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ANOS DE CEMARX*
Caio Navarro de Toledo **
Com freqüência, em todo o mundo, a “morte do pensamento
de Marx” é comemorada pelos ideólogos liberais e
do conservadorismo. Nos anos 90, no auge do pensamento neoliberal e
com o chamado pós-modernismo, estas comemorações
voltaram a se manifestar enfaticamente na mídia e em certos meios
acadêmicos e culturais. Para estes, a desagregação
da antiga URSS e a rendição socialismo do leste ao capitalismo
neoliberal eram provas definitivas do colapso do pensamento de Marx
e do marxismo em geral. De forma cética, quando não cínica,
renomados intelectuais – outrora militantes do socialismo
– anunciaram que, no plano do pensamento, a contemporaneidade
agora se expressava pelo pós-marxismo ou pelo pós-socialismo.
Fim da história, fim das ideologias e vitória da democracia
liberal constituíam, assim, o senso comum dominante nos meios
culturais e acadêmicos.
Contra
esse senso comum e navegando contra a corrente, um grupo de acadêmicos
da Unicamp, em meados dos anos 1990, tomou a iniciativa de criar um
centro de estudos que tomava a obra de Marx como referência fundamental
de pesquisas e de debates.
O
Cemarx surgiu no IFCH com uma afirmação central e uma
justificativa teórica básica: o conjunto da obra de Marx
é imprescindível para o trabalho de investigação
no terreno da filosofia e das ciências sociais. Assim, se se pretende
produzir conhecimento rigoroso e crítico sobre a sociedade capitalista
contemporânea não podemos dispensar os conceitos, as categorias
heurísticas e a metodologia propostos, implícitos ou sugeridos
pela obra de Marx.
Desconhecer
ou interditar o acesso dos pesquisadores e estudantes ao pensamento
de Marx – como fazem sistematicamente instituições
e centros de estudos não necessariamente privados –, significa
objetivamente impedir que floresça e se desenvolva um pensamento
crítico e criador.
Longe
de nós a infundada suposição de que apenas na companhia
de Marx poderemos alçar ao plano do pensamento crítico.
As obras de Platão, Spinoza, Kant, Hegel, Weber, Wittgenstein,
Freud e de muitos outros são também imprescindíveis,
pois constituem um patrimônio do pensamento e da razão
humana. Valiosos e bem vindos são, pois, os centros de estudos,
existentes em várias partes do mundo, em torno da obra destes
pensadores.
É
de se admitir que quem se vincula a centros como estes, tem, basicamente,
um legítimo interesse cognitivo. No entanto, um centro de estudos
em torno de Marx, não visa apenas o entendimento rigoroso do
pensamento deste autor; seus pesquisadores – na boa tradição
do marxismo clássico – também se comprometem no
sentido de produzir uma reflexão crítica e transformadora.
Refletir
sobre a obra de Marx nunca será um ato gratuito, diletante ou
inconseqüente para quem leva em conta os pressupostos teóricos
centrais desse pensamento. A rigor, levar a sério o projeto intelectual
de Marx implica tomar posição diante das lutas históricas
que homens e mulheres travam pela transformação da ordem
burguesa e capitalista.
Significa
isso afirmar que o Cemarx deve, publicamente, assumir posições
militantes e ter um caráter político? Em absoluto. O Cemarx,
nestes 10 anos de existência, jamais se identificou com uma particular
posição ou uma definição político-partidária.
Nunca se posicionou nem se posicionará oficialmente sobre aspectos
da conjuntura política brasileira ou mundial. Embora não
assuma nenhum tipo de ecletismo ou neutralidade axiológica ou
política, o Cemarx tem sido conseqüente na defesa e na prática
do pluralismo teórico e político em todas suas atividades.
O
significado do engajamento político-ideológico de um centro
de estudos como este – distinguindo-se, pois, dos seus congêneres
– reside no compromisso de promover a discussão da realidade
político e social do capitalismo contemporâneo. Paralelamente
aos grupos de pesquisas e de estudos que se desenvolvem no Centro, são
organizados debates com pesquisadores e especialistas – socialistas
ou não – sobre questões cruciais e relevantes, tais
como a guerra imperialista no Afeganistão, no Iraque, no Líbano;
o 11 de setembro; a violência contra o povo palestino e o conflito
árabe-israelita; o golpe de 1964; as esquerdas e a eleição
presidencial no Brasil etc.
O
Cemarx é, hoje, inegavelmente, a mais importante referência
acadêmica no campo dos estudos marxistas no Brasil. Para o ex-diretor
do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), o sociólogo
Atílio Borón, o Cemarx é um exemplo a ser seguido
pelos universitários marxistas da AL. Se isto nos incentiva,
não podemos, contudo, deixar de reconhecer que este Centro de
estudos poderia ser mais forte e consistente do ponto de vista intelectual
e acadêmico.
Como
o exercício da autocrítica e a honestidade intelectual
se impõem, temos de reconhecer que nem todos marxistas da Unicamp
participam do Cemarx. Dissensões no passado provocaram o afastamento
de colegas que estiveram presentes na criação do Centro.
Não sendo este o momento mais apropriado para examinar esta situação,
cabe, de forma positiva, observar que, nos anos recentes, colegas do
IFCH e de outros institutos, cujas preocupações teóricas
se vinculam à teoria marxista, têm sido convidados e participado
de nossas atividades. Fortalecer o campo do marxismo no interior da
universidade brasileira, em particular na Unicamp, tem sido uma preocupação
constante do Cemarx.
Finalmente,
devemos ressaltar um valor que distingue o funcionamento e a organização
do Cemarx. É muito lembrado que, nos tempos atuais, ninguém
ousa ser contra a democracia; difícil, no entanto, seria encontrar
entidades ou comportamentos democráticos. Deixando de lado, a
questão da veracidade ou não desta blague, importa assinalar
que no espaço do Cemarx o exercício da democracia tem
sido uma realidade efetiva.
Se, em virtude da especificidade do trabalho acadêmico, a responsabilidade
da Direção do Centro cabe sempre a um docente, tudo o
mais é objeto de debate e decisão por parte do conjunto
de seus participantes (professores, pesquisadores e estudantes, sejam
eles graduandos ou pós-graduandos).
Exemplar neste sentido é a organização da atividade
que mais tem projetado o trabalho do Cemarx nos meios acadêmicos
brasileiros. Na organização dos Colóquios Marx
e Engels tudo está em questão: a definição
de sua problemática, os temas a serem discutidos, a escolha dos
conferencistas e debatedores, a definição dos grupos de
trabalhos, a seleção dos textos a serem ai apresentados
e as demais responsabilidades que implicam a efetiva realização
do evento. O testemunho dos estudantes – mais do que minhas palavras
que, certamente, poderiam ser aqui interpretadas como mera retórica
– deveria ser invocado para comprovar a efetiva existência
da democracia no cotidiano e na prática do Cemarx.
Porém,
se o público for benevolente e conceder que este discurso é
veraz, diria que a democracia interna pode ser um fator que explica
a consolidação do Cemarx bem como sua relevância
na vida cultural e política da Unicamp.
Por
último, já que falamos em democracia, devemos lembrar
que, em pesquisa feita no ano passado pela BBC, Marx foi eleito o mais
importante pensador de todos os tempos. Certamente, é possível
questionar o rigor deste tipo de consulta de opinião. Mas, não
se pode deixar de concluir: a própria mídia que enterra,
vê-se obrigada – por força da rebeldia do público
– a reconhecer que o pensamento de Marx ainda está vivo
e continua nos interpelando.
*
Fala proferida por ocasião das comemorações dos
10 anos de existência do Centro de Estudos Marxistas da Unicamp.
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Professor IFCH-Unicamp e Diretor associado do Cemarx.