DO CRESCIMENTO CAÓTICO AO AJUSTE PLANEJADO
(ESTRATÉGIAS DIANTE DO QUADRO DE REVERSÃO DO PROCESSO DE CRESCIMENTO)
Howard T. Odum, Universidade da Flórida

Elisabeth C. Odum, Escola Comunitária Santa Fé,

Gainesville, Flórida, EUA

Diante da premissa

A escassez e o aumento dos custos de extração dos recursos naturais, em conjunto com os problemas sociais, podem causar desde uma contração até o colapso da economia mundial.

Cabe a nós responder o que pode ser feito:

Quais seriam as estratégias de adaptação às conseqüências provocadas pela reversão forçada do processo de crescimento?

Antecedentes

Um ciclo que se repete: sucessão (concentração) e decadência (dispersão)

Tudo o que está em processo de crescimento, tende um dia a recuar. Nos ecossistemas existe produção (subida) e respiração (consumo). No crescimento existe uma sucessão de etapas e no seu processo inverso existe algo equivalente que podemos denominar de descenso

A idéia da Teoria Geral dos Sistemas aplicadas aos Sistemas Ecológicos (Odum, 1993) é que qualquer sistema se organiza e é organizado em um esquema de alternância rítmica que inclui:

  1. sucessão: fase de produção (P) com várias etapas de ajuste do sistema: início lento, a seguir, produção rápida, produção acelerada (exponencial), declínio da velocidade do crescimento e parada do crescimento.
  2. descenso: fase de consumo ou respiração (R) das reservas produzidas, que é rápida, com um pulso, mas que pode mostrar também uma seqüência de etapas de adaptação de etapas do sistema.
Observamos, também, que nos sistemas se estabelece inicialmente um fluxo de materiais que converge a centros regionais (concentração, C) seguido por um consumo muito rápido que dispersa a energia e os materiais concentrados (dispersão, D). O ciclo P-R ou C-D se repete e se soma a outros ciclos da natureza e também se acumula. Os ciclos podem ressonar em ciclos cada vez maiores, afetando áreas mais extensas. Em um ciclo acumulado o pulso de consumo pode ser visto como uma catástrofe.

Os tipos de descenso

Muitos assumem que o único caminho do descenso é o colapso total e o reinício de tudo. Mas há muitos sistemas com capacidade de programar um descenso ordenado, o qual é seguido depois, por um ciclo de crescimento e contração. Por exemplo: no passado, os ecossistemas e as culturas humanas do hemisfério norte se estendiam e se contraíam estacionalmente. Nas épocas de menor energia disponível, elas diminuíam sua população, guardavam informações e reduziam suas funções com mecanismos tais como: esporulação, hibernação, migração, inatividade, migração, inatividade e descanso.

Uma lista de mudanças que acompanham usualmente o descenso

Haverá necessidade de mudanças, as quais teremos que nos adaptar deliberadamente ou elas ocorrerão de maneira forçada com repercussões prejudiciais. Agora não podemos prever exatamente como as sociedades reagirão, mas podemos realizar avaliações quantitativas dos recursos, modelações e simulações para caracterizar o que é possível que ocorra. São colocadas, a seguir, para cada tema social importante, algumas sugestões que podem fazer que o descenso seja menos traumático e mais próspero. Muitas das mudanças já estão em marcha.

Temas cujas mudanças estão sendo discutidas

  1. População e Reagrupação
  2. Combustíveis
  3. Meio Ambiente e Agricultura
  4. Informação e eletricidade
  5. Sistema social (alternativas ao capitalismo na fase de globalização)
  6. Infra-estrutura e materiais
  7. A vida humana
1. População e Reagrupação:

1.1 Necessidade da redução da população

Para manter um nível de vida (emergia por pessoa) razoável, a população teria que diminuir de forma proporcional às reservas de recursos disponíveis.

Como a velocidade de crescimento da população tem uma grande inércia pode ser que se supere o tempo teórico de início de ajuste para o descenso, neste caso sustentar o mesmo nível de emergia por pessoa requer uma diminuição rápida da população. Se as pessoas não diminuírem sua taxa de reprodução, as populações serão reduzidas por outras vias como, por exemplo, inanição e doenças, como vem ocorrendo, por exemplo, na África.

Na maioria dos países denominados desenvolvidos, os casais estão limitando suas famílias a um ou dois filhos. Esta decisão permite enfrentar o aumento do custo de vida e educar bem as crianças. Gera uma diminuição do crescimento da população do país. A população nestes países estaria diminuindo se não fosse a imigração.

Todavia, a população dos países considerados subdesenvolvidos está aumentando. Diversos estudos têm permitido chegar a seguinte conclusão:

O método mais eficaz de controle da população é "dar às mulheres" melhores condições de trabalho, ofertas de empregos e condições para que elas desenvolvam seus próprios negócios, por menores que sejam.

NT. A frase "...dar às mulheres", também pode ser interpretada como:  "...que as mulheres conquistem! " ou melhor "...que as populações dominadas conquistem!"

Além disso, a distribuição de dispositivos de controle de nascimento também é necessária.

NT. A educação e planejamento familiar têm que ser acessíveis à mulher e ao homem para que o controle de natalidade seja eficaz.

1.2 Diminuição na concentração urbana

A enorme concentração de empresas e pessoas nas cidades se deve, principalmente, ao uso intensivo de combustíveis fósseis baratos. Hoje, geralmente, o número e a densidade da população urbana é várias vezes maior do que pode ser suportado pelos recursos naturais das regiões de influência. Quando os combustíveis começam a declinar e custar mais, as cidades diminuirão ao tamanho compatível com sua área de suporte. Algumas indústrias já estão se movendo a áreas do interior dos estados (províncias), onde o terreno é mais barato, existe água e ar em melhores condições e espaço para abrigar os trabalhadores. Os governos de uma região necessitaram combinar esforços que a área rural e seus centros de população sejam traçados em um único sistema. No futuro, as empresas privadas e públicas poderão aproveitar a estrutura urbana abandonada para reconstruir centros menos concentrados, menores.

2. A política na área de combustíveis

2.1 Eliminar o desperdício, sem a necessidade de proibir o uso

O passado nos mostra que é impossível diminuir o uso de um produto através da proibição de seu consumo. Dá mais resultado limitar o consumo suntuoso (luxo) e todo aquele que não dá retorno positivo ao sistema. Desta maneira, os recursos continuam com suas funções produtivas e permitem gerar adaptações com base na criatividade. Impor quotas ou limitar o uso do recurso, de forma geral, traria efeitos contrários aos desejados. Em caso de limitar, a restrição deve ser seletiva.

2.2 Decadência do sistema baseado em automóveis

O combustível terá um custo maior e diante da pressão geral por usá-lo com uma eficácia econômica maior, é provável que se reorganize a cultura em relação ao uso de automóveis por parte dos países ditos desenvolvidos. Primeiro pode haver uma redução dos cavalos de força necessários e logo uma redução do número de automóveis. Os carros particulares economizam tempo individual, porém outras medidas podem substituir a demanda pelo transporte, entre elas podemos incluir um maior uso da comunicação, as pessoas podem trabalhar mais perto de suas casas, e pode haver mais compras "on line", usando o telefone e a rede da internet.

2.3 Mudanças globais do clima

Atualmente há esforços para reduzir a geração dos gases que produzem o efeito estufa que está alterando o clima. As maneiras imediatas de ajudar, sem reduzir a atividade econômica, incluem a redução dos cavalos de força dos automóveis nos países subdesenvolvidos. E tão logo comece a diminuir o consumo global de combustível e aumentar a captação de dióxido de carbono, será restaurado o equilíbrio entre a descarga de dióxido de carbono (combustíveis) e a sua captação (por plantas através da fotossíntese...).

3. O meio ambiente e a agricultura

3.1 Tendência para uma agricultura de intensidade mais baixa

O custo crescente do combustível empurra a agricultura a uma modalidade de menor intensidade em uso de fertilizantes, agrotóxicos e maquinaria, e maior intensidade na mão-de-obra, oferecendo trabalho às pessoas que deixam as cidades, onde o emprego está diminuindo. Algumas variedades de plantas de cultivo mais adequado às condições de menos insumos químicos, hoje em desuso, serão restauradas, ainda que sua produtividade por unidade de área, possa ser menor.

3.2 Tendência de mudança no meio ambiente

Estamos em um período de crescimento dos sistemas humanos baseados em combustíveis fósseis, uso intensivo de maquinaria, desperdício de água, perda de solo na agricultura, poluição e exploração predatória de bosques. Vemos hoje, em todas partes do mundo, o problema do excesso de captura na pesca, destruição dos fragmentos naturais e aumento das terras agrícolas esgotadas (estéreis e improdutivas). Ao diminuir os combustíveis fósseis, a economia deve reorientar-se até um sistema menor de base agrária. Sem obstáculos, durante a transição, o descenso poderia ser frenético, e se desenvolver uma competição pelos restos dos recursos ambientais para uma máxima produção. Para prevenir o colapso, durante o descenso, as demandas de recursos naturais devem reduzir-se e se reorganizar conforme prioridades. As terras, os bosques, a turfa e a água são recursos renováveis, porém somente quando se lhes dá tempo para recuperarem-se com ciclos mais demorados que os usados atualmente. Nós podemos deixar campos em descanso durante várias estações, cortar e replantar espécies florestais, e permitir a acumulação de turfa para conseguir uma boa filtração de água para garantir a qualidade deste recurso.

4. Informação e Eletricidade

4.1 Paz e compartilhamento da informação global:

Quando a informação essencial é amplamente compartilhada, se estabelece um mecanismo mutualista durável e unificador. Este tipo de informação pode substituir a informação restrita típica do capitalismo de crescimento altamente competitivo. Nos anos recentes, a televisão e a internet mudaram a organização da comunicação global fazendo surgir uma nova situação muito distante da que imperava durante a fase de ocupação de regiões pela via militar. Se prevalecessem a ética global para um comércio eqüitativo e o mutualismo originado pela informação de livre acesso, a capacidade de produzir e a paz mundial poderiam ser preservadas. A alternativa perigosa está na fragmentação das sociedades e a luta pelos recursos residuais.

4.2 Preservação parcial da cultura civilizada

A cultura da era de informação pode parecer distante e ser independente dos processos ecossistêmicos e industriais, porém há que a geração e manutenção de informação requer muitas transformações de energia nas cadeias tróficas e também que haja limitações na quantidade de informação que se pode esperar e manejar em sistemas renováveis. A capacidade de informação diminui junto com as reservas dos recursos naturais. Também, a informação perde utilidade e capacidade de recuperação quando se armazena. Como o cérebro, a sociedade tem que selecionar e resumir informação da enorme massa de dados desordenados e com ruídos que existem. Deve ser capaz de filtrar e transformar muitas informações de curto prazo em poucas informações para preservar sua memória de longo prazo. As universidades são as principais instituições que contam com esta capacidade e que poderiam desenvolver essa tarefa.

4.3 Prioridades no uso do potencial hidrelétrico

Para que continuem funcionando os serviços essenciais da civilização mundial é preciso manter essa informação global em redes como a Internet. Mas, isto quer estabelecer essa prioridade em um momento em que a eletricidade proveniente dos recurso fósseis e os combustíveis nucleares se tornam mais caros. Alem disso, a exploração de minas de carvão entrará em conflito com a necessidade do uso da mesma área para produzir comida e energia. Provavelmente, no futuro, os centros da civilização se organizarão ao pé das montanhas que contém canais com turbinas para gerar hidroeletricidade para aproveitar ao máximo as contribuições de emergia líquida da terra. O pleno desenvolvimento do poder hidrelétrico reduz os potenciais de comida de salmão e outras espécies migratórias de peixes, em um momento em pode haver superpopulação e escassez de comidas ricas em proteínas. Uma avaliação emergética feita sobre a bacia de um rio desse tipo, mostrou que o potencial da eletricidade e maior que a produção de salmões. Dentro da proposta do ajuste positivo durante o descenso, ao ajudar a compartilhar a informação global, a eletricidade terá uma prioridade muito alta, pois será responsável por manter a conexão global de computadores. A proposta apresentada depende fortemente da habilidade da sociedade global em conceder alta prioridade ao uso da energia elétrica nas telecomunicações ao invés de atender outras necessidades.

5. Capitalismo

5.2 Diminuição do crescimento do capitalismo

Quando há recursos disponíveis para aproveitar, prevalece o crescimento rápido e competitivo de poucos empreendimentos. Nos ecossistemas isso se chama crescimento eutrófico de plantas invasoras e pioneiras, uma fase da sucessão. Na economia, corresponde ao capitalismo de crescimento explosivo. Os desenvolvimentos com financiamento externo ultrapassam aqueles sem o acúmulo inicial para o arranque. Quando não há recursos, o sistema de crescimento de diversidade mais alta prevalece porque é mais eficaz e menor em recursos materiais. Neste caso, as empresas capitalistas clássicas com necessidade de pagar dívidas estarão em desvantagem.

5.1 Capitalismo de descenso:

Duranto o descenso, podem aparecer novas versões do capitalismo. Podem criar-se empresas especializadas em organizar a redução da economia  E há consultores especializados na redução da escala ("downsizing"). Nos ecossistemas, os análogos seriam os empreendimentos que aproveitam os depósitos de energia dos sistemas anteriores.

5.3 Diminuição e fim dos pagamentos sem realizar trabalho

Durante o crescimento, o capital ganha interesse alto, pois as empresas podem pagar empréstimos e dividendos. Nesse período as pessoas com dinheiro podem receber dinheiro sem necessidade de trabalhar. Depois da etapa de crescimento, haverá uma diminuição deste fenômeno. Um sistema é mais eficaz se o dinheiro se paga por trabalho real.

5.4 Mudanças nas políticas de desenvolvimento

Quando existem recursos sem usar os disponíveis para o desenvolvimento, se estabelecem leis que favorecem o capitalismo competitivo e o crescimento oportunista, porque nesse tipo de desenvolvimento explosivo de tipo monopolista se consegue aproveitar ao máximo os recursos disponíveis nessa fase da sucessão. Os exemplos são a venda de terras públicas para a obtenção de lucro fácil; direitos de prioridades para a exploração de recursos minerais sobrepostos ao uso agrícola de grandes superfícies de terra; e corporações que recebem os mesmos direitos constitucionais que os indivíduos para fazer um aproveitamento econômico. Depois do crescimento, esse tipo de leis aceleradoras dos empreendimentos capitalistas oportunistas dificilmente permanecerão. Haverá mudanças nas leis econômicas e sociais. Quando a eficácia se torne uma prioridade pública amplamente reconhecida, podem-se tomar medidas para eliminar o luxo e o desperdício, que, por sua vez, poderão se converter em leis e políticas públicas. Exemplos: (a) uma proposta deste tipo estabelecer um limite ao ingresso pessoal de aproximadamente 150.000 dólares por ano, nos EUA; (b) uma política pública para reduzir o ingresso de todo o pessoal em lugar de reduzir o número de empregados.

5.5 Transformação do mercado

Quando o principal crescimento estiver terminado e as pessoas compreenderem a mudança fundamental, é possível uma explosão ("crash") do mercado. Necessita-se algum mecanismo para programar uma deflação (diminuição gradual, não catastrófica) do dinheiro vinculado às ações e bonos. Por exemplo, uma redução gradual das taxas de interesse e dos dividendos poderia desviar do mercado de ações e bonos  à compra e funcionamento eficaz de empresas produtivas com bom rendimentos anuais.

5.6 Empresas privadas com controle público

Para aumentar ao máximo a prosperidade do sistema, a produção privada deve incluir necessidades de benefício público em seu funcionamento (e não apenas buscar o máximo lucro possível forçando a redução de custos de produção e vendendo a preços mais altos possíveis). Pode exigir-se aos negócios privados agregar os gastos da proteção do meio ambiente, a equidade social, reciclar materiais e restaurar a terra, substituindo a destruição. Os salários mínimos e os benefícios sociais necessitam ser incluídos nos custos. Estes custos não são uma para uma companhia individual se se exigissem de todos os competidores.

5.7 Equidade de comércio em vias de desenvolvimento

Devido ao fato de que o dinheiro dos países desenvolvidos permite comprar riqueza mais real nos países menos desenvolvidos, o comércio atual não é justo (devido às diferenças na proporção da emergia/dinheiro). Isto acelera o crescimento oportunista dos países desenvolvidos que somente é apropriado nas fases de crescimento temporais. Desenvolver a equidade (emergia igual nos intercâmbios internacionais) permitirá a mais países fazer uma contribuição máxima ao desenvolvimento global. Tratados comerciais podem ser usados para ajustar os preços, subsídios, ajudas estrangeiras, informação e outros tipos de intercâmbio para ser equivalentes.

6. Estrutura e materiais

6.1 Substituição de albergues precários, com menos edifícios, mas de qualidade:

Na sucessão ecológica, ao início quando há poucos recursos disponíveis, as estruturas iniciais são precárias e temporais, mas eficazes em aumentar ao máximo o crescimento, depois, essas estruturas são substituídas por outras maiores, de menos qualidade, mas duráveis e de reposição mais lenta. Uma evolução similar pode ser esperada e planejada em relação às edificações. Assim, as casas frágeis de materiais simples com tempo de vida curto, ao evoluir o sistema, podem ser substituídas por outras com estrutura mais firme e permanente. Por outro lado, quando as populações diminuírem, haverá um excesso de espaço de construção que podem ser convertidos em estruturas de menor quantidade mas de maior qualidade.

6.2 Reutilizacão, reciclagem dos materiais e reciclagem dos ecossistemas

Parra maximizar a produção, de forma eficiente, se requer que tudo aquilo que possa ser reutilizado seja realmente reciclado (e não aumentar os depósitos de lixo). O tipo de reciclagem de materiais depende da concentração e da qualidade (transformidade). O sistema econômico urbano pode usar produtos de alta qualidade e concentração, mas os ecossistemas requerem concentrações menores para poder reabsorver os materiais e reintegrá-los aos ciclos naturais. Para promover a conservação e a reutilização de alguns materiais, por exemplo aqueles de grande possibilidade de reutilização e de toxidade alta, a sociedade humana tem se organizado para exigir dos fabricantes deste tipo de produto que recebam de volta nos vasilhames usados, assim se consegue economizar materiais e reduzir o volume do desperdício.

6.3 A comunicação pode substituir, em parte, o transporte físico:

Nós podemos economizar os recursos e custos dos transportes usando mais e-mail, telefone e fax, no lugar dos meios pessoais e do correio normal. Poderia fazer-se mais trabalhos em casa usando, entre outras coisas, os computadores. A informação caseira também demanda recursos energéticos de alta intensidade, porém menor volume do que o transporte com automóveis.

7. A vida humana

7.1 Atender às necessidades mínimas de vida

Os princípios da Teoria Geral dos Sistemas sugerem que em todos os sistemas se estabelece uma hierarquia natural que é necessária porque é funcional, em outras palavras, há uma distribuição hierárquica da riqueza do sistema. Por outro lado, para que um elemento do sistema humano possa ser uma pessoa produtiva é necessário atender a suas demandas mínimas suficientes de comida, moradia, educação, cuidados com a saúde e outras necessidades físicas e psico-sociais.

7.2 Mulheres, crianças e trabalho

Durante o descenso, ao haver menor potencial de crescimento, a população não terá pressão para crescer e, portanto, menos necessidade de ter filhos, por outro lado, aumentará a demanda de trabalho e se requerirão mais pessoas para trabalhar em tarefas que deixaram de ser subsidiadas pelos combustíveis fósseis, pois estarão caras. Haverá mais emprego para todos. As mulheres poderão ter menos filhos e conseguir educar-se mais e realizar carreiras em empregos mais produtivos. As sociedades que conseguirem realizar estas mudanças estarão em vantagem devido a sua maior eficácia no uso dos recursos.

7.3 Flexibilidade com respeito ao sexo:

Os poderosos mecanismos sociais vinculados ao sexo que guiam a espécie humana desde tempos antigos são herdados e não podem mudar facilmente. Sem restrição, o sexo pode ser desvinculado da reprodução e usado para satisfazer as necessidades emocionais em relações pessoais mais íntimas e profundas. As idéias rígidas sobre essa questão, que perpassaram à infância, a juventude e as pessoas maiores, estão sendo substituídas por atitudes e leis mais flexíveis e tolerantes a respeito das relações sexuais e aos programas de controle de nascimento.

7.4 Educação para o futuro

Podemos colaborar na preparação das crianças para enfrentar um futuro de menor energia disponível, de diversas maneiras, entre outras, ajudar a descrever esse novo cenário e a dar explicações que sejam solicitadas. Elas necessitam saber o que está se passando e porque estão ocorrendo os problemas da biosfera, para posicionarem-se corretamente. Deve pedir-se às escolas que ofereçam disciplinas que mostrem como funciona o ecossistema terrestre como um todo e que expliquem o papel da humanidade diante da crise.Um curso de como ver o mundo como um sistema em funcionamento delicado. Eles deverão aprender a obter informação e a processá-la em computadores. Mas, também necessitaram vivências práticas, por exemplo, como produzir alimentos de boa qualidade, como preservar em lugar de depredar, e como fazer um alojamento mais resistente e durável.

7.5 Valores familiares:

Alguns valores e estilos de vida terão que mudar em função de haver menos demanda de natalidade, menos recursos gastos na família, e menos automóveis. As crianças continuarão necessitando relações familiares estáveis. As comunidades poderão reorganizar-se em bairros mais pequenos em torno de escolas. A ética da unidade de grande escala necessita ser incorporada a ética de pequena escala das regiões tradicionais.

7.6 Sociedades locais e pluralismo

Havendo menos transporte teremos oportunidade para estabelecer, em todo o planeta, organizações sociais de base local com maior diversificação cultural. O desenvolvimento de culturas locais separadas poderá ter uma coerência global se se conseguisse que todos os grupos mantivessem uma consciência ética global, cooperação e respeito mútuo.

Em resumo

Temos usado os princípios que parecem governar todos os sistemas, incluindo as sociedades humanas, para estudar o descenso econômico. Os princípios citados incluem as leis de energia, a maximização do aproveitamento da potência disponível, a formação de uma hierarquia para usar a energia, a conservação e distribuição hierárquica dos materiais, a reorganização espacial dos centros concentradores e redistribuidores e o paradigma do pulso de consumo que ocorre depois do ecossistema produzir recursos úteis para as plantas e seus consumidores.

Esperamos que sejam substituídas a cultura e as políticas públicas usadas no período de crescimento por um novo conjunto de éticas e políticas que afetem cada escala de tempo e espaço durante o descenso. Mudanças firmes em atitudes e práticas serão decisivas para desviar a sociedade humana de um caminho de um colapso destrutivo e, ao invés disso, guiá-la a um descenso com prosperidade.

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*Apresentação no Seminário Internacional de Progressos em Estudo de Energia, Porto Venere Italia, Maio 2000; Trechos do livro: "The prosperous Way Down". Editora da Universidade do Colorado, Boulder, Colorado, EUA.

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