O Bilontra

 

QUADRO XVI

 

CENA IV

 

FAUSTINO, depois a OCIOSIDADE, depois o TRABALHO

 

FAUSTINO – O júri absolveu-me: estou livre... Escapei arranhando; por uma atenuante que não está no código: porque tive graça... Embora! de hoje em diante procurarei reabilitar-me... Ao sair do júri, encontrei na Praça da Aclamação o Trabalho, que conduzia uma carroça. Desta vez fui eu quem lhe disse: – Um momento! – Aproximei-me dele, e pedi-lhe que me valesse. Prometeu-me tudo, sob uma condição: a de vir pedir ao Comendador que me perdoasse. Eu também sinto que, sem o seu perdão, não poderei resgatar o meu passado. Quando não seja resgatá-lo completamente, ao menos pagar o prémio e reformar a cautela... Maldita Jogatina! Ainda agora passei por ela: lançou-me um olhar de soberano desdém. Pudera! A sua obra está consumada.

OCIOSIDADE (Entrando.) – Faustino!

FAUSTINO – TU?! Some-te da minha presença, mulher maldita!

OCIOSIDADE – Vem comigo, e ainda serás feliz!

FAUSTINO – O mesmo já me prometeste um dia... Some-te!

OCIOSIDADE – Vem!

FAUSTINO – Não! (Estabelece-se  uma luta entre os dois.)

TRABALHO (Entrando e repelindo a Ociosidade.) – Para trás!

OCIOSIDADE – Ainda desta vez hei de vencer!

TRABALHO – Para trás! (A Faustino, que se lhe atira nos braços). Estás salvo! Só nos braços do Trabalho encontrarás a regeneração.

FAUSTINO– Obrigado.

TRABALHO (Descendo ao proscênio)

 

Do imortal Vitor Hugo, encarnação da Arte,

O majestoso vultou encheu da Glória o templo;

Ociosidade vil e estúpida, mostra-te

Eu quero do Trabalho este sublime exemplo

 

O truculento Homero, o singular Virgílio,

E os mais que a glória são da velha Humanidade,

Lá no divino, eterno e luminosos exílio

Honram-se de acolher o fúlgido confrade.

 

Vítor Hugo deixou no coração dos povos

Um largo e longo sulco astrífero e profundo;

Os grandes livros seus, eternamente novos,

São legados em França e dádivas no mundo.

 

Por berço teve a França estremecida sua,

Porém por pátria universal, imensa;

Foi patrício de todo aquele que possua

Um coração que bate e um cérebro que pensa!

 

(Aponta para o fundo. Mutação)

 

 

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