Tatiana Maricato RA:984691

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DIAGNÓSTICO SÓCIO-AMBIENTAL DA RESERVA INDÍGENA GUATÓ-ILHA ÍNSUA:

É interessante observar como em uma mesma época, existem pessoas que vivem de maneiras tão diferentes, com culturas deferentes e sobrevivem de um jeito que diríamos ser "primitivo" se comparado a nossa maneira, mas será que isso é ser primitivo?

Um exemplo disso, são os índios que vivem na reserva indígena Guató, na Ilha Ínsua, eles vivem basicamente da exploração dos recursos naturais existentes na área e de uma agricultura de subsistência.

Foram feitas investigações nessa área, realizadas por uma grupo de pesquisadores que participaram do projeto Diagnóstico Sócio Ambiental da Área Indígena Guató-Ilha Ínsua, que propôs-se a atingir as seguintes metas:

  1. Resgatar informações referentes à cultura tradicional a à história Guató;
  2. Investigar as relações existentes entre os processos de produção e a biodiversidade da área;
  3. Conhecer as formas tradicionais de produção e de comercialização;
  4. Realizar um levantamento fitofisionômico e de uso e ocupação da terra.

O intuito deste diagnóstico era servir de base para o desenvolvimento de atividades econômicas

sustentáveis a serem implantadas junto à comunidade da reserva, mas sem gerar falsas expectativas junto à comunidade indígena, o que não me parece ser muito possível, pois a partir do momento em que pessoas estranhas se infiltram na comunidade indígena, mesmo que seja para um diagnóstico, já com a intenção de desenvolver uma atividade econômica sustentável, gera uma expectativa em relação ao trabalho que esses pesquisadores estão desenvolvendo, querendo ou não.

Eles esperam que essas idéias possam estimular uma maior discussão acerca do assunto, pois, segundo esses pesquisadores, o desenvolvimento de atividades econômicas alternativas é uma necessidade iminente para muitas populações indígenas que buscam novos caminhos para sua sobrevivência diante da realidade sócio-econômica, ecológica e cultural advinda do processo de conquista e colonização. entrando nessa discussão, será que isto não estaria sendo uma invasão cultural? Será que os Guató precisam realmente de um caminho alternativo para sua sobrevivência? Será que não estariam interferindo muito?

Vejamos então quem são os Guató. Eles ficaram conhecidos como índios canoeiros, por dependerem do uso de canoas como meio de transporte na planície de inundação do Pantanal. Tradicionalmente, estão organizados em famílias nucleares e autônomas umas em relação às outras, distinguindo-os de outros grupos que se organizam em grandes aldeias.

Os Guató encontram-se estabelecidos na região pantaneira há mais de 500 anos. Também é interessante notar em sua história como os Guató resistiram, no período colonial, aos espanhóis e portugueses penetrando na região, fazendo com que perdessem grande parte de seu território tradicional. E o mais interessante é como esta resistência dos Guató tem sido negada pela historiografia, que os retrata como pacíficos, mansos e pacatos. Mostrando claramente como há invenções na história, e como não há um estudo mais específico e aprofundado sobre os Guató.

Nota-se também como os Guató foram se dispersando a partir do século XIX, pois passaram a ter um contato mais direto com a sociedade, participando do lado do Brasil na Guerra do Paraguai, sendo forçados a deixar seu território tradicional, o qual na maioria deu lugar a fazendas de gado (invasão). Muitos Guató foram viver na periferia das cidades da região, outros foram trabalhar nas fazendas de gado ou foram viver nas margens do rio Paraguai. Observa-se aí essa dispersão dos Guató, causando uma grande mudança na sua cultura, que deve ter sido tão grande que os Guató foram oficialmente tidos como extintos pelo governo brasileiro. Como pode um governo divulgar um fato sem ao menos ir atrás dos fatos, sem a FUNAI ter realizado qualquer levantamento demográfico na região. Mostrando como diz o próprio texto que é equivocado confiar por demais em documentos oficiais e não fazer a devida crítica a eles.

Os Guató iniciaram um processo de reorganização do grupo e de reivindicação pela posse da Ilha Ínsua , tendo apoio de missionários salesianos, até que o governo reconhecesse oficialmente a ilha como área indígena Guató, mostrando mais uma vez como são um grupo de resistência, pois esse reconhecimento levou mais de uma década para acontecer. Sendo que hoje em dia eles estão passando por um processo de fortalecimento de sua etnicidade e, de resgate da própria identidade social, principalmente para aqueles que nasceram ou vieram a maior parte de suas vidas no meio urbano. Acho que cabe uma pergunta, resta saber se esse fortalecimento e resgate são melhores com ou sem a interferência de pessoas de fora, desenvolvendo atividades que talvez apenas prejudiquem este processo tão importante que está acontecendo com os Guató.

Foram feitas algumas avaliações preliminares sobre os Guató. As famílias estão ocupando pontos onde viveram seus antepassados desde os tempos imemoriais, sendo que os Guató são os únicos sobreviventes de todos os grupos canoeiros que ocuparam a região platina.

Um dos fatos que eu achei mais importante é o de que em toda a reserva somente uma pessoa fala a língua Guató: Zulmira, uma índia que possui cerca de setenta anos de idade e que não faz uso diário de sua língua por não ter com quem conversar, esta é a maior prova de que sua cultura está se perdendo e de que talvez com a interferência do homem ela perca-se cada vez mais rápido. Pois os índios estão adaptando-se à nossa cultura e perdendo sua origem, seus mitos...

O texto diz que caso não se faça um trabalho de educação bilingüe urgente, é provável que a língua Guató seja extinta e que, com sua extinção, será extinto também parte do modo de ser e pensar tradicionais dos Guató. Mas se pensarmos, quem é o maior responsável por isto que está acontecendo aos Guató? O homem, e será então que é ele que vai conseguir resgatar a língua dos Guató e não fazer com que sejam extintos?

Diz o próprio diagnóstico que aparentemente as famílias vivem bem, que desenvolvem uma economia de subsistência que tem causado poucos impactos negativos sobre o meio ambiente, sendo o maior deles sobre a fauna, por causa da escassez de animais utilizados na alimentação, como a capivara, mas isso foi explicado por causa de um grande incêndio ocorrido há alguns anos na região. Mas apesar disso cada família se organiza, possuindo sua própria área cultivada, vivendo praticamente da pesca, caça, pequenas áreas de cultivo onde plantam abóboras, mandioca, cana-de-açúcar, bananas, batatas, feijões. Mostra-se outra influência negativa do homem, há escassez de peixes considerados nobres, por causa do turismo tradicional e desorganizado sobre os recursos ictiofaunísticos do Pantanal.

Há algumas idéias de projetos futuros que busquem viabilizar atividades econômicas alternativas e sustentáveis na reserva e que estão sendo discutidas pela equipe, mas será que eles precisam dessas idéias, e portanto isto não deveria ser discutido pelos Guató? Mas primeiro elas precisam de um melhor amadurecimento de suas possibilidades e limitações. Outra pergunta, essas idéias irão ajudar a quem? Será que os únicos beneficiados serão os próprios Guató?

Aí estão algumas idéias:

A possibilidade de aumentar a produção e iniciar o beneficiamento de algumas espécies florísticas domesticadas, como as bananas, e algumas espécies de palmeiras "nativas" da região, que no período anterior ao contato com as sociedades ibéricas possuíam grande importância para a subsistência dos Guató, mas por exemplo, no caso das bananas, isso implicaria na implantação de recursos energéticos alternativos, como placas solares destinadas à produção de energia.

Outra idéia seria a comercialização de artesanatos tradicionais, feitas por pessoas da ilha, essa comercialização seria feita nas cidades. Eles acham que isso seria uma forma de manutenção de elementos da cultura material tradicional do grupo e, fortaleceria dessa forma sua própria identidade social. Mas ao mesmo tempo a cultura deles não está ligada a comercialização em grande escala desse artesanatos, o que será que preserva mais a cultura deles?

E outro seria um projeto de ecoturismo ( ou etnoturismo) para a reserva indígena. Apesar da definição de ecoturismo do texto, qualquer turismo que não seja bem organizado, apenas prejudica a região, se a reserva apresenta-se como uma área de grande biodiversidade a até o presente momento sofreu poucos impactos ambientais negativos, um turismo ou ecoturismo não ajudaria a diminuir esse impactos ambientais negativos, a não ser que , como dito anteriormente, seja um ecoturismo bem organizado como o definido no texto.

O próprio texto se questiona em como desenvolver uma atividade desse tipo sem ser prejudicial, e concordando com ele, tudo deve ser pensado a partir do ponto de vista dos mais interessados, os próprios Guató. Mas há total influência do homem, pois o controle dessa atividade deve ser feito pela própria comunidade, mas a partir de uma orientação a assessoria de profissionais especializados no assunto. Tornando-se fundamental uma estrutura mínima de transporte e hospedagem aos turistas. Esta atividade poderá causar impactos socioculturais diretos, indiretos e negativos a população, ao meio ambiente e ao patrimônio arqueológico da reserva.

Portanto, não se sabe se isto será bom para a comunidade Guató, se é isso que eles realmente querem ou necessitam, se foram estas as expectativas criadas pelos Guató ou se são apenas as expectativas criadas pelos pesquisadores e por fim, se os Guató souberem tudo o que isto pode trazer como conseqüências, será que eles apoiariam estes pesquisadores??