O Bilontra

 

 

QUADRO XIV

 

Salão de fantasia.

 

CENA I

 

Brasil, depois Folha Nova

 

BRASIL (Entrando.) – Aí vem ela, a minha adorada Folha Nova! Ainda bem que poderei vê-la uma vez ao menos antes de morrer. Corre, corre a meus braços, querida Folha Nova!

FOLHA NOVA (Entrando e lançando-se nos braços do Brasil.) – Ó meu querido Brasil!

BRASIL – Como somos infelizes! Amamo-nos como nunca duas folhas públicas se amaram... Tudo nos aproximará um do outro; entretanto...

FOLHA NOVA – Entretanto, feridos de morte por esta terrível moléstia causada pelo desfavor público, temos ambos o pé na sepultura.

BRASIL – Mas não! morrer de pindaíba será uma vergonha!

FOLHA NOVA – Ora se...

BRASIL – Essa medonha enfermidade não nos matará!

FOLHA NOVA - Como evita-lo?

BRASIL – Suicidando-nos.

FOLHA NOVA – O suicídio?...

BRASIL – O suicídio, sim! Unir-nos-emos no seio da morte, já que no seio da vida não nos foi dado faze-lo.

FOLHA NOVA –Dizes bem, morramos; mas de que meio lançaremos mão?

BRASIL – Com certeza não será do meio circulante.

FOLHA NOVA – E muito menos de um meio de vida.

BRASIL (Tirando uns jornais)  – Vês isto?

FOLHA NOVA – Que vem a ser?

BRASIL – Leiamos os nossos artigos de fundo. Não há suicídio menos doloroso.

FOLHA NOVA – Lembras bem; sirvamo-nos da prata da casa.

BRASIL – Pobre Folha Nova! quem diria que chegavas a ser uma folha velha!

FOLHA NOVA – Pobre Brasil! quem diria que não chegarias a fazer a tua independência!

BRASIL – Morir si pura e bella!...

FOLHA NOVA – Assim é preciso.

BRASIL – Adeus, retórica política!

FOLHA NOVA – Adeus, violino!

BRASIL – Adeus, mundo elegante!

FOLHA NOVA – Adieu, choses du jour!

BRASIL (Com resolução.) – Sentemo-nos!

FOLHA NOVA – Onde? Não há cadeiras...

BRASIL – No chão... assim.. (Sentam-se ambos.) Toma lá um artigo de fundo meu... lerei um teu...

FOLHA NOVA – Leiamos. (Musica em surdina na orquestra. Começam ambos a ler os artigos, de modo que os espectadores não percebem o que eles dizem. A voz vai-se-lhes a pouco e pouco enfraquecendo.)

BRASIL (Interrompendo a leitura) – Já?

FOLHA NOVA – Ora se ... E tu?

BRASIL – É agora... (Continuam a ler. Caem ao lado um do outro, resmungando sempre, até que se lhes extingue a voz. Soltam os jornais das mãos, deixam prender os braços e expiram.)

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