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LEITURA:
PRAZER E SABER
Eliane
Marta Teixeira Lopes
Professora
Titular de História da Educação da
Universidade
Federal de Minas Gerais
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Gosto de ler. Mas, se pensarmos
que todos os gestos e todos os -poucos- movimentos que estão presentes
na hora da leitura, e mais o imobilismo a que ela nos sujeita, fadigam-nos,
fazem-nos doer as costas, a nuca, o dorso, os quadris, os olhos, por vezes
entorpecem-nos as mãos... então, de onde vem o gosto? haveria prazer no
ato de ler? De qual prazer se fala, quando se fala no prazer da leitura?
Deixemos isto assim posto para voltarmos daqui a pouco.
Sou uma leitora antiga. Isto
quer dizer que leio há muito tempo, desde quando sobre mim se aplicou
a máxima sentença pedagógica, definidora de destinos, "ela aprendeu
a ler". Assim foi sentenciado quando as primeiras palavras que me
entraram pelos olhos e me sairam pela boca, quase simultaneamente -há
especialistas que sabem o que se passa entre um momento e outro- foram:
Olhem para mim. Eu me chamo Lili. Eu comi muito doce. Eu gosto tanto
de doce. Vocês gostam de doce? Declamo isso sem me importar se era
mesmo assim que estava no cartaz à minha frente e na cartilha às minhas
mãos. Só muito tempo depois apelidaram-me Lili, mesmo assim aprendi a
ler e até ganho a vida com isso hoje.
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1-
DESBORDES, François. Concepções sobre
a escrita
na
Roma Antiga. São Paulo, Ática, 1995.(p.205)
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Ler é ato que precisa
do outro para reconhecer e legitimar sua inauguração. É por isso que na
escola pede-se que se mostre que se sabe. Ler em voz alta pode remontar
aos imemoriais tempos em que não se lia, mas se contava contos, casos -prática,
felizmente, preservada (e recentemente atualizada). A vida, a tradição oral,
os saberes de uns se passavam a outros pela fala, pelo conto. Mas -pasmem!-
ler já foi mais difícil do que é hoje. Na Antigüidade Romana a leitura era,
reconhecidamente, uma atividade difícil, reservada para poucos, em que outros
sinais, que não apenas as letras, tornavam o texto passível de uma decifração
caprichosa e diligente, pois sua interpretação não era unívoca. Assim, à
decifração, para a compreensão, seguia-se a leitura em voz alta, como treino
para uma leitura rápida.1 |
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Entre nós, a leitura
em voz alta, primeiro, vem na Igreja, depois, na escola. Na primeira para
convencer, na segunda... para convencer também. Na escola lia-se em voz
alta, tanto para convencer de que se devia ler, quanto para se ensinar o
que se ler. Escolhendo o que deveria ser lido e como deveria ser lido a
escola pretendia desenvolver o gosto pela leitura. Mais que isso, a escola,
e todos os que a circundavam, os inspetores e as legislações, estabeleciam
critérios. O primeiro deles era o de que toda leitura deveria dar lugar
a trabalho e ser, ela mesma, parte de um trabalho. Nada de se confundir
leitura com ociosidade. O segundo, que dizia respeito às qualidades do que
se lia, era o de que um texto seria bom se ele pudesse ser partilhado, se
ele pudesse ser mostrado -lido- em público. Uma leitura era, assim, uma
má leitura se se a praticava escondido e dela se envergonharia em público;
mas também era uma má leitura aquela sem controle, que poderia criar enganos
no seu trabalho de interpretação, pois que feita fora das redes de sociabilidades,
que sempre prevêem e fixam um certo sentido e um sentido certo. A leitura
em voz alta e pública, fosse feita na escola, na igreja, na família ou mesmo
em reuniões explicitamente realizadas para esse fim, criava uma pedagogia
da compreensão que pretendia, assim, garantir a justa recepção. Pode-se
dizer que a leitura pública não fazia parte de uma teatralização, mas de
uma transmissão controlada de sentidos. A entonação do leitor, suas acentuações,
seus silêncios, sua emoção, falavam pelo texto.
Ler, é quase comentar
um texto; é sublinhar, com a voz, as palavras essenciais... É ainda
se colocar em harmonia com os sentimentos que o autor exprime, entregá-los
e comunicá-los em torno de si: um sorriso, uma voz emocionada, olhos
em que se pode ver lágrimas despontando, tudo isso é um comentário que
dura longamente. Uma fisionomia fala tanto quanto a voz. (Bulletin Pédagogique
du Pas-de Calais, 1907 apud: Chartier & Hébrard. p.261)
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2-
CHARTIER, Anne-Marie & HÉBRARD, Jean. Discours
sur la lecture
Pompidou,
1989. (Há uma tradução em português)
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Tanto se viu isso
em púlpitos, quanto em cátedras: convencer e controlar. Além do mais, pretendia-se
garantir com a leitura em voz alta que a língua aprendida fosse a mais correta
e que se constituisse em uma aprendizagem para o exercício da democracia
através do uso da palavra. Formar cidadãos republicanos, prontos a participar
da vida da cidade, da coisa pública, a representar e a cobrar representação,
significava colocá-los em condições de argumentar, mas, sobretudo, de falar
bem, em alto e bom som, e empregando a mais bela forma de língua que pudessem
e soubessem. 2
Muitos que viveram essa experiência
consideraram-na fundamental para sua relação com o livro e com a leitura.
Outros, nem tanto. Para começar a falar de autores, de escritores, com
os quais me deleito desde que leio, lembro-me dos jantares em casa de
Cyro dos Anjos. E só os conheço por que li o que Cyro dos Anjos escreveu
sobre eles. Cyro dos Anjos, mineiro de Santana do Rio Verde, não é autor
de vasta obra. Pequena obra deliciosa, imperdível mesmo. "Menina
do Sobrado", em que conta os jantares, começa assim:
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3-
ANJOS, Cyro dos. A Menina do Sobrado. Belo
Horizonte, Livraria Garnier. 1994.
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Em torno da mesa de pereiro
branco, larga e comprida, cabiam os quatorze filhos e os parentes...
O almoço
corria sem problemas. Ao jantar, a inquietação nos assaltava: seria
longo o trecho que o Pai ia ler à sobremesa?(...) Só de raro em raro
o Pai abria mão dos enfadonhos e intermináveis minutos de leitura. Fazia
questão de transmitir ao clã o que achara proveitoso nos livros mandados
vir por intermédio de caixeiros-viajantes ou adquiridos pessoalmente,
na viagem anual ao Rio. Lia pausado, intercalando comentários, sem se
preocupar com a nossa ansiedade, que muitas vezes se fazia patente.(...)
Como, às vezes, nos advertisse: "O trecho, hoje, é de ..."
- passamos a arrolar, sob a designação comum de trecho, toda aquela
variada substância intelectual compulsoriamente ingerida com o pospasto.3
Cyro dos Anjos leu muito.
Nesse livro que citei, em que ele conta sua vida e que é também uma bela
descrição e interpretação de Belo Horizonte nos anos 20, lembra-se de
vários autores que trouxeram-lhe mundos desconhecidos, formas de interpretar
o cotidiano, revelações sobre o que era. Terá sido por causa das leituras,
dos trechos, à mesa de pereiro branco, que tornou-se um grande leitor?
É, pelo menos, intrigante que escreva um livro que se abre com a lembrança
de uma leitura -reforçando a eterna ciranda escrever/ler- e não uma leitura
qualquer, mas a que fazia o Pai, em voz alta, à mesa; mesmo se o que escreve
sugira um leve tom indigesto, impaciente, tom de menino que "tem
mais o que fazer", lá fora, onde esperam-no a lua, a criançada, as
intrigas e conversas dos grandes.
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4-
É como Barthes se auto classifica. "Sou um
leitor desenvolto na medida em que tomo rapidamente a
medida do meu prazer". in:BARTHES, R.
O
Grão da Voz. Entrevistas 1962-1980. Porto, Ed.
70, 1982..
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Alguém (a professora,
o professor, a mãe, o pai, o padre, o pastor) p
ode ordenar-me que leia; minha revanche é que jamais saberá se o faço, a
não ser que o faça em voz alta, o que, como se viu, é outra coisa. Se há
vigias, permaneço de olhos baixos, movimento, às vezes, o ombro como num
muxoxo, passo as páginas, volto à página anterior para confirmar uma idéia...mas
não estou lendo. Da leitura, tal como a praticamos hoje -no tempinho em
que o sinal está vermelho, no ônibus, no trem, dois minutos na cama antes
de desfalecer de cansaço, como companhia durante o almoço ou o café da manhã-,
poderia se dizer que é questão de foro íntimo. Uma espécie de clube onde
estão associados, em todo mundo, alfabetizados e beletristas. Desavisados
e avisados. Desenvoltos e amarrados. O desavisado lê para se deixar surpreender;
o avisado prepara-se; o desenvolto toma rapidamente a medida do seu prazer
4; o amarrado crê sempre ser o leitor
modelo. Mas nada disso é público, ninguém precisa saber o que cada um é.
Também não é necessário que cada um seja sempre a mesma coisa. Não há fidelidade
exigida, não há fidelidade cumprida; tudo se dá na larga praia do desejo.
Podemos, nós e cada um, ser, de cada vez, a cada leitura, e, às vezes, ao
mesmo tempo, durante a mesma leitura, cada um desses. Encontrando aquela
frase ou enredo que sempre ouviu e nunca teve coragem de perguntar de quem
era; procurando saber quem é o autor, indo às Enciclopédias antes, lendo
os correlatos, prós e contras; largando o livro, se ele não agradou, logo
no início, ou no meio ou perto do fim; sentando-se conforme manda o ortopedista;
à distância correta do livro conforme manda o oculista; freqüentando as
bibliotecas e não as livrarias, conforme manda o alergista; marcando com
caneta, conversando com autor; colocando dedicatórias a si mesma; fazendo
remissão de páginas e, às releituras (supremo prazer a cada reencontro!)
marcando em cores diferentes e escrevendo as datas. Tudo isso pode e pode
também seu inverso. |
5-
Cf. Dicionário Aurélio o verbete convívio.
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Mas, a suprema
heresia, mesmo, é ler o final do livro antes de chegada a hora determinada.
Para mim, desobediência e insurreição tardias e atrasadas, sempre com gosto
renovado e salpicado de culpa. Devo declarar que as razões que levavam quem
quer que seja a proibir-me isso eram infundadas. Ao contrário do que diziam,
na verdade temiam, (você abandona o livro, o livro perde o interesse
todas as vezes em que, hoje, avidamente, vou ao fim do livro, arranco do
autor o final da história, consigo entregar-me a ele (autor) e a ela (leitura)
com um prazer infinitamente maior. Sabido o fim, é fruir do prazer que começa
desde a letra. Nesse caso, conta menos a história, a trama, e conta mais
o convívio. Com o autor, que mesmo conhecido -até pessoalmente- é sempre
um suposto autor... com as letras e as palavras e as frases e mais a temida
e odiada e intrigante gramática, sintaxe, ortografia e tudo mais que desaprendi,
mas que permanecem ao meu lado, apenas como uma lua que ilumina noite escura.
Conta mais o convívio, que se não é convivência -pois que não é- então é
Banquete. 5 NoBanquete aprendemos
o que é o amor. Ensina Diotima, mulher, a um homem, Sócrates, o que é o
amor: |
6-
PLATÃO. Banquete. in:
Diálogos I.
Ed. Tecnoprint.
Ediouro. Tradução
direta do grego por
Jorge
Paleikat . s.d.(p.112-115)
7-
BARTHES, R. "Vinte palavras-chavepara Roland
Barthes".
in:
O grão da Voz, .publicado originalmente
em Le Magazine
Littéraire,
fev.de1975. Entrevista conduzida por Jean-Jacques
Brochier.(p.227)
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-(...)Pois o amor não
é, como pensas, caro Sócrates, o desejo do que é belo!
- Que é então?
- É um desejo de procriação
no belo.
- Talvez.
- Não talvez, mas seguramente
o é. E sabes qual é a importância da procriação? É que ela representa
algo que perdura: é para um mortal, a imortalidade. (...) Aqueles cuja
fecundidade reside no corpo, dirigem-se de preferência às mulheres e
assim realizam a sua maneira de amar, acreditando que pela criação de
filhos atingem a imortalidade, a celebridade e a felicidade eternas.
Os que, porém, desejam procriar pelo espírito, pois há pessoas que mais
desejam com a alma do que com o corpo (e ela é mais fecunda ainda que
o corpo) esses anseiam por criar aquilo que à alma compete criar. Que
criação será esta? É do pensamento e das demais virtudes. É a criação
desses homens a quem chamamos poetas e a daqueles outros aos quais denominamos
inventores.(...) Em permanente contato com o belo, e em sua companhia,
concebe e dá à luz aquelas coisas de que estava prenhe há muito tempo.
Isso para ele será sempre uma obsessão. Aquilo que criou, ele alimenta
em companhia do belo objeto que encontrou. 6
É, assim, no amor pela procriação,
pela criação, que escritor escreve e é nesse amor -dele- que estamos imersos
quando lemos, pois o que também procuramos é o belo, algo que seja capaz
de nos fazer conceber aquilo de que estavamos prenhes há muito tempo e
sobre o quê nada sabíamos. Dá-se o amor pela leitura. Opera-se em nós
também uma criação do pensamento e das demais virtudes. Dá-se o engate.
7
A partir daí tudo mais é solidão
e desejo. O engate é a viagem do desejo. É o corpo que está em estado
de alerta, de pesquisa em relação ao seu próprio desejo. Uma busca
erótica, amorosa, do autor, dos seus temas, sem dúvida, mas de uma certa
dimensão de nós mesmos, de nós mesmas, que nos é desconhecida, abissal.
É por isso que o conhecimento tem um dimensão erótica, e o engate do texto,
ao texto, é um engate sensual.
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8-
BARTHES R..O Prazer do Texto. Porto, Ed. 70.
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Quando leio, como
leio? o que me dá o prazer do texto? Parece-me às vezes, quando repito essa
expressão, que é título de um belo livro 8, que
falo de um prazer que é do texto, pertencente a ele, como se tivesse
vida própria -e tem!- e do qual estou excluída ou no qual só estou incluída
na qualidade de voyeuse. Seja.
Falemos então
de prazer. A mais, falemos de fruição de um prazer, que em outra língua
poderia ser considerada uma redundância, mas se a língua é a dos que se
amam e entre si a leitura, não é demais falar de estar na posse de um
prazer. Pois é também de posse, de apoderar-se, de que se trata.
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9-
Poderia citar: Léviathan
(New
York, 1992; Paris, Actes Sud, 1993); L'Invention de
la Solitude (New York 1982;
Paris Actes Sud, 1988);
A Trilogia de Nova York
(New York,1985; São
Paulo, Ed.Best
Seller s.d.);
A Música
do Acaso (New York,1990; Ed.Best Seller
s.d); Mr. Vertigo
(New
York 1994; Ed.Best Seller s.d.)
Cortina
de Fumaça & Sem Fôlego,
dois filmes. (1995). Como as edições
brasileiras não trazem a data de
publicação -o que, sinceramente, é um
absurdo, sugiro
que os possíveis
leitores a partir daqui coloquem nos livros
as datas em que foram lidos. Até
os livros carecem de
memória
do tempo. Desculpem-me falar
de um autor, assim, como se ninguém
o conhecesse considerem essa
indelicadeza
apenas
como um convite ao diálogo entre
desconhecedores, pois aqui, quem
o conhece também não sabia que
eu o conhecia.
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Tenho cá também
meus próprios prazeres com o texto, com o livro, com o autor. Que variaram
ao longo desse muito tempo. Que foram denominados de diferentes maneiras,
que se expressaram de diferentes maneiras. Não sem luta, sem briga. Desse
amor também se pode falar de sua resistência. Ouvimos vozes, quando lemos,
que não são só as do texto que lemos para nós mesmos, sotto-voce. Ouvimos
as vozes dos que nos ensinaram a ler, e, menos que a de todos, a da primeira
professora. Aquele ato fundante é de puro amor. Depois vieram os constrangimentos,
mas vieram também as astúcias -não é que existe curso de leitura dinâmica?
Nessa briga, no interior dessa polifonia conseguimos, finalmente, sustentar
a nota daquela leitura, para tornar-nos o leitor, a leitora, daquele autor.
Como uma mulher se torna a mulher de um homem.
Da resistência criamos a sua
residência. O livro, o texto, o autor, habita em nós e passamos a habitá-lo.
Não disse Mário Quintana, no mais belo e mais curto poema sobre o amor,
que "Amar é mudar a alma de casa"?
Venci as primeiras quarenta
páginas de Grande Sertão: Veredas quando, baixinho, ouvi o ritmo
do texto. Esse ritmo, feito de harmonia, de acentos, tônicas maiores ou
menores, do qual nada sabemos, porque nossa matéria não é nem a música,
nem a crítica literária, chega pelo corpo, o mesmo corpo que deseja o
texto, que tem desejo de texto e que da música é amador. Venci, também,
porque habitava criando, apaixonadamente, as Minas Gerais amotinadas do
século XVIII.
Se a gente tinha o que
comer e beber, eu dormia logo. Sonhava. Só sonho, mal ou bem, livrado.
Eu tinha uma lua recolhida. Quando o dia quebrava as barras, eu escutava
outros pássaros. Tirirí, graúna, a fariscadeira, juriti-do peito-branco
ou a pomba-vermelha-do-mato-virgem. Mas mais o bem-te-vi. Atrás e adiante
de mim, por toda a parte, parecia que era um bem-te-vi só. (p.28)
Ritmo.
Eu estendi as mãos para
tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável;
abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes.
Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos.
Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam
de dar para baixo da cintura...E eu não sabia por que nome chamar; eu
exclamei me doendo:
- "Meu
amor..."
Foi assim.
Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.
(p.454)
Emoção. Com Guimarães Rosa
aprendi, e para falar de uma única coisa, que a prosa tem ritmo e que
tal como a dança é preciso deixar que o ritmo entre pelo corpo e possa
se transformar em prazer. Falo pouco disso, pra que falar mais?
Diferentes autores oferecem-nos
a chance única, irrepetível, de descobrir em nós mesmos, e de criar, diferentes
maneiras de lidar com o texto e não especificamente aquele. No decorrer
deste ano, fui apresentada a um autor, um romancista americano. No clube
dos associados da leitura faz-se assim: apresentam-se autores, presenteiam-se
livros. Esse autor chama-se Paul Auster, mora em Nova York e tem cerca
de 50 anos. 9
Seus livros estão traduzidos
em várias línguas e foi em francês que eu o conheci primeiro. Que importância
pode ter essa informação? Conheci-o em território estrangeiro, para mim
e para ele. Um autor traduzido não é mais exatamente o autor que era...
Ao livro presenteado seguiu-se mais um, e ainda, ao todo três em francês.
Comentei com amigos brasileiros: conhecem? não, não conheciam. Ou, sim,
já ouvimos falar... mas não lemos. Procurei nas livrarias: sim, estavam
todos traduzidos. Porque, então, não era conhecido pelos meus amigos,
aqueles com quem sempre partilho novidades e preferências? Tenho cá minhas
hipóteses, que deixo para dizer em outro momento... pois o importante
foi o tipo de leitura, até então inédita para mim, que consegui desenvolver.
Ao longo da leitura fui, por exemplo, descobrindo temas a que o autor
sempre voltava: a procura do pai; um certo papel atribuido à mulher; a
preferência por escritores como personagens; a dispersão dos personagens,
que nunca são ou nunca têm uma vida, digamos, retilínea; uma paixão pelas
cidades e uma forma de mostrar essa paixão e um certo gosto pelo detetivesco...
E o acaso. Esse tema é o que mais fascina e o que mais intriga. No filme
para o qual Paul Auster fez o roteiro, Cortina de Fumaça, o acaso
é mesmo o eixo em torno do qual a história vai sendo construída e a ação
se desenrola. Mas, se isso é mais visível no cinema, não é diferente no
texto escrito, no livro. Paul Auster não apenas cria situações que são
definidas pelo acaso, mas também faz reflexões extremamente interessantes
sobre o acaso.
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10-SHAKESPEARE,
William. Sonhos
de uma Noite de
Verão.
Rio de Janeiro, Ed. Nova Aguilar 1989.v.II.
11-
BARTHES R. Vinte Palavras-chave
para
Roland Barthes. (p.203)
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Ao longo da leitura
fui construindo uma certa imagem desse autor, seu estilo de vida, suas preferências
literárias; pelas orelhas dos livros gostava de acompanhar suas fotos, sua
pose de artista de cinema...Já não era apenas leitora, passei a ser fã e
ao fim parecia-me partilhar de uma intimidade da sua vida que era ao mesmo
tempo verdadeira e falsa. Verdadeira, porque havia um universo mental, uma
imaginação simbolizada, um trabalho que ele havia feito, mas no qual eu
penetrava abertamente. Torcia por personagens, discordava de soluções e
me dei até o direito de não gostar -muito- de um dos livros. Como diz Shakespeare,
a pena do poeta metamorfoseia objetos desconhecidos criados pela imaginação
e determina-lhes uma moradia etérea e um nome 10.
Tudo isso nos chega através de palavras e frases que transformam nossa experiência
do mundo pela ação do trabalho dele tanto quanto do nosso. A nossa jovem
tradição ocidental costuma separar o trabalho do prazer e com isso perdemos
raras oportunidades de prazer. Mas, foi assim que trabalhei com a literatura,
ligando um livro ao outro, confrontando datas de publicação, datas de tradução,
nomes de tradutor, achando os temas, desenhando os personagens, buscando
resenhas sobre o autor, perguntando sobre ele, me fazendo também detetive,
saboreando esse saber e esse saber-fazer. Com muito prazer, impulsionada
por irrefreável desejo de saber, construí para mim uma metodologia de leitura
que prescindiu dos manuais, mas que foi possível pela lenta e cumulativa
aproximação e confiança na própria maneira de ler e no que lia. |
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Do ritmo conquistado,
luta e resistência, ao trabalho de prazer e ao direito ao prazer, que se
funda e se firma em valores de conforto, de desafogo, de bem estar 11.
Um texto, uma leitura que me faz saber capaz de qualquer coisa. Amar, odiar,
pensar, criar depois, enquanto. No entanto, por mais paradoxal que possa
parecer, a palavra de ordem que se impõe ao navegante que aporta a essa
praia é que seja excluída toda alusão e toda ilusão de um objetivo e de
uma destinação. Não sabemos nunca que autor, que escritor iremos encontrar
a cada livro, ele também não sabe que leitor irá produzir, e ao fim desses
dois desencontros dá-se o encontro do leitor consigo mesmo. Um insuspeitado
"...sigo" mesmo. Não é facil perder ilusões.
Mas gosto também de me perder
nos livros que leio e isso se chama fruição. "São textos que podem
desagradar-lhe, agredi-lo, mas que, pelo menos provisoriamente, num ápice,
o permutam, o transmutam ..." 12. Mais freqüentemente isso me acontece
com a poesia, talvez porque os romances e os ensaios, se exigem muito
de mim, eu os abandono. Do sorriso desdenhoso para os hai-kai para simplesmente
deixar que me desastabilizem... O reler constante de Camões, de Mallarmé
para, só de vez em quando, captar, como quem pesca, um verso. Tudo isso
pura fruição, oposição falsa ao prazer.
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13- PIGLIA, Ricardo. Respiração
Artificial. São Paulo, Iluminuras, 1987.
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Na leitura de "livros
de estudo", em geral ensaios, resultados de pesquisas históricas, pode,
também, haver muito prazer. A questão da narrativa, do relato, de como contar
aquilo que aconteceu, sempre sabendo que nunca será o que realmente aconteceu,
está presente nos textos de história. E podem - e a mim, sempre- colocar-nos
a trabalho. Não o trabalho oficial, de fichamento, resumo e coisas que tais,
mas o trabalho de criação, de conquista do saber, que vem, como já disse,
do amor do autor pelo seu trabalho e do nosso amor pelo autor e seu saber.
Onde está o saber ali está o amor. Um desses livros, recentemente, me pôs
a um trabalho árduo na minha própria área de pesquisa e ensino, mas trabalho
de muito prazer. Um romance produzindo o que quer ser um ensaio. O título
do livro é "Respiração Artificial". Seu autor, um argentino, chamado
Ricardo Piglia (13). Tudo começou quando me
deparei com o trecho que passo a ler, se vocês me permitirem: Esses papéis
do passado que guardo numa caixa são meu zoológico particular: ali estão
trancadas feras de tamanho reduzido: lagartos, ratos, serpentes de pele
fria. Basta abrir a tampa para vê-los moverem-se, minúsculos como as minúsculas
placas de gelo que navegam em meu sangue. No redil da história apascento
os animais da manada: alimento-os com a carne de meus próprios pensamentos.
(...) Esta noite, ao mergulhar a mão direita na caixa onde guardo meus papéis,
os animais subiram até meu antebraço, moviam as patinhas, as antenas, tentando
sair ao ar livre. Esses répteis, que se arrastam por minha pele cada vez
que resolvo mergulhar a mão no passado, provocam em mim uma infinita sensação
de repugnância, mas sei que o roçar escamoso de seus ventres, o contato
afiado de suas patas, é o preço que tenho que pagar toda vez que quero comprovar
quem fui. |
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Como
pode uma historiadora, apaixonada pela literatura, não se deixar fascinar,
deslumbrar mesmo, por um trecho como esse? O texto que escrevi a partir
da leitura que fiz... eu continuo a fazer... A primeira leitura de Respiração
Artificial foi um impacto. Leitura difícil, enredo fascinante. Oferece a
história, mas exige muito do leitor, que cresce ou fica do tamanho do papel.
Respiração Artificial exige erudição,e, também, inteligência (não como suposto
dom, mas como operação de deciframento e de interpretação): literatura;
filosofia; artes plásticas; música; história, historiografia. De uma página
posso citar um exemplo. Diz um personagem: Ouço uma música e não consigo
tocá-la, dizia, parece-me, Coleman Hawkins...(p.33), e eu, leitora, devo
lembrar-me de que Coleman Hawkins, foi um jazz-man, americano (1904-1969)
-sax-tenor- entre o clássico e o estímulo ao be-bop. Tudo está lá. Mas é
preciso que se saiba antes. O que é mais fantástico é que, para o texto
e para o seu autor, não faz a menor diferença,que eu saiba ou não. A história
continua fazendo sentido.
O trabalho a que me pôs o romance
começou assim: a partir do momento em que fiz, inteiramente ao acaso,
a primeira leitura, passei a usar o excerto que acabei de ler como epígrafe
de um artigo que publiquei e comecei a dizer, talvez um pouco abusadamente,
que aquele romance era um "verdadeiro manual de pesquisa histórica".
Senti-me então responsabilizada -e, claro, não precisamos de ninguém para
nos responsabilizar- a "provar" isso. Foi aí que comecei a escrever
o texto que reescrevo sem parar. A leitura remete à escritura, escancaradamente
ou disfarçadamente, numa ciranda em que também a escritura remete à leitura,
incessantemente. Quando digo "verdadeiro manual de pesquisa histórica",
não quero dizer que literatura e história se confundem, nem que se anulam
ou coisas tais que outras pessoas mais doutas já falaram e que eu, francamente,
às vezes, sequer compreendo muito bem. O que quero dizer, simplesmente,
é que se lermos, com atenção e vontade, esse romance, estaremos participando
de um processo de desvendamento de uma trama e que afinal, é isso que
se pede ao historiador, pois em muitos aspectos o trabalho do historiador
se assemelha ao do detetive, ao do perito de arte ou mesmo ao do psicanalista.
Pode ser que alguns -lido o livro- não se sintam tocados por ele. A mim,
à medida em que fui vendo serem construídas à minha frente, como se eu
mesma as construísse, frases do tipo "...escrevo porque os anos sedimentaram
minhas lembranças como uma borra e o passado transformou-se num velho
entrevado"(RA, p.21), o livro enredou-me a ponto de construir com
ele um diálogo historiográfico permanente. Um trabalho que era também
de criação e o texto que comecei a escrever a partir daí tinha por objetivo
exercitar uma prova.
Prova é uma palavra polissêmica
e está presente em diversos campos do conhecimento e do fazer; na astronomia,
fotografia; nas artes gráficas, no direito, na filosofia, na retórica.
É o ato ou aquilo que atesta a veracidade ou a autenticidade de alguma
coisa; o processo pelo qual se verifica a exatidão de um cálculo; a experiência
para se verificar se uma roupa se ajusta bem ao corpo; é um exame, um
concurso; uma competição; a experiência, o ensaio; mas é também a degustação
no ato de comer ou beber8 e prova é provação (em situação aflitiva ou
penosa). Depois de passear pelos significados de prova, exercitei uma
prova. Poderia dizer, outramente (perdão para o galicismo, mas esta é,
exatamente, a palavra de que preciso), com o próprio autor Ricardo Piglia,
que expõe o que é isso, que tentei expor o que é aprender a pensar cruamente
(p.54). Pensar articuladamente, sempre acreditando que cada idéia faz
parte de um texto em sua inteireza, mas é também um fragmento que pode
permitir-me compor outros textos, permite compor com outros textos. A
maneira como fui compondo o tal texto não foi linear. Pudesse o computador
ter, entre suas estatísticas, quantas vezes fui e voltei a uma frase ou
a uma idéia e eu mesma me espantaria. É certo que um pouco mais de disciplina
teria dado mais consistência e clareza ao que compus, mas não tive tempo
para ter disciplina. Em todo caso, para Piglia mesmo, "Escrever é
sobretudo corrigir, não acredito que se possa separar uma coisa da outra.
(...) A gente faz um esforço para se colocar no lugar de uma espécie de
leitor perfeito, capaz de detectar todas as falhas e os nós do textos,
e tenta ler o que escreveu como se fosse de outro. Nesse sentido a revisão
é uma leitura tão utópica e tão interminável quanto a própria escrita.
(LdoE p.84). Em uma entrevista, Ricardo Piglia diz que foi fazer o curso
de história porque queria ser escritor e pensava (ele acha que com razão)
que se estudasse Letras ia ser difícil continuar interessado em literatura.
Pelo que se vê, para um escritor, ficcionista, não se faz história inutilmente.
Onde há a lembrança, o passado,
a memória, a imaginação, a interpretação, aí está o desafio para se contar
alguma coisa, aí está literatura e aí está a história. Não no mesmo lugar.
Aí estão o saber e o prazer. No mesmo lugar.
Belo Horizonte, 10 de dezembro de 1995.
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