A QUESTÃO RUSSA PARA MARX E ENGELS

 

Marcos Del Roio

Prof. de Ciência Política da FFCH-Unesp (Marília)

Presidente do Instituto Astrojildo Pereira

 

Marx começou a interessar-se por temas relativos à Rússia na época da guerra da Criméia (1854-1857), abordando, nas páginas da revista inglesa The Free Press, a história das relações diplomáticas do século XVIII. Na análise de Marx, a Prússia cumprira um deplorável papel histórico ao ajudar a destruir a Suécia primeiro, e a Polônia depois, as barreiras que continham o avanço russo na direção do Ocidente. Tanto Marx quanto Engels demonstram vivo e crescente interesse pela questão russa, tanto do ponto de vista de sua influência nos assuntos europeus, quanto do ponto de vista da polêmica sobre a natureza da forma social e da revolução. De todo modo, a preocupação política fundamental era derrotar o regime russo visto como um obstáculo intransponível à revolução proletária.

Na parte dos Grundrisse conhecida como Formen, redigida em 1857-1858, Marx anota que a forma social eslava surge como uma variante da forma oriental, mas seu entrechoque com a forma germânico-feudal e sua posterior articulação, por meio do comércio, com o "segundo período manufatureiro", levou a Rússia a estabelecer uma particular formação social feudal, baseada na servidão, mas com significativa presença de escravos e sobrevivência da antiga "comunidade eslava". O regime político dessa forma social seria algo intermediário entre o "despotismo oriental" e a monarquia absoluta ocidental.

O ressurgimento das rebeliões camponesas (1858-1862), o início da "emancipação" dos servos (1861) e, principalmente, a insurreição nacional polonesa (1863), acentuaram o interesse de Marx e Engels pelas condições sócio-históricas di império dos czares, sem deixar de lado sua influência e peso diplomático-militar nos assuntos europeus. Por um momento, Marx e Engels acreditaram que a insurreição polonesa pudesse desencadear uma nova "primavera dos povos" como a de 1848. Como Rousseau, Marx também via na emancipação nacional da Polônia um anteparo essencial para impedir o avanço do "barbarismo asiático sob a liderança moscovita" (Marx, 1867) contra o Ocidente.

A preocupação com o peso condicionante exercido pelo poder czarista sobre o Ocidente e sobre o movimento socialista, acompanhou Marx e Engels de maneira permanente. Seriamente batida na guerra da Criméia, a Rússia começou a recuperar-se ao impedir que a Áustria-Hungria se aliasse a França e ao avalizar a incorporação da Alsácia-Lorena ao Reich prussiano-alemão. A vitória da Rússia na guerra contra a Turquia (1877-1878), apareceu como um verdadeiro desastre na análise de Marx e Engels, pois poderia levar o império czarista ao objetivo de atingir o mar Mediterrâneo, ou por Istambul ou pela Sérvia. Essa vitória deu ainda um novo fôlego a uma renovada "Santa Aliança" entre a Rússia, a Alemanha e a Áustria-Hungria. Parece que é só a partir desse momento que Marx e Engels começam a supor uma revolução que ocorresse a partir das contradições internas do vasto império.

Desde a derrota da insurreição polonesa, a formação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864) e o aumento do fluxo de exilados russos no Ocidente, os contatos e a polêmica sobre a questão russa, a natureza da comuna agrária e da revolução, se aprofundaram., contando com a incisiva participação de Marx e Engels. Já no contexto das profundas divergências que confrontavam Marx e Engels de um lado e de outro o conjunto da intelectualidade revolucionária russa, no seio da AIT, em 1870, Engels brandia com ceticismo: "Que desdita par o mundo, se não fosse uma monstruosa mentira, que na Rússia estejam 40 mil estudantes revolucionários que não tenham atrás de si nem um proletariado revolucionário e nem mesmo um campesinato revolucionário e que diante de si não tenham outra solução senão o dilema: Sibéria ou emigração na Europa ocidental".

Ainda com as feridas abertas pela derrota da Comuna de Paris (1871), pela expulsão de Bakunin e a transferencia do Conselho Geral da AIT para Filadélfia (1872), Engels travou um debate virulento com Tkatchov, do qual resultou o texto "A questão social na Rússia" (1875). Engels confirma o diagnóstico de ser o império russo não só o sustentáculo das forças reacionárias da Europa mas um decisivo impedimento para a eventual vitória da revolução no Ocidente. Acreditava que o império russo poderia ser derrubado por uma guerra externa ou então por uma insurreição nacional polonesa apoiada pelo movimento operário ocidental, embora reconhecesse (não sem alguma reticência) que o campesinato começava a se tornar um sujeito político e que a Rússia se preparava para uma revolução.

A fim de realçar a distância do projeto narodinik de um socialismo oriental fundado na comuna agrária, Engels reafirmava a necessidade objetiva do desenvolvimento das forças produtivas do capital, assim como a formação de um proletariado industrial e de uma burguesia. A revolução russa seria então de caráter burguês e levaria a comuna agrária necessariamente à destruição, num prazo mais ou menos longo. A única possibilidade de sobrevivência e transformação da comuna agrária seria uma revolução proletária na Europa ocidental. Percebe-se então que para Engels a possibilidade maior de uma revolução russa a curto prazo sugeria uma origem exógena, produto de alterações políticas importantes na Europa ocidental.

É bastante possível que Marx compartilhasse dessa análise de Engels, mas se isso for verdade, uma pequena diferenciação começou a aparecer nos anos seguintes. Numa carta de novembro de 1877, endereçada à revista russa Anais da Pátria, Marx negou ser autor de uma filosofia universal da História na qual a inserção da Rússia só seria possível através do desenvolvimento capitalista. Fazendo uma análise dialética -- muito menos evidente em Engels --, após árduos estudos, Marx conclui que: "se a Rússia continuar marchando pelo caminho seguido desde de 1861, ela perderá a mais bela oportunidade que a História jamais ofereceu a um povo e experimentará todas as peripécias fatais do regime capitalista". Marx enfatiza que seu capítulo sobre a "acumulação primitiva" procurou analisar a origem do capital nas entranhas da ordem feudal do Ocidente, sem qualquer pretensão universalizante. A conclusão é que a Rússia não teria que inevitavelmente seguir a mesma trajetória do Ocidente e que seu futuro como país capitalista dependeria da transformação de boa parte do campesinato em proletários.

Alguns anos depois, numa breve carta (após três esboços) enviada a Vera Zasulitch em 1881, num momento de aproximação com uma facção dos narodinik, Marx expõe com maior clareza uma proposição anteriormente apenas sugerida, estabelecendo a diferença fundamental entre Ocidente e Oriente eslavo: no primeiro caso tratou-se da transformação de uma forma de propriedade privada (fundada no trabalho pessoal) em outra (a propriedade privada capitalista), enquanto que no seguindo caso trata-se da transformação da propriedade comum em propriedade privada. A questão russa é dotada, portanto, de uma particularidade que a análise feita n'O capital, não pode dar conta. Mas Marx confessa-se convencido que a comuna agrária "é o ponto de apoio para a regeneração social da Rússia". Chama atenção, porém para os "influencias deletérias" que a assolam e que deveriam ser eliminadas a fim de "assegurar-lhe as condições normais de um desenvolvimento espontâneo".

No primeiro esboço dessa correspondência, Marx indica que um desenvolvimento ulterior da comuna seria possível caso essa se constituísse em elemento de produção coletiva em escala nacional e incorporasse o conhecimento técnico-científico da produção capitalista do Ocidente. Mas "certamente se deveria começar colocando a comuna em estado normal sobre sua base atual", sendo necessário para isso derrubar a monarquia dos czares, cujos domínios estatais e dos grandes proprietários de terra ameaçam a existência da comuna, por meio do fisco e da utilização da força de trabalho dos camponeses impelidos pela necessidade de fugir à miséria.

O Estado czarista russo criou um capitalismo em condições de "estufa", a fim de poder fazer frente à pressão do Ocidente, implantando a bolsa, a especulação, os bancos, a sociedade por ações e a ferrovia. No entanto, a crise agrária torna a sobrevivência da comuna insustentável, pois para os interesses articulados no Estado "é preciso constituir em classe média rural a minoria mais ou menos rica dos camponeses e converter a maioria em proletários". Ao contrário, para que a comuna seja preservada "é preciso uma revolução russa" e "se a revolução for feita a tempo, se ela concentrar todas as suas forças para assegurar um livre curso à comuna rural, logo ela se desenvolverá como um elemento regenerador da sociedade russa e como fator de superioridade sobre os países submetidos ao regime capitalista".

No Prefácio à edição russa de 1882 do Manifesto Comunista, assinado em conjunto por Marx e Engels, aparece uma síntese da visão marxiana, mas ao que parece compartilhada por Engels de uma maneira bastante limitada e momentânea. Nesse texto está dito que "se a revolução russa der o sinal para uma revolução proletária no Ocidente, de modo que ambas se complementem, a atual propriedade comum da terra na Rússia poderá servir de ponto de partida para uma evolução comunista". Essa é uma solução que pode ter inspirado decisivamente a práxis política dos bolcheviques em 1917.

Engels pretendeu manter a análise sua e de Marx, falecido em 1883, sobre o papel condicionante e opressivo desempenhado pela Rússia nas relações internacionais européias, particularmente em relação ao acordo tácito existente entre os impérios russo, alemão e austro-húngaro, para evitar qualquer movimento revolucionário. Num breve ensaio publicado em 1890, sob o título de A política externa dos czares, Engels retoma toda a trajetória da política externa da Rússia desde o século XVIII, com o fito de descortinar as dificuldades e o virtual tramonto dessa aliança em favor de um novo realinhamento.

O fortalecimento do império alemão empurra a França para uma aliança com a Rússia, enquanto que o projeto russo de alcançar Istambul (Zarigrad, para os russos) aproxima a Áustria e também a Itália) da Alemanha. Apenas uma revolução que pusesse abaixo o czarismo seria capaz de evitar um conflito militar de proporções mundiais. O czarismo persiste sendo o inimigo principal não só da emancipação nacional dos povos como do movimento socialista. Para Engels, derrotado o czarismo e implantado um Estado de direito na Rússia, o movimento operário do Ocidente, com sua incontrastável tendência de crescimento, poderá tratar de acelerar a passagem (pacífica, pode se supor) da sociedade capitalista para a socialista.

Num artigo de 1892, chamado O partido socialista alemão e a paz, tratando do problema dos riscos de uma guerra, Engels defende o apoio do partido socialista alemão ao Estado imperial contra a Rússia czarista aliada a França, pois nesse caso estaria em jogo a sobrevivência do movimento operário e o futuro da revolução socialista. A guerra levaria os socialistas ou a vitória em curto prazo ou a aniquilação, enquanto que a preferível paz garantiria a vitória num prazo maior.

Uma derradeira e importante manifestação de Engels sobre o tema abordado ocorreu em 1894, como um suporte à posição do grupo marxista russo Emancipação do Trabalho, num texto chamado de Epílogo à questão social na Rússia. Nessa ocasião, Engels reafirma sua análise do desenvolvimento capitalista na Rússia, produto de "um novo período de revoluções conduzidas de cima para baixo, que começaram na Alemanha". Essa passagem a um só tempo corrói o que resta da comuna agrária, cria um movimento socialista proletário e fortalece a burguesia. Uma revolução burguesa na Rússia, de fundo jacobino, parecia ser evento descontado para os próximos anos, o que impediria a guerra, fortaleceria o movimento operário alemão e salvaria a comuna agrária.

Para concluir, é possível dizer que há uma diferença no conjunto da análise entre Marx e Engels. A visão de Marx é mais acentuadamente dialética, perscrutando a possibilidade de uma particular revolução russa fundada na comuna agrária e na vanguarda revolucionária, servindo de estímulo ao proletariado alemão, enquanto que Engels enfatizava a objetividade das leis do desenvolvimento capitalista na sua universalidade.