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DE LUIZ BONAPARTE" DE KARL MARX
Diorge Konrad*
O argumento central que levantamos aqui é o de que o materialismo histórico, como teoria da História continua a nos possibilitar instrumentos metodológicos para a análise e síntese das diferentes formações sociais, sobretudo para dar conta da história do presente ou história imediata. Assim, o tema da comunicação será a atualidade da concepção histórica do marxismo a partir dos pressupostos teóricos apresentados pela obra O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte de Karl Marx. A crítica atual ao marxismo insiste no esgotamento deste como teoria para o entendimento dos problemas históricos da atualidade, em especial pelas teses irracionalistas da "pós-modernidade", em especial àquelas relacionadas à negação da ciência (leis da história) e o estudo totalizante das diferentes realidades. Através da retomada de perspectivas relativistas e fragmentárias, teóricos, em geral, e historiadores, em particular, têm insistido não apenas na crise do marxismo, mas mesmo na sua morte. O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte é um dos textos mais significativos entre os clássicos marxistas, que apresenta , com riqueza de argumentos, além da concepção política, a negação das acusações de que o marxismo é uma concepção de história essencializada pelo determinismo. Os princípios da história apresentados no texto, evidentemente, só têm sentido se relacionados às circunstâncias históricas em que a análise é efetuada. O Dezoito Brumário também teve esse sentido quando escrito por Marx, no "calor dos acontecimentos", entre dezembro de 1851 e março de 1852. No prefácio à segunda edição de 1869, o próprio Marx afirmou, ao comentar a importância da obra, que esta residia na explicação de "como a luta de classes na França criou circunstâncias e condições que possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar um papel de herói". Dessa forma, o texto representa uma visão sobre o papel das classes sociais e do indivíduo na história, mas sob condições dadas. No prefácio à terceira edição alemã de 1885, Engels esclareceu que havia sido Marx quem primeiro descobriu a grande lei do processo de desenvolvimento da história segundo a qual "todas as lutas históricas, quer se processem no domínio político, religioso, filosófico ou qualquer outro campo ideológico" nada mais significam, na realidade, que a "expressão mais ou menos clara de lutas entre classes sociais". Nesse sentido, complementou Engels, "os conflitos entre essas classes são, por seu turno, condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica, pelo seu modo de produção e pelo seu modo de troca". Se Marx entendia que os personagens e fatos históricos que parecem repetir-se aparecendo primeiro como tragédia e depois como farsa, poderíamos considerar que muitas das críticas atuais ao materialismo histórico, mesmo que apareçam com roupagens pretensamente novas, representam farsas reelaboradas de concepções de história idealistas e mecanicistas tão criticadas pelo marxismo, ainda no século XIX. O retorno à concepções de que o conhecimento se constrói a partir do pensamento de cada um ou, por outro lado, a partir dos fatos em si, representam expressões neohistoricistas e/ou neopositivistas da história. Se Marx considerou em O Dezoito Brumário que "assim como na vida privada se diferencia o que um homem pensa e diz de si mesmo do que ele realmente é e faz", ele leva aos limites a visão materialista sobre a ação política dos diferentes partidos a partir da revolução de 1848 na França, ao afirmar que "nas lutas históricas deve-se distinguir mais ainda as frases e as fantasias dos partidos de sua formação real e de seus interesses reais, o conceito que fazem de si do que são na realidade". Na verdade, as várias passagens simbólicas e metafóricas de O Dezoito Brumário encerram o entendimento de que na história a consciência social tem como seu estruturante e dialético fundamental o ser social, que, no caso da capitalismo são o seu modo de produção e as duas principais classes sociais em luta: a burguesia e o proletariado. Aqui, as ciências sociais têm o sentido de descobrir as leis objetivas do desenvolvimento desse processo. Por isso, o materialismo histórico, como afirmou Perry Anderson, em A crise da crise do marxismo, continua a ser o único paradigma intelectual para vincular a perspectiva de um socialismo futuro às contradições e movimentos práticos do presente em uma teoria da dinâmica de todo o desenvolvimento social. Outros paradigmas de história têm defendido a história como estudo do presente. Muitos historiadores das novas gerações da Escola dos Annales - ou Nova História - têm afirmado, seguindo, de certa forma, o presentismo de Croce ou de Collingwood, a importância da história contemporânea, imediata ou do presente. Mas como romper com uma tradição de estudos históricos que privilegiam os documentos escritos e oficiais? Se Benedetto Croce afirmava que "a história é sempre contemporânea" e Marc Bloch explicava que "a incompreensão do passado nasce, em última instância, da ignorância do presente", estas perspectivas abriram espaços para novas fontes e novos problemas para a construção de interrogações onde "o presente volta a ser um objeto legítimo de estudo para o historiador", como entende Olivier Dumoulin. Também se pode ignorar, como nos mostram Agnès Chauveau e Phillipe Tétart, que o atual retorno ao presente tem tido a vanguarda dos historiadores do político. No entanto, o que se tem percebido é que a maioria dos estudos tem se limitado apenas a interpretar o presente. Mesmo o historiador britânico Eric Hobsbawm, em seu artigo "O presente como história", de certa forma, privilegia o tempo como um todo ou o entendimento da história como história dos ingleses, dos europeus ou dos ocidentais na análise do historiador e não a partir das visões de mundo estabelecidas pelas classes sociais em um contexto histórico. Privilegiar a análise sob o ponto de vista individual do historiador ou de uma região, resulta em uma concessão ao relativismo historicista, tão em evidência nas tendências "pós-modernas". Na XI Tese sobre Feuerbach, Marx expressou que até então os filósofos só haviam interpretado o mundo, mas o importante era transformá-lo. A atualidade dessa proposição teórica é fundamental para o debate com os críticos marxistas que reconhecem a importância da análise do presente histórico, mas propugnam o "fim da história" através da eternização do presente. Pierre Nora, historiador francês, se destacou no último quartel do século que ora finda por defender o retorno ao fato ou ao acontecimento, por entender que a história contemporânea tem se desenvolvido a partir do "acontecimento monstro" que invade a vida de todos, em especial através da mídia, sem que nos deixemos levar por "paixões partidárias". No entanto, é diametralmente oposto o que Marx propôs em O Dezoito Brumário, pois se em Nora o presente é o privilégio dos fatos singulares, situado em fenômenos particulares, privilegiando-se o que é aleatório sobre o que é estruturado, em Marx, os fatos singulares são apenas a aparência de relações essenciais e mais profundas só percebidas na relação realidade-abstrato-concreto. Nunca é demais aqui reafirmar que se para o presentismo croceano a história é sempre escrita do ponto de vista (subjetivo) do presente, como nos alerta Robert Paris, para o marxismo a história é escrita a partir das contradições econômicas, sociais, políticas e culturais e da luta de classes, sob o ponto de vista das classes (objetivo), e não de uma pressuposição temporal de um presente socialmente homogêneo. Portanto, a atualidade de O Dezoito Brumário não está apenas em um exemplo de como Marx conseguiu captar de forma totalizante a conjuntura da França após 1848. Por outro lado, seria simplista afirmar que o texto de Marx é uma construção de um discurso histórico de uma época, a partir de uma classe social - o proletariado, para o entendimento daquele tempo histórico. Na verdade, esta obra marxista é tudo isso, mas vai além, pois nela está implícita um estudo de um objeto com um objetivo militante: não só a compreensão da história, mas a conclusão da necessidade de mudá-la, como já apareciam em obras anteriores de Marx ou conjuntamente com Engels, como A Ideologia Alemã, A Miséria da Filosofia, O Manifesto do Partido Comunista e A luta de Classes em França 1848-1851. Ao escrever O Dezoito Brumário, Karl Marx não estava, então fazendo apenas um história de um presente concreto, mas realizando um estudo de um presente concreto a partir não de sua visão individual, mas de uma classe. Nessa perspectiva, a obra é um exemplo de como se analisa e se faz a síntese multideterminada de uma concretude histórica. Mas é sobretudo a atualidade dessa proposição que é central em nosso argumento. Quando Marx procurou entender como uma nação de trinta
e seis milhões de habitantes (a França de 1848-1851) pôde
ser surpreendida e entregue sem resistência ao cativeiro por cavalheiros
da indústria, esta preocupação é de uma atualidade
que impressiona para perceber o Brasil de hoje. O estudo de Marx é
uma referência para se entender na atualidade a reforma eleitoral,
a reforma constitucional, o recuo político do proletariado, a discussão
sobre a monarquia e a república, o anti-socialismo, as restrições
das liberdades políticas, a questão do poder, as contradições
entre as frações das classes dominantes, a utilização
política da população contra o parlamento, a dissimulação
da luta de classes e a busca da harmonização entre as classes,
as mudanças sociais nos limites da pequena burguesia, a degradação
e a busca de isolamento político dos representantes dos trabalhadores,
o papel da imprensa, a luta pela manutenção do poder político
e social, os limites das eleições, o papel dos camponeses
e do lumpemproletariado, a atuação da aristocracia financeira
e a importância dos bancos, a relação do mercado e
do capital com o governo - a relação entre o interesse econômico
e o interesse político, o processo de um golpe de Estado que não
se dá de um momento para outro, a autonomia relativa do Estado,
a submissão dos pequenos proprietários aos capitalistas,
a questão da religião e tantas outras. Enfim, problemas abordados
por Marx em O Dezoito Brumário e que continuam pertinentes
para entender como no capitalismo, mesmo que hoje em sua fase imperialista
("globalização), as classes sociais estão permanentemente
em contradição seja para manter as relações
sociais, econômicas, culturais, políticas e ideológicas
de um modo de produção, seja para mudá-las.
Referências Bibliográficas ANDERSON, Perry. 1987. A crise da crise do marxismo. São Paulo, Brasiliense. CHAVEAU, Agnès e TÉTART, Philippe (Orgs.). 1999. Questões para a história do presente. Bauru, EDUSC. FREITAG, Barbara e PINHEIRO, Maria F.(Orgs.).1993.Marx morreu! Viva Marx! Campinas, Papirus. HOBSBAWM, Eric. 1998. Sobre história. São Paulo, Cia. das Letras. MARX, Karl. 1982. "O Dezoito Brumário de Luiz Bonaparte".In: MARX, Karl e ENGELS, |