Marco Fábio Quintiliano, ferramentas
essenciais para um estudante do oitocentos, pelo humorístico
e popular Bertoldo, além de comédias e um jogo,
assinala, para o narrador, o quanto o estudante em questão "não
era cabeça", nem "muito tentado com livros". O
episódio sugere o modo como, no século XIX , obras populares
não eram consideradas "livros", ou leituras dignas
do nome; noção que, não raro, pode ser observada
ainda nos dias de hoje. O irônico é que o próprio
Piolho Viajante, dada sua natureza de obra satírica e popular,
não seria leitura indicada para gente "de cabeça".
A esse respeito, o narrador afirma o seguinte, no prólogo da
Parte IV:
Meus
Senhores, escrevi em muito mau tempo. Um tempo em que oiço
dizer a todos que têm faltas de memória e a ninguém
oiço dizer que tem faltas de juízo. Um tempo em que
ninguém lê e todos são Autores. E de que servem
as obras? Vejam em que triste tempo eu me lembrei de escrever! César,
Cícero, Luculo e Ático não pareceram tão
grandes aos olhos de Roma, como eles o eram realmente porque, então,
Roma era toda grande. Perdoem vossas mercês a comparação.
Agora vejam lá que figura pode fazer o meu Piolho no Corpo
Literário! Querer eu mostrar juízo no tempo em que
todos o têm e querer que a minha fazenda tenha extracção,
sempre é extravagância. Mas, Senhores, reparem vossas
mercês que o eu escrever não é ser Autor. Isto
é meramente um livro de lembrança do que tem sucedido.
Seja o que for, recomendo-me àqueles que o entenderam e debaixo
da sua protecção é que eu me acolho. Porque,
quando todos geralmente chamarem à minha obra boa e verdadeira,
onde estarei eu a essa hora?
Os meus escritos são, por ora, para gente pobre, gente que
não tem medo de um piolho. Um rico até terá
medo de ouvir falar nele e fará muito bem em não ler,
porque terá precisão de coçar-se, porque o
Piolho é muito natural que lhe morda. Uma donzela, que nojo
não terá de um piolho! Mas se ela o ler com reflexão,
pode ser que ninguém lhe morda. Um que se aplica a coisas
grandes, que mal lhe não ficaria ler uma coisa tão
pequena!
As preocupações do narrador com a função
de uma obra literária e os efeitos que pode exercer sobre o público
leitor são consoantes com as discussões ocorridas desde
meados do século XVIII, nos âmbitos letrados, relativas
à popularização do romance, novo gênero literário
no qual a prosa cômica de Policarpo da Silva pode ser incluída.
Alguns aspectos dos debates em torno do romance, gênero de formas
e temáticas que pareciam escapavar às tentativas de classificação
por parte da crítica, e que para muitos estudiosos constituía
influência negativa para os leitores, podem ser recuperados por
meio da leitura de O Piolho Viajante. São diversos os trechos,
como o referido acima, em que o narrador focaliza as relações
entre obras, críticos, autores e público leitor. Além
disso, as brincadeiras relacionadas à materialidade dos livros,
como aquelas que podem ser observadas na capa da edição
de 1846, podem demonstrar, pelo viés cômico, características
de importantes elementos paratextuais constituintes dos livros do período,
como títulos, dedicatórias, epígrafes, etc.
Mas não é apenas para o campo da literatura e da leitura
que O Piolho Viajante pode representar importante documento de
estudo. O registro das particularidades da vida portuguesa nas primeiras
décadas do século XIX abrange da prática da medicina
ao comércio, do funcionamento de órgãos públicos
ao entretenimento, da educação ao engatinhar da indústria,
entre inúmeros outros aspectos da vida social. Só chama
a atenção o silêncio do autor com relação
aos dramáticos acontecimentos políticos da época,
que envolvem inclusive a fuga da família real portuguesa para
o Brasil, em 1808. Esse silêncio é significativo, já
que o narrador afirma, no prólogo da Parte III, que
Traçar
o triste retrato da sorte da humanidade, para marcar as diferentes épocas
que a política faz na felicidade pública, é um
serviço que eu faço à minha Pátria. Este
género de história, ainda que não sirva para os
presentes, porque a sabem, instruirá os vindouros dos costumes
dos séculos passados e fá-los-á conhecer o que
poderão ser pela experiência do que têm sido.
As razões
que podem explicar a lacuna de registros sobre a política do
período passam por hipóteses relacionadas à censura
e também por outras menos palpáveis, concernentes a decisões
particulares do autor. No entanto, ficaram retratados, em O Piolho
Viajante, os costumes de uma época que bem podem ajudar a
melhor iluminar sua história. Esse já seria motivo suficiente
para que o livro voltasse a circular. Mas somando-se aos usos documentais
da obra está a diversão que ela pode oferecer. Ainda que
passados mais de duzentos anos de sua publicação, certamente
desgastadores de humor tão ligado ao cotidiano, a prosa satírica
de Policarpo da Silva continua fazendo rir.
São motivos suficientes para que O Piolho Viajante volte
a circular, agora em meios
eletrônicos. A obra permanece hoje praticamente desconhecida,
principalmente
no Brasil , onde parece ter mantido sua grande popularidade até
a segunda metade do século XIX, quando lentamente passou a sair
de circulação e da lembrança do público.
Já é tempo de levar aos leitores, novamente, a verve burlesca
de Policarpo da Silva, que move as aventuras do piolho viajante.

A sopa dos pobres,
da Série das Profissões Lisboetas
Nicolas Louis Albert Delerive
(n.d., c. 1801)
Lisboa, FRESS
Imagem disponível no site No
Tempo de D. João VI
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