Salão de fantasia.
Brasil, depois Folha Nova
BRASIL (Entrando.) – Aí vem ela, a minha adorada Folha Nova! Ainda bem que poderei vê-la uma vez ao menos antes de morrer. Corre, corre a meus braços, querida Folha Nova!
FOLHA NOVA (Entrando e lançando-se nos braços do Brasil.) – Ó meu querido Brasil!
BRASIL – Como somos infelizes! Amamo-nos como nunca duas folhas públicas se amaram... Tudo nos aproximará um do outro; entretanto...
FOLHA NOVA – Entretanto, feridos de morte por esta terrível moléstia causada pelo desfavor público, temos ambos o pé na sepultura.
BRASIL – Mas não! morrer de pindaíba será uma vergonha!
FOLHA NOVA – Ora se...
BRASIL – Essa medonha enfermidade não nos matará!
FOLHA NOVA - Como evita-lo?
BRASIL – Suicidando-nos.
FOLHA NOVA – O suicídio?...
BRASIL – O suicídio, sim! Unir-nos-emos no seio da morte, já que no seio da vida não nos foi dado faze-lo.
FOLHA NOVA –Dizes bem, morramos; mas de que meio lançaremos mão?
BRASIL – Com certeza não será do meio circulante.
FOLHA NOVA – E muito menos de um meio de vida.
BRASIL (Tirando uns jornais) – Vês isto?
FOLHA NOVA – Que vem a ser?
BRASIL – Leiamos os nossos artigos de fundo. Não há suicídio menos doloroso.
FOLHA NOVA – Lembras bem; sirvamo-nos da prata da casa.
BRASIL – Pobre Folha Nova! quem diria que chegavas a ser uma folha velha!
FOLHA NOVA – Pobre Brasil! quem diria que não chegarias a fazer a tua independência!
BRASIL – Morir si pura e bella!...
FOLHA NOVA – Assim é preciso.
BRASIL – Adeus, retórica política!
FOLHA NOVA – Adeus, violino!
BRASIL – Adeus, mundo elegante!
FOLHA NOVA – Adieu, choses du jour!
BRASIL (Com resolução.) – Sentemo-nos!
FOLHA NOVA – Onde? Não há cadeiras...
BRASIL – No chão... assim.. (Sentam-se ambos.) Toma lá um artigo de fundo meu... lerei um teu...
FOLHA NOVA – Leiamos. (Musica
em surdina na orquestra. Começam ambos a ler os artigos, de modo que os
espectadores não percebem o que eles dizem. A voz vai-se-lhes a pouco e pouco
enfraquecendo.)
BRASIL (Interrompendo a leitura) – Já?
FOLHA NOVA – Ora se ... E tu?
BRASIL – É agora... (Continuam
a ler. Caem ao lado um do outro, resmungando sempre, até que se lhes extingue
a voz. Soltam os jornais das mãos, deixam prender os braços e expiram.)