Folclore • Turismo • Tradição • Modernidade

18 a 22 de junho de 2002

São Luís - Maranhão

10º Congresso Brasileiro de Folclore

 

Abertura

Bráulio do Nascimento - presidente de Honra da Comissão Nacional de Folclore

Conferência

Celso de Magalhães: pioneiro dos estudos de cultura popular no Brasil

O autor focaliza o pioneirismo e importância dos estudos de Celso de Magalhães sobre a cultura popular brasileira, no século XIX em uma série "A Poesia Popular Brasileira", publicada no jornal "O Trabalho" do Recife, no período de 15 de Abril a 20 de Setembro de 1873. Destaca as pesquisas de Celso Magalhães sobre diversas manifestações folclóricas, especialmente sobre literatura oral, trazida pelos portugueses. Ele inaugura a pesquisa e estudo da poesia popular, segundo uma metodologia que se afirma nos trabalhos das gerações posteriores, pelo caráter de objetividade e respeito à produção simbólica popular, analisando as transformações operadas na adaptação à cultura brasileira.

Ao final de cada jornada de trabalho, congressistas e participantes tinham o privilégio de apreciar manifestações tradicionais do Maranhão, programadas exclusivamente para o congresso, alem da possibilidade de visitar os "arraiais" que nessa época tomam os quatro cantos do Maranhão e conhecer mais sobre o Folclore Maranhense.

Cazumbás do Boi Capricho do Bom Jesus

 

 

 

Teresinha Jansem e Boi da Fé em Deus

 

Boi da Fé em Deus, com a apresentação do grupo

 

 

Tambor de Crioula Prazer de São Benedito, de Apolônio Melônio

 

Boi da Fé em Deus

 

 

 

Bumba meu Boi de Costa de Mão da Vila Conceição - Coroadinho

 

Transporte dos instrumentos do Tambor de Crioula de Alcantara – MA

 

 

 

 

Alcantara – MA Tambor de Crioula

 

Alcântara - MA

 

Tambor de Crioula do Bairro Alemanha

 

Boi de Palha – São Luiz do Maranhão

 

Aquecimento dos Couros dos tambores

 

 

Cortejo do Divino Espírito Santo de Alcântara/MA

 

Dona Teté – Cacuriá de Dona Teté

 

Dançarinos do Cacuriá de Dona Teté


 

10º Congresso Brasileiro de Folclore

RESUMOS DOS TRABALHOS APRESENTADOS

Conferências

Folclore, turismo e mídia: tradição e modernidade

Francisca Ester de Sá Marques - professora do Curso de Comunicação da UFMA; Doutoranda em Ciências da Comunicação, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova Lisboa.

As relações que envolvem o folclore e o turismo a partir das representações que estes termos mantêm com a tradição e a modernidade, verificando como e porque são disseminados na mídia é a intenção do texto. A análise pretende abordar os vários pontos de tensão que envolve a discussão na contemporaneidade e verificar as relações de complementaridade que, de vez em quando, ocorrem quando o folclore e o turismo são confrontados com a visibilidade midiática.

A Evolução dos Conceitos de Folclore e Cultura Popular

Cáscia Frade - professora Adjunta da UERJ; Doutora em Antropologia da Educação

Esta conferência pretende abordar a problemática que envolve a questão conceitual, através de um viés histórico. Considerando que o folclore/cultura popular não ocorre à margem da sociedade mais ampla, percebe-se que os entendimentos em torno dessa situação da cultura foram sendo construídos ao longo do tempo e resultam de um jogo de ações e reações que perpassa todos os fatos sociais.

Feito à Mão: uma discussão sobre artesanato e arte popular

Gilmar de Carvalho - professor do Curso de Comunicação Social da UFC; Doutor em Comunicação e Semiótica

A importância da tradição e dos ofícios. O artesanal em tempos de globalização. O utilitarismo e a estética. Importância econômica do artesanato no contexto nordestino. O imprevisto do serial: um toque pessoal em cada peça. A arte popular como desafio da criação. A tradição como desencadeador do contemporâneo. Matrizes populares do design: recriação.

 

 

Mesas Redondas

 

Relações entre Folclore e Turismo

Preservação e Sustentabilidade do Folclore

Maria do Socorro Araújo - Professora Mestre do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA

Este artigo aborda a questão da preservação e sustentabilidade do folclore. Destaca o bumba-meu-boi do Maranhão, supondo-se que tal manifestação tenha surgido no século XVIII, e consegue manter-se vivo, forte e vibrante até os nossos dias. Enfatiza a preservação como um processo dinâmico de valorização das criações e recriação de experiências. Tal reflexão busca destacar que o preservar das manifestações populares deve estar baseado na proposta de sustentabilidade, onde é necessário estimular ações criando instrumentos de construção de uma consciência coletiva cultural e ambiental.

O trato da relação Turismo versus Folclore

Eliomar Mazzoco - licenciado em História; profissional de Marketing Político; presidente da Comissão Espirito-Santense de Folclore.

A relação Turismo versus Folclore é abordada na perspectiva econômica. Para o turismo, o folclore é uma forma de agregar valor à sua função produtiva, quase sempre sem linhas de financiamento e sem qualquer outro apoio às manifestações folclóricas. A exploração do folclore pelo turismo contempla ainda a imposição de transformações nas práticas tradicionais, visando a sua espetacularização, para tornar a manifestação folclórica atraente ao consumo massivo. Mostra a experiência capixaba para contornar os prejuízos dessa relação, os caminhos a tomar para compatibilizar folclore e turismo fazendo deste uma fonte de renda com respeito e apoio à manutenção dos valores tradicionais.

Mídia e Folclore

As festas folclóricas como acontecimento midiático: reinventando a cultura nordestina

Osvaldo Meira Trigueiro - professor Adjunto do Departamento de Comunicação na Universidade Federal da Paraíba; membro da Comissão Paraibana de Folclore; pesquisador da Rede Brasileira de Folkcomunicação.

O objetivo deste trabalho é apresentar e analisar algumas festas populares que nos últimos anos vêm se transformando em acontecimentos midiáticos, entre elas as festas do ciclo junino, do carnaval e as vaquejadas no interior do Nordeste, em especial, na Paraíba. Nos anos 70, com os avanços das novas tecnologias da comunicação e a implementação das grandes redes de radiodifusão de alcance internacional e nacional, passou-se a ter uma preocupação com o sistema de mundialização/globalização da informação midiática e com a hegemonia cultural. É inegável que nesse período houve uma expansão planetária, difundida pelo rádio e televisão, no modo de vestir, de ouvir as mesmas músicas, assistir os mesmos filmes e comer os hambúrgueres da McDonald´s e as Pizzas Hut. Mas, a partir dos últimos anos da década de 80, começa a ser posta em dúvida a tão apregoada hegemonia cultural. Com a globalização cultural emergem novas identidades nacionais, regionais e locais agora com novas clivagens. Vê-se atualmente o ressurgimento das culturas populares com algumas de suas características locais modificadas para atender o novo mercado de consumo de bens simbólicos do mundo globalizado pelos meios de comunicação, da informação e do turismo. É nesse processo de apropriação e negociação das manifestações folclóricas, distribuídas em diferentes redes de comunicação do global e do local, que podemos afirmar que a globalização não chega para eliminar a cultura local. Na realidade são processos de interação dos diferentes campos de comunicação dando novos formatos às identidades culturais. É uma negociação de cumplicidade entre a tradição e a modernidade. É nesse sentido que estudamos as festas populares no nordeste do Brasil.

 

Folclore na mídia ainda é coisa rara

Lena Frias - membro da Comissão Fluminense de Folclore.

A mídia brasileira - escrita, falada ou de televisão - não é generosa com as manifestações da cultura popular. Raramente as festas folclóricas e a produção cultural do povo conseguem espaços de divulgação. Há exceções, mas, de modo geral, a mídia trata do folclore como assunto menor ou, no máximo, como uma curiosidade, um exotismo. Não é assunto prioritário, não é matéria do cotidiano, o que reflete uma evidente carência de auto-estima quanto aos nossos valores de raiz, considerando que folclore é matriz de identidade. O jornalismo dos segundos cadernos, os chamados "cadernos culturais", centram-se hoje, principalmente, no entretenimento e no lazer passageiro. Não há interesse no folclore. Para o jornalismo dos cadernos especiais, de natureza literária, folclore soa como "baixa cultura". Mas, apesar das dificuldades, os jornalistas especializados em cultura brasileira precisam continuar insistindo em abrir espaços para o País mostrar-se através do seu folclore.

Espetacularização da cultura e refuncionalidade dos grupos folclóricos

Roberto Benjamin - presidente da Comissão Nacional de Folclore.

Os órgãos de Governo e particulares da comunicação de massa e do turismo estão se apropriando de rituais comunitários, alguns dos quais de natureza religiosa e outros espetáculos dirigidos aos públicos tradicionais, para convertê-los em espetáculos de massa, aproveitando-se da condição de pobreza e mesmo de miserabilidade dos integrantes dos grupos tradicionais. Aparentemente, tais apresentações podem ser consideradas propícias à divulgação e à preservação da cultura popular. No fundo, entretanto, estão estabelecendo a dependência das apresentações ao modelo encomendado pelos órgãos promotores, que privilegiam os aspectos visuais do espetáculo, em detrimento da diversidade musical, coreográfica e cenográfica da tradição. Além do mais, quando se trata de rituais e não de espetáculos, há uma evidente mudança de função, da mítico-religiosa para uma função exclusivamente de espetacularização.

Práticas Culturais e o Cotidiano

Essa mesa se divide em dois momentos: o primeiro, "Folclore, educação e cidadania" tratam do cotidiano escolar e as práticas folclóricas, discutindo a gênese da instituição escolar e seu caráter erudito, em detrimento a realidade multicultural dos atores escolares, quais sejam professores, alunos e pais. Depois são apresentados depoimentos com o título: "Experiência e transmissão do saber popular", por Zelinda Lima – pesquisadora sobre culinária e medicina popular, Terezinha Jansen(Boi da Fé em Deus), Humberto Barbosa Mendes(Boi do Maracanã), Euclides Menezes Ferreira (Casa Fanti Ashanti), Luís Antonio Barreto(Comissão Sergipana de Folclore) e Reginaldo Barbosa Salles (Congo de Vitória no Espírito Santo). O objetivo é a narração da transmissão do saber popular, discutindo os meios dessa transmissão: a memória oral, a experiência e o exemplo vivenciado.

 

Relato de experiência de uma vida de devoção, folguedos e danças

Reginaldo Barbosa Salles.

Relato de experiência - de uma vida de devoção, folguedos e danças - na obtenção dos meios e na manutenção do entusiasmo entre os brincantes dos festejos de São Benedito, na cidade de Vitória (ES). Da puxada e fincada do mastro e da procissão até a criação da consciência de classe entre os portadores das bandas de congo.

O fato folclórico: sobrevivência e renovação

Luiz Antônio Barreto - filósofo, escritor, folclorista; presidente da Comissão Sergipana de Folclore

Não sendo um fóssil, restrito ao passado, o fato folclórico sobrevive e se renova na cultura popular que permeia o cotidiano. A sobrevivência e os novos direcionamentos do fato folclórico.

De Légua a Barba Soeira: os caminhos da encantaria

Yeda Pessoa de Castro – Dra. em Lingüística; UFBA

Uma das conseqüências mais diretas do tráfico negreiro foi o confronto das práticas religiosas africanas com o cristianismo que, no Brasil, veio ao encontro das crenças nativas. Ao longo dos séculos, esse processo de interação e superposição etnoreligiosa e cultural ocorreu em variados graus de aceitação e resistência até a configuração das religiões afro-brasileiras nascidas na escravidão. Entre elas, a Encantaria de Barba Soeira na cidade maranhense de Codó, onde se preserva o culto ao vodum Legba, trazido para o Brasil pelos povos de língua gbe do Golfo do Benin. Essa trajetória traçada com base nas evidências lingüísticas que se encontram na documentação escrita e na tradição oral, a partir das anotações de Costa Peixoto em A língua geral de mina, no século XVIII, de dados de pesquisas de campo que realizamos no Benin nos anos 80 e, atualmente, nas informações etnográficas contidas no conjunto da obra de Mundicarmo Ferretti.

 

A memória nos rituais de candomblé: um estudo descritivo de ritual mortuário em dois terreiros da Bahia

Hyppolyte Brice Sogbossi – Dr. em Lingüística; Doutorando em Antropologia no Museu Nacional

O trabalho propõe-se a descrever e analisar uma cerimônia mortuária denominada axêxê entre os grupo Nagô e Ketu e zenli, entre os Jêje, na Bahia. Os terreiros escolhidos são o Bogum, do Bairro de Engenho Velho da Federação, e o Axé Opô Afonja, de São Gonçalo do Retiro. Trata-se, no primeiro caso, da análise de informações a partir da observação de momentos dos ritos consagrados à falecida mãe-de-santo Nicinha e, no segundo, para o escritor Jorge Amado. Ambas cerimônias em 2001. A partir de trabalhos sobre a morte e seus ritos em comunidades de origem africana nas Américas, o autor apresenta questões relativas ao processo ritual e o problema do espaço como marcador dos limites entre o sagrado e o profano.

 

BATUQUE JÊJE-IJEXÁ EM PORTO ALEGRE: CONSIDERAÇÕES INICIAIS AO ESTUDO DA MÚSICA, MITO E RITUAL

Reginaldo Gil Braga - Doutorando na UFRGS

De modo geral, distingue-se nas religiões afro-brasileiras a interferência e a primazia da música sobre as demais expressões simbólicas como: a dança, gestos, comidas etc. A partir de uma observação mais detalhada, desvenda-se uma estruturada rede de relações musicais que permitem a ligação entre o mundo dos humanos e dos orixás, pela influência catalisadora que a música desempenha. As evidências, colhidas através da terminologia êmica associada às evidências observáveis e aos contextos interpretativos revelados, permitem afirmar que a inserção dos diferentes tipos de cantigas ou axés (segundo o povo de nação), no decorrer dos rituais, realizam a ligação com os mitos da herança africana através do transe. A música desempenha uma função mediadora na recuperação desses mitos ao figurar em momentos específicos dos rituais e por evocar acontecimentos e características individuais dos orixás, bem como as relações míticas entre eles revividas nas chamadas festas.

 

O mito e os ritos de Dom Sebastião no Tambor de Mina e no Bumba-meu-boi do Maranhão

Sergio F. Ferretti - Dr. em Antropologia; UFMA

O mito do touro encantado de Dom Sebastião, trazido pelos colonizadores e difundido por pescadores da ilha dos Lençóis é atualizado em rituais do catolicismo popular, do tambor de mina, da pajelança bem como na manifestação folclórica do bumba-meu-boi do Maranhão. Divulgado pela mídia, por estudiosos e por outros meios, a força do touro encantado continua atuante no sincretismo religioso e na cultura popular, como pode ser constatado em cânticos de terreiros de tambor de mina e em toadas de bumba-meu-boi.

TAMBOR DE CURADOR - PAJELANÇA DE NEGRO

Mundicarmo M. R. Ferretti - Dra. em Antropologia; UEMA

A existência de pajelança em terreiros de afro-descendentes é algo muito antigo no Maranhão e tem suscitado diversas interpretações entre pesquisadores e pais-de-santo. Embora a palavra pajé seja de origem tupi e na pajelança de terreiro se faça uso de alguns procedimentos adotados por pajés indígenas, desde a primeira metade do Século XIX a pajelança é praticada no Maranhão por populações negras. Em 1876 era encarada na capital, pelas autoridades e pela elite local, como uma nova religião e, em 1878, era praticada no quilombo de Limoeiro, onde as relações entre negros e índios não eram sempre amistosas. Nesse trabalho pretendemos levantar algumas questões sobre a presença da pajelança em terreiros de religião afro-brasileira do Maranhão, apontar algumas de suas características e examinar formas observadas de intercessão ou de integração dessa pajelança com o tambor de mina.

Um Encontro na Encantaria

Anaíza Vergolino-Henry - Departamento de Antropologia/UFPA; MS em Antropologia

A comunicação focaliza a inauguração do "Monumental Místico Rei Sabá", que a Prefeitura Municipal de São João de Pirabas (PA) inaugurou na ilha de Fortaleza, em frente ao oceano Atlântico, em torno de uma pedra de contorno antropomorfo ali existente desde tempos imemoriais e que é conhecida como "a pedra do Rei Sabá". A partir do registro do evento analisam-se as relações existentes entre os visitantes e o sítio geográfico, e entre a figura do encantado nobre (Rei Sebastião), e o orixá africano (Iemanjá), e as personagens da Mina maranhense e paraense tais como José Raimundo, Jarina e Mariana, cujos "vultos" (imagens) foram ali entronizados no dia 20 de janeiro de 2002.

MOVIMENTO SAGRADO: A DANÇA NOS CULTOS AFRO-BRASILEIROS DE NATAL/RN

Rafaela Meneses Ramos - Estudante de Ciências Sociais/UFRN

Dentro do universo religioso afro-brasileiro dos terreiros de Natal, a dança aparece como parte integrante, condicionante e determinante de alguns rituais. É ela que aproxima as divindades e entidades espirituais de seus "filhos" ou "cavalos" enquanto estes dançam, mostrando a união dos mundos natural e sobrenatural. Somos levados a crer que, quando os médiuns dançam, constitui-se num instante de concentração e preparação do corpo para receber o espírito. Após o êxtase, a dança se faz ainda mais forte, pois, ao invés dos médiuns, quem agora dança são as divindades, cujas apresentações contam suas histórias míticas (orixás) ou representam a miscigenação brasileira, a partir de ícones de referência da cultura popular (mestres, ciganas, pretos-velhos etc.). A dança deve ser vista não como uma simples ação, mecânica e obrigatória, mas como uma via de comunicação sagrada entre os deuses e os fiéis. Da mesma forma, pensamos na importância atribuída à dança por meio de uma inversão dos papéis sociais e sexuais; no momento em que se dança e entra em transe, assume-se uma outra personalidade, cujo status momentâneo - adquirido ou perdido - é condicionado pelo comportamento, traduzido nos movimentos, do santo ‘dono da cabeça’. A dança surge também como instrumento de controle: em algumas casas, homens não dançam como mulheres e, consequentemente, não recebem espíritos femininos. Assim, evitam o rompimento com os valores da sociedade.

A matintaperera e o pajé: sedução e feitiçaria na pajelança cabocla (nordeste do Pará)

Gisela Macambira Villacorta - Departamento de Antropologia/UFPA; MS em Antropologia

A matintaperera é uma crença muito forte na região do salgado (nordeste do Pará), que parece ser também bastante disseminada em outras áreas da Amazônia, sendo apresentada essa figura mitológica como a mais perigosa feiticeira que existe. É possível encontrar uma variedade de relatos sobre esse mito que compõe o universo folclórico amazônico. Neste sentido, este trabalho busca analisar os relatos colhidos em uma ilha de pescadores (Itapuá) sobre um exímio pajé que teria sido seduzido por uma matintaperera, não podendo mais realizar suas sessões de cura, pois estava enfeitiçado. Toda essa trama, que envolve o romance de um curador e uma matintaperera, desencadeia uma série de implicações em torno das práticas de pajelança entre os itapuaenses, já que o único pajé existente na localidade, estaria agora "enfeitiçado de amor".

 

OS OGÃS NA JUREMA DE ALHANDRA

Sandro Guimarães de Salles - Mestrando em Ciências Sociais / Antropologia na UFRN

A Jurema, também denominada Catimbó, consiste em um fenômeno religioso com origem nos índios do Nordeste Oriental. O município de Alhandra, localizado no Litoral Sul da Paraíba, é a referência maior desse culto em todo o Estado, sendo considerado o "berço da Jurema". Nos terreiros de Alhandra existem basicamente dois tipos de sessão de Jurema: a "Mesa" e o "Toque". Esse último, também chamado "Toré", surgiu com a expansão da Umbanda na região. Nessa sessão, os instrumentistas que tocam os "ilus", ou qualquer um dos instrumentos musicais utilizados, são denominados "ogãs". Os ilus, membranofones usados nos cultos afro-brasileiros dos estados de Pernambuco e Paraíba, são considerados sagrados, portanto só os ogãs da casa podem tocá-los. Nesse sentido, é necessário que esses tocadores estejam "limpos", o que implica, entre outras "obrigações", no "calçamento" das mãos na Jurema. O presente trabalho versa sobre o universo dos ogãs, seus rituais, seus papéis, suas formas de aprendizagem musical, situando-os dentro do contexto de reelaboração que perpassa todo o culto.


CONSIDERAÇÕES ACERCA DA PROPOSTA DE DESENVOLVIMENTO MEDIÚNICO NO TERREIRO JOÃO DA MATA, ANANINDEUA (PA)

Elna Dias - Mestranda em Antropologia na UNB

O presente estudo procura criar um canal de discussão sobre o processo de "desenvolvimento mediúnico" umbandista. O objetivo do trabalho é descrever e apresentar como se definem e vivem os atores sociais que participam desse rito. A descrição parte da pesquisa de campo realizada no terreiro de umbanda "Caboclo João da Mata", onde foram privilegiados o ritual e os depoimentos dos membros do terreiro. A discussão teve como referência à literatura de AUGRAS, LÉPINE, VERGOLINO E SILVA, BIRMAN, entre outros estudiosos dos fenômenos do transe e da possessão na religião dos orixás. Com este estudo concluímos que o "desenvolvimento" umbandista é um modelo novo, híbrido (afro/kardecista), mas que também busca dar conta da fórmula: "vários espíritos numa só cabeça" ou da dialética entre o duplo e a metamorfose, tensão estruturante do campo afro.

 

TAMBOR DE BORÁ: a representação do índio na mina maranhense

Jacira Pavão da Silva - Licenciada em História

Análise do tambor de borá no terreiro das Portas Verdes (São Luís - MA), ritual realizado com o objetivo de saudar as entidades espirituais indígenas (índios) que assumem caráter "selvagem" e que, por isso, não são recebidas constantemente nos terreiros maranhenses. Procura ver em que medida a visão do índio ali expressa reproduz a ideologia de documentos da historiografia oficial, de obras literárias e do folclore maranhense.


A reinterpretacão de Rituais Espíritas em Terreiros de Tambor de Mina

Marilande Martins Abreu - Estudante de Ciências Sociais/UFMA; PIBIC

O presente trabalho pretende analisar um ritual denominado Sessão de Mesa Branca em dois terreiros de Tambor de Mina: a Casa Deus é quem Guia (terreiro de Margarida Mota) e a Casa Fé, Esperança e Caridade (terreiro do Justino). Nesse ritual, diferentemente dos outros rituais, filhas-de-santo onde as filhas recebem encantados, recebe-se espíritos de mortos, como no Espiritismo Kardecista. Rituais espíritas foram incorporados às religiões de matriz africana como uma forma de embranquecer as religiões afro-brasileiras, como constataram alguns pesquisadores. Levantamos a hipótese de que esses dois tradicionais terreiros de Tambor de Mina, reinterpretaram um ritual oriundo do espiritismo de acordo com as necessidades do grupo.


TRANSE RELIGIOSO NO PROTESTANTISMO

Jacyara P. Lopes de Melo - Estudante de Ciências Sociais/UFMA; PIBIC

O transe geralmente é estudado em comunidades religiosas de negros e, por muito tempo, foi alvo de discriminações racistas que declaravam serem essas manifestações de êxtase e possessão apenas coisa de negros ou índios, ou seja, segundo os brancos, de "selvagem". Talvez, por essa concepção etnocêntrica, poucos estudos se fizeram na direção de perceber que o transe também é característico de religiões de brancos. O transe protestante manifesta-se; sobretudo, no pentecostalismo, religião protestante nascida no século XX, e no neopentecostalismo - vertente do pentecostalismo. Seus cultos giram em torno da prosperidade material, física e emocional/espiritual - que baseiam suas doutrinas no batismo do Espírito Santo. Este se caracteriza através do transe místico, ou seja, consoante Rolim (1987), o batismo do Espírito Santo é considerado como sendo o Espírito Santo se apossando do fiel, que tem como sinal exterior, principal, de sua presença, proferir palavras estranhas (glossolalia), ou pelo sapateado (espécie de marcha, onde a pessoa bate com os pés, no chão, com grande intensidade). Os estados de transe podem, consoante Lewis (1971), serem imediatamente induzidos na maioria das pessoas por uma série de estímulos, aplicados separadamente ou combinados, tais como: música, dança, jejum e outros. Realizando pesquisa bibliográfica, entrevistas e observação participante em igrejas pentecostais concluímos que o transe não pode ser explicado recorrendo-se a dados psicopatológicos, visto que ele constitui um traço cultural, normal e obrigatório entre os pentecostais e neopentecostais. É parte de um ritual religioso, onde o pastor, ou pessoa habilitada, em determinado momento do culto, impõe suas mãos na cabeça do fiel e ministra o batismo do Espírito Santo. Acontece de acordo, portanto, com um cerimonial que é controlado desde que aparece até seu término. É, portanto, na concepção durkheimiana, um fato social.

ENTRE OS SIGNIFICADOS DA ILHA ENCANTADA: RELAÇÕES DE PODER E CONSTRUÇÃO DO UNIVERSO RELIGIOSO AFRO-MARANHENSE

Álvaro Roberto Pires - Dr. em Ciências Sociais/Antropologia; UFMA

A presente comunicação parte do vôo rasante efetuado sobre a cidade de São Luís, catapultada recentemente à condição de Patrimônio da Humanidade, pela UNESCO, como novo enclave das festividades populares regionais, além da riqueza ostentada em seu conjunto histórico e arquitetônico. Nessa portentosa construção trava-se o embate de forças opostas, configuradas na cultura popular, representadas pelas manifestações do bumba-boi e tambor-de-crioula, cujas práticas trazem em seu bojo a relação entre profano/sagrado como elementos fundamentais da gênese cultural ludovicense. No âmbito das casas onde se abriga a religião afro-brasileira, pode-se perceber a disputa instaurada por melhores postos no universo afro-maranhense, o qual trará legitimidade, prestígio e reconhecimento perante a sociedade organizada. Nossa intenção é lançar luz sobre esse momento pelo qual passa a cultura da cidade de São Luís, compreendendo esta como o lócus privilegiado onde se abriga as manifestações da ordem do entretenimento quanto religiosa.

 

Os "Pajés" e a Política em Cururupu-Ma: uma outra forma de lidar com tradição, modernidade e poder

Daniela Cordovil - Mestranda em Antropologia na UNB

Este trabalho é um estudo a respeito da influência dos "pajés" na política e na vida pública da cidade de Cururupu-MA. O "pajé", em Cururupu, para se legitimar diante da comunidade, precisa provar-se capaz de "curar" o maior número de pessoas e torna público esse "dom" através da constituição de uma "irmandade": grupo de fiéis que se junta ao "pajé" para o ajudar na organização de suas "festas de santo". A "irmandade" apoia o "pajé" não só durante a festa, mas muitos de seus membros mostram-se dispostos a acompanhá-lo, inclusive, em suas escolhas políticas nas eleições municipais. Nesse sentido, o poder político dos "pajés" em Cururupu demonstra uma forma de interação entre instituições modernas - a política oficial - e tradicionais - a religiosidade popular.


RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA: aspectos e discriminação em São Luís nas décadas de 1920-30

Marcelino Silva Farias Filho - Estudante de Geografia/UEMA; PIBIC

As religiões afro-brasileiras em todo o seu processo de evolução histórica foram perseguidas e discriminadas por grande parcela da então população brasileira. Em São Luís, "a existência de casas de culto abertas por africanos e crioulos antes da abolição da escravidão, como a Casa das Minas e a Casa de Nagô, testemunham a resistência do negro" (FERRETTI, M.2000). Convivendo com uma população de negros superior à de brancos, São Luís, por possuir grande número de terreiros afro-brasileiros, foi palco de diversas situações onde a religião difundida nos mesmos foi, por várias vezes e ainda é, confundida, intencionalmente, com feitiçaria, sendo motivo de ação repressora de forças policiais. No Maranhão, ao contrário do que se observou no restante do país, "fala-se mais em perseguições policiais no início de século" (FERRETTI, M. 2000:169) do que com o advento do Estado Novo. Mesmo assim, a frequência de batidas policiais a terreiros e restrições aos mesmos, quando da realização de seus cultos em anos que antecederam esse momento político do Brasil, é relativamente grande. O presente trabalho pretende esclarecer esses episódios que fizeram parte da realidade maranhense, tendo em vista a importância de se conhecer, de maneira aprofundada, esse contexto.


AS FORÇAS DO ORORUBÁ: RITUAL, ETNICIDADE E ORGANIZAÇÃO POLÍTICA ENTRE OS XUKURU DO ORORUBÁ - PE

Estêvão Martins Palitot - Estudante de Ciências Sociais/UFPB

Neste artigo, abordamos a relação entre rituais religiosos, etnicidade e territorialização ao descrevermos as festas tradicionais dos Xukuru do Ororubá, povo indígena que vive em Pesqueira - PE. Os Xukuru costumam realizar seus rituais em dois espaços, cujo significado simbólico é muito importante para a sua construção enquanto grupo social: as matas da Pedra do Rei do Ororubá e a igreja da Vila de Cimbres. Há uma circularidade entre as comemorações realizadas nos dois locais, cada um representando marcos fundamentais para a história Xukuru. Se na Vila de Cimbres transparece a relação histórica com as terras do antigo aldeamento e com a santa padroeira, Nossa Senhora das Montanhas (Mãe Tamain); na Pedra do Rei do Ororubá estão materializados os recentes processos de organização política e luta pela terra, representados principalmente pelo túmulo do cacique Xicão, assassinado em 1998.


SESSÃO DE CURA OU PAJELANÇA NO TERREIRO DE MINA DE JOÃOZINHO DA VILA NOVA

Maria Ivana César de Oliveira - Estudante de Ciências Sociais/UFMA

O trabalho versa sobre uma das práticas de cura de males físicos e espirituais existentes no "Terreiro de Mina de Mamãe Oxum e Pai Oxalá", do conhecido pai-de-santo Joãozinho da Vila Nova. Esse terreiro, além de realizar muitas festas e rituais da religião afro-brasileira, tem uma grande clientela constituída por pessoas da ilha de São Luís, do interior do Maranhão e de outros estados brasileiros. Os clientes que procuram o terreiro passam primeiro por um "atendimento ambulatorial" com o pai-de-santo e depois são encaminhados por ele para tratamento nas diversas "linhas" da Casa, tais como: sessão de caboclo (mina), sessão astral (espírita) ou sessão de cura (pajelança). Após algumas considerações sobre a presença da pajelança em terreiros maranhenses e os problemas encaminhados e tratados por ela, faremos uma descrição de uma sessão de cura realizada no terreiro observado, procurando ver o seu papel terapêutico e a participação de pessoas em tratamento.

TRANSITO RELIGIOSO ENTRE PENTECOSTALISMO E RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA

Paulo Jéferson Pilar

Dentre as religiões populares, as pentecostais e as afro-brasileiras são algumas das saídas encontradas por boa parte da sociedade brasileira (maranhense) para a solução de seus variados problemas. Entretanto, por serem duas respostas diferentes que satisfazem às mesmas questões, é de se esperar que entre elas o movimento de seus adeptos seja quase que totalmente livre. Em Codó, onde as religiões de origem afro são característica, apesar do grande avanço das igrejas evangélicas, não é tão raro o trânsito religioso entre ambas, causados, entre outros fatores, principalmente pela insatisfação de seus adeptos com algumas doutrinas ou com a não resolução de seus problemas familiares, financeiros, amorosos etc. Mesmo que a conversão de pais-de-santo em igrejas evangélicas seja mais freqüente e seus adeptos afirmarem que o inverso nunca acontece, temos conhecimento de casos, em Codó, de atuais praticantes ou pais-de-santos que, antes de terem a cabeça feita, passaram por igrejas evangélicas. Dentre esses casos, analisaremos três, procurando destacar os motivos da mudança de religião e as alterações na visão das doutrinas e práticas da religião anterior.


SAMBA DE RODA EM CACHOEIRA - BA

Francisca Marques

Esse trabalho tem como objetivo abordar, brevemente, o samba de roda no contexto social, religioso e cultural da cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano. Durante meses de desenvolvimento de trabalho em campo recolhemos material significativo, específico do samba de roda, inserido em performances musicais e rituais. Através de entrevistas, documentação audiovisual e observação participante, foi também levantado o repertório de grupos como o Samba de Roda Suerdieck e Amor de Mamãe. Entendido como música, letra, dança, ou grupo, o samba, pertence ao cotidiano de Cachoeira como evento e entretenimento em feiras, praças e ruas. Ele também faz parte de festas religiosas populares como as novenas e carurus de Santo Antônio, São Roque, Santa Bárbara e São Cosme. Considerado como "protetor da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte", o samba é considerado elemento fundamental da Festa anualmente realizada na segunda quinzena de agosto. Segundo a Juíza Perpétua dessa confraria de mulheres negras, existente desde a época do Brasil colonial, "a ligação do samba com a Boa Morte é porque a Boa Morte foi nascida na senzala e na senzala nasceu o samba". Através do samba, portanto, teriam "nascido os cânticos da Boa Morte" ensaiados nos porões e nas senzalas pelos escravos. Nesse contexto ritual, o samba de roda serve como elo de passagem da Morte (sincretizada por Nanã/Nossa Senhora da Morte) à Glória (Oxum/Nossa Senhora da Glória). Pertencente às casas de candomblé das nações keto e jejé, predominantes em Cachoeira e região, encontramos o samba de roda estritamente ligado, também, aos cultos dos caboclos ou encantados.


RAÍZES ELETRÔNICAS: QUANDO O RAP E O FOLCLORE SE ENCONTRAM

Bruno Guilherme dos Santos Borda - Estudante de Ciências Sociais/UFPA

Na presente comunicação, analiso o discurso de três nomes proeminentes do chamado "RAP Nacional": os grupos Clã Nordestino, do Maranhão (RAP com Toadas de Boi); Faces do Subúrbio, de Pernambuco (RAP, Rock e Embolada; e Face da Morte, de São Paulo (RAP e Música Sertaneja). Esses grupos alinham-se na nova concepção musical proposta dentro desse estilo no Brasil, ou seja, a idéia de um resgate das raízes regionais, aliado às batidas e letras do RAP. O trabalho é realizado a partir de entrevistas publicadas em revistas do gênero, de letras e músicas produzidas por esses grupos, bem como da opinião de pessoas ligadas, direta e indiretamente, com a produção desse estilo musical. O estudo em questão busca contribuir para o entendimento de uma nova linguagem cultural que se apresenta como um movimento urbano metropolitano, que se entrelaça ao folclore na busca de uma identidade, ao mesmo tempo, local e global.


PARA LEMBRAR DO CATIVEIRO: PERFORMANCE MUSICAL E MEMÓRIA SOCIAL NOS CONGADOS MINEIROS

Suzel Ana Reily - Queen’s University Belfast

Os congadeiros do sul de Minas Gerais costumam dizer que os congados - ou congos - surgiram para celebrar a libertação dos escravos. Embora existam documentos históricos comprovando a existência de tais corporações na região bem antes da abolição, seguirei as diretrizes de Paul Connerton (1989), argumentando que a performance dos congos constitui contextos privilegiados para a construção, preservação e transmissão da memória social negra. Iniciarei a discussão com um panorama geral dos congados mineiros, situando-os no contexto mais amplo das divisões sociais da região. Seguir-se-á uma discussão do aspecto discursivo da memória social, que é articulada na tradição dos congados através de narrativas e textos de toadas. Por fim discutirei as práticas corporais dos congos, demonstrando como efetuam a corporalização da memória social negra do sul de Minas.


A MUSICALIDADE DA CULTURA POPULAR NO PAU E LATA : PROJETO ARTÍSTICO-PEDAGÓGICO

Ilnete Porpino de Paiva - MS em Ciências Sociais pela UFPB; professora de História no ensino fundamental

Esta comunicação tem como objetivo apresentar a experiência do projeto intitulado: Pau e Lata: projeto artístico-pedagógico, o qual procura desenvolver um trabalho com crianças, adolescentes, jovens, adultos e profissionais na área da educação, tendo como principal expoente a música. O material sonoro utilizado é a "sucata", que tem um papel significativo no processo de musicalização. O ouvir, o ler, o contextualizar e o fazer caracterizam o estudo e a prática do trabalho desenvolvido, consistindo a sua metodologia. A compreensão na pesquisa sonora usada com o elemento "sucata" é necessária para o entendimento dos elementos teóricos, facilitando a possibilidade de criar. O coco, a ciranda, o maracatu e o samba são alguns dos ritmos trabalhados pelo projeto, numa perspectiva de fortalecimento da memória, da identidade e da resistência na cultura popular. Fazem parte desse projeto três grupos, sendo um residente no município de Lajes-RN e dois na Cidade de Natal/RN.


O FOLCLORE MUSICAL NA REALIZAÇÃO DO CANTAR

Meire Berti Gomiero Fonseca - Musicista; regente coral; folclorista

Os estudos da música e cultura popular parecem estar sofrendo, na atualidade, uma crise de continuidade. Podemos dizer que, após o período clássico de sua História com as figuras centrais de João Ribeiro e Sílvio Romero e depois pelos contemporâneos Mário Andrade, Basílio de Magalhães, Luís da Câmara Cascudo etc, tem diminuído os números de publicações dedicados aos estudos e aos problemas do folclore brasileiro, como também uma revisão de métodos de trabalho, critérios e medidas práticas para aplicação do folclore na escola como disciplina social, como também o próprio problema da natureza do folclore. Quanto à música, a rigor, não existe incentivo para a música folclórica, seja ela instrumental ou vocal, e os breves cursos de folclore dão mais atenção para o campo da sociologia, antropologia etc., surgindo de vez em quando algumas contribuições parciais. Todavia, as instituições ligadas ao ensino da música, estariam em condições de preservar, desenvolver, reiterar, divulgar e propor novas metas para o folclore musical. O Folclore musical deve ser estudado e aplicado com idéias novas, alargando as suas bases e contribuindo para que o mesmo esteja no lugar que merece pela sua importância viva e mutável nas questões educacionais, sem observar que de 1954 para cá, após o Congresso Internacional de Folclore, outras conclusões foram feitas e, principalmente, após o IV Centenário da Fundação de São Paulo. A música folclórica não pertence a um passado. É mutável sofrendo todo tipo de alterações no tempo e no espaço. Observar sempre quando a música e folclórica ou de aproveitamento e projeção. E por ultimo as de feição de caráter abrasileirado, sem todavia fazer uma aplicação direta. Tudo que e canto, epopéia, canções, cantigas deve exprimir um sentimento de beleza, uma emotividade artística, deve ser conservado e orientado no sentido da educação nacional. Acredito ser o caminho que deve ser seguido por uma nova geração interessada nas vantagens educativas do folclore, fecundados de nobres sentimentos, centro e interesse unidade de experiência.


CURUPIRA - UM ESPÍRITO INDÍGENA NA ESCOLA

Helena de Souza Nunes - Dra. em Musicopedagogia e Pós-Doutora em música; professora adjunta do Departamento de Música do Instituto de Artes da UFRGS

Os estudos do Folclore reúnem informações de enorme importância para a Educação Musical; no entanto, sua contribuição efetiva na formação de nossas crianças ainda é pequena. Este artigo é o resultado de reflexões críticas sobre uma experiência, que se colocou numa área de intersecção das pesquisas etnomusiológica e musicopedagógica e, através dele, espera-se contribuir para a aproximação entre elas, em favor da escola brasileira e da preservação de nossas raízes. Parece grande a possibilidade, de que esta comunicação seja adequada ao tema Folclore e Modernidade, previsto pelo evento. Curupira – Histórias, Mitos e Lendas das florestas Brasileiras foi um projeto de composição e produção de um espetáculo infanto-juvenil de inspiração e fundamentação folclórica desenvolvido entre 1996 e 2000, cujo resultado foi apresentado no Brasil e na EXPO200 de Hannover/Alemanha, com excelente repercussão artística, cultural e cientifica.


AS PERCEPÇÕES DE PRÉ-ADOLESCENTES QUANTO AO AMBIENTE MUSICAL EM SUA FAMÍLIA

Cristina Rolim Wolffenbüttel - Docente do Curso de Pedagogia da Arte/Música/ UERGS

Ao pretender-se realizar uma abordagem quanto às relações existentes entre o ambiente musical familiar e as percepções que os pré-adolescentes têm diante deste panorama sonoro é importante pensar um pouco acerca de alguns aspectos relacionados a essa questão, e que qualificam bastante essa análise. Assim, o primeiro ponto de muita relevância e que chama a atenção é o significado que o conceito de família tem assumido na atualidade. O que é, hoje em dia, considerada uma família? Quais são, atualmente, os membros de uma família? Quanto tempo, efetivamente, crianças e jovens estão convivendo com seus familiares? Enfim, cabe uma atitude de busca de novos significados da instituição familiar, a fim de qualificar a abordagem sobre as percepções de pré-adolescentes diante do ambiente musical em sua família. Somando-se a essa reflexão, acrescenta-se a necessidade de conhecer mais sobre quem são estes filhos pré-adolescentes, procurando compreender um pouco mais sobre como se dá o seu desenvolvimento psicossomático. E, finalmente, como terceiro ponto de abordagem relacionado às percepções dos filhos em relação ao seu ambiente musical familiar, não se pode deixar de considerar e analisar seriamente o papel da comunicação de massa e a sua relação com a cultura popular.


FACTOS, ARTEFACTOS E ARGUMENTOS DA LUDICIDADE HUMANA NO CULTO DAS FESTAS POPULARES DE S. GONÇALO DE AVEIRO, GAIA, AMARANTE E DE OUTROS LUGARES DO BRASIL

Conceição Lopes - Dra. em Ciências e Tecnologia da Comunicação/Universidade de Aveiro-Portugal

A festa interpela a historicidade de um povo que dela fala e nela se revela, seja através dos factos, dos artefactos, ou dos argumentos. As festas populares em honra de São Gonçalo, em Portugal ou no Brasil, mantêm entre si semelhanças e dessemelhanças construídas e fixadas em ritos emanados de costume que se fixaram no seio de cada uma das comunidades que encontram na devoção a São Gonçalo o texto e pretexto para a mobilização popular da alegria e da exaltação da existência. Aveiro, Gaia, Amarante, Sergipe, Pernambuco, Alagoas, do Piauí, de São Paulo, Minas Gerais e, entre outros lugares, marcam o calendário festivo de dois países durante o mês de janeiro. Entendida a festa como lugar de culto público, associada ora à homenagem solene e cerimoniosa a um santo padroeiro, ou a um acontecimento cívico, onde se combinam com a irreverência dos folguedos dos cidadãos que se divertem exercendo a sua capacidade de seres lúdicos. Considera-se, também, que são os cidadãos em festa que alimentam e mantém viva a alma cultural, dinamiza a ecologia do espírito da comunidade a que pertencem. Desse modo, as festas são inseparáveis do fluxo da comunicação com o tempo dos dias comuns que prolongam a singularidade da emoção contemplativa e irreverente vivenciada nessas festas. Compreender as semelhanças e as dessemelhanças dessas festas poderá ser um modo de re-elaborar a compreensão sobre a singularidade da alma cultural de cada comunidade e dos fluxos e refluxos de interação entre dois países próximos e distantes.


TRIBOS DE ÍNDIO-MEMÓRIA E TRADIÇÃO CULTURAL NO CARNAVAL DE JOÃO PESSOA/PB

Cristiane Pereira de Sousa - Estudante de Ciências Sociais/UFMA

Africanos, Guanabara, Papo Amarelo, Pele Vermelha, Tupy Guarani, Ubirajara e Xavante são as tribos de carnaval da cidade de João Pessoa. Procuramos deixar em evidência a voz das pessoas que constituem essas tribos - homens, mulheres e crianças - crianças em seus vários aspectos: social, econômico, político e cultural, a fim de tornar visíveis as suas atividades. O objetivo da pesquisa foi colher informações sobre atividade econômica desenvolvida, renda, escolaridade e demais práticas culturais populares que conhece. Tomamos como base a memória dos participantes, tendo sido os depoimentos orais essenciais, além de observações diretas das manifestações. Buscamos, pois, demonstrar as atividades e obter sua valorização, revertendo os resultados da pesquisa para o benefício dos participantes, contribuindo para aumentar a auto-estima e continuação das práticas culturais.


IMAGENS DO ÍNDIO NA CULTURA POPULAR BRASILEIRA

Suiá Omim Arruda de Castro Chaves - Estudante de Ciências Sociais

Este trabalho faz parte de uma pesquisa da iniciação científica que se desenvolve sobre orientação da professora Dra. Maria Laura V. C. Cavalcanti: Festivais Populares no Brasil contemporâneo. A presente pesquisa toma pra si a análise e interpretação do uso de imagens e representações do índio no panorama de formação da cultura popular brasileira. O referido trabalho procura destilar o contexto em que o índio se insere no imaginário social brasileiro. Desde a independência do país, principalmente no II Reinado, consolidou-se a preocupação em pensar o Brasil como uma totalidade e criar uma identidade nacional que integra as diferentes regiões do país e sua população heterogênea. Impõe-se, assim, a tarefa do delineamento de um perfil para a nação brasileira de acordo com os novos princípios organizadores da vida social do século XIX. Com base no projeto centralizador do império, seria necessário acumular estudos sobre os verdadeiros nativos da terra brasileira, no sentido da construção de uma história nacional. O país estava intrinsecamente amarrado aos problemas do índio e da escravidão para emergir como civilização. Era necessária a incorporação ou eliminação desses elementos. Assim, viabilizou-se a formação de doutrinas raciais, contrastando o índio histórico, matriz da nacionalidade, com o contemporâneo, integrante das hordas selvagens, lançando alicerces para a construção do mito da democracia racial.


O COCO-DE-RODA DE BARRA DO CAMARATUBA-PB

Edith Bacalhao - Doutoranda em Literatura Brasileira/UFPB/CNPq

O estudo das relações sociais é de fundamental importância na compreensão da cultura popular. As manifestações folclóricas e a realidade social dos praticantes determinam a dinâmica da comunidade. O objetivo é determinar os elementos de ordem econômica e social que influenciam na manifestação folclórica do Coco de Roda em Barra do Camaratuba, uma das mais antigas comunidades de pescadores do litoral norte paraibano. O estudo faz parte da linha de pesquisa Memória e Produção Cultural (LEO/UFPB). Foram realizadas oito visitas desde março de 2001. Na pesquisa de campo, foram utilizadas as técnicas de observação diretas (anotações, gravações e filmagens), entrevistas e depoimentos pessoais. Em julho de 2001, foi feito o registro, na palhoça central, de um coco de roda feito exclusivamente pelos moradores. Os resultados revelam que a comunidade expõe a sua cultura popular quando dança e canta o coco, transmitido até hoje por brincadeiras realizadas entre parentes e amigos.


FOLIA BUMBESCA ODIVILENSE - CONSIDERAÇÕES DE UM PESQUISADOR EM CAMPO

José Guilherme dos Santos Fernandes - Licenciado pleno em Letras/UFPA; Mestre em Teoria Literária/UFPA; Doutorando em Literatura e Cultura Brasileira/UFPB; professor Assistente de Literatura Brasileira e Teoria Literária/UFPA

A cidade de São Caetano de Odivelas, no Nordeste do Estado Pará, tem como traço marcante de sua cultura popular o Boi Tinga. Esse boi-bumbá, que também é chamado de boi de orquestra ou boi de máscaras, não apresenta propriamente um enredo, tradicional no bumba-meu-boi ou mesmo o Boi de Parintins (AM). Ele tem como único e principal expediente a folia de rua, ou seja, um grande carnaval em que se fazem presentes pierrôs, cabeçudos e brincantes comuns em torno do boi e do grupo de músicos que tocam, noite afora, sambas e marchas que estimulam evoluções hilárias dos dançarinos. Marca característica do que se pode convencionar como popular, essa manifestação apresenta-se dentro de um calendário próprio da cultura local (mês de junho), persistindo na sua tradição e tendo performance própria. Por mais que não haja enredo, os "corpos" se "narram", como em um grande teatro de rua grego ou medieval. Contudo, existe, por outro lado, a ameaça da pasteurização levada a efeito pela indústria cultural dos governos - municipal e estadual - e do turismo, cada vez mais crescente. A meio caminho do popular e do massivo, coloco a mim e à minha pesquisa como uma das narrativas possíveis sobre o evento, como um modelo construído de interpretação. Com o método da historia oral e registros outros - jornalístico e fotográfico - procuro, neste relato para o GT, levantar subsídios sobre a pesquisa em cultura popular mediante a relação pesquisador e pesquisado (ou narrador), focalizando o papel da igualdade e da diferença no campo da pesquisa.

 

TERREIRO EM FESTA: TRADIÇÃO E MODERNIDADE NA LINGUAGEM VISUAL

Beatriz de Jesus Sousa - Estudante de Educação Artística/UFMA

Trata-se, no presente trabalho, da análise formal dos elementos da linguagem visual utilizados na elaboração coreográfica do trabalho intitulado: TERREIRO EM FESTA, resultado da oficina "O Despertar do Corpo Através das Danças Maranhense: um resgate a nossa cultura". Seu principal objetivo foi trabalhar o corpo, o movimento e o ritmo, tendo como base as danças folclóricas maranhenses, buscando, porém, utilizar os movimentos e a indumentária como forma de propor uma discussão a respeito da tradição e da modernidade. O trabalho é composto por um aquecimento e três coreografias: Nação, Promessa e Saudade, tendo como fonte de orientação a Festa do Divino e o Bumba-meu-Boi dos sotaques Orquestra e Ilha. Busca-se observar de que maneira o público percebe as mudanças "formais" ocorridas nas manifestações apresentadas, tais como sua distribuição espacial, cores, movimento, ritmo, linhas e volume utilizados; sua compreensão do conceito de tradição e modernidade nas danças populares.


NARRATIVAS E INVESTIGAÇÕES DA EXPERIÊNCIA BRASILEIRA EM DANÇA

Júlia Emília Bastos Ferreira da Silva - Bailarina licenciada pela PUC/RJ

O trabalho é parte de um projeto datado de 89 para documentar o processo de estudo sobre composição coreográfica. Sua finalidade não tem sido estudar as características das várias tradições. Trata-se de vivenciar as correlações entre as técnicas acadêmicas e as danças populares, olhar para o que elas têm em comum, investigar em artes diversificadas, princípios comuns que constituem a antropologia cênica: o trabalho educativo - elaboração de uma metodologia; o trabalho cênico - elaboração de uma terceira linguagem corporal. "O gesto do mimo é descritivo. O do dançarino é projetivo: induz uma experiência não conceitualizável (...)" (GARAUDY, Roger. Dançar a Vida, 1980). )*. Vivência: usar coluna, cintura escapular e pélvica, capacidade respiratória, equilíbrio dos centros energéticos para exteriorizar, através do movimento individual, impulsos interiores.


SÃO GONÇALO: UMA DANÇA PORTUGUESA NUM POVOADO NEGRO

Suely Amâncio – Arqueóloga; mestre em Historia; Doutoranda/UFBA

Hélia de Paula Barreto – Diretora do Museu do Homem de Sergipe (MUHSE)

De origem portuguesa, a Dança de São Gonçalo foi trazida para o Brasil, onde é registrada pela primeira vez no século XVIII. A dança existe com o objetivo de pagar promessa a São Gonçalo do Amarante, embora também seja executada como ritual folclórico. São Gonçalo assumiu, em vida, a missão de converter prostitutas, o que era feito através da música e dança. Em Sergipe, a dança apresenta-se viva e atuante no povoado da Mussuca, em Laranjeiras, onde é realizada para pagamento de promessa de defunto. Além da dança existe todo um ritual que compreende ensaios, almoço e cortejo. Desses, fazem parte os dançadores, tocadores, o patrão (chefe) e a mariposa (mulher que carrega um pequeno barco com imagem do santo). O pagamento da promessa começa pela manhã com ensaios e almoço. À tarde, os dançarinos (homens) vestem saias, xales e enfeites como colares, brincos e laços de fitas. O chefe do grupo veste-se como marinheiro, já que o santo viveu também no mar, daí ser carregado num barco. Dançam na capela, no cemitério e na casa do promesseiro, realizando todo um ritual que liga o mundo dos vivos aos dos mortos. É a ligação entre o humano e o divino, que necessita do pagamento da promessa, para que seja restabelecida a paz.


TEATRO/PASTORIL

Maria do Desterro Sousa - Arte-educadora/RN

Projeto que visa inicialmente oportunizar a comunidade em geral a vivenciar e apreciar um dos quatro principais espetáculos nordestinos, tendo no Pastoril a fonte de união dessa prática. O teatro pastoril se apresenta com projeto permanente e está vinculado à Escola Municipal Terezinha Paulino de Lima, sendo coordenado por Maria do Desterro Sousa, professora de artes, com pretensão de dar subsídios teóricos e práticos aos seus componentes.


COMÉDIAS, COMERES E FOLGUEDOS: RELATO DE FESTA POPULAR NA ALCÂNTARA DE 1708

Raimundo Inácio Souza Araújo - Estudante de História/UFMA

O presente trabalho tem por objetivo estabelecer conexões entre o passado e o presente das tradições folclóricas maranhenses a partir do relato de Frei Manoel da Trindade, escrito em 1708 e não conhecido ainda de antropólogos e historiadores. O referido documento é uma justificação apresentada ao Vigário Jozeph Pestana contra acusações de impiedade sofridas pelo Frei. Para defender-se, Manoel da Trindade e suas testemunhas terminam por descrever as festas de São Cristóvão e Santa Ana, ocorridas em Tapuitapera (Alcântara), em 1708. O trabalho pretende, portanto, expor o conteúdo do documento - o papel da igreja nas festividades, as tradições e superstições do povo, a liderança das confrarias - e problematizar suas permanências e divergências em relação ao folclore maranhense atual.


AS VÁRIAS FACES DE DIANA NA MEMÓRIA DA LAPINHA

Marinaldo da Silva - Mestre em Literatura/UFPB/PPGL

Nas lapinhas de João Pessoa, até os anos 70, a Diana exercia um papel fundante, como mediadora e construtora de uma harmonia entre os dois cordões: azul e encarnado. Constata-se, atualmente, nas lapinhas da grande João Pessoa, a transformação desse personagem, agora, como figura híbrida. Outra personagem - a cigana - assume o seu papel a partir de registro das pesquisas de campo. Mostraremos e enfatizaremos as mudanças ocorridas e ressaltamos o papel das pastorinhas que transitam nos dois partidos.


A DANÇA DA CANA VERDE - MANIFESTAÇÃO ESPONTÂNEA DOS PESCADORES DO MUCURIPE E IGUAPE, NO CEARÁ - UM DOS MAIS COMPLETOS REGISTROS DESTA MANIFESTAÇÃO NO BRASIL

Maria de Lourdes Macena Filha - Mestre em Gestão em Negócios Turísticos/ UECE/CETT - Barcelona; professora de Turismo e Cultura Popular do CEFET/CE e UNIFOR; diretora do Grupo Miraira

Este trabalho faz um estudo da Dança da Cana Verde, que se realiza hoje na praia do Mucuripe em Fortaleza, estabelecendo como ponto de referência os registros dessa manifestação no Ceará e em outros estados brasileiros. Buscamos uma compreensão melhor dessa manifestação e de sua recente desvalorização por parte dos órgãos do turismo, como também favorecer o reconhecimento do grupo autêntico, como maneira de estabelecer a auto-estima da comunidade e seus costumes, através da valorização do patrimônio imaterial de seu povo, junto a eles mesmos, aos meios educacionais, turísticos e culturais. A pesquisa registrou elementos históricos, coreográficos, musicais (instrumentos, ritmos, partituras), teatrais, indumentária, adereços e personagens, entre outros do imaginário popular que se interliga com a dança especificamente. Abordamos também a atual ausência dos registros e divulgação de manifestações folclóricas cearenses, principalmente em seus aspectos musicais, contribuindo para o desconhecimento e não reconhecimento desses costumes, em especial pelo nosso povo, desfavorecendo o uso dessas manifestações na educação e no turismo.


OFICINA VIVÊNCIAS LÚDICAS E MUSICAIS

Cooperativa das Artesãs Livres ABAYOMI - Salvador/BA

Utilizando como base a música, a oralidade, as danças e o artesanato, vivenciaremos uma experiência que favorecerá o contato com a memória afetiva e a valorização da cultura regional popular. Através de jogos, brincadeiras, músicas e um objeto artesanal, envolveremos as pessoas a participarem de um brinquedo popular cantado e dançado, criando a possibilidade de ser inserido na apresentação do cortejo Brincante ABAYOMI.


CONSIDERAÇÕES ACERCA DO BUMBA-MEU-BOI NO MARANHÃO: O CASO DA FESTA DA MAIOBA

Bruno Rognes Ramos Bezerra - Estudante de Ciências Sociais/UFMA

Este trabalho se constitui numa reflexão final acerca dos conteúdos discutidos ao longo da disciplina Folclore e Cultura Popular, ministrada pelo professor Sérgio Ferretti no Curso de Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão. Nos propusemos a uma breve aproximação da brincadeira de Bumba-meu-boi realizada pela comunidade da Maioba neste ano. Realizamos leituras de autores que já refletiram sobre o caso, uma entrevista com antigo brincante e avô de um dos autores do trabalho, que atualmente reside na COHAB. Nos utilizamos também de um relato de um Boi de promessa em Icatu. Pretendemos observar tal brincadeira na perspectiva de Mauss como um fato social total. Dessa forma, a brincadeira assume conotações religiosas, sendo um meio de interação e integração coletiva regido por regras de reciprocidade, prestação e contraprestação num sentido ampliado. O Bumba-meu-boi é uma festa tipicamente brasileira. Em cada região nacional existem variações quanto ao processo de elaboração e forma de apresentação da dança, do auto, dos personagens, da música, da cantiga e dos instrumentos. O Bumba-meu-boi no Maranhão tem um forte contexto religioso e está muito ligado a São João. A comunidade da Maioba encontra-se a alguns quilômetros da capital e é uma comunidade que tem como principal atividade econômica a agricultura. Seu sotaque é de matraca. Nosso informante se refere com nostalgia aos tempos em que brincava o boi e, pelas suas contas, a brincadeira deve ter uns 106 anos. Observamos que a festa serve como um elemento unificador, gerador de uma coesão social, na medida em que as pessoas da comunidade partilham elementos em comum de seu simbolismo e visão de mundo. Dessa forma, expressam de maneira ritualizada, elementos de seu cotidiano.


COREOGRAFANDO O COTIDIANO - A DANÇA - PARA A RECONSTRUÇAO DA CIDADANIA DAS MÃES ADOLESCENTES DA VILA EMBRATEL (SÃO LUIS/MA)

Tânia Cristina Costa Ribeiro - Professora do Departamento de Artes/UFMA. Raffaelle Andressa dos Santos – Estudante do curso de licenciatura em Educação Física/UFMA. Karla Régia Ferreira Viana - Estudante do curso de Licenciatura em Educação Física/UFMA.Ana Teresa Ramos Ferreira - Estudante do curso de licenciatura em Educação Física/UFMA

A elaboração do projeto apresentado decorreu da constante preocupação com a atual crise brasileira em que vivemos, na qual vem desencadeando tipos diferentes de dramas, entre eles o custo social da ignorância. Como fruto desta, cresce o número de adolescentes que engravidam a cada ano. O quadro chega a ser alarmante e preocupante. Como membro desta sociedade, devemos descruzar os braços, levando meios que possam ajudar essas adolescentes, mostrando, através da arte a da atividade física, caminhos que as façam trilhar assumindo com responsabilidade essa nova identidade, direcionando-as a reconstruir uma cidadania que ainda não chegaram a conhecer. É diante desse quadro que desenvolvemos atividades que despertam a importância do corpo (consciência corporal) enquanto construtor social reflexo da educação do comportamento humano, tendo como eixo condutor as manifestações culturais. As aulas eram realizadas nas segundas e quartas-feiras, das 15:00 às 17:00 horas, no Centro de Convivência em Arte - Vila Embratel (São Luís - MA). O projeto teve duração de 07 (sete) meses (junho a dezembro de 2001), contando com a participação de 27 (vinte e sete) alunas, sendo 7 (sete) mães com idade entre 16 (dezesseis) e 25 (vinte e cinco) anos. Este contou com aulas teóricas e práticas, onde trabalhamos o resgate da auto-estima e as diferentes manifestações corporais e culturais, além de despertar o respeito às diferenças, a vivencia em grupo, a originalidade expressiva, a capacidade criativa, a capacidade de dialogar e discutir em grupo, dando-lhes chance de ouvir e serem ouvidas. Utilizamos sessões de vídeos com manifestações culturais maranhenses e trabalhos de danças elaborados por grupos informais. No ultimo mês, da primeira fase do projeto, aplicamos uma ficha de avaliação com perguntas objetivas e subjetivas, onde avaliamos: os aspectos positivos e negativos do projeto; a contribuição do projeto para o dia-a-dia das alunas; a metodologia das aulas; a participação, freqüência e pontualidade das alunas. Como resultado da primeira fase do projeto frente às das alunas, observamos que este contribuiu principalmente para a melhora da auto-estima, visto que ajudou a sair da rotina do dia-a-dia. Mediante essa experiência é que vemos a arte e a atividade física como fonte principal deste projeto, o qual vem despertar o indivíduo para que este dê atenção devida ao próprio processo de sensibilização educando sentimentos e emoções. Só assim poderemos criar mundos possíveis, obtendo novas possibilidades de ser e sentir reconstruindo o verdadeiro sentido de cidadania.

 

O JEITO NORDESTINO DE SER GLOBALIZADO

Cristiane Maria Nepomuceno - Doutoranda em Ciências Sociais/UFRN; professora titular/UEPB

O que significa e no que implica viver num mundo globalizado? É viver sob a égide de uma estrutura econômica, política e cultural que impõe um modelo contemporâneo de "ser"? Uma forma de agir que exige uma obediência cega e exclui aqueles que ousam não seguir as regras estabelecidas e nega o direito de ser de cada povo, cada um sendo e fazendo à sua própria maneira, no seu ritmo, a partir dos seus próprios valores, suas próprias regras, sua história? Pretendo aqui discutir os impactos da globalização na realidade cultural nordestina, analisar as mudanças ocorridas e identificar os rumos seguidos por esta cultura. O pano de fundo dessas reflexões será os festejos carnavalescos da cidade do Recife - PE; mostrando como naquele espaço se acolhe o novo, mas também se resiste às mudanças, preserva-se os valores culturais e as manifestações populares tomam uma nova dimensão, consubstanciando em novas formas de ser nordestino.


UM ESTUDO DO ERÓTICO FEMININO NA CULTURA MARANHENSE

Valéria Maia Lameira - Mestra em Psicologia/UERJ; professora/UFMA

O presente estudo é resultado de um trabalho para a dissertação de mestrado em Psicologia e Práticas Sócio-culturais. Objetiva-se mostrar os elementos que compõem o processo de construção da identidade cultural através da dança Tambor de Crioula, explicitando o caráter erótico, especificamente, o erótico feminino, considerando as relações entre sagrado e profano, tradição e modernidade, memória e imaginário. A situação cênica em que a dança acontece é tratada como uma produção imaginária que situa o masculino e o feminino em um aspecto que é de pertencimento da cultura popular. No cordão Tambor de Crioula se encontra uma capacidade de expressão importante nos movimentos sensuais das coreiras, que selam sua posição sexual de mulher. Esse é um privilegio da dança: mostrar o que cotidianamente se esforçam para esconder. O corpo, embalado pela dança, deixa de ser instrumento da moralidade e ostenta a condição erótica da mulher que dialoga com o homem que toca o tambor grande. Seus movimentos proporcionam fantasias, emoções e pensamentos que deslizam no exercício dessa prática, que desempenha um importante papel na cultura. Dessa forma, dançar é um ato social que estimula a fantasia relativa ao sexual recalcado que se faz representar pelo ato da pungada da mulher com os tambores, da mulher com as outras mulheres, da mulher com os homens que integram o cordão do Tambor de Crioula.

 

CHAMA E PANCADA DE UM ZAMBÊ ADORMECIDO

Janine Mikaele de O. Figueiredo - Estudante de Ciências Sociais/UFRN

Djenane Damião - Estudante de Ciências Sociais/UFRN

Rafaela Menezes

Dança tradicional do Nordeste e do Norte do Brasil, cuja origem é muito discutida, a brincadeira - no Rio Grande do Norte - teria surgido com o Quilombo de Sibauma, praia da região sul de Natal, com a mesma característica de origem do Quilombo dos Palmares, trabalho acompanhado do ritmo em que os cocos eram quebrados para a retirada da amêndoa. Virou brincadeira, festejo, folguedo nas horas de lazer, e tomou conta de toda a região praieira do sul de Natal. Infelizmente, o tempo foi cruel e fez-se esquecer tal brincadeira em grande parte dos municípios praieiros. Mas alguns moradores da comunidade de Cabeceira em Tibau do Sul, Natal/RN ainda viviam sob o som do zambê. E apenas há cerca de 10 ou 12 anos, foi fundado o Coco de Zambê do Mestre Geraldo, que possui a particularidade de não vir de uma continuidade ao longo dos tempos e, mesmo assim conseguir manter viva a chama dos brincantes. Presenciar, entender e descrever a brincadeira é o nosso objetivo. Desde a preparação da bebida que antecede a brincadeira até o que acontece após o festejo. Um verdadeiro ritual entre os homens de uma mesma família, que, pouco a pouco, cede aos desgastes do tempo, com um sorriso marcante e a felicidade de continuar dançando, de continuar brincando.


O MESTRE DE MARACATU - UM REPERTÓRIO POÉTICO

Maria Alice Amorim - Jornalista; membro da Comissão Pernambucana de Folclore

O mestre de maracatu é o mestre do grupo: apito na mão; batuta sobre o ombro; mão em concha sobre o ouvido, como os antigos bardos, é quem inaugura a brincadeira, com o canto em versos improvisados. Cabe a ele saudar os brincantes, tecer loas às autoridades, agradecer aos colaboradores e, enfim, conquistar a platéia com imagens poéticas e rimas bem construídas. Em Nazaré da Mata, Pernambuco, a 65 km de Recife, onde se diz que nasceu a tradição das sambadas ou embate entre dois mestres de maracatu rural, os amantes dessa poesia se acotovelam diante do palanque (que eles chamam de federação) para ver e ouvir o mestre sambador e eleger, claro, o preferido. São poesias rimadas e metrificadas, com formas fixas, características da tradição oral, herdados dos colonizadores portugueses. Tem parentesco evidente com o baião de viola, o cordel, a poesia do coco e da ciranda; enfim, com a poesia popular, em suas diversas ramificações. A partir do registro sonoro de alguns mestres que se apresentam em Nazaré, na terça-feira de carnaval deste ano, pudemos observar a recorrência e/ou variações de rima, imagens, gênero e discurso poético distintivos de cada criador. E, sobretudo, apreciar as qualidades do bom poeta.


DANDO NOME AO BOI: A DANÇA DO CAZUMBÁ

Juliana Manhães - Atriz; dançarina e arte educadora

Dar nome ao boi é um ditado popular para nomear os acontecimentos. Procurei criar associações mais concretas, buscando formular uma concepção que parte do tradicional e se mistura com a arte da dança e do teatro popular cômico. Mas, como diz muito brincante: "quando me intindi já era assim..." Sem muita explicação. E é o mistério do cazumbá que interessa burila. Dizem que cazumbá não é homem, nem mulher e nem animal, mas que está entre a magia e o lúcido, relacionado com os espíritos. O cazumbá tem um estilo muito particular de dançar e brincar dentro da roda do boi. É um personagem solto, e por isso traz uma individualidade muito marcante, onde cada um traz maneiras diferentes de bailar. O olhar do cazumbá produz um estado, que faz o corpo dançar, estimulado pelo que vê. Sua dança acompanha sua vestimenta e sua careta. É uma dança ágil, onde ele estabelece relações diversas com os outros personagens, dentro da movimentação teatralizada. O cazumbá fala sutilmente com seu corpo grotesco.


CONHECENDO A CLIENTELA: A ANTROPOLOGIA E A ESTATÍSTICA DETERMINANDO OS FATORES QUE INFLUENCIAM NA ACEITAÇÃO DA REZA COMO PRÁTICA POPULAR

Francimário Vito dos Santos - Estudante de Ciências Sociais/CCHLA/UFRN. Paulo Ricardo Cosme Bezerra - Departamento de Estatística/CCET/UFRN. Luiz Carvalho de Assunção - Professor do Departamento de Antropologia/CCHLA/UFRN (Orientador)

Segundo Quintana (1999), a prática da reza ou benzedura é um entre outros sistemas de cura que são utilizados pelos grupos populares, podendo ser caracterizada como uma atividade terapêutica, a qual se realiza através de uma relação dual - Cliente x rezadeira. O presente trabalho é fruto de um estudo antropológico e estatístico sobre a clientela da rezadeira Barica, no município de Cruzêta/RN. A partir da aplicação direta de um questionário com uma amostra ao nível de significância de 5% da clientela após a realização do procedimento de cura, onde foi analisado: (1) Características sócio-demográficas da clientela; (2) Circunstâncias e contexto que levaram a procura da rezadeira; (3) a relação entre religião e fé; (4) Reconhecimento social. Assim objetivando entender os fatores que influenciam na aceitação da reza como prática popular e a credibilidade destas "especialistas de cura" (Loyola, 1984).


MEDICINA POPULAR FACE À MEDICINA CIENTÍFICA

Francisca de Paula de Oliveira - MS em Ciências Socias pela UFRN. Orientador: professor Luiz Carvalho de Assunção - Dr. professor do Departamento de Antropologia / UFRN

Este trabalho trata das relações entre a medicina científica e a medicina popular a partir de dados levantados em pesquisa empírica realizada com produtores de medicamentos artesanais no município de Natal. A pesquisa chama atenção para a existência de uma identidade cultural marcada por um saber oriundo das práticas da medicina popular. Observou-se, ainda, que a medicina científica ao mesmo tempo em que se apropria dos conhecimentos da medicina popular, ela a despreza. Procurou-se, portanto, compreender porque os práticos da medicina científica expressam, através dos seus discursos, mecanismos de poder sobre os práticos da medicina popular. A metodologia utilizada prioriza entrevistas, aplicação de questionários, com os mangaeiros que desenvolvem atividades com plantas medicinais nas feiras livres do referido município. Para melhor abordar as questões relacionadas à medicina popular, utilizamos as reflexões de teóricos como: Antônio Augusto Arantes, Alceu Maynard Araújo, Eduardo Campos e Maria Andréa Loyola, entre outros, que analisam essa temática sob diferentes ângulos.

 

EX-VOTOS: RELICÁRIOS DA DOR

Beliza Áurea de Arruda Mello - Professora da pós-graduação em Letras/UFPB

Os ex-votos têm uma eficácia simbólica no imaginário popular. Atualizam-se como presença alegórica do medo e da dor a partir de promessas que se constituem, no catolicismo popular, como elemento mágico. Há nele barganha explícita entre um sujeito sofredor, agente da dor e um destinatário ausente/presente mediado por um discurso entre a expressão do problema e sua solução, produzindo um efeito sobrenatural, instaurando uma simbologia fantástica-maravilhosa. Os ex-votos constituem-se, assim, como relicários do medo, epifania da consciência do limite do ser humano. O medo individual pode provocar o re-conhecimento da organização dramática do ente e da consciência angustiante do conflito. Os ex-votos atualizam-se como memória icônica de uma grande dor: possibilidade de perder ou não ter algo. Propõe-se mostrar, portanto, como os ex-votos guardam a lembrança de um tempo histórico e como eles podem ser lidos como um triunfo imaginário sobre o conflito do ser humano diante a exigüidade do limite do tempo e apaziguamento da dor.


EX-VOTOS: UMA LEITURA PLÁSTICA

Fábio Giovanni dos Santos Rebouças - Estudante de História/DEH-UFRN. Wagner do Nascimento Rodrigues - Estudante de História/DEH-UFRN. Carlos Henrique Pessoa Cunha - Estudante de História/DEH-UFRN. Wani Fernandes Pereira - Professora Dra. PMCC-UFRN/MCC-UFRN (Orientadora).

O projeto de pesquisa "Estudos de Coleções: santeiros e devoções do Rio Grande do Norte" tem por objetivo, além revisar e atualizar a documentação desse acervo referente ao Museu Câmara Cascudo, procurar fazer uma leitura plástica dos ex-votos, contribuindo para complementar informações que elucidem as soluções formais destes objetos. Nesse sentido, embora permaneça uma área pouco explorada, pode-se mencionar dois estudos que ampliam o entendimento dos ex-votos que apontam para uma aproximação com a arte afro-descendente, ampliando o sentido de inventário dos ex-votos, considerando-os como obras de arte, com suas raízes, seu processo de evolução e características próprias. O primeiro deles traz a autoria de Luís Saia, arquiteto, componente da equipe de Mário de Andrade no ano de 1938. Suas pesquisas apontaram para uma solução plástica típica da escultura afro-negra, fornecendo a base teórica para estudos posteriores. A segunda referência diz respeito aos estudos antropológicos-estéticos de Mário Barata. É a partir desses dois itinerários teóricos que faremos uma análise estética e a identificação das soluções formais que se aproximam do "corte africano". Trata-se, pois de um primeiro ensaio de um conjunto de peças previamente selecionadas e que contam com a orientação do antropólogo Raul Lody, do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP/FUNART-RJ. A escolha desse recorte facilitará estudos estéticos sistematizados na coleção como um todo, acrescentando novas informações aos recentes estudos artísticos dos ex-votos no Brasil. A disponibilização dessas informações será feita através da produção de um catálogo, CD-ROM, banco de dados e home-page.


SEREIAS, IARAS: DA COLEÇÃO AFRO-BRASILEIRA DO MUSEU CÂMARA CASCUDO

Janaina Karla Duarte Gonçalves - Estudante do Curso de História / UFRN. Orientadora: Wani Fernandes Pereira

A coleção afro-brasileira do Museu Câmara Cascudo/UFRN teve início em 25 de agosto de 1964. Esses objetos passam atualmente por um criterioso processo de análise de seu estado de conservação, revisão e atualização da documentação dos 338 objetos, com tecnologias e materiais diversos. Elegemos para o estudo o conjunto formado pelas sereias que são em número de quatro. Além de dar conta dos procedimentos técnicos próprios de um estudo dessa natureza, o conjunto será contextualizado com a implementação de dados biológicos dos artesãos José Jordão de Souza (RN) e Manuel Eudácio (A .do Morro / Cápua-PE). Contempla também uma leitura simbólica e funcional das sereias na montagem dos atores e suas relações com mitos aquáticos.


A POÉTICA DOS EXUS

Marinaldo da Silva - MS em Literatura / UFPB -PPGL

Pretende-se mostrar, a partir de fotografias de estatuetas das casas de santo, como o orixá Exu passa a ser símbolo diabólico na memória popular, principalmente no que diz respeito aos símbolos icônicos de animais peludos e chifrudos como o bode, tradicionalmente ligado ao diabo, na imaginação popular.


EVENTOS FOLKCOMUNICACIONAIS: UM ATRATIVO TURÍSTICO

Severino Alves de Lucena Filho - professor do Curso de Comunicação Social / UFPB; Membro da Comissão Pernambucana de Folclore (CPF)

Este trabalho registra uma vitrine reduzida de eventos folkcomunicacionais que ocorrem no Nordeste do Brasil, onde as manifestações das culturas populares são o foco de atração para o turista. O suporte teórico que norteia esse estudo é a Teoria da Folkcomunicação e as contribuições significativas de outros estudiosos do tema como: Canclini e Roberto Benjamin, no contexto das múltiplas e novas abrangências da comunicação cultural.


TURISMO CULTURAL: UM ESTUDO DAS POTENCIALIDADES DE SÃO LUÍS/MA

Kláutenys Dellene Barros Guedes - MS em História pela UFPE; professora Assistente do Curso de Turismo / UFMA

Este trabalho é um estudo acerca do potencial turístico cultural existente na cidade de São Luís que possui uma vocação ostensiva para o turismo cultural pois suas manifestações culturais, expressas de variadas formas compreendendo desde as danças até a culinária, permitem vislumbrar um produto turístico cultural muito rico e diversificado que está sendo ainda mais potencializado com o recebimento do título de Patrimônio Cultural da Humanidade. A proposta é fazer a relação entre turismo e cultura a partir das implicações da viagem turística, listar algumas das manifestações culturais da cidade possíveis de serem amalgamadas na composição de um produto turístico cultural e sugerir roteiros temáticos detectados como de interesse turístico.


CAPRICHO DO POVO: UM ESTUDO SOBRE O BUMBA-MEU-BOI DA MADRE DEUS

Abmalena Santos Sanches - Mestranda em Antropologia / UFPE

O estudo de mitos, ritos, símbolos e sistemas religiosos é um universo rico para se compreender o homem e suas relações. O nosso interesse em estudar o Bumba-meu-boi do Maranhão deve-se ao fato dessa manifestação popular ser constituída por rituais permeados de símbolos que localizam e dão significado à vida daqueles que o vivenciam e o produzem. Sendo assim, com toda essa tentativa de "homogenização econômica e cultural" e de "ocidentalização" do mundo num movimento de "uniformização do imaginário" como grupo de Bumba-meu-boi da Madre Deus transita entre a tradição e a modernidade. Como o Bumba-meu-boi se localiza enquanto elemento de identidade cultural do maranhense quando se está falando em mundo "sem fronteiras" e em "identidades não fixas" ou em "transição". Sabemos, portanto, que o Bumba-meu-boi se modifica, se altera, na tentativa de se manter ou sobreviver no tempo presente, mas até que ponto o sentido e o significado dessa rica manifestação não vem a se descaracterizar e perder sua essência, alterar seus símbolos, mitos e ritos para acompanhar as imposições da vida contemporânea.


NAÇÃO, GÊNERO E RAÇA: FESTAS POPULARES E TURISMO NO DIÁLOGO ENTRE REGIÃO E NAÇÃO

Lady Selma Ferreira Albernaz - Doutoranda em C. Sociais – UNICAMP; profa. Assistente de Antropologia / UFPE; pesquisadora do FAGES / Núcleo Família, Gênero, Sexualidade e Saúde

Este texto apresenta considerações suscitadas por pesquisa exploratória realizada em São Luís - MA (junho/julho de 2001), com o objetivo de compreender as relações entre região e nação, recortadas por raça e gênero, e as construções das identidades no contexto das políticas governamentais para cultura e turismo. Visando amadurecer e aprofundar algumas reflexões e dar continuidade à investigação, destacamos as seguintes questões: quais os significados das festas e rituais apresentados como um produto, para seus realizadores e para aqueles que elaboram as políticas de cultura e turismo? Qual o sentido de definir a cultura maranhense como o "mais importante fator de produção" desse estado? Quais as implicações dessa "definição" na construção da identidade regional em relação à(s) identidade(s) brasileira(s) no cenário das políticas culturais e de turismo?


PROXÊMICA, O ESPAÇO COM FINS DE SIGNIFICAÇÃO: O CENTRO HISTÓRICO DA PRAIA GRANDE COMO DISSEMINADOR DA CULTURA POPULAR MARANHENSE

Rozuila Lima dos Santos - Bacharel em Turismo / UFMA; professora do UNICEUMA

A partir dos princípios greimassianos queremos implementar um processo analítico que incorpore o conjunto arquitetônico de São Luís na condição de fenômeno semiótico, caracterizado como um espaço com fins de significação, colocando em evidência a parte Central do Centro Histórico como disseminadora da cultura popular maranhense. Mostraremos essa dimensão semântica em dois momentos. Numa perspectiva diacrônica, a organização do espaço urbano representava a ideologia da nobreza e refletia os progressos da economia e da cultura. Já numa perspectiva sincrônica, dentro da proxêmica, ressaltamos esse espaço colonial, que pode ser facilmente percorrido a pé, como disseminador da cultura popular maranhense e onde, em grande parte, os eventos acontecem; é onde há um envolvimento ou relacionamento entre os sujeitos usuários: turistas, comunidade, artistas, profissionais etc. Dentro dessa abordagem, ressaltaremos o contexto turístico no qual está inserido esse espaço artístico, estético, histórico etc,, consagrado sob o estatuto de Patrimônio Arquitetônico da Humanidade.

 

TURISMO E FOLCLORE: BASES PARA UM ENTENDIMENTO

José Antônio Silvestre Fernandes Neto e David Leonardo Bouças da Silva - Estudantes do Curso de Turismo /UFMA

O folclore vem se confirmando como uma grande alternativa para as cidades que procuram investir no Turismo como forma de obter rendimento para otimizar suas receitas. Com isso, se faz necessário definir bem os limites e conceitos de ambos os fenômenos para que não haja uma supervalorização de um em detrimento ao outro. Este trabalho, através de breves comentários e sutis explicações acerca dos elementos concernentes ao tema, aspira a uma função de conscientização e alerta, focalizando uma questão bastante pertinente e oportuna para o atual contexto mundial.


EM BUSCA DO SOSSEGO: TURISMO E CULTURA EM BARRA DO CAMARATUBA - PB

Gekbede Dantas da Silva - Estudante de Ciências Sociais/UFPB

Barra do Camaratuba é uma comunidade localizada no externo norte do litoral paraibano, município de Mataraca, a 112 Km da capital do Estado. É constituída por pescadores e agricultores. O objetivo do trabalho é o estudo da cultura popular e a reconstrução da história do lugar através da memória dos próprios moradores, procurando apreender as mudanças sociais, culturais e econômicas causadas pela inserção da Barra do Camaratuba nos incipientes planos do turismo paraibano. A vida dos moradores vive alterações na esfera das atividades econômicas e culturais, porém um dos aspectos que parecem atrair o fluxo turístico é a imagem de uma "comunidade pacata" e mergulhada em relações culturais, voltadas para a tradição. As festas, o artesanato, o turismo e o lazer são elementos que se cruzam e caracterizam a vida dos seus moradores.


FOLCLORE E TURISMO CULTURAL EM SANTA CATARINA

Doralécio Soares - Professor e jornalista

A área do turismo cultural, engloba a cultura popular de massa. É uma temática envolvendo o turismo em todos os seus aspectos. Um dos aspectos culturais, distintos do Folclore, é o que envolve os santos do mês de junho: Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. Apesar do cunho religioso, tudo se transforma em "fogueiras", danças de roda, balões e fogos de artifício, quadrilhas, sortes entre as moças e folguedos diversos.


REIFICAÇÃO LITERÁRIA: UMA LITERATURA MASSIFICADA PARA AS MULHERES POPULARES

Janine Mikaele de O. Figueiredo - Estudante de Ciências Sociais / UFRN

Literatura massificada para as mulheres é um tema amplo e que pode dar margem a vários subtemas relacionados à leitura feminina, principalmente quando se está construindo uma sociedade massificada e fortemente influenciada pela mídia não literária, que, por motivos e tendências do mercado financeiro, possui um único interesse: vender. Diante da relação emissora – receptor e a influência que a mídia exerce sobre seu público alvo, no caso estudado, as mulheres populares, e considerando que tais influências são estimuladas a partir de uma indústria cultural/literária presente em toda a sociedade, tem-se um público envolvido e induzido a construir seu cotidiano em torno dessas leituras massivas. O enfoque se concentrará no estudo da influência das revistas massivas no cotidiano das mulheres populares, verificando onde e como elas aplicam em seu universo vivido os assuntos lidos nessas revistas massivas, partindo do pressuposto que a idéia de massificação torna o ser humano (seus anseios e concepções) na própria reificação, o objeto do objeto, a produção industrializada.

 

O FOLHETO DE CIRCUNSTÂNCIA: 11 DE SETEMBRO EM CORDEL

Maria Alice Amorim - Jornalista; especialista em Teoria da Literatura pela UFPE; Membro da Comissão Pernambucana de Folclore

Embora estudiosos vaticinassem o desaparecimento do folheto de "acontecido" ante o avanço tecnológico dos meios de comunicação de massa, a literatura de cordel não perdeu o vigor também nesse tipo de temática. Uma prova é a quantidade de títulos surgidos, em todo o país, a partir dos fatos e desdobramentos do trágico 11 de setembro, e a conseqüente aceitação do público, apesar de toda a mídia ter explorado o assunto à exaustão. Tal realidade faz pensar sobre os motivos que levariam tanto o autor quanto os leitores e ouvintes de cordel a procurar essa forma de comunicação e expressão literária, mesmo quando não há mais novidade jornalística no acontecimento registrado: além de oferecer o prazer do texto, das formas fixas e do formato, o folheto de acontecido é um veículo formador de opinião, pois o poeta diz o que pensa e defende idéias. E para corroborar a importância desse canal, a mídia transformou os livrinhos sobre os atentados em acontecimento: jornais, rádios e TVs, em cadeia nacional, noticiaram a publicação dos cordéis, dando publicidade ao fato e angariando novos leitores/ouvintes.


AGONIA E MORTE DE FREI DAMIÃO: DOS JORNAIS PARA A BOCA DO POVO

Osvaldo Meira Trigueiro - Doutorando na UNISINOS/RS; MS em Comunicação Rural pela URPE; vice-presidente da CPBF

O objetivo deste trabalho é relatar como a mídia impressa noticiou a agonia e morte de Frei Damião (*1898 – 1997+), sua repercussão na literatura de cordel e também como acontecimento midiático. O estudo está centrado nas notícias dos jornais: Diário de Pernambuco e Jornal do Comércio (Recife) e Correio da Paraíba (João Pessoa); nos folhetos de cordel de Dila José Ferreira da Silva: Frei Damião, Padrinho Frei e Frei Damião Faleceu; A Morte de Frei Damião: e o choro dos fiéis, de José Francisco Borges e o folheto do poeta Olegário Fernandes: A Morte de Frei Damião. O estudo faz uma análise exploratória da contextualização histórica do acontecimento folk-midiático da agonia e morte de Frei Damião na mídia e sua repercussão no povo nordestino. Quando em março de 1965 o professor e pesquisador Luiz Beltrão publicou um artigo sobre o ex-voto como veículo de comunicação popular1 , dava os primeiros passos para a formatação da teoria de folkcomunicação. Posteriormente, chama atenção para os meios de comunicação, não "ortodoxos", utilizados principalmente pelas classes populares para se comunicar e entre esses meios estava o folclore. Luiz Beltrão percebeu a importância do líder de opinião como agente estratégico da medição na recepção das mensagens midiáticas para as redes de comunicação cotidianas, ou seja, do sistema local de comunicação. O agente da folkcomunicação é um (inter) mediador no processo de recepção das mensagens midiáticas que circulam nos diferentes circuitos de comunicação dos seus grupos de referência.


CULTURA E INTERATIVIDADE NA TV

Maria Otilia Telles Storni - Dra. em Ciências Sociais pela PUC/SP; docente do Departamento de Ciências Sociais, CCHLA/ UFPB

Neste trabalho, pretende-se apresentar algumas reflexões sobre os gêneros ficcionais e demais elementos da cultura popular, que compõem a linguagem interativa do programa Você Decide (VD) da Rede Globo de Televisão. Suas especificidades foram analisadas em termos de um produto de cultura popular de massa, que é apoiado no gênero melodramático das telenovelas brasileiras. Como lembrou Martín Barbero, é uma estrutura literária dialógica sedimentada há séculos e vem sendo estudada desde Bakhtin a Gramsci, além dos teóricos da escola de estudos culturais de Birminghan, da Inglaterra. A interatividade desse programa alcançou grandes audiências nos episódios semanais do VD, principalmente por ter focalizado temas polêmicos como questões políticas e comportamentais. Pretende-se focalizar os elementos que geraram a interatividade no VD e que formam um modelo de gênero ficcional interativo, que é inédito no Brasil.


O ESPAÇO RETERRITORIALIZADO: DESENHANDO A FRONTEIRA NO BUMBA-MEU-BOI DO MARANHÃO

Isanda Maria Falcão Canjão - MS em Antropologia Social / UFRS

Na atual situação aonde a relação global/local vem sendo intensamente debatida, não é raro ouvirmos afirmações de que valores e referenciais identitários estão sendo disseminados e aniquilados. No contexto do bumba-meu-boi maranhense, esse discurso remonta a uma idéia de origem, de essência, e à descaracterização do ritual. Tal perspectiva recorre ao princípio de que a crescente interação cultural favorecida, especialmente, pelos variados meios de comunicação tem provocado o surgimento de novos costumes, elementos deslocados e distintos dos princípios "consagrados" daquela manifestação. A partir da contextualização que os "brincantes" de bumba-meu-boi fazem da "realidade vivida", buscamos apreender como vêm sendo interpretadas as novas situações que se impõem ao universo ritual onde se acham inseridas. Nossa discussão será orientada para a questão de que a noção de identidade não se sustenta apenas encerrada nas "grades da comunidade", do local, mas constitui-se também nos interstícios, nas fronteiras de espaços que se "tocam e dialogam", deslocando e desterritorializando o pertencimento.

 

O PROCESSO DE TOMBAMENTO DA CASA DAS MINAS E SUA REPERCUSSÃO NOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA DE SÃO LUÍS

Gerson Carlos Pereira Lindoso - Estudante de Comunicação Social (Jornalismo)/UFMA

Os modos representativos dos grupos ideologicamente minoritários (etnias diferenciadas, mulheres, negros etc.) pelos meios de comunicação de massa de São Luís são passíveis de análises científicas. É imprescindível analisar a relação dos meios massivos com as religiões afro-brasileiras, devido ao descaso que os afro-descendentes foram e continuam sendo tratados, com preconceito pelos meios de comunicação do Estado. Diversos são os estereótipos e termos inferiores utilizados pelos profissionais da comunicação ao longo da história da comunicação no Estado, dentre eles o mais conhecido "macumbeiro(a)", que é, na concepção dos leigos, sinônimo de feiticeiro, bruxo ou praticante de magia negra. O processo de tombamento da Casa das Minas é um fato de muita importância para a comunidade afro-descendente, embora os meios massivos tradicionais de São Luís não expressem tanto interesse em sua divulgação. As religiões afro-brasileiras são usualmente muito enfocadas ou visualizadas pela mídia local, a partir do momento em que são ligadas à rituais macabros de magia negra, ocultismo e satanismo, práticas que não têm nenhuma relação com essas religiões populares.


CULTURA POPULAR E ESCOLARIZAÇÃO

Gustavo Pereira Côrtes - Mestrando em Educação pela Faculdade de Educação da UFMG; fisioterapeuta; professor de Educação Física e do curso de Artes Cênicas/UFMG

As definições e conceitos do termo cultura popular ou folclore sempre tiveram uma barreira para transpor. Seria esta a cultura do povo ou a cultura para o povo? Os próprios produtores e legítimos responsáveis por essa produção, as chamadas classes populares, não têm essa definição para o seu produto cultural. Esse conceito, criado pelas elites em contraponto à cultura erudita, acabou utilizando critérios como tradicional, típico, regional, para designar as manifestações populares, o que gerou uma visão preconceituosa sobre esses estudos nas escolas. Em recente pesquisa realizada na Escola de Educação Física da UFMG por 20 alunos do curso de Folclore e Educação em 10 escolas da rede pública e 10 escolas da rede particular de ensino em Belo Horizonte, verificou-se que o estudo do folclore era raramente utilizado. Nas escolas pesquisadas, 40% afirmam que não utilizam desses conteúdos nas suas disciplinas, 33% utilizam como atividades culturais extras, como festas juninas ou semana do folclore e em 27% das escolas pesquisadas, o conteúdo folclore era estudado de forma sistematizada e pedagogicamente integrada ao currículo da escola. Os programas educacionais como os Parâmetros Curriculares Nacionais e o Projeto das Escolas Plurais de Belo Horizonte apontam importantes indícios na busca da legitimação dos estudos culturais, multiculturais e da pluralidade cultural. Sabemos que esse é um tema bastante complexo, que possibilita enfoques diversificados e amplas discussões. Neste trabalho buscaremos o auxílio das Ciências Sociais, buscando compreender o viés que restringiu esses estudos culturais dentro dos processos escolares.


CULTURA POPULAR E OFICINAS DE CAPACITAÇÃO: UMA PARCERIA PELA VALORIZAÇÃO DO FOLCLORE MARANHENSE - A EXPERIÊNCIA DO PROJETO CRIAÇÃO

Milene Barreto Brito - Estudante de Turismo/ Faculdade São Luís. Samme Sraya - Estudante de Turismo/Faculdade São Luís; organizadora do Projeto Criação. Terezinha Campos - Mestranda em Gerontologia/UNICAMP/SP; turismóloga; professora da Faculdade São Luís (Orientadora)

As oficinas de capacitação, com enfoque em cultura popular constituem, atualmente, um recurso pedagógico adotado em diferentes instituições a fim de desenvolver ações de caráter educacional e sócio-cultural, a exemplo do Projeto Criação, realizado com jovens carentes de São Luís. A inclusão da disciplina "Cultura Popular" na grade escolar do ensino fundamental e médio, em parceria com as oficinas, pode ser um instrumento interdisciplinar e difusor da cultura do Estado, enriquecendo e firmando a identidade cultural, possibilitando a inclusão social, a capacitação e, sobretudo a valorização da cultura popular maranhense. Este trabalho analisa a importância da sensibilização a partir de projetos de oficinas que elejam a cultura popular como temática da busca por tal valorização; discute também a importância da inclusão da cultura popular como disciplina perene em currículos dos níveis escolares citados, haja vista que isso ainda não é uma realidade. Analisa a experiência do Projeto Criação como instrumento prático do que pode ser, por um lado, visto como um mecanismo minimizador da falta dessa disciplina nos currículos e, por outro, como o vislumbre das possibilidades de aliar teoria-prática ante a uma possível inclusão da disciplina cultura popular na grade curricular do ensino fundamental e médio.


UMA EXPERIÊNCIA DE UTILIZAÇÃO DA CULTURA POPULAR COMO INSTRUMENTO DE PEDAGOGIA NO ENSINO UNIVERSITÁRIO

José Erasmo Campello - Dr. e Livre Docente em Didática/UFSM/RS; Mestre em Currículo pela OEA/Faculdade InterAmericana de Educação-MEC; licenciado em Pedagogia/UNESP; professor/ UFMA

Futuros professores e supervisores de ensino têm que estar conscientes de sua realidade porque é daí que os conteúdos ligados ao desenvolvimento dos escolares, de sua expressão e cidadania irão fluir. Assim, durante o ano de 1998, na disciplina de Currículos e Programas, no 8° semestre de Pedagogia da UFMA, a partir da. contextualização da realidade pedagógica vivida pela comunidade ludovicense e ainda com a perspectiva da implantação dos PCNs pelos estudantes, o responsável pela mesma resolveu assumir o segundo termo dessa disciplina, de forma a usar os princípios pedagógicos da construção sócio-histórica dos conteúdos. A experiência que se seguiu, o caráter teórico e aplicado do ensino, os resultados obtidos, fazem parte deste relato e constituem o objetivo desta comunicação. Par e passu caminharam o imaginário da cultura popular do Maranhão, os novos princípios da Teoria de Curríçulo, passando-se por J. Brunner, Edvard Sapir, P. Bordieu, P. Perrenot, Sacristan, Jurjo Santomé, numa revisão de estudos que caminhou da Lingüística, do Currículo para a Didática, para além do acervo da Casa de Cultura Popular Domingos Vieira Filho e sua Biblioteca. 40 graduandos de Pedagogia construíram sob forma de investigação-ação, um documento que se constituiu como o volume n°7 da Coleção Prata da Casa - Traço Cultural, Temas Geradores e Interdisciplinaridade -, publicado apenas em 2000, e abordou a Metodologia de Planejamento para Ensino Integrado ou Interdisciplinar, a partir do traço cultural maranhense com ênfase na cultura popular. Genericamente o texto produzido contém 25 modelos de Planos Interdisciplinares baseados no holismo e refere-se, em todos os exemplos, à riqueza da cultura popular do Maranhão e de como pode ser utilizado como recurso didático em sala de aula no primeiro e segundo ciclo do Ensino Fundamental, tendo o cuidado de evitar-se a cópia ou a reprodução negativa.. Alguns grupos de professores e alunos de áreas diferentes (Educação Física por exemplo), já estão socializados nessa produção.


ENSINO DE DANÇA POPULAR NO COLÉGIO MARISTA DE NATAL

Artur Garcez - Especialista em Dança/UFRN-CCSA); arte-educador; professor de História da Arte do Ensino Médio; licenciado em Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas/ UFRN/CCHLA/DEART

Realizamos essa pesquisa com o objetivo de registrar e interpretar a vivência de ensino com a dança popular no Grupo de Dança Popular do Colégio Marista de Natal, enfocando a dança popular como conhecimento da cultura brasileira e a necessidade de sistematizar elementos pedagógicos nessa área de conhecimento. A pesquisa teve como referência as seguintes questões de estudo: Quais os pontos positivos e as dificuldades no processo de trabalho desenvolvido no Grupo de Dança Popular e qual a receptividade dos alunos à proposta da dança popular como conhecimento da cultura, na escola? Utilizamos como referência metodológica a pesquisa descritiva do tipo estudo de caso, através da qual buscamos analisar o processo de trabalho desenvolvido no Grupo de Dança Popular do Colégio Marista de Natal e a receptividade dos alunos ao trabalho. Como instrumento de medida, utilizamos um questionário contendo questões mistas com o objetivo de obter informações sobre a experiência vivida no Grupo. Considerando-se a interpretação dos dados, apontamos alguns aspectos dessa experiência, os quais consideramos significativos para questões metodológicas da dança popular em um contexto formal de ensino tais como: a sistematização do trabalho desenvolvido com a dança popular na escola, a identificação dos alunos com a dança, em particular a dança popular, a vivência com elementos de outras técnicas de dança, a redescoberta de cada aluno sobre o meio social no qual vive e viveu, a busca de fatores dentro da cultura e da participação em grupo que contribuem para o processo pedagógico. Esses fatores trazem possibilidades para a prática da Dança Popular na educação, observados como um caminho e não como a única possibilidade para o desenvolvimento de tal atividade. O Grupo de Dança Popular é uma contribuição ao trabalho com Arte e Cultura no contexto da Educação Básica, haja vista a sua existência de sete anos e a receptividade apontada pelos participantes. A partir desta pesquisa, buscamos aprimorar o trabalho com a Arte, a Cultura e a Educação através das danças populares.

 

CULTURA POPULAR, ARTE E EDUCAÇÃO EM ESCOLAS MUNICIPAIS EM SÃO LUIS/MA

Izabel Mota Costa - Mestra em Multimeios/UNICAMP-SP; especialista em Arte Educação/ECA/USP; graduada em Educação Artística/UFMA

Utilizando temas da cultura popular local, o trabalho apresenta resultados de experimentos artísticos em várias escolas do Ensino Fundamental de 1ª e 2ª etapas da rede municipal de São Luís. O objetivo é a preparação das crianças e adolescentes para um melhor conhecimento e valorização da cidade. A temática envolve o patrimônio cultural, histórico, artístico e natural da capital maranhense. Os objetivos são tanto informar como sensibilizar o público alvo sobre o valor desse patrimônio. Slides e material produzido pelos alunos subsidiam a exposição do trabalho.


BRINCADEIRA DO BOI NAS ESCOLAS DO RIO DE JANEIRO

Walen Rocha - Graduado em língua portuguesa pela Faculdade de Letras/UFRJ e Educação Artística, pela Faculdade de Educação/UFRJ; integrante da Companhia Folclórica do Rio-UFRJ; trabalhou na produção dos especiais "Brava Gente"- 2002 e "Uma mulher vestida de sol", na TV Globo.

A Brincadeira do Boi foi muito importante na minha infância, passada no Maranhão. No Rio de Janeiro, venho, há 15 anos, desenvolvendo trabalhos sobre essa manifestação, utilizando-me das linguagens artísticas como música, dança, teatro e confecção de bonecos. Esta comunicação fundamenta-se nas experiências pedagógicas sobre o folguedo do boi em escola do Rio de Janeiro, onde tenho observado grande aceitação por parte dos alunos. "O Bumba meu Boi é a dança dramática de maior significação nacional porque congrega várias manifestações artísticas em sua apresentação."


CULTURA AFRO-BRASILEIRA NO ENSINO FUNDAMENTAL

Vera Lúcia Santos de Azevedo - Estudante de Ciências Sociais com habilitação em Licenciatura e Bacharelado em Antropologia/UFRN. Francisca Elenice da Silva - Departamento de Antropologia/UFRN. Orientador: professor Dr. Luiz Carvalho de Assunção/UFRN

A reflexão sobre questões sociais foi incluída no currículo escolar de forma a compor um conjunto articulado e aberto de temas contextualizados denominados de "Temas Transversais". Entre esses temas, destacamos a "Pluralidade Cultural", que diz respeito ao "conhecimento e à valorização das características étnicas e culturais dos diferentes grupos sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno a possibilidade de conhecer o Brasil como um país complexo, multifacetado e, algumas vezes, paradoxal". Nesta comunicação, pretende-se relatar as experiências vivenciadas durante a execução do projeto de extensão "Antropologia no ensino fundamental: o universo cultural afro-brasileiro". O referido projeto objetiva oferecer à rede pública de ensino e centros culturais, exposições etnográficas, bibliográficas, sonoras e visuais, com o fim de propiciar aos professores e alunos uma reflexão do processo histórico e uma visão mais contemporânea do universo cultural afro-brasileiro, contribuindo, dessa forma, para a compreensão da cultura afro-brasileira e para a eliminação de idéias e atitudes estereotipadas e preconceituosas.


CURSOS DO MUHSE: UM FATOR DE FORMAÇÃO SOBRE A CULTURA POPULAR

Suely Gleyde Amâncio da Silva - Doutoranda/UFBA; Mestrado/UFBA; Especialização em Educação/UFS; arqueóloga, historiadora, coordenadora de pesquisa do Museu do Homem Sergipano/PROEX/UFS

Hélia Maria de Paula Barreto - Mestranda/UFS; especialista em Museologia/UFS; Antropóloga, historiadora, diretora do Museu do Homem Sergipano/PROEX/UFS

O Museu do Homem Sergipano vem desenvolvendo, durante a sua vigência, uma exposição permanente onde trabalha a história e a cultura do homem sergipano, além de exposições temporárias e itinerantes onde o cotidiano e diversas manifestações sociais chegam aos visitantes em geral. Buscando uma interação maior entre o MUHSE e a comunidade, são desenvolvidos cursos de aperfeiçoamento, direcionado a profissionais de museus, a professores da rede estadual, municipal e particular de ensino, bem como a estudantes de graduação, preenchendo uma lacuna existente na formação desses profissionais. Foram realizados, durante esses dois últimos anos, cursos enfocando os temas museu e cultura popular, com a participação de profissionais da área. Os cursos "Introdução a Museologia"; "Folclore sergipano e suas especificidades"; "Folclore um enfoque educativo", apresentam resultados proveitosos, uma vez que o número de participantes a cada ano vem aumentando consideravelmente e as pessoas que participam dos mesmos retornam ao museu e continuam desenvolvendo trabalhos iniciados durante os cursos, divulgando e aplicando os conhecimentos.


EXPERIÊNCIA ARTÍSTICA DO COLÉGIO MARISTA MARANHENSE NA OLIMPIADA MARISTA DO BRASIL NORTE

Iran de Maria Leitão Nunes - Mestra em Educação/American Word University, Iowa,/EUA; professora de Pedagogia/UFMA

O presente relato inicia-se apresentando a Proposta Educativa Marista e o papel que a arte assume na educação integral preconizada por S. Marcelino Champagnat, fundador do Instituto Marista. Discorrer sobre a Olimpíada Marista do Brasil Norte, experiência extra-classe iniciada em 1980, com três dimensões: esportiva, catequética e artística. Destaca-se a presença do Colégio Marista Maranhense neste evento educativo a partir da valorização e divulgação do folclore e da cultura popular maranhense, através de números artísticos apresentados nas noites de abertura e cultural das referidas olimpíadas.


CRITÉRIOS E MEDIDAS PRÁTICAS NO ENSINO APRENDIZAGEM DO FOLCLORE NA ESCOLA

Meire Berti Gomiero Fonseca - Regente de coral; folclorista; membro da Comissão Paulistana de Folclore

Nesta virada do século, estamos passando por um momento histórico e de proposta relevantes, portanto, recomendamos o "Folclore Educacional" como disciplina que estuda técnicas novas, estudos e medidas práticas para o melhoramento social da comunidade para ensinar o folclore do nosso país que, no ensino fundamental, possa ser aproveitado os elementos úteis das manifestações folclóricas do nosso povo e afastar outras prejudiciais, chamadas "peso morto" segundo Renato de Almeida. Portanto, essa tarefa é própria para especialistas pois, devemos transplantar para à escola, assuntos de interesse à formação básica da criança e afastar as práticas inconvenientes que são prejudiciais à Educação. No entanto, sua reformulação se faz necessária, pois a aplicação do Folclore na Escola é de inestimável valor tanto na formação espiritual como na relação e compreensão dos problemas da comunidade, e no aprimoramento da parte social, econômica, estética e moral do povo. Sua importância é indiscutível nas disciplinas como a História, Geografia Humana, Língua Pátria, Artes, em geral, e Música, em particular. Usando as manifestações musicais folclóricas sempre com critérios seletivos por parte de educador e sem esquecer o homem, estamos desenvolvendo a musicalização através da voz, dos instrumentos típicos de percussão, dos movimentos corporais e das artes cênicas.


ORALIDADE E TRANSMISSÃO DO SABER

Francisco Alberto Lemos dos Santos - MS em Educação / UEMA

Vivemos potencialmente em uma sociedade cuja oralidade abriga um importante destaque na cultura e, por sua vez, na transmissão do saber. Essa, por sua vez, "obedece" a uma pragmática que é apresentada de modo significativo pelo filósofo francês Jean-François Lyotard em seu escrito A Condição Pós-Moderna, de 1979, e publicado no Brasil 10 anos depois. Tal escrito trouxe um enorme ganho à filosofia e à filosofia da educação ao mundo ocidental, mas no Brasil ele só foi compreendido sem rancor há cerca de 10 anos. A pragmática do saber narrativo não valoriza a legitimidade de sua transmissão, dado que ele dá crédito a si mesmo sem ser preciso provar o que se está dizendo, ao contrário do saber científico. Lyotard relata a supremacia da forma narrativa na elaboração do saber tradicional que é o "objeto" deste escrito. Pois a "narração é a forma por excelência deste saber". Lyotard chama a atenção para 4 aspectos deste saber narrativo: a pragmática das histórias populares, sobretudo nos aspectos de formações (Bildungen) positivas e negativas; a enorme pluralidade de jogos de linguagem que ele veicula; a sua incidência no tempo e, por fim, a transmissão do saber narrativo. Nesse último caso, mesmo que não seja uma regra universal, ele sempre começa por uma invariável transmissão, tal como dado pelos índios cashinahua: "Eis a história de..., tal como eu sempre a ouvi. É a minha vez de vo-la contar, ouçam-na" e "Aqui acaba a história de... Aquele que vo-la contou é... [nome cashinahua], entre os Brancos... [nome espanhol ou português]". Assim posto, a oralidade assume uma função ímpar na transmissão do saber, pois para ascender ao posto de narrador, o narratário foi antes um ouvinte. Ao tempo que se escuta confere-se a competência para ser um transmissor, pois os três personagens da linguagem (sabe-se já que é o locutor, o ouvinte e o assunto do que se fala) veiculam assim um saber triplamente preestabelecido: o que é preciso dizer para ser ouvido, o que é preciso escutar para poder falar e o que é preciso desempenhar (no âmbito de uma realidade diegética) para poder ser objeto de uma narrativa. O que se depreende dessa configuração é o trio: saber dizer, saber escutar e saber fazer. Esses itens estabelecem assim regras pragmáticas junto à comunidade, constituindo-se, dessa forma, o seu vínculo social.


NO CAMINHO DA LUDICIDADE: O PERFIL PESSOAL E PROFISSIONAL DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS NA ESCOLA

Isabela Freitas de Oliveira - Graduada em Educação pela UFRN. Maria de Lourdes Patrini - Professora Dra. em Antropologia/UFRN (Orientadora)

Após a expansão súbita da literatura voltada à infância e juventude, as manifestações produzidas na tradição oral pareciam encontrar acolhimento junto aos ambientes de cultura escrita: bibliotecas públicas, associações e escolas. A partir dessa realidade, entretanto, fez-se necessário entender o perfil pessoal e profissional dos contadores de histórias dentro do espaço escolar; ambiente que, na maioria das vezes, privilegia atividades alicerçadas pela rigorosidade das práticas escriturais. Neste trabalho, integrante de uma pesquisa sobre a arte de contar, o contador de histórias e sua prática de contar na escola, objetivou-se analisar o perfil pessoal e profissional dos professores que desempenham tal atividade no ensino fundamental em escolas de Natal/RN. Por meio dos registros e observações sedimentadas nas reflexões teóricas, estudamos os perfis pessoal e profissional desses professores/contadores que disseminam a obra poética ao público escolar. Identificamos os traços que compõem esses perfis, considerando a perspectiva que aproxima esses agentes dos contadores de histórias da tradição. Assim, percebemos que os professores/contadores são, em sua maioria, professores de sala de aula, do sexo feminino provenientes do interior. O mais interessante ainda, é que esses agentes da oralidade foram, em algum momento de suas vidas, ouvintes dos contadores e das narrativas apresentadas pela cultura popular. Entretanto, na escola não encontram respaldo satisfatório para um encaminhamento coerente da atividade de contar, levando-se em conta que essa prática pode auxiliar na formação de leitores.


NA ÓRBITA DA TRADIÇÃO: ORALIDADE, ESCRITURA E PERFORMANCE DOS CONTADORES DE HISTÓRIAS NA ESCOLA

Márcio Alves de Medeiros - Graduado em Letras pela UFRN. Maria de Lourdes Patrini - Professora - Dra. em Antropologia pela UFRN (Orientadora)

A partir da efervescência da literatura voltada para infância e juventude as manifestações originadas na tradição oral pareciam encontrar acolhimento junto aos ambientes de cultura escrita: escolas, bibliotecas públicas e associações. Entretanto, essa realidade nos apontou para a necessidade de um entendimento maior sobre as práticas de oralidade, entre elas o contar histórias, dentro de espaços primados, muitas vezes, pelo rigor da escrita. Nosso trabalho, integrante de uma pesquisa sobre a arte de contar, o contador de histórias e sua prática de contar na escola, analisa o trabalho performático de professores que desempenham tal atividade no ensino fundamental em escolas de Natal/RN. Por meio dos registros e observações alicerçadas nas providências teóricas, estudamos as estratégias utilizadas pelos professores/contadores, em cena, e a obra poética transmitida ao público escolar. Obra que na concepção de Paul Zumthor (1993) significa aquilo que é comunicado poeticamente, aqui e agora, com a totalidade dos fatores da performance circunscritos neste espaço e neste tempo. Percebemos que tal processo apresenta-se à margem daquela prática remanescente de um topo onde as transmissões de narrativas e experiências do cotidiano se misturam às tradições e saberes populares. Ao mesmo tempo, há um anseio dos agentes da performance poética - receptores de contadores tradicionais na infância - em encontrar caminhos para a consolidação da atividade de contar histórias com as demais práticas de aprendizagem da rotina escolar de sua clientela, também seu público.


TAPERA: EM BUSCA DOS LUGARES DE MEMÓRIA

Fabio Giovanni dos Santos Rebouças e Mabelle Conceição Costa Cabral - Graduados em História / UFRN. Julie Antoniette Cavignac - Professora Dra. em Antropologia / UFRN (Orientadora)

O Projeto "Tapera: em busca dos lugares de memória", vinculado à Base de Pesquisa Cultura, Identidade e Representações Sociais, é assim denominado porque está em nossas perspectivas de estudo a preocupação em se refletir sobre o patrimônio cultural e a consciência étnica das comunidades do Rio Grande do Norte. O Projeto surgiu das discussões feitas a partir de elementos encontrados nas narrativas, sendo uma recorrência as citações de "caboclos brabos" que viviam escondidos nos matos, na época dos avós. Dessas estórias contadas, apareceram comentários informais sobre uma possível sobrevivência dessas comunidades nos dias atuais. Esses caboclos (índios ou negros - não se faz uma distinção clara), que foram ignorados pela história oficial, tomam forma nas estórias contadas pelo povo do lugar, em suas experiências cotidianas, como algo que pertence a suas lembranças e que ainda está presente em suas vidas. A reflexão sobre o Patrimônio perpassa não só as construções materiais; os discursos, presentes na tradição oral, têm sido vistos como um monumento também, só que imaterial. São fragmentos do nosso passado que devem ser preservados; passagens da história reelaboradas como um sinal de recriação de uma vivência coletiva. A consciência da origem torna-se totalmente relevante, principalmente para alguns grupos que vivem à margem da sociedade e que enfrentam problemas de reconhecimento e respeito de seus direitos. Buscando uma compreensão mais ampla da temática, unimos duas abordagens diferentes que se complementam: a História e a Antropologia. Trabalhando com a memória social e coletando a história oral das comunidades, intencionamos permitir que aqueles destituídos de valor político dentro da sociedade que as engloba possam conhecer e expressar seu passado, fazendo-as refletir sobre o sentido do Patrimônio Cultural no dia-a-dia.


PESCANDO POUCO, SABENDO MUITO: CONHECIMENTO PESQUEIRO NUMA COMUNIDADE LITORÂNEA DA PARAÍBA

André Gondim do Rego - Graduado do curso de Ciências Sociais / UFPB

Numa comunidade onde a pesca ainda se faz de maneira artesanal, a transmissão de seu conhecimento atualiza-se numa complexa interação entre cultura e natureza, comportando um vasto universo de elementos simbólicos que lhe dão sentido e objetividade. No extremo norte do litoral paraibano, no município de Matraca, a pequena comunidade de Barra do Camaratuba, construída historicamente sobre uma produção de subsistência agrícola e pesqueira, hoje profundamente abalada por uma série de expropriações e explorações, das quais o turismo é bastante representativo, vem servindo como base empírica num estudo que procura interpretar como se dá a produção e reprodução de sua pesca marítima enquanto um saber localmente elaborado. Para isso vêm sendo feitas, desde 2001, visitas à comunidade que permitem, através de entrevistas e observações de campo, o registro das memórias, histórias e práticas que a todo tempo (re)criam e dão significado à vida de seus moradores.


NARRATIVAS DE UM MUNDO SOBRENATURAL NO SUBTERRÂNEO DO RIO GRANDE DO NORTE

Rafaela Menezes Ramos, Glória Cristina de Oliveira Moraes e Bruna Thayse Queiroz de Melo - Graduadas em Ciências Sociais / UFRN

As narrativas que são encontradas em algumas cidades do Rio Grande do Norte nos revelam um mundo sobrenatural adormecido e cheio de mistérios, localizado no subterrâneo. Este é povoado de seres encantados - como as serpentes metamorfoseadas e as baleias que vivem embaixo das cidades (nas lagoas, igrejas e serras), além de algumas personagens com formas humanas: princesas, mães-d’água etc. - de tesouros enterrados, as conhecidas "estórias de botijas", e de túneis secretos por onde os holandeses transportavam as riquezas do Rio Grande do Norte para sua terra natal. Essas narrativas revelam uma visão bastante original da história, a partir de uma lógica própria de interpretação dos eventos. Há uma continuidade entre o universo humano natural e o sobrenatural, sendo quase indistinguível nas narrativas o que é real e o que é fictício. O universo maravilhoso descrito nas narrativas informa sobre as representações nativas do passado colonial, as quais são comumente ignoradas pela história oficial. Por isso, é importante a reunião de interesses entre a Antropologia e a História num mesmo campo de pesquisa: a Memória, para que seja possível a compreensão de como os habitantes do Rio Grande do Norte apreendem o mundo em que vivem. As narrativas evidenciam as representações simbólicas de uma comunidade e os processos de adaptação culturais pelos quais passa a mesma; tornando possível, assim, uma recriação da história local através das interpretações de seus moradores, que narram fatos de um tempo indeterminado do qual eles "ouviram falar", mas que continua fazendo parte de suas vidas.


MEMÓRIA MITOLÓGICA E BUMBA-BOI

Cosme Oliveira Moura Junior e Maria Tereza Nunes Trabulsi - Graduados em Ciências Sociais / UFMA. Sérgio Figueiredo Ferretti - Professor Dr. em Antropologia/UFMA (Orientador)

Neste trabalho tentamos discutir os aspectos mitológicos presentes nas estórias que permeiam o Bumba-Boi no Maranhão. E a forma com que tais nuanças mitológicas vão enveredar, assim, diferentes versões narrativas. Procuramos ainda, compreender a importância da disseminação das mentalidades e memórias mitológicas no processo de formação, legitimação e materialização das manifestações folclóricas do Bumba-boi. Concebemos a cultura como um de símbolos em circulação e como um todo construído e interpretado pelos autores sociais e buscamos entender a relação entre crenças mitológicas e as narrativas presentes no bumba-boi. Como base teórica foi de grande relevância essas categorias de representação e classificação coletivas abordadas por Durkheim (1970) e Marcel Mauss (1979), além das concepções de ritual e mito referidas por Durkheim em As Formas Elementares da Vida Religiosa (1996). Nossas fontes de estudo foram variadas: orais e escritas. Colhemos algumas narrativas do bumba-boi através de entrevistas e fizemos uso de recortes de jornais coletados no Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho, que englobam jornais como: O Imparcial, O Estado do Maranhão, O Dia e alguns de empresas turísticas. O período das fontes varia da década de 1970 a 2001. As entrevistas foram inicialmente gravadas em fitas cassetes e depois transcritas para facilitar nosso trabalho analítico. Tratamos as fontes através da crítica interna, técnica de análise documental da História para analisar a importância e o grau de coerência das fontes recolhidas. Feitas as análises e interpretações dos dados, observamos a importância da valorização da manifestação do bumba-boi como algo simbólico ritualístico, que possui visões de mundo e cosmologia de uma dada comunidade imaginada. Portanto, o Bumba-boi, quer seja tradicional ou de inovação, deve ser entendido como uma manifestação onde ícones e símbolos sociais são corporificados e sistematizados em um todo ritualizado.


ENCONTROS E ENCANTOS, JOGOS DO ACASO

Cleides Antônio Amorim - MS em Antropologia Social / UFMA

Este artigo procura refletir sobre as possibilidades e incongruência discursivas e culturais que se estabelecem a partir do encontro de subjetividade investigador/investigado, no mesmo tempo que intenciona diminuir a distância das narrativas escritas e não-escritas. Parte do pressuposto de Calvino (1988), que as linguagens nativas extrapolam as linguagens formalizadas e comportam uma quantidade de rumores e idiossincrasias sempre crescentes que perturbam a essencialmente da informação. Os dados empíricos aqui apresentados dizem respeito ao universo ritual religioso da pajelanca em Cururupu/MA, onde suas principais concepções do universo estão intrinsecamente impregnadas de idéias e crenças ameríndias, africanas e européias. A pajelanca, como fora definida por Galvão (1975), é um sistema religioso que conjuga um complexo de práticas mágicas e se baseia no poder de determinados indivíduos( pajés ou curadores), sobre uma miríade de classes de sobrenaturais que utilizam para a cura de doenças e para a feitiçaria. Entre as várias categorias sobrenaturais existentes na pajelanca, este texto toma como objeto de análise as mães d’água devido à importância que assumem no imaginário local e por serem, conforme Cascudo, a fusão de personagens míticos indígenas (Cobra Grande), africanos (Oxum e Iemanjá) e europeus (sereias).

Palavras chave: encontro, acaso, narrativo, imaginário, pajelanca, mãe-d’água.


NAS TRILHAS DA MODERNIDADE: UM ESTUDO SOBRE O CONTADOR CONTEMPORÂNEO NA FRANÇA

Maria de Lourdes Patrini - Dra. em Antropologia

Este é um estudo sobre o contador de histórias contemporâneo na França que se inscreve no contexto dos novos contadores e do fenômeno da renovação do conto, a partir do movimento de maio de 1968 até o final dos anos 90. A análise da performance desse contador no ato da transmissão e recepção oral do conto revela que a oralidade e o conto estão ainda presentes na nossa sociedade. Se os contadores da tradição estão desaparecendo, por outro lado os homens desejam ainda a presença do conto. Se hoje os novos contadores utilizam um repertório eclético, oriundo freqüentemente da fonte escrita e com uma forma de contar em que prevalece o desejo de ser original, eles nada mais têm em comum com o contador tradicional, pois essa renovação se faz na transmissão e recepção orais. O conto oral tenta buscar um novo sentido graças à articulação com os diversos tipos de mensagens contemporâneas e, ainda, por viver do imprevisto e da improvisação, apesar de todas as previsões midiáticas da modernidade. Os contadores de histórias se servem da oralidade como uma nova possibilidade para existir nesta confluência de instrumentos e de linguagens. Meu estudo está assim concebido a partir deste contexto de fragmentação, de mudança e de descontinuidade.


OS PROCESSOS LINGÜISTICOS E SEMÂNTICOS UTILIZADOS PELO NARRADOR DE CONTOS POPULARES OU CANTOR DE ROMANCES TRADICIONAIS NA TRANSMISSÃO ORAL DE UM SABER FIXADO NO IMAGINÁRIO

Braúlio do Nascimento - Presidente de Honra da Comissão Nacional de Folclore

Ao transmitir um texto, o narrador ou cantor mantém fidelidade ao tema memorizado, mas o reproduz conformando-o a sua psicologia, experiência vivêncial e visão do mundo. A memorização do tema, que foi ouvido em uma situação narrativa, serve de base para a sua imaginação criativa, utilizando a paráfrase como veículo de transmissão e fidelidade a tradição.

GT 10 - Gestão Cultural - José Antônio de Carvalho (UEMA) e Joãozinho Ribeiro


PRÁTICAS COLETIVAS NA GESTÃO DA CULTURA

Terezinha Moreira Lima - Dra. em Serviço Social/PUC/SP

As práticas dos movimentos sociais apontam para diversificadas leituras da realidade, expressando a dinâmica do capitalismo, sua capacidade de revigoramento e a fragilidade do Estado-Nação face à hegemonia do neoliberalismo. Os movimentos na área da cultura popular tendem a reduzir seu escopo de ação política, desviando-se, quase sempre, da questão da racionalidade incorporada no capitalismo, tendo em vista a criação de estratégias de enfrentamento às crises que resultam das transformações no mundo do trabalho. Entretanto, suas ações de resistência superam, no cotidiano, as diferenças de classe, articulando e produzindo um tecido relacional que permite a articulação das diferenças, especialmente no que toca à gestão da cultura. Nesse sentido, a participação na definição de mecanismos de controle social tem suscitado a implementação de políticas públicas favorecendo a recriação de movimentos organizativos e a produção de novas expectativas. Pretende-se analisar as intercessões e contradições entre cultura e políticas públicas no Maranhão.


O INVENTÁRIO NACIONAL DE REFERÊNCIAS CULTURAIS: UMA EXPERIÊNCIA COM O BUMBA-MEU-BOI DO MARANHÃO

Luciana Carvalho - Doutoranda em Antropologia/PPGSA/UFRJ CNFCP/Funarte/Minc

O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular/Funarte/Minc, em parceria com a Secretaria de Patrimônio Museus e Artes Plásticas/ Minc e com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, lançou no ano de 2001 o Projeto Celebrações e Saberes da Cultura Popular, que está integrado ao Programa Nacional de Patrimônio Imaterial. Este programa foi criado recentemente, com os objetivos de regulamentar, aplicar e aperfeiçoar o Decreto Presidencial 3551, que institui o registro de bens culturais de natureza imaterial em livros de Celebrações, Saberes, Ofícios e Lugares. Ele prevê também ações de identificação e documentação desses bens, com base numa metodologia que tem como instrumento o Inventário Nacional de Referências Culturais. Nesse sentido, o CNFCP já procedeu à abertura do inventário do complexo cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão, o qual, por sua reconhecida expressividade, apresenta-se, com bastante pertinência, como candidato à inclusão nos Livros de Registro do IPHAN. O empreendimento foi realizado entre setembro de 2001 e fevereiro de 2002 e consistiu, basicamente, em: pesquisa de documentos, trabalho de campo em cinco regiões do estado, documentação fotográfica, preenchimento de fichas do INRC e avaliação da aplicabilidade desse instrumento e do registro no caso do Bumba-meu-boi maranhense. Os resultados desse levantamento preliminar, recentemente concluído, serão apresentados e discutidos neste trabalho.


O CAMPO E AS REPRESENTAÇÕES DOS BRINCANTES DO BUMBA-MEU-BOI

Arinaldo Martins de Sousa - Estudante de Ciências Sociais/UFMA

Sentindo a necessidade de analisar como grupos de bumba-meu-boi se comportam no atual contexto de incentivos financeiros por parte do Governo do Estado em São Luís, decidimos realizar este trabalho, tomando para análise as representações de "brincantes" do bumba-meu-boi de zabumba a respeito do "lugar" (BOURDIEU, 1989) do citado "sotaque" no campo do bumba-meu-boi do Maranhão. Fizemos isso com o intuito de saber se existe ou não um campo de disputa pelo "monopólio do capital social" (op. cit.) entre os grupos, classificados nos chamados sotaques. O referencial teórico utilizado foi o sociólogo Pierre Bourdieu, os antropólogos Clifford Geertz, Gerald Berreman, o historiador Eric Hobsbawn e o clássico Émile Durkheim. Constatamos a existência do campo de disputas, com a utilização, sobretudo, por parte dos brincantes, dos bumba-meus-bois de zabumba, de discursos que enfocam a qualidade da tradicionalidade como a sua maior virtude.


Novas políticas de bens imateriais

Grupo de Trabalho Novas Políticas de Bens Imateriais

O Grupo de Trabalho NOVAS POLÍTICAS DE BENS IMATERIAIS, afora o acolhimento de comunicações sob a sua temática, se dedicará à discussão da proposta da Comissão Nacional de Folclore - encaminhada à Frente Parlamentar de Defesa da Cultura Popular, da Câmara dos Deputados (em Brasília - DF) - de um ante-projeto de lei complementar aos artigos 215 e 216 da Constituição Federal, relativos aos bens de natureza imaterial do patrimônio cultural brasileiro. A proposta, que foi encaminhada com a ressalva de se tratar de uma moção introdutória, com a finalidade de incentivar a discussão sobre o assunto, teve seus estudos preliminares reportados a publicações brasileiras e às veiculadas pela UNESCO e pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual, e incorporou idéias e sugestões obtidas junto às Comissões Estaduais de Folclore e folcloristas brasileiros que já haviam manifestado interesse pelo assunto. O 10º Congresso Brasileiro de Folclore - e especificamente este Grupo de Trabalho - se transforma em um dos fori de avaliação e complementação da proposta, presente a necessidade de democratizar a discussão em torno da matéria - para que a lei não fique na dependência da opinião de uns poucos especialistas.

Assim, o grupo de trabalho se reunirá no dia 20/06 para a leitura e discussão das comunicações que lhe forem apresentadas, reservando a sexta-feira, 21/06, para uma sessão de apreciação de sugestões para o aperfeiçoamento da proposta de lei complementar aos artigos 215 e 216 da Constituição Federal.

A proposta apresentada à Câmara dos Deputados é no sentido de que a proteção jurídica aos bens de natureza imaterial do patrimônio cultural brasileiro pretendida incida sobre dois campos:

1. Direitos morais - denominação que figura nos textos da Organização Mundial de Propriedade Industrial para direitos relativos ao reconhecimento da paternidade do bem e de veto ao seu uso indevido; tal denominação encontrará sérias resistências entre os setores que se mantêm fiéis à tradição jus positivista brasileira;

2. Direitos econômicos - de natureza indenizatória pelo uso, devendo-se prever um impedimento da licença para uso exclusivo, o qual, pelas atuais normas de direito internacional, permitem a transferência da titularidade.

O patrimônio cultural imaterial - pela imaterialidade da sua natureza - não pode ser objeto da proteção legal em razão da impossibilidade de sua determinação. No entanto, os indivíduos e as comunidades - que são vítimas de pirataria e de abusos, que têm o seu patrimônio expropriado, falsificado, profanado - têm consciência de que seus direitos estão sendo violados e clamam por proteção.

Em nenhum dos casos reclamados os saques ocorreram em relação ao patrimônio indeterminado, mas a manifestações que foram documentadas por pesquisadores - de boa-fé ou não - que, ao divulgarem o seu trabalho, tornaram os registros disponíveis aos usos e abusos. Assim, onde está o problema está a solução. O sujeito principal sobre o qual deverá regular um instrumento futuro será não propriamente o patrimônio imaterial, mas as expressões materiais deste patrimônio e os espaços físicos que lhe são associados deverão, igualmente, ter um lugar na definição. A legislação para um direito de propriedade intelectual "sui-generis" contemplará o patrimônio cultural imaterial cuja materialização através de performance seja passível de registro, capaz de determinar as suas características específicas.

São características gerais do patrimônio imaterial:

a) a espontaneidade de sua criação;

b) os contextos: social, cultural e intelectual desta criação;

c) o fato de que o acesso e a utilização são regidos por regras costumeiras;

d) os métodos de transmissão, em particular, oral;

e) o fato de que a transmissão se opera de geração em geração;

f) o fato de que ela age numa cultura viva e em evolução;

g) o fato de que são freqüentemente detidos por uma coletividade;

h) o fato de que ela reflete os valores e as crenças de um grupo ou de uma sociedade;

i) sua importância para a criação de uma identidade;

j) sua contribuição para a diversidade cultural;

l) sua significação espiritual e cultural.

Cabe ao Estado a promoção do registro, que tornará possível a proteção da matéria-prima, da técnica, dos procedimentos, dos padrões e estilos, quando for o caso.

No ato do registro, os detentores do saber e/ou a autoridade definirão a extensão da proteção a ser dada, considerando que em certos casos a matéria-prima e a técnica são de uso generalizado, não sendo passível de proteção em si. A proteção deve ser adotada por tempo indeterminado.

Em decorrência do uso do conceito de performance, para captar a materialização do patrimônio, torna-se necessário alargar o conceito de proprietário do direito intelectual. Nos casos da performance resultar em obra original de caráter autoral, deverá ser reconhecido o indivíduo ou o grupo como proprietário, com a proteção da legislação já existente.

No caso da revelação do patrimônio comum contribuir na versão, a titularidade dos direitos deverá ser atribuídas ao detentor do saber, aquele ou aqueles capazes de revelar a versão registrada.

 

UM OLHAR SOBRE OS REGISTROS RUPESTRES NO MARANHÃO

Akley Marques Bandeira - pesquisador do Grupo de Estudo História e Memória/UEMA

No Maranhão, como em quase todo o Brasil, encontramos um tipo de vestígio arqueológico que desde o século XVI vem despertando no país o interesse de curiosos e pesquisadores, devido à sua origem e significação. São os chamados grafismos rupestres. Surgido da necessidade do homem pré-colonial em registrar de forma definitiva seus sentimentos, medos, emoções, além do seu cotidiano, os registros rupestres há muito têm ganhado notoriedade e importância no Brasil. Popularmente chamada de arte rupestre, não existe ainda no país um consenso acerca das denominações mais adequadas. Para Leite Filho e Leite, contestado por muitos pesquisadores, o termo arte rupestre é utilizado para caracterizar as diferentes manifestações plásticas deixadas pelo homem pré-histórico em superfícies rochosas. Diferentemente de outros estados, o Maranhão ainda não despertou para o potencial arqueológico de sua terra, bem como para a compreensão de sua história pré-colonial. Esta comunicação apresentará os resultados parciais obtidos na realização de minha monografia no curso de História da UEMA, onde estou mapeando os municípios maranhenses que possuem sítios arqueológicos que apresentem registros rupestres para elaborar um relatório informando o potencial arqueológico das localidades com maior ocorrência desses vestígios. Para tanto, estou utilizando bibliografia geral acerca do tema, relatos de pesquisadores maranhenses que já abordaram a temática, fichas cadastrais de sítios arqueológicos maranhenses no IPHAN, entrevistas com especialistas e, por fim, pesquisa de campo no intuito de comprovar a literatura estudada e/ou mapear novos sítios.


DE FOLK-LORE À CULTURA POPULAR

Norton Figueiredo Corrêa - Dr. em Antropologia/PUC-SP

A expressão folk-lore, criada por William John Thoms, em 1846, reflete uma visão especifica dos estudiosos da época. Reflexo de certas concepções, o termo original e abandonado pela maioria dos intelectuais é substituído por cultura popular. Neste mais de século e meio, o campo foi abordado através de vários enfoques teóricos, destacando-se o difusionismo historicista e, atualmente, a chamada escola da antropologia simbólica. O presente trabalho objetiva analisar alguns dos aspectos de maior destaque que cercam o surgimento das expressões e teorias mencionadas.


UMA ANÁLISE PRELIMINAR SOBRE O DESAPARECIMENTO DA ETNIA INDÍGENA DO RIO GRANDE DO NORTE NO SÉCULO XIX

Fábio Giovanni dos Santos Rebouças - Graduando em História/DEH/UFRN. Julie Antoinette Cavignac - Professora Dra. /DAN/UFRN (Orientadora)

No século XIX, o Brasil adotou uma política indigenista que se caracterizou pelas discussões em torno da atribuição das terras indígenas. No Rio Grande do Norte, desde o início da colonização, a questão já era crescente, levando a vários conflitos, tendo como resultado a escravização, morte e fuga dessas populações para outras regiões. Mais tarde, os aldeamentos vão ser atingidos, acelerando assim o processo de aculturação e deixando um caminho aberto para os colonos. No entanto, a partir de 1872, os índios deixam de ser registrados como tal. Hoje, o Rio Grande do Norte é um dos poucos estados do Brasil onde não se têm populações indígenas. Queremos discutir aqui, até que ponto a Lei de Terras, ligada à política indigenista, influenciou esse apagamento da questão étnica no cenário regional.


VIDA DE FOLCLORISTA: MÁRIO SOUTO MAIOR, UM CABRA DA PESTE

Rubia Lossio - Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

O objetivo da pesquisa é divulgar os trabalhos do Folclorista Mário Boaventura Souto Maior no cenário popular, resgatando, nesse sentido, sua vida e principais obras para que não fiquem esquecidas na memória popular. A importância da pesquisa está em resgatar a história do Folclorista Mário Boaventura Souto Maior, quem tanto fez pelo nosso folclore. Etnógrafo, escritor, pesquisador e Folclorista, nasceu no dia 14 de julho de 1920, em Bom Jardim, Pernambuco. Foi advogado, promotor, prefeito e professor. Em 1920, publicou Como Nasce um Cabra da Peste, primeiro trabalho folclórico de sua obra. Elaborou um Dicionário do Palavrão e Termos Afins, Nomes Próprios Poucos Comuns, Comes e Bebes do Nordeste, entre outros. Ganhou o Prêmio Silvio Romero (1979) e o Gran Prêmio Iberoamericano Augusto Cortazar (1989) com o livro Alimentação e Folclore, além de outras honrarias. Trabalhou como pesquisador na Fundação Joaquim Nabuco, de Recife em Pernambuco, na Coordenadoria de Estudos Folclóricos, onde fez a maioria de suas pesquisas e que infelizmente veio a falecer no dia 25 de novembro de 2001 aos 81 anos. Amante do ocaso, das crianças e dos animais, dizia que o folclore nunca ia se acabar, pois quando os astronautas foram à lua, colocaram primeiro o pé direito. Desse modo, resgatar a história desse "Cabra da peste" é trazer o folclore para ser lembrado e vivenciado. Folclorista que tanto contribuiu com mais de 70 livros publicados para a história do nosso folclore.

 

O CONFLITO É PELA TRADIÇÃO? REPRESENTAÇÃO DO TRADICIONAL DE SAMBISTAS DA ESCOLA DE SAMBA TURMA DO QUINTO

Robson Raimundo Silva Pereira - Estudante de Ciências Sociais/UFMA

O enfoque deste trabalho oscila entre uma perspectiva mais relacionada ao conceito de tradição (HOBSBAWM; 1997) e outra visão que prioriza a análise ancorada em estudos de base etnográfica, porém buscando uma visão híbrida entre tradicionais e modernos (CANCLINI;1983), já que, segundo esse autor, há uma combinação de vivência e de representações, cuja ambigüidade corresponde ao caráter não resolvido das contradições no interior dos setores populares. Para compreendermos essas ambigüidades, recorremos a (MARTINS; 2001) e aos antecedentes ludovicenses para o surgimento das escolas de sambas em São Luís. A investigação tomou como base empírica o Bairro da Madre Deus, levantando os primeiros elementos para a construção da história social do bairro e dos sambistas da Escola de Samba Turma do Quinto e suas diversas relações com instituições governamentais. Participamos de vários ensaios da escola e acompanhamos a apresentação do Quinto na passarela do samba, na madrugada do dia 12 de fevereiro de 2002. Concluímos que o processo de interação das festas populares como instrumento do Estado não pode ser pensado como uma absorção progressiva e inevitável das culturas tradicionais pelo capitalismo. Como assinala CANCLINI (1983)... é mais complexo, com idas e vindas, coexistência desconcertantes e múltiplas combinações.


A PRESENÇA DO BRINQUEDO NA REGIÃO

Maria Isabel de Medeiros - Licenciada em Educação Física Infantil/UFRN

Diversos estudiosos buscam através de pesquisas baseadas em objetos, gravuras, fotografia, pintura e literatura, a origem dos brinquedos. Existem no acervo de alguns museus, exemplares de objetos encontrados em escavações, pertencentes a culturas muito antigas. Através desses estudos é possível conhecer o modo de vida dos nossos antepassados e observar que alguns elementos ainda se fazem presentes na nossa cultura, como por exemplo, o uso de brinquedos e brincadeiras populares. Assim, viajamos ao Sertão do Rio Grande do Norte e buscamos, através do relato de 20 colaboradores (10 adultos e 10 crianças), fazer um breve mapeamento dos jogos, brinquedos e brincadeiras existentes na região Seridó, a partir de 1920. O resultado desse estudo nos leva a refletir sobre o papel da Educação Física e da Escola na responsabilidade da valorização dos jogos, brinquedos e brincadeiras enquanto elementos da Cultura Popular e da cultura corporal infantil.


PARENTESCO RELIGIOSO NO CANDOMBLÉ: UMA RESENHA CRÍTICA

Hyppolyte Brice Sogbossi - Dr. em Ciências Filológicas/Universidade de Havana/ Cuba

Propriamente falando, foi Vivaldo da Costa Lima (1972) o primeiro a abordar sistematicamente o estudo da "família-de-santo" entre grupos praticantes do candomblé Jejé - Nagô na Bahia, após algumas recomendações da historiografia antropológica, histórica e folclórica. Conseqüente, Woortman (1978), Siverstein (1979) e Birman, deram seguimento ao trabalho pioneiro de Costa Lima. O meu objetivo é fazer uma análise crítica da monografia de Costa Lima, considerando a bibliografia que lhe precede e alguns trabalhos contemporâneos que abordaram sob diversos ângulos a questão do parentesco e a possessão entre as mal chamadas sociedades simples.


FOLCLORE COMO PATRIMÔNIO CULTURAL O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO/ O TEMPO DO FOLCLORE NA ERA DO DESCARTÁVEL

Rose Marie Reis Agrifoglio - Presidente da Comissão Gaúcha de Folclore

O estudo traz à tona diferentes componentes históricos e sociais inerentes ao processo de construção do folclore, dando ênfase à aceleração que se constata desde as últimas décadas do século XX e que vem trazendo um atropelo à naturalidade do processo até então conhecido, ocasionando impedimentos de toda ordem para que exista uma certa estratificação, um tempo de amadurecimento dos fatos para que eles sejam paulatinamente processados na memória das sociedades e possam vir a ser considerados como elementos de identidade de um grupo social. O trabalho é ilustrado com exemplos do folclore brasileiro vivenciados no dia-a-dia. Trata-se de um tema investigador que discute tradição e modernidade tomando em conta o próprio tempo necessário para os fatos aconteceram, bem como o tempo galopante que o homem exige para si na atualidade.


FESTA DA COROA - MANIFESTAÇÃO CABOCLA ESPONTÂNEA DO POVO CEARENSE - ELEMENTOS DE POTENCIALIDADE TURÍSTICA RELIGIOSA

Maria de Lourdes Macena Filha - Mestre em Gestão em Negócios Turísticos pela UECE e CETT Barcelona; especialista em Arte e Educação do CEFET/CE; graduada em música pela UECE; professora da UNIFOR

A festa da coroa foi registrada pela primeira vez na década de 30 por João Nogueira, com o nome de Chegada os Caboclos, pois era assim, como esta, era popularmente chamada. Era conhecida como a peregrinação realizada pelos caboclos descendentes da antiga aldeia de Porangaba do Bom Jesus dos Aflitos. Consiste hoje em novenário, peregrinação, rezas, benditos, pedidos de esmolas para o festejo do Bom Jesus, além da festa popular profana. É um dos mais antigos costumes do nosso Estado, tendo começado com os descendentes dos índios Potiguaras, indo ao longo do tempo perpetuando elementos simbólicos a "Santa Coroa" do Bom Jesus como fortalecimento da catequese jesuítica entre as nações indígenas que habitavam o litoral cearense até a Serra da Ibiapaba. No imaginário popular, esse festejo se liga originalmente à passagem do padre Francisco Pinto pelo Ceará, em 1607, apesar do levantamento histórico comprovar ligação deste, com a vinda de outros jesuítas bem posteriormente. Nossa pesquisa registra aspectos da festa em 2001, comparando e relacionando com o que foi encontrado neste festejo em 1930. Levanta aspectos históricos de sua origem e relaciona todos os usos, costumes e crenças relacionadas a essa festa, como também apresenta aspectos que favorecem o uso desta como produto turístico religioso, como a localização da Igreja matriz, onde acontece o momento principal do festejo entre três grandes praças recentemente urbanizadas, com uma vista panorâmica para a Lagoa da Parangaba, além de elementos musicais e muitos outros detalhes. A Festa da Coroa contribui com o fortalecimento do sentimento de pertença do povo cearense, como integrante desta nação cabocla que é o Ceará.

 

A INEVITABILIDADE DO FIM DAS TRADIÇÕES

Américo Azevedo Neto

Discute a existência delas apenas enquanto com e não apesar de. Discorre, ainda, sobre a permanência da feição popular nas ações comunitárias, mesmo quando essas tradições, por quaisquer motivos, são alteradas ou abolidas. Enfim, inquire sobre a possibilidade da existência de real tradição num povo alfabetizado.


MÁRIO DE ANDRADE - O FOLCLORE E O BRASIL

Cecília de Mendonça - Estudante de Ciências Sociais/UFRJ

Mário de Andrade foi um dos principais estudiosos do folclore do Brasil, tendo escrito algumas obras que abordam o tema. Por ser, além de escritor, um músico, sua contribuição na área do folclore musical é extensa, tendo escrito milhares de partituras de canções populares, canções estas, incorporadas aos rituais e à vida social. Mário viveu e produziu na poesia, na prosa de ficção, nas críticas literárias, musicais e plásticas e, sobretudo, no domínio do folclore - a questão do abrasileiramento, da busca de Brasil. Fez duas grandes viagens ao Norte e ao Nordeste, em 1927 e 1928, respectivamente. Trabalhou a questão da etnografia e do folclore no momento que foi chefe do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo nos anos 30 e enviou, através do Departamento, uma missão folclórica ao Nordeste da qual existe rico material fílmico e sonoro. O universo marioandradiano é amplo e riquíssimo; em minha pesquisa concentro-me na parte que está diretamente ligada ao Folclore e na relação da cultura popular brasileira com a questão da construção da Identidade do Brasil. Para Mário de Andrade, a dimensão cultural do país é a base da unidade nacional e o foco de intermediação com o mundo moderno. Nesse intuito, busco analisar a importância dessas reflexões nos dias de hoje, em que, ao mesmo tempo, vivemos a chamada globalização e massificação cultural e vemos uma Re-significação e um fortalecimento da cultura popular e do folclore.


PROJETO DE ARTES, CULTURA E CIDADANIA

Sildenes Muniz Cariri - Licenciado em Letras; Secretaria Municipal de Educação/Aracaju/SE

O Projeto de Artes, Cultura e Cidadania nasceu de uma iniciativa da SEMED através do CEMARH, preocupados com a democratização do ensino das Artes em especial para alunos da rede pública municipal de Aracaju e caracteriza-se pelo desenvolvimento de um programa de atividades culturais e artísticas variadas. A Escola Parque foi pensada no sentido de interagir no processo de Arte-Educação, atendendo crianças e adolescentes na faixa etária de 9 a 14 anos, através de oficinas permanentes nas áreas de danças folclóricas e contemporâneas, teatro popular, capoeira e artes visuais. Pretende-se, com isso, fomentar o interesse dos alunos e consequentemente da comunidade no resgate, difusão, participação e desenvolvimento de trabalhos sobre a cultura popular sergipana e produções artísticas, utilizando a arte como um recurso fundamental no processo do indivíduo, na medida em que se exercita nele a valorização e o respeito às diferenças.


ENCONTRO DAS NAÇÕES: "BRASIL DE TODOS OS TONS"

João Batista Costa - Responsável pelo Setor de Folclore da Fundação Franklin Cascaes

Florianópolis é a capital do Estado de Santa Catarina e ocupa uma área de 435,8 km. O município divide-se entre ilha e continente, com uma população de 342.315 habitantes. É considerada pela Organização das Nações Unidas com uma das melhores capitais do país em qualidade de vida, com o menor índice de mortalidade infantil do Brasil. Florianópolis, ao longo de sua história, acolheu diversos grupos étnicos de correntes diversas que para essa terra vieram em busca de um mundo novo, de melhores condições de vida ou vindos pela força das circunstâncias. A quantidade e diversidade desses grupos, que se iniciou com os índios (carijós) e hoje inclui luso-açorianos, madeirenses, afro-descendentes, alemães, italianos, libaneses, tiroleses, ucranianos, japoneses e poloneses, entre outros, contribuiu para construir nesse município um extraordinário mosaico cultural. Tendo aqui se estabelecido, esses "imigrantes" e seus descendentes, além de trabalharem para produzir e reproduzir as condições materiais para a sua existência, procuraram resguardar seus costumes, hábitos, crenças, lendas, enfim, suas tradições através das manifestações culturais populares. Assim, tornou-se necessária a realização de um encontro que reunisse as manifestações típicas e culturais do nosso país, como danças folclóricas, artesanatos, culinária, debates e oficinas, além de ser um evento de rara beleza e de grande receptividade popular que contribui para valorizar e difundir elementos significativos da nossa cultura. É com esse intuito que a Fundação Franklin Cascaes, órgão de cultura da Prefeitura Municipal de Florianópolis empenhada no resgate, difusão e valorização do patrimônio artístico-cultural de nossa gente, realiza anualmente o Encontro das Nações - Brasil de - todos os segmentos sociais. A identidade cultural de um povo dar-se-á através da sua memória. (João Batista Costa).


MINI Curso de Folclore

Conceituação de Folclore e Cultura Popular

Roberto Benjamin - Presidente da Comissão Nacional de Folclore (CNF)

Carta do Folclore Brasileiro; Problemas atuais dos estudos do Folclore; A evolução das características atribuídas aos fatos folclóricos: antiguidade, tradicionalidade, anonimato, espontaneidade; Discussão sobre a preservação dos bens imateriais.

Brinquedos Infantis

Rose Marie Reis Agrifoglio - Presidente da Comissão Gaúcha de Folclore (CGF); Dra. em Musicologia/Etnomusicologia

Brinquedo e seu contexto – conceituação; Função dos brinquedos – Teorias sobre a lúdica infantil; Os benefícios do ato de brincar; Tipos de brinquedos; Futuro dos brinquedos.

Os Catimbós do Nordeste

Luiz Carvalho de Assunção - Dr. em Antropologia pela PUC/SP; professor do Departamento de Antropologia da UFRN e coordenador do Grupo de Estudos sobre Cultura Popular/UFRN

As principais referências bibliográficas sobre o universo do catimbó nordestino: Cascudo, Mário de Andrade, Bastide; Os estudos dos folcloristas; Conceituação, mitologia, elementos, características; O catimbó pesquisado pela missão de Pesquisas Folclóricas; O processo de reelaboração do catimbó: a jurema e sua inserção na umbanda.

Culinária Popular

Raul Lody - Antropólogo, museológo e técnico em cultura popular da FUNARTE

No amplo e complexo processo de formação social e cultural do brasileiro, situo os sistemas de alimentação enquanto indicadores étnicos e econômicos. Assim, são construtores de identidades regionais, de comunidades, famílias e indivíduos. Na exemplificação de ingredientes, cardápios, rituais do fazer e do servir busca-se interpretar aspectos fundamentais do ser brasileiro em múltiplos cenários ecológicos e culturais. As culturas populares são fundamentais no estabelecimento atualizado de patrimônios culturais, onde incluo a rica e variada mesa brasileira.

Encantamento: Perspectivas para o estudo da performance musical no catolicismo popular

Suzel Ana Reily - Queen’s University Belfast

Existem rituais religiosos no mundo todos em que a música é elemento plenamente integrado na encenação ritual, orquestrando o processo ritual. Denomino esta forma de orquestração ritual de ‘encantamento’, vendo-a como meio particularmente eficiente de se criar um universo social alternativo, que permite aos participantes adquirem uma experiência imediata da ordem harmoniosa que poderia reinar no mundo, caso todos consentissem em aderir aos preceitos morais articuladas no discurso religioso. Nesta palestra mostrarei como experiências "encantadas" são orquestradas em três tradições do sudeste brasileiro: as folias de reis, os congados e a dança de São Gonçalo. Embora sigam matrizes distintas, pode-se notar alguns paralelos entre elas, que resultam de princípios morais comuns, orientadas para obrigações mútuas e reciprocidade.Estes paralelos se encontram nas narrativas que sustentam as tradições, na orientação participativa de sua performance e nos modos de sociabilidade que promovem.

Linguagens Musicais na Religiosidade Popular Maranhense

Gustavo Pacheco - MN/UFRJ

Esta apresentação consiste em uma breve introdução às principais formas musicais características da religiosidade popular maranhense, a partir da perspectiva de uma antropologia da música. Em um primeiro bloco, serão abordadas descritivamente diversas manifestações religiosas do Maranhão, com ênfase no Tambor de Mina, na Pajelança e nos festejos do
Divino Espírito Santo. Em um segundo bloco, serão abordados diversos tópicos de análise, com ênfase nas relações existentes entre as diversas formas musicais mencionadas e entre os domínios sagrado e profano na musicalidade maranhense.

A apresentação será ilustrada com trechos de gravações e
filmagens.

 

Oficinas

Lúdica Infantil

Aglaé Fontes de Alencar - Professora de Psicologia da Universidade Federal de Sergipe; membro da Comissão Sergipana de Folclore; Pesquisadora, escritora, consultora de arte-educação

A oficina pretende desenvolver um trabalho de desvelamento do lúdico na cultura popular oferecendo um conjunto de atividades para que o professor possa enriquecer a sua prática pedagógica. Em cada sessão será feita uma Roda de Informação oferecendo fundamentos teóricos para o desenvolvimento da prática interagindo elementos lúdicos numa fusão com o imaginário e a educação. Envolvendo tradições e modernidade se propõe a trabalhar a realidade cultural

Danças e Folguedos

Eleonora Gabriel - Professora adjunta da Escola de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Rio de Janeiro; pós-graduada em Folclore Brasileiro; mestranda em Ciência da Arte, coordenadora da Companhia Folclörica do Rio-UFRJ

Fatos folclóricos e cotidianos: dinamismo, multiculturalismo, patrimônio imaterial; momentos dançantes da cultura popular brasileira: calendário de festas, religiosidade popular, sincretismo e criatividade; Folclore-educação: objetivos sócio-pedagógicos, aplicabilidade, interdisciplinaridade inclusão, pesquisa nas comunidades; Folclore - arte: pesquisa, criação e projeção artísticas; Repertório: danças e folguedos de vários estados brasileiros.

Marketing Cultural

Severino Alves de Lucena Filho - Mestre em Comunicação Rural pela Universidade Federal Rural de Pernambuco; doutorando em Relações Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; professor adjunto da Universidade Federal da Paraíba

Conceitos básicos de: comunicação, cultura, marketing, mecenato, apoio, parceria, projeto cultural e marketing cultural; o folclore como integrante dos projetos culturais; eventos culturais; leis de incentivos fiscais à cultura; análise de casos: projetos culturais de empresas (Shell, Banco Nacional e Coca-Cola); exposição - para analise - de projetos culturais desenvolvidos no contexto do marketing cultural.

Das Histórias Tradicionais à Contemporaneidade

Beliza Áurea de Arruda Melo - Dra. em Literatura Brasileira; CPBF

Tema de exemplo; tema de Roberto do Diabo; tema de Carlos Magno; tema de cancão de fogo; tema de pactos da mulher com o diabo; tema sobre Bocage; tema do pavão misterioso.

Ritmos e Percussão Maranhenses

Arlindo Carvalho - Baterista e percussionista; músico desde 1980

Francisco Pinheiro - Regente de Corais, instrumentista e maestro do Boi Barrica

Pretende mostrar um panorama da percussão aplicada à cultura popular do Maranhão, bem como desenvolver e informar usando a sonoridade dos instrumentos típicos maranhenses, em quaisquer outras expressões musicais que se façam necessárias.

Danças Maranhenses

Cláudio Adão - GDAM/MA

Sotaque da ilha - o enredo original é mais respeitado, nascido na ilha de São Luís e possuidor de um ritmo vibrante, que tem uma fusão do índio e do negro; sotaque da Baixada - luxuoso e rico, ritmo lento entre seus instrumentos inclui chocalhos que funcionam como "agogôs", e seus personagens: cazumba, burrinha, índio; sotaque de zabumba - é o grupo africano e, indiscutivelmente, o mais amplo e espalhado por todo nosso estado, onde o zabumba e o tambor de fogo são dois instrumentos tipicamente africanos. O zabumba é o grande bumbo conhecido em todo o grande Brasil, o tambor de fogo é um instrumento tosco, feito geralmente de tronco de mangue ou siriba; tambor de crioula – é o ritmo de origem negra e uma dança profana que apresenta em circulo e o seu Santo devoto é São Benedito.

 

PROGRAMAÇÃO ESPECIAL DE ABERTURA

Anais do IX Congresso Brasileiro de Folclore

Realizado em Porto Alegre do dia 20 a 23 de Setembro de 2000, foi organizado pela Comissão Nacional de Folclore e Comissão Gaúcha de Folclore com patrocínio da UNESCO. O volume é uma co-edição da Comissão Nacional de Folclore, promotora do Congresso e da Editora Tempo Brasileiro. O tema do Congresso foi: "Folclore e Educação" e teve a participação de folcloristas do Brasil e do Exterior (Argentina, Chile e Uruguai), com a participação de todas as Comissões Estaduais de Folclore. O volume reúne todas as conferências e comunicações apresentadas em mesas-redondas.

 

APRESENTAÇÕES

Boizinho Criança Cidadã

O auto do bumba-meu-boi é baseado no tema da Campanha da Fraternidade 2002, sobre a situação dos povos indígenas no Brasil. O boizinho possui 110 brincantes entre rajados, índias, percussionistas e personagens do auto, todas crianças e adolescentes atendidos pela FUMCAS.

 

Divino Espírito Santo de Alcântara/MA (FUNC)

A Festa do Divino Espírito Santo, que tem origem européia foi trazida para o Brasil pelos colonizadores e no Maranhão, tornou-se uma das mais tradicionais, acontecendo geralmente no período compreendido entre as comemorações da Ascensão do Senhor e o domingo de Pentecostes. A festa segue os seguintes rituais: busca, levantamento e derrubamento do mastro, abertura e fechamento das tribunas, visitas das cortes e dos mordomos e mordomas, missas, ladainhas, novenas e carimbo das caixeiras. A festa é caracterizada pela riqueza da sua indumentária e pela fartura de suas mesas de doces. Além dos personagens do Império aparecem outras figuras no Cortejo do Divino: as bandeirinhas, o mestre-sala (de fundamental importância, pois representa a memória da festa, orientando os rituais) e as caixeiras (mulheres que tocam as caixas e cantam em homenagem ao Divino)


FOLCLORE: CULTURA VIVA

Comunicação ao Seminário Patrimônio Cultural e Identidade Nacional, da Câmara dos Deputados: Frente Parlamentar de Apoio à Cultura Popular / Frente Parlamentar de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural / Frente Parlamentar de Defesa da Língua Portuguesa.

Brasília 25-27 setembro de 2001

Roberto Benjamin

Professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco

Presidente da Comissão Nacional de Folclore

 

Folclore entendido como cultura popular tradicional é dinâmico e evolui com as mudanças da sociedade. Folclore não é sobrevivência, mas cultura viva. As manifestações folclóricas são criação do povo brasileiro, embora algumas não sejam criações espontâneas, pois foram recriadas e incorporadas às tradições brasileiras.

A originalidade da cultura popular não é resultante da falta de contato com a cultura oficial e com a cultura de massas, mas do uso que os seus portadores fazem dos elementos dessas outras culturas. A circulação dos fatos culturais é uma realidade inegável e desde o início da colonização procedeu-se o amálgama da contribuição das diferentes etnias e das diferentes classes sociais, das instituições políticas, militares e, especialmente, religiosas. São, por exemplo, os pastoris religiosos, implantados a partir dos rituais de catequese, incorporados na sua forma original e re-inventados na contrafação obscena do pastoril profano. Em alguns desses pastoris, foi verificada a introdução de temas de óperas levadas à cena, no Brasil, no século XIX por companhia européias. São os festejos de Reis de Congo, da Festa do Rosário, que incorporaram a música e a dança africanas e conservaram nos maracatus os trajes da realeza européia. São os batalhões de bacamarteiros, com formação militar referente ao período da Guerra do Paraguai, trajando de cangaceiros.

Quando se buscam os signos da identidade nacional e das identidades regionais, é para o folclore que todos se dirigem, tanto os órgãos de governo como as empresas comerciais e industriais, os meios de comunicação de massa, especialmente os voltados para a promoção do turismo. Todavia, a preocupação pela preservação e incentivo destas manifestações não corresponde a este interesse. Os lucros auferidos com a utilização dos signos da cultura popular nunca são revertidos em benefício dos seus autores. Não há uma política para o Folclore.

No Brasil, a preocupação com a proteção aos bens culturais expandiu-se a partir do Movimento Modernista, de 1922, consolidando-se em relação ao patrimônio cultural material, na criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Em relação aos bens imateriais, há mais de meio século, por iniciativa do escritor e diplomata Renato Almeida, criou-se a Comissão Nacional de Folclore, como órgão ligado à estrutura administrativa do IBECC – Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura/UNESCO, do Ministério das Relações Exteriores, mantendo porém o caráter de provisoriedade. Mais tarde, em decorrência da mobilização promovida pela Comissão Nacional e Comissões Estaduais de Folclore, foi criada a Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, em 1958, implementada por Edison Carneiro e depois por Braulio do Nascimento, que tem passado por várias estruturas jurídicas na administração direta dos Ministérios da Educação e da Cultura, e depois, na FUNARTE, hoje denominada Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Tal órgão, como aliás toda a FUNARTE tem sede no Rio de Janeiro, onde mantém um museu e uma biblioteca com acervos nacionais, pretendendo ter porém âmbito de atuação em todo o território brasileiro. Somente nos períodos em que a sua administração buscou o apoio das Comissões Estaduais de Folclore pôde assegurar uma atividade realmente de âmbito nacional, da qual resultaram as séries de publicações "Folclore brasileiro" e "Cadernos de Folclore", 38 discos de documentos sonoros referentes a diversos Estados e outros documentos.

Aloísio Magalhães, ao criar o Centro Nacional de Referência Cultural, em 1975, iniciou o processo de referenciação de bens imateriais, entre os quais procedimentos peculiares de produção artesanal e de pequena indústria, tais como a tecelagem doméstica do centro-oeste e a indústria do vinho de caju da Paraíba. Após a morte de Aloísio Magalhães, tal atividade foi descontinuada.

Esses órgãos nunca obtiveram o status atribuído ao IPHAN, nem foram incluídos nas prioridades das políticas oficiais federais e a proteção aos bens imateriais não alcançou a dimensão e as garantias legais atribuídas ao patrimônio material de natureza cultural, histórica e artística nacional, salvo as garantias inseridas no texto da Constituição Federal de 1988, mesmo assim ainda não regulamentadas.

Sucessivas recomendações da UNESCO, a respeito da problemática da proteção aos bens imateriais, não tiveram repercussão na esfera de decisão do Poder Público brasileiro.

Diante deste quadro, pode-se dizer que os órgãos de governo têm tido atuação bastante limitada a nível federal, tanto em quantidade de ações, quanto em relação à dimensão espacial, que sempre tem sido extremamente restrita. Ao nível de Estados e municípios, as ações são quase sempre paternalistas ou clientelistas, quando não há omissão e, alguns casos têm sido até prejudiciais.

O estudo do Folclore não foi introduzido na Universidade, entre nós, não havendo portanto nem ensino regular, nem pesquisa sistemática, com raras exceções (Destacam-se os cursos de pós-graduação voltados para a literatura popular das Universidades Federais da Bahia, Paraíba e Pará; na área de comunicação, a Universidade Federal Rural de Pernambuco e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo).Coube a pesquisadores independentes a responsabilidade não apenas do registro e da documentação das manifestações folclóricas, como também o apoio e o alerta para a preservação e revitalização das tradições populares.

Vale lembrar, dentre tantas outras atividades, o trabalho realizado em Sergipe, em relação às manifestações da cidade de Laranjeiras; a revitalização do Maracatu Estrela Brilhante, de Igarassu (PE), após 10 anos de inatividade; e a luta pela preservação das atividades das paneleiras de Vitória (ES).

Os pesquisadores independentes reúnem-se nas Comissões Estaduais de Folclore, que são articuladas pela Comissão Nacional e que têm a forma de pessoas jurídicas de direito privado, comumente tratadas como organizações não-governamentais.

A Comissão Nacional de Folclore foi transformada em pessoa jurídica de direito privado e congrega, sob um modelo federativo, comissões de folclore de 19 Estados, cujas atuações, ao longo do tempo, têm oscilado em razão das diferenças de formação dos seus integrantes e da necessidade de captação de recursos públicos e particulares indispensáveis à realização dos seus objetivos.

Tanto os pesquisadores independentes, quanto os incipientes órgãos oficiais vêm alertando a sociedade brasileira para a pertinência das recomendações da UNESCO a respeito da problemática da proteção dos bens imateriais, que não tiveram ainda repercussão na esfera de decisão do Poder Público. Fatores externos têm desestabilizado manifestações da cultura imaterial, determinando uma dinâmica que não lhes é própria e que em alguns casos leva ao seu desaparecimento.

Documentos oficiais brasileiros têm apontado como principais problemas que interferem na continuidade e na manutenção das expressões da cultura tradicional o turismo predatório, sua apropriação inadequada pela mídia, a uniformização de produtos decorrente do processo de globalização da economia, a apropriação industrial desses conhecimentos e a comercialização inadequada, sem remuneração aos autores, o que, aliás, confirma, em relação ao Brasil, o que já havia sido indicado na reunião da UNESCO, em Praga (República Checa), no ano de 1997.

Além dos fatores acima apontados, cumpre destacar o desaparecimento da base material dos bens imateriais, a perda de tradicionais fontes de financiamento, a perda de funções, as migrações, o impacto da comunicação de massas, a espetacularização dos rituais, o desinteresse dos órgãos públicos, a perda da auto-estima etc.:

- as atividades do fazer dependem, essencialmente, da existência da matéria-prima; assim, a cerâmica não subsistirá sem o acesso às jazidas de argila;

- os pequenos comerciantes, tradicionais financiadores de grupos populares, que obtinham retornos financeiros com festejos populares, estão desaparecendo, substituídos pelas redes das grandes lojas e hipermercados; os mestres, que tinham acesso aos donos das bodegas e armarinhos, não têm como chegar até à França, à Holanda e aos Estados Unidos ou aos centros financeiros de São Paulo, onde são decididos os empregos das verbas destinadas a incentivos culturais;

- as mudanças tecnológicas levam à perda de função de algumas manifestações populares, por exemplo, o uso do fogão a gás, a concorrência do alumínio e do plástico põem em risco a continuidade da cerâmica utilitária e da cestaria;

- as migrações dispersam a população das comunidades, tornando inviável a reunião dos brincantes que viviam em grupos de vizinhança;

- a comunicação de massas tem projetado modelos culturais onde predominam os aspectos visuais sobre os demais valores das manifestações populares; assim, as escolas-de-samba do Rio de Janeiro e São Paulo e o boi-bumbá de Parintins (AM) estão se tornando referenciais para a compreensão dos espetáculos populares;

- além dos espetáculos populares, rituais populares, de natureza comunitária estarem sendo convertidos em espetáculos de massa por iniciativa de órgãos públicos, promoção do turismo e meios de comunicação de massa; é o caso das cerimônias conhecidas como "panela-de-Iemanjá" e várias outras.

- mesmo utilizando os signos da cultura popular, órgãos públicos estaduais e municipais destinam ínfimos recursos ao pagamento de apresentações dos espetáculos populares e supervalorizam os elementos provenientes da comunicação de massa; assim, por exemplo, o total da verba destinada às agremiações populares do Recife (cerca de 200) é inferior ao cachê pago a um único cantor e sua troupe para um espetáculo de massa, durante o mesmo carnaval;

- todos esses fatores e – mais – a redução do seu público ou de consumidores (caso do artesanato), tem levado os portadores da tradição a considerar o seu patrimônio cultural como indesejado pela sociedade, inviabilizando a transmissão do seu conhecimento para as novas gerações, cujos membros, aliás, estão sendo mais motivados para participar da cultura de massas.

Uma tentativa do Poder Executivo Federal de estabelecer uma política cultural relativa ao Folclore foi materializada através do Decreto nº 3.551, de 4 de agosto de 2000. Tratou-se de uma iniciativa destinada a atender os compromissos da República Federativa do Brasil para com a UNESCO. As bases da elaboração do Decreto foram resultado de um trabalho de técnicos e conselheiros do Ministério da Cultura que não foi precedido de uma consulta ampla à sociedade civil e, em especial, aos pesquisadores independentes, aos órgãos de cultura de níveis estadual e municipal, bem como aos poucos centros universitários que têm tratado do assunto e, muito menos, ao Poder Legislativo, ao Poder Judiciário, ao Ministério Público e a outros órgãos sobre as atividades dos quais poderá haver repercussão, a exemplo do IBAMA e da FUNAI.

O Decreto ainda não foi regulamentado e é, por sua natureza, cartorário. Trata-se da criação de um tipo de tombamento que pretende levantar um registro de nascimento dos fatos imateriais e que se prepara para expedir, dez anos depois, os respectivos atestados de óbito. A política cultural propriamente dita ficou relegada a um programa nacional do patrimônio imaterial para o qual não há qualquer previsão de recursos.

Decreto nº 3.551. "Art. 7º - O IPHAN fará a reavaliação dos bens culturais registrados, pelo menos a cada dez anos, e a encaminhará ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural para decidir sobre a revalidação do título de "Patrimônio Cultural do Brasil:. Parágrafo único. Negada a revalidação, no âmbito do Ministério da Cultura, o "Programa Nacional do Patrimônio Imaterial", visando à implementação de política específica de inventário, referenciamento e valorização desse patrimônio. Parágrafo único. O Ministério da Cultura estabelecerá, no prazo de noventa dias, as bases para o desenvolvimento do Programa de que trata este artigo."

A diferença essencial na preservação dos bens culturais é que os bens materiais devem ser preservados no estado em que estão ou recompostos na forma em que foram produzidos, enquanto que os bens imateriais devem ser preservados em sua dinâmica, não sendo cabível congelar as manifestações da cultura imaterial.

O procedimento do registro foi atribuído ao IPHAN, órgão do Ministério da Cultura, como quase todos os demais órgãos do Governo Federal, devidamente sucateado com a perda de recursos financeiros e humanos.

Nem o IPHAN, nem a FUNARTE ou qualquer outro órgão do Ministério da Cultura dispõe de recursos orçamentários e de quadros técnicos – em número e em qualificação – para planejar e implementar uma política cultural destinada aos bens imateriais para todo o território nacional.

Vale ressaltar que nem no Decreto, nem nos relatórios dos grupos de trabalho há referências à ampliação dos quadros e, tampouco, à formação de pessoal especializado para dar conta das novas atribuições. Esta segunda parte talvez se explique pela ausência da Universidade nas discussões preliminares.

Por outro lado, também não se cogita – nem nos documentos preliminares, nem no Decreto – de uma participação sistemática dos órgãos culturais a nível de Estados e Municípios, prevalecendo o modelo de administração centralizador que nos foi legado no período colonial e incrementado no regime militar pós 1964. Os bens da cultura imaterial são de natureza regional e local, ainda que se revistam de algumas características invariantes que os tornem transregionais. Mantêm, por sua natureza, seus aspectos variantes como uma referência cultural do lugar onde ocorrem.

Na exposição de motivo ao Presidente da República, justificou-se a opção pela modalidade decreto em razão da rapidez na sua operacionalização e pelo fato da matéria não conter implicações relativas a outros setores do Poder Público.

Feita a publicação do Decreto, no Diário Oficial, e naturalmente a sua comunicação aos órgãos da UNESCO, com vistas a considerar o Brasil quite com os seus compromissos nesta área, deixou-se decorrer o prazo estabelecido - de 90 (noventa) dias, que já ultrapassa mais de 365 dias – para edição do Regulamento a que o Decreto alude.

Quanto ao outro aspecto, isto é, à repercussão em outros órgãos, os técnicos e as autoridades do Ministério da Cultura manifestaram ignorância a respeito dos dispositivos constitucionais (artigos 127 e 129, incisos II e III) e da legislação complementar vigente no País, relativos à ação do Ministério Público e à sua repercussão judicial em relação ao patrimônio cultural. Embora ainda seja tímida, já se tem registrado a ação do Ministério Público em relação à preservação dos bens culturais, tanto materiais como imateriais. Essa ação é decorrência da aplicação da Lei da Ação Civil Pública (Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985), que contempla com normas processuais a proteção ao patrimônio cultural, oferecendo os instrumentos para a defesa de, entre outros interesses difusos nominados, os bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.

Em Pernambuco, em pelo menos três situações, o Ministério Público, provocado pela Comissão Pernambucana de Folclore, exerceu as suas atribuições em relação a situações que envolviam a cultura popular tradicional. Na primeira, o Ministério Público funcionou numa ação civil, em juizado especial, na defesa do centenário Maracatu Leão Coroado. Na segunda., patrocinou movimentação que resultou em termo de ajustamento de conduta dos dirigentes do também centenário Clube Carnavalesco Vassourinhas do Recife. Na terceira, o Ministério Público impôs a reconstrução do Nicho de Nossa Senhora da Paz, local de devoção popular, que havia sido demolido pela Prefeitura do Recife para dar lugar ao alargamento de uma rua.

Vale ressaltar, ainda, que o Decreto nº 3.551/2000 não concebe que a preservação dos bens imateriais ou a continuidade das práticas culturais está quase sempre na dependência de uma base física. Assim, por exemplo:

- as comunidades de indígenas e dos chamados quilombos negros dependem da garantia da sua territorialidade para a continuidade das suas tradições;

- certos processos artesanais – como a cerâmica – dependem da utilização das jazidas de argila, indispensáveis à obtenção da matéria-prima;

- irmandades religiosas e folguedos de origem catequética precisam do acesso aos templos católicos de propriedade da hierarquia da Igreja.

O Brasil necessita de uma verdadeira política cultural para o Folclore e os seus demais bens imateriais, caso deseje preservar a sua identidade nacional. Considerando a relevância do tema e a inadequação das providências já tomadas pelo Poder Executivo é de todo oportuno que o Congresso Nacional patrocine a reabertura da discussão, com a participação da sociedade civil, com o fim de estabelecer a política e os mecanismos necessários à preservação e revitalização do patrimônio imaterial da cultura brasileira.

FOLCLORE: INVENÇÃO, APROPRIAÇÃO E EXPROPRIAÇÃO

Comunicação ao XXVIII Encontro Cultural de Laranjeiras.

Laranjeiras (SE) 10 a 12 de janeiro de 2002

Roberto Benjamin

Retorno a Laranjeiras para participar de mais uma discussão sobre a cultura popular, sob um novo ângulo, que incide sobre o mesmo objeto. Desta forma, algumas idéias estão sendo reiteradas das minhas próprias exposições de anos anteriores e, por outro lado, devo registrar o meu débito para com as contribuições dos estudiosos da cultura popular, que formam uma verdadeira ESCOLA DE LARANJEIRAS, como Paulo de Carvalho-Neto, Braulio do Nascimento, Aglaé Alencar, Beatriz Dantas, Luiz Antônio Barreto, Osvaldo Trigueiro e outros.

1 Introdução

Invenção, apropriação e expropriação são termos e conceitos oriundos do direito romano, de onde vieram para se estabelecer no nosso direito civil e, mais recentemente, passaram a ser especificamente estudados pelo direito econômico na vertente direito de propriedade, e sua aplicação inicial se deve a bens de patrimônio material e somente a partir século XIX passam a referir-se aos direitos de autor, de natureza imaterial, ainda que, em sua maioria, relativos à economia.

2 Invenção, apropriação, expropriação

O termo invenção foi aplicado inicialmente às criações de natureza tecnológica a partir dos elementos precursores da Revolução Industrial. No século XX, os funcionalistas americanos, voltados para uma sociologia do desenvolvimento derivada da mudança induzida, utilizaram o termo "invenção" em contraposição ao termo "inovação". Consideravam que os povos com baixos índices de escolaridade e domínio tecnológico não seriam capazes de produzir as invenções – entendidas como processo e como objeto – necessárias a provocar as mudanças tecnológicas capazes de gerar desenvolvimento econômico e social e, porisso, propunham a introdução de processos e objetos da tecnologia, inventados nos países desenvolvidos, mesmo sem considerar os impactos culturais e ecológicos decorrentes das diferenças entre as diversas sociedades.

A aplicação do termo "invenção", no sentido mais genérico, em relação à produção cultural, surge num momento em que os fatos culturais são tratados como produtos e objetos de mercância. Durante muito tempo usou-se a expressão "criação espontânea" para caracterizar o surgimento dos fatos da cultura popular. A este termo estavam agregados os conceitos de "criação coletiva" e de "anonimato".

Deve-se aos folcloristas, do tipo qualificado por Paulo de Carvalho-Neto como "demófilos", a difusão da idéia de que os fatos folclóricos por eles estudados eram únicos, exclusivos e exóticos, não mantendo relação nem com outros fatos de outras comunidades, nem tampouco com as etnias que formaram o povo e, portanto, fomentaram a idéia da criação espontânea e alimentaram a divulgação da criação coletiva e do anonimato.

O anonimato é característica atribuída ao fato folclórico por não ter autor conhecido. Enquanto outros folcloristas insistiam nesta característica, Luís da Câmara Cascudo, que adotara o anonimato como característica do folclore na coletânea Contos tradicionais do Brasil (1948) e em Literatura oral (1952), já em 1954 havia abandonado tal posicionamento, ao publicar o seu Dicionário do Folclore brasileiro, conforme verificou Braulio do Nascimento (conferência "Câmara Cascudo e os contos tradicionais", proferida na Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em novembro de 1998).

Esta característica colocada em termos absolutos tem sido progressivamente relativizada. Deixava de fora, por exemplo, o artesanato e a poesia dos repentistas, cujos autores são identificados no ato da sua criação. Aliás, todos os fatos culturais têm um autor na sua origem, embora no processo de aceitação coletiva possa haver despersonalização, perdendo-se a referência autoral. Renato Almeida, no livro Inteligência do folclore (1957), dizia que: "se recuarmos no tempo e conseguirmos chegar às origens, vamos encontrar sempre o indivíduo – o autor". Assim, quando não se perdeu a referência autoral e houve aceitação coletiva, há que se considerar tal fato como folclórico.

Diz Luiz Antônio Barreto: "O anonimato, longe de ser uma qualidade, encobre e oculta a capacidade criadora e individual, dando a idéia de que os fatos folclóricos são criações coletivas. (...) O que é identificado como do povo pelo anonimato, passa a ser de todo o mundo, podendo ser utilizado sob as mais diversas formas sem qualquer retorno, crédito ou indenização. Com o autor declarado é diferente. Por outro lado, o anonimato encobre intenções nem sempre defensáveis. Encobertos por tal característica do fato folclórico, os interessados, de ontem e de hoje, produzem e põem ao alcance do povo todas as mensagens que engrossam o manancial da dominação" (Um novo entendimento do Folclore e outras abordagens culturais. Aracaju: Sociedade Editorial de Sergipe, 1994, 260 p. p. 33).

Em relação à criação espontânea, não se trata de se considerar o folclore como uma cultura espontânea, tal qual o empregado no sentido biológico - geração espontânea. Os fatos e manifestações folclóricos nascem da comunidade, não surgem de decretos e portarias; não se aprende nas escolas através de um exercício sistemático, mas com a convivência, de forma quase inconsciente e progressiva. Os fatos folclóricos surgem da criação do povo, a partir da sua cultura tradicional ou da hibridização com elementos de outras culturas através da aceitação coletiva. Tal concepção justifica que se traga para o âmbito dos estudos culturais o termo "invenção".

E nós, se examinarmos não só a propaganda turística, mas também os estudos culturais e especialmente os textos dos nossos folcloristas, vamos encontrar atribuídas à criação do povo brasileiro manifestações ditas únicas, originais e espontâneas que, na verdade, foram fruto da incorporação de propostas de dominação cultural ao longo do período de constituição da nacionalidade brasileira. Uma grande parte daquilo que se quer defender da globalização do terceiro milênio não passa de traços das múltiplas globalizações a que temos sido submetidos ao longo da nossa história.

O que hoje parece espontâneo, não passa de permanência daquilo que nos foi dirigido e imposto pela cultura hegemônica. Muito do que nós chamamos de genuíno, de espontâneo, de elemento da identidade brasileira é fruto da re-interpretação, do aproveitamento, da hibridização trabalhada ao longo dos anos, com sujeição aos fatores ecológicos e culturais e a assimilação das contribuições de outras etnias.

Os nossos pastoris, por exemplo, são evidentes sobrevivências de autos catequéticos. O lambe-sujo registra a derrota do quilombo de Palmares e a opressão escravista colonial. Os trajes dos maracatus remetem à vestimenta barroca das cortes européias, em alguns casos refletidos na indumentária das imagens que ornam as nossas igrejas coloniais. Já os trajes das taieiras remetem às vestimentas burguesas do começo do século XX. Os caboclinhos vestem-se segundo a imagem dos índios reinventada pela iconografia indianista.

Ao pastoril-religioso, de caráter catequético, o povo brasileiro respondeu com o pastoril-profano, de ponta de rua e com a comicidade irreverente nos demais folguedos, com personagens como "Ração", "Vassoura" e o "padre" e, também, com a criação dos desfiles carnavalescos inspirados diretamente nos cortejos processionais e cívicos, com aproveitamento dos estandartes, lampadários, bastões de corporações e pálios.

Desse modo, fica evidente que a invenção da cultura pela hibridização é um fenômeno de apropriação de traços culturais de várias procedências. Luiz Antônio Barreto chama atenção para uma conotação religiosa, nem sempre evidenciada pelos estudiosos, no "vasto repertório brasileiro da cultura popular ou folclórica", que "pode ser também percorrido pela intenção catequética, conversora, redutora adotada pelos colonizadores. (...) A catequese e a conversão ao cristianismo estão, dominantemente, no repertório da cultura popular brasileira" (na obra citada, p. 33-34). Aliás, este é um traço comum o das regiões colonizadas por portugueses e espanhóis.

Um tipo de lendas religiosas manipuladas por elementos da hierarquia da Igreja é relativo ao aparecimento de imagens. Tal prática, que foi comum na Península Ibérica após a reconquista, quando diversas imagens de Nossa Senhora teriam sido encontradas através de sonhos reveladores e que posteriormente resistiram a ser transferidas para outros locais diferentes do lugar do "aparecimento milagroso", foram "exportadas" para a América Latina e especialmente para o Brasil. Em nosso País há dezenas de imagens cuja origem é desconhecida, que foram "milagrosamente" encontradas e que se recusaram a ser transportadas para outros locais. Isto é, ao serem retiradas dos seus lugares originais, desapareceram para reaparecer em seguida, "milagrosamente", onde deveriam ser construídos os seus santuários.

Uma outra influência hegemônica pode ser apontada em textos escolares de natureza histórica e cívica. Mais ou menos com as mesmas intenções, têm sido criadas por educadores lendas cívicas em torno de personagens que se pretendem exemplares na construção de um "panteão nacional". A narrativa da atitude do imperador Pedro I, conhecida como "grito do Ipiranga" é a mais conhecida delas. Dele também se fala muito em relação ao episódio do "fico". Mas, há no Brasil abundantes narrativas a respeito das glórias de Rui Barbosa, em Haia, durante a sua participação na Conferência de Paz; de Frei Caneca e Padre Miguelinho no enfrentamento do cadafalso; dos participantes da Guerra do Paraguai e outros.

No século XIX, a apresentação de óperas, operetas e dramas por companhias italianas e espanholas, que fizeram uma navegação de cabotagem ao longo da costa brasileira, apresentando-se nos principais centros urbanos de então, deslumbrando a burguesia nacional, deixaram marcas no mundo popular, não apenas com a divulgação das figuras da Commedia dell’Arte recriadas nos palcos, como pierrot, arlequim e colombina, mas até em melodias que foram introduzidas em folguedos populares (Mário de Andrade. Danças dramáticas do Brasil. São Paulo: Martins, 1959. 3 v. il.).

Na contemporaneidade, a apropriação está ocorrendo através dos meios de comunicação de massa, como tem documentado Osvaldo Trigueiro em relação ao ciclo junino na Paraíba.

No processo da apropriação – seja dos elementos impostos, seja daqueles que o povo tomou como seus, por considerar compatível com a sua tradição cultural, ocorrem processos diversos como a aceitação integral e sem crítica, a compatibilização dos novos elementos com os elementos tradicionais, como também a incorporação crítica através da caricatura e da ironia. A incorporação da personagem "Nossa Senhora" na lenda do Negrinho do Pastoreio, ocorreu através do texto de J. Simões Lopes Neto, tendo sido depois coletada da oralidade em pesquisa folclórica (Lendas do Sul. 11 ed. Porto Alegre: Globo, 1983, p. 87-88.). Já no século XIX, o Padre Carapuceiro chamava a atenção para os aspectos críticos e satíricos da presença do sacerdote católico como personagem do bumba-meu-boi, admitindo porém que o clero pernambucano do seu tempo bem merecia aquele tipo de caricatura.

A expropriação da cultura popular é um fenômeno inverso ao da apropriação, ou seja, a incorporação dos fatos culturais populares à cultura erudita e à cultura de massas.

O termo "expropriação" traz para o estudo da cultura popular o sentido da exploração econômica predatória. Vários e sutis são os processos de expropriação.

Luiz Antônio Barreto chamou de "armorização da cultura popular" ao processo de expropriação.

"São muitos os exemplos de armorizações da cultura popular, como se por tal conduto o povo, elevado às titulações nobres, tivesse as suas criações revisitadas, recriadas para uso pela sociedade. As ocorrências ocupam amplo campo do conhecimento, desde as manifestações tipicamente artísticas até os procedimentos originários das sabenças acumuladas pelas populações. (...) O movimento armorial não tem qualquer sustentação estética e representa, ainda que sem intenção deliberada, a má vontade da sociedade para com as coisas da cultura popular, aí tuteladas para serem recolocadas no mercado de consumo urbano" (Lendas do Sul. 11 ed. Porto Alegre: Globo, 1983, p. 87-88.).

A denominação de "armorização" é insuficiente para abranger um fenômeno tão amplo como é a expropriação, além de trazer para um caso local e uma referência pessoal situações muito diversificadas e praticamente universais.

Somente em relação aos fitoterápicos procedentes do saber popular, tem um mercado de muitos bilhões de dólares. Estimou-se que em 1994, apenas na Europa, a venda de produtos à base de plantas medicinas alcançou a cifra de U$ 6 bilhões, aí não considerados os fitoterápicos vendidos como alimentos ou suplementos dietéticos. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária recebeu, até outubro de 2000, a solicitação de registro de 619 fórmulas de medicamentos compostos por mais de uma planta (Ulisses Albuquerque. Fitoterapia e saúde pública. in Jornal do Commercio, seção Vida & Ciência, Recife, 5 jan., 2002).

Em relação à área artística, não há qualquer controle ou estimativa para o número de espetáculos (de massa e espetáculos especificamente para turistas), discos e vídeos produzidos a partir de elementos da cultura popular tradicional.

Ordinariamente, a utilização da música, do ritual e do espetáculo popular – seja para fins turísticos, seja para promoção de imagem da identidade local e nacional – não dão nenhum retorno aos criadores destas imagens, nem ao menos, numa esfera não-econômica em termos de prestígio. Vale lembrar o registro feito pelo jornalista José Telles, no Jornal do Commercio, do Recife, sobre um espetáculo de maracatu-rural em Salvador, em que o público local questionava-se sobre o por quê dos artistas populares utilizarem o traje de guerreiro com que Chico Science havia se apresentado em alguns espetáculos.

Se é grave a apropriação direta dos fatos culturais populares, ainda são mais graves e perversas outras formas mais sutis de expropriação. Aproveitando-se da condição de pobreza e mesmo de miserabilidade dos integrantes dos grupos tradicionais, os órgãos de Governo e particulares da comunicação de massa e do turismo estão se apropriando de rituais comunitários, alguns dos quais de natureza religiosa e outros espetáculos dirigidos aos públicos tradicionais, para convertê-los em espetáculos de massa. Tais procedimentos – que ocorreram, por exemplo, com as escolas-de-samba e com o bumba-meu-boi de Parintins – estão sendo acelerados no sentido de expropriar os rituais que possam, por seu aparente exotismo, motivar a promoção turística e de identidade local e nacional.

Assim, por exemplo, a queima-da-lapinha, um ritual religioso, particular a alguns grupos de pastoril de Pernambuco, realizado nos átrios das igrejas dos bairros, para um público restrito, foi proposto como espetáculo que pretendia reunir todos os pastoris, contratados pela Prefeitura do Recife, para a realização de uma queima monumental das lapinhas na área de incrementação turística denominada Marco Zero.

As panelas-de-Iemanjá, que no passado foram restritíssimos rituais secretos das religiões afrobrasileiras, estão hoje convertidos em espetáculos de massa, reunindo dezenas de comunidades de culto em um único local, com ampla cobertura dos meios de comunicação de massa, em praias onde o espaço físico é disputado para a venda de bebidas alcóolicas das principais indústrias do País. As rodas-de-São-Gonçalo, realizadas como eventos religiosos para pagamento de promessas, com banquetes comunitários, também estão hoje sendo convertidas em espetáculos para turistas.

Aparentemente, tais apresentações podem ser consideradas propícias à divulgação e à preservação da cultura popular. No fundo, entretanto, estão estabelecendo a dependência das apresentações ao modelo encomendado pelos órgãos promotores, que privilegiam os aspectos visuais do espetáculo, em detrimento da diversidade musical, coreográfica e cenográfica da tradição. Além do mais, quando se trata de rituais e não de espetáculos, há uma evidente mudança de função, da mítico-religiosa para uma função exclusivamente de espetacularização.

A preservação

Alguns estudiosos das culturas populares têm se manifestado considerando que o caminho da massificação das culturas tradicionais – e em particular da espetacularização dos rituais – é irreversível. Sem dúvida, trata-se de uma posição apocalíptica. A cultura popular brasileira, que se adaptou e sobreviveu a tantos impactos hegemônicos no passado, resistirá aos novos desafios.

Há sinais evidentes de manifestações da continuidade da resistência cultural – por exemplo, nas religiões afrobrasileiras, submetidas no passado a brutal repressão policial e sutil repressão religiosa, nas comunidades que organizam quadrilhas juninas e pastoris e em vários outros grupos tradicionais.

Aqueles que consideram que as culturas que precisam de proteção estão mortas, são os mesmos que não abrem mão da proteção do Estado aos seus direitos culturais relativos à autoria, à imagem, à arena etc.

É preciso, porém, que o Estado e a sociedade civil tomem consciência dos processos de expropriação e providenciem a necessária coibição dos abusos e o apoio à promoção e preservação das culturas tradicionais.

Neste âmbito, cabe um papel especial aos estudiosos do Folclore, no sentido de conscientizar os portadores da tradição, pressionar as lideranças políticas, sensibilizar os governantes.

A Constituição Federal do Brasil, em seus artigos 215 e 216, dispõe sobre a proteção do patrimônio cultural material e imaterial do país. Tais dispositivos dependem, porém, de normas complementares à Constituição e respectivos regulamentos.

Em relação ao patrimônio material, estamos ainda com a distante legislação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, da década de trinta do século passado e, em relação aos bens imateriais, somente em agosto do ano 2.000 foi baixado o Decreto nº 3.551, o qual ainda não foi regulamentado e é, por sua natureza, cartorário, isto é, prevê apenas o registro dos bens imateriais e não a sua preservação e a continuidade das práticas culturais.

O Brasil necessita de uma verdadeira política cultural para o Folclore e demais bens imateriais e da legislação complementar que permita a preservação e revitalização da cultura brasileira.

Nos dias 25 e 27 de setembro de 2001, a Frente Parlamentar de Apoio à Cultura Popular Brasileira, da Câmara dos Deputados, acatou a proposta de apresentação da Lei Complementar relativa aos artigos 215 e 216 da Constituição Federal. Assim, abre-se a oportunidade à sociedade civil, aos estudiosos do Folclore e, especialmente, às lideranças das comunidades portadoras das tradições de encaminharem propostas para serem incorporadas ao projeto de lei, contribuindo, desse modo, para a solução das questões relativas à expropriação e à revitalização da cultura popular.


10º CONGRESSO BRASILEIRO DE FOLCLORE

A Comissão Nacional de Folclore, e a Comissão Maranhense de Folclore, em conjunto com as diversas Comissões Estaduais, promoveram, em São Luís, de 18 a 22 de junho de 2002, o 10º Congresso Brasileiro de Folclore.

Na abertura do Congresso, Roberto Benjamin, presidente da Comissão Nacional de Folclore referiu que a Comissão, fundada há mais de 50 anos, sob a liderança de Renato Almeida, como órgão do IBECC / UNESCO, foi convertida em sociedade civil, no ano 2000, durante o IX Congresso Brasileiro de Folclore, reunido na cidade de Porto Alegre e, hoje, congrega 20 Comissões Estaduais de Folclore. Além do trabalho direto de assessoria ao IBECC / UNESCO e aos órgãos públicos e das edições sobre a temática do Folclore, a Comissão Nacional realiza eventos em parceria com as Comissões Estaduais, órgãos públicos e instituições de ensino. Foi o que ocorreu:

- em Divinópolis, com a Comissão Mineira de Folclore, sob a liderança de Domingos Diniz e o patrocínio da Prefeitura local;

- na realização do Oitavo Congresso em Salvador, sob a coordenação de Hildegardes Vianna, com o apoio do Governo da Bahia, que resultou na re-leitura da Carta do Folclore Brasileiro, além de homenagem a Renato Almeida;

- nos encontros de São José dos Campos, realizados com o patrocínio Fundação Cassiano Ricardo;

- nos encontros de Campinas, organizados na UNICAMP por José Avelino Bezerra;

- em Vitória, do Espírito Santo, sob a coordenação de Eliomar Mazzoco, foi discutida a reestruturação da Comissão Nacional;

- em Porto Alegre, entre 20 e 23 de setembro de 2000, realizamos o Nono Congresso Brasileiro de Folclore, que discutiu Folclore e Educação, e que esteve a cargo da Comissão Gaúcha, sob a presidência de Rose Marie Agrifoglio, com o apoio do Governo do Rio Grande do Sul, Prefeituras de Porto Alegre e de vários outros municípios. Nessa ocasião foi eleita e empossada a nova diretoria da sociedade civil de direito privado Comissão Nacional de Folclore.

- E, por último, no ano passado, foi realizado o Seminário de Natal, sob o patrocínio da Fundação Capitania das Artes graças à liderança de Rinaldo Barros e da equipe da Comissão Norteriograndense onde, além da temática principal, já dirigida para as relações do folclore com o turismo, foram discutidas as preliminares fundamentais deste congresso.

Todas estas atividades tiveram a coordenação geral do então presidente executivo – atual presidente da honra – Braulio do Nascimento e o apoio do Dr. Joaquim Gentil, dirigente do IBECC-UNESCO.

Ressaltou que o 10º Congresso Brasileiro de Folclore, reunido sob a presidência do professor doutor Sérgio Ferretti, da Comissão Maranhense de Folclore, se realizava graças ao patrocínio do Governo do Estado do Maranhão através da sua Fundação Cultural, sendo, por isso, devidos agradecimentos à ex-governadora Roseana Sarney Murad e ao governador José Reinaldo Tavares, que asseguraram o apoio integral e a disposição de todos os escalões da Administração Estadual para que o 10º Congresso tivesse completo êxito. Mas, além destes créditos de agradecimentos, que estendeu a todo o povo do Estado do Maranhão, consignou um agradecimento muito especial à folclorista Maria Michol de Carvalho e a toda a sua equipe de colaboradores.

Para o 10º Congresso Brasileiro de Folclore foram convocadas as vinte Comissões Estaduais para discutir as relações entre Turismo e Folclore diante da tradição e da modernidade. Justificou a temática do Congresso em razão de se viver um momento de passagem na evolução da sociedade brasileira, em que a abertura da economia e das comunicações levam à globalização predatória da diversidade da natureza e da cultura.

Disse mais, que: "A globalização é um processo irreversível, com o qual teremos de aprender a conviver. Os portadores de folclore participam hoje desta sociedade globalizada e têm acesso às modernas tecnologias. Os estudiosos do Folclore não podem negar a dinâmica cultural, nem assumir o papel de censores e tentar exercer um papel de policiar a ação dos portadores de folclore. A cultura é do povo e a este cabe determinar os rumos da sua dinâmica. Neste momento em que a globalização impõe modelos importados padronizadores de comportamentos, transformam em espetáculos grandiosos e mudam as funções dos rituais, o nosso patrimônio cultural está em risco de perder-se".

Foram, ainda, palavras do presidente: "Reunimos aqui especialistas para discutir estas questões e os caminhos para a preservação através de medidas legais, mas sobretudo através da conscientização da sociedade e especialmente dos portadores da tradição da importância do nosso patrimônio cultural. Vale ressaltar que a preservação da diversidade cultural, que nos preocupa, é indispensável para o desenvolvimento cultural, para o turismo e para a indústria cultural".

Roberto Benjamin finalizou a sua saudação com "uma palavra final aos portadores de folclore e aos companheiros da Comissão Maranhense de Folclore: nós agradecemos a sua calorosa acolhida o que nos antecipa a certeza de que teremos sucesso neste Congresso".

A Assembléia Geral da Comissão Nacional de Folclore reuniu-se extraordinariamente para tratar dos assuntos de natureza administrativa e para estabelecer as localizações dos próximos eventos, definindo-se as cidades de Mossoró (RN) para a realização do V Seminário de Ações Integradas em Folclore (sob a temática da medicina e fitoterapia populares) e Goiânia (GO) para sediar o 11º Congresso Brasileiro de Folclore e, ainda, a realização de um seminário na cidade de Blumenau (SC).

Na sessão de encerramento foram aprovadas as seguintes moções e sugestões:

1. Parabenizar a Comissão Maranhense de Folclore presidida pelo Prof. Sérgio Ferretti e a Profa. Michol Carvalho pela organização do evento, pautada, nos mínimos detalhes, em uma metodologia que uniu diferenças e mostrou um coletivo rico de significados.

2. Parabenizar a Comissão Goiana de Folclore pelo seu assessoramento à Câmara Municipal de Goiânia no sentido da instituição da Bolsa de Publicações Regina Lacerda, destinada a promover a cada ano concurso nacional com premiação pecuniária e publicação de livro de ciência do Folclore.

3. Articular uma ação nacional de conscientização do valor do Folclore, para vivenciar as práticas folclóricas que fundamentam a construção da identidade de cada indivíduo

4. Incentivar a implementação de escolinhas de Folclore nas diversas comunidades para favorecer a compreensão e aquisição de identidade cultural pelas crianças e adolescentes.

5. Promover cursos de metodologia de pesquisa.

6. Sugerir a inclusão da consciência da identidade cultural local nos currículos escolares.

7. Incentivar e orientar a criação de projetos de interiorização do Turismo com base na diversidade cultural.

8. Orientar as escolas de Turismo no sentido de incluir o estudo do Folclore nos seus currículos e a responsabilidade dos promotores do turismo na preservação do patrimônio cultural material e imaterial.

9. Recomendar à Frente Parlamentar de Defesa da Cultura Popular, da Câmara dos Deputados, que submeta ao Congresso Nacional e à sociedade brasileira, para discussão, a proposta da Comissão Nacional de Folclore de lei complementar de proteção aos bens da cultura imaterial .

10. Recomendar às Comissões Estaduais de Folclore o trabalho de mobilização para apoio à proposta da Comissão Nacional de Folclore em torno da lei complementar de proteção dos bens da cultura imaterial.

11. Sugerir que as Comissões Estaduais realizem trabalhos de apoio às escolas para divulgação e valorização do Folclore.

12. Incluir na proposta da lei complementar de proteção dos bens da cultura imaterial a consideração de "relevante interesse público" para as atividades individuais, de grupos e comunidades no âmbito da criação, manutenção e difusão do Folclore.

13. Colocar sob a proteção do Poder Público (seguridade social) as pessoas, os grupos e as comunidades que criam, mantêm e divulgam o Folclore.


10º Congresso Brasileiro de Folclore

Folclore • Turismo • Tradição • Modernidade

18 a 22 de junho de 2002 São Luís - Maranhão

 

FICHA TÉCNICA

Promoção

Comissão Nacional de Folclore

Comissões Estaduais de Folclore

REALIZAção

Comissão Maranhense de Folclore

Patrocínio

Governo do Estado do Maranhão

Fundação Cultural do Maranhão

Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho

Apoio

Universidade Federal do Maranhão

Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

Prefeitura de São Luís

Fundação Municipal de Cultura

Fundação Municipal de Turismo

 

PARTICIPANTES DO CONGRESSO

Comissão Nacional de Folclore

Presidente: Roberto Benjamin

Vice-presidentes: Maria de Cáscia Frade

Olímpio Bonald Neto

Comissão Maranhense de Folclore

Presidente: Sérgio Figueiredo Ferretti

Comissão Paranaense de Folclore

Presidente: Marly Garcia Correia

Comissão Cearense de Folclore

Presidente: D’Alva Stella Nogueira

Comissão Alagoana de Folclore

Presidente: Ranilson França de Souza

Comissão Amazonense de Folclore

Presidente: Marita Socorro Monteiro

Comissão Espírito-Santense de Folclore

Presidente: Eliomar Carlos Mazzoco

Comissão Mineira de Folclore

Presidente: Lázaro Francisco da Silva

Comissão Paraibana de Folclore

Presidente: Altimar de Alencar Pimentel

Comissão Pernambucana de Folclore

Presidente: Roberto Benjamin

Comissão Fluminense de Folclore

Presidente: Ivan Cavalcanti Proença

Comissão NorteRiograndense de Folclore

Presidente: Deífilo Gurgel

Centro Paraense de Estudos do Folclore

e Cultura Popular

Walcyr Monteiro

Comissão Gaúcha de Folclore

Presidente: Rose-Marie Reis Agrifoglio

Comissão Catarinense de Folclore

Presidente: Doralécio Soares

Comissão Bahiana de Folclore

Presidente: Waldir Freitas Oliveira

Comissão Sergipana de Folclore

Presidente: Luiz Antônio Barreto

Comissão Paulista de Folclore

Presidente: Antônio Teixeira Macedo Neto

Comissão Tocantinense de Folclore

Presidente: Francisco Pitombeira de Freitas

Comissão Sul-Matogrossense de Folclore

Presidente: Marlei Sigrist

Comissão Goiana de Folclore

Presidente: Waldomiro Bariani Ortêncio

Presidente de Honra da Comissão Nacional

de Folclore

Bráulio do Nascimento

 

Programa e Resumos

Edição

Sérgio Ferretti, Izaurina Nunes e Michol Carvalho

Capa

Cláudio Vasconcelos e Naza Almeida

Editoração Eletrônica e Impressão

Lithograf

 

BIBLIOGRAFIA

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