Literatura Infantil (1880-1910)
II. NA ESTRADA DE FERRO
Às seis e meia, partiu o trem, – e lá se foram os dois, num carro de segunda classe, muito juntos, – e abatidos, não só pela aflição que levavam consigo, como pela fadiga daquela noite de vigília.
Era uma linda manhã de Setembro, fresca e radiante. Alfredo, que ia junto à janela, começou a olhar a paisagem, e entrou em breve, com a sua curiosidade de criança, já um pouco esquecido do desgosto que o oprimia, a interessar-se por aquele espetáculo que nunca vira. Nunca viajara em estrada de ferro, e tudo aquilo era novo para os seus olhos e para a sua inteligência. Mudo e pasmado de admiração, contemplava o sol que nascera de nuvens de fogo, e o céu azul, e as árvores orvalhadas, e os imensos campos aqui e ali cobertos de neblina.
— Oh! Carlos! que beleza! mas só vejo campos e matas... Onde está o mar?
— O mar ficou lá atrás; – respondeu o irmão – nós nos vamos afastando dele.
— E que é aquilo ao longe, aquela altura?
— E’ uma serra.
Alfredo não se cansava de contemplar a montanha, que apenas vagamente se desenhava ao longe, com uma cor verde, quase azul esfumada.
O trem ia devagar, subindo uma rampa. uma volta, o pequeno olhou para a frente, e viu a locomotiva que ia bufando, num esforço, expelindo pela chaminé grossas baforadas de uma fumaça muito branca, listada de faixas mais escuras.
![]() |
|
Vista
do porto do Recife, formado pela muralha natural dos arrecifes, sobre
a qual está o Forte de Brum
|
Pobre Alfredo! estava embebido nessa contemplação, quando sentiu dentro de um dos olhos um argueiro, um pedacinho de carvão da máquina. Com a dor, o pequeno fechou os olhos e correu para o irmão, que estava em um dos outros bancos do carro; mas, infeliz, pisou, em cheio sobre um embrulho que estava no chão. Era a matalotagem de um passageiro que dormia. Com o ruído, o homem acordou, e, vendo o embrulho machucado, levantou-se furioso contra o menino. Alfredo desculpou-se; mas o bruto a nada atendia, nem às explicações de Carlos, que, vindo em socorro do irmão, mostrava a causa de sua queda. O pequeno de fato, tinha um dos olhos vermelho e lacrimejante... Em vão! o homem esbravejava, e dispunha-se a espancar os meninos, quando um outro passageiro interveio:
— Hem! bater nesses dois pirralhos?! Você não se envergonha de dizer tal cousa, homem? Você, um homem forte, a fazer-se de valente para duas crianças!
A esse protesto juntaram-se logo os dos outros viajantes, – e o malcriado, corrido de vergonha, foi outra vez encafuar-se no seu canto.
O interessante foi que, com o episódio da altercação, Alfredo esqueceu o argueiro,e, quando pensou nele, já não o sentiu.
O trem parou. Era hora do almoço. Enquanto os viajantes saíam, e iam ao restaurante da estação, Carlos desembrulhou dois pedaços de pão, com uma fatia de carne cada um, – que comprara antes de tomar o trem.
Alfredo, sempre curioso, enquanto mordia o pão e a carne, não tirava os olhos da casinhola da estação, do movimento da gente, da montanha que já aparecia mais perto, dos grandes blocos de pedra que se amontoavam à margem da estrada, do carvão que os carregadores levavam para a máquina. Mais longe, estendiam-se vales cobertos de matos e campos imensos e ondeados, tapetados de um curto capim verde-amarelo. E Alfredo admirava os bois que pastavam, fartando-se no capim, e com os grossos cachaços reluzindo ao sol.
Soou o apito, e o trem pôs-se de novo em movimento.