FAUSTINO, depois a OCIOSIDADE, depois o TRABALHO
FAUSTINO – O júri absolveu-me: estou livre...
Escapei arranhando; por uma atenuante que não está no código: porque tive
graça... Embora! de hoje em diante procurarei reabilitar-me... Ao sair do júri,
encontrei na Praça da Aclamação o Trabalho, que conduzia uma carroça. Desta vez
fui eu quem lhe disse: – Um momento! – Aproximei-me dele, e pedi-lhe que me
valesse. Prometeu-me tudo, sob uma condição: a de vir pedir ao Comendador que
me perdoasse. Eu também sinto que, sem o seu perdão, não poderei resgatar o meu
passado. Quando não seja resgatá-lo completamente, ao menos pagar o prémio e
reformar a cautela... Maldita Jogatina! Ainda agora passei por ela: lançou-me
um olhar de soberano desdém. Pudera! A sua obra está consumada.
OCIOSIDADE (Entrando.) – Faustino!
FAUSTINO – TU?! Some-te da minha presença, mulher
maldita!
OCIOSIDADE – Vem comigo, e ainda serás feliz!
FAUSTINO – O mesmo já me prometeste um dia...
Some-te!
OCIOSIDADE – Vem!
FAUSTINO – Não! (Estabelece-se uma luta entre os dois.)
TRABALHO (Entrando e repelindo a
Ociosidade.) – Para
trás!
OCIOSIDADE – Ainda desta vez hei de vencer!
TRABALHO – Para trás! (A Faustino, que se
lhe atira nos braços).
Estás salvo! Só nos braços do Trabalho encontrarás a regeneração.
FAUSTINO– Obrigado.
TRABALHO (Descendo ao proscênio) –
Do imortal Vitor
Hugo, encarnação da Arte,
O majestoso vultou encheu da Glória o templo;
Ociosidade vil e estúpida, mostra-te
Eu quero do Trabalho este sublime exemplo
O truculento Homero, o singular Virgílio,
E os mais que a glória são da velha Humanidade,
Lá no divino, eterno e luminosos exílio
Honram-se de acolher o fúlgido confrade.
Vítor Hugo deixou no coração dos povos
Um largo e longo sulco astrífero e profundo;
Os grandes livros seus, eternamente novos,
São legados em França e dádivas no mundo.
Por berço teve a França estremecida sua,
Porém por pátria universal, imensa;
Foi patrício de todo aquele que possua
Um coração que bate e um cérebro que pensa!
(Aponta para o fundo. Mutação)