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Antonio Rufino Vieira
Neste trabalho, ressaltaremos a atualidade da obra de Marx e Engels, pois ajuda-nos a compreender as contradições do sistema capitalista e nos possibilita a pensar na alternativa de uma sociedade justa, igualitária e livre; para isso, tomaremos como referência o Manifesto do Partido Comunista, situando-o a partir da crise do socialismo real. Durante o ano de 1998, ao completar 150 anos de sua publicação, o Manifesto mereceu a homenagem de inúmeros congressos, conferências, ciclos de debates, mesas redondas, organizados por universidades, sindicatos, partidos políticos - isso sem nomear toda uma gama de livros e artigos sobre o tema. Essa justa a homenagem colocou em xeque a tese de que o marxismo, em face das contradições e dilemas do socialismo real, estaria fadado ao esquecimento. Para nós, o pensamento de Marx , pode ser de importância imprescindível para compreender as contradições do sistema capitalista principalmente quando os seus mais ardorosos defensores pensam apresentá-lo como o único e definitivo sistema da humanidade, do qual nenhuma nação poderá dele escapar. Assistimos, dentro desta lógica, mudanças teórica de homens que eram de esquerda e que hoje não vêem outra saída para eliminar as desigualdades sociais senão recorrendo à medidas estritamente dentro dos parâmetros do neoliberalismo (como se pode facilmente constatar na análise das recentes mudanças econômicas que, por exemplo, a América Latina hoje passa). É óbvio que a crise pela qual passa os "socialismos reais", tem uma profunda ressonância no conjunto da reflexão da importância atual do pensamento de Marx, pois, partindo-se da perspectiva de que os socialismos reais por bem ou por mal tinham como referência e inspiração a obra marxiana, existindo a "prova" prática da impraticabilidade da teoria, esta seria jogada no fundo da lata de lixo, sendo objeto, no máximo de curiosidade acadêmica. Mas será o marxismo um "cachorro morto", como pretendem constatar os defensores da única ideologia, do único sistema sadio, da única possibilidade histórica do homem? Lembremo-nos, à guisa de recordação, a situação de Hegel na época de Marx: era comum a crítica à Hegel, tratado como um "cachorro morto", de tal modo que Marx se apresenta como seu discípulo, a fim de demonstrar a importância daquele autor para a história da humanidade (cf. Prefácio da segunda edição de O Capital, livro I). A história parece se repetir, pois hoje existe a tentativa de enterrar o pensamento marxiano a partir de duas perspectiva, uma factual e outra epistemológica. A primeira constata o fracasso da experiência socialista em certos países, daí encontrando a confirmação definitiva para demonstrar que o marxismo não é uma teoria susceptível de ser concretizada, estando mais no nível de uma teoria abstrata do que realizável. A segunda perspectiva, a epistemológica, visa a demonstrar os problemas teóricos da teoria social de Marx e sua inaplicabilidadade à realidade social. Assim, algumas categorias, como alienação, não teriam qualquer valor teórico ou prático, estando privadas de qualquer sentido revolucionário, porque não fundariam nada de concreto. Sabemos que podem ocorrer diferentes leituras da obra de Marx e Engels. Recentemente alguns intelectuais, aproveitando-se do ensejo do sesquicentenário do Manifesto, tentaram descaracterizar a importância de tal documento, apresentando-o como nefasto para as sociedades. Um bom exemplo de tal interpretação pode ser encontrado no texto de Aldo Fornazieri, "Manifesto das falsas predições", presente na coletânea organizada por Jorge Almeida e Vitória Cancelli, 150 anos do Manifesto Comunista, coletânea publicada sob o aval da Secretaria Nacional de Formação Política do PT; ali ele tenta problematizar o Manifesto, demonstrando as suas teses falsas, como "reduzir a história das lutas de classes", a "dependência da política à economia", o conceito de "filosofia da história reduzido a um determinismo", o "profetismo do operariado, apresentado misteriosamente como sujeito da história". A tese defendida por Aldo Fornazieri, embora não seja nova, redobra suas forças, quando confrontada com a crise do socialismo real: o marxismo, exemplificado no Manifesto, além de nefasto, teria erros grosseiros e por isso mesmo não poderia ser fundamento para qualquer projeto político - ou melhor qualquer tentativa de concretizar as idéias revolucionárias estariam a priori fadadas ao fracasso. Seus fundamentos filosóficos seriam o determinismo físico, o historicismo e o economicismo sociais. Não podemos deixar de observar que em nossa época, Marx, como pessoa e como autor, continua a suscitar e apresentar controvérsia políticas e filosóficas as mais diversas, alimentando diferentes interpretações muitas vezes contraditórias. O sistema por ele criado, o marxismo, é uma filosofia ou um método de investigação? É uma teoria econômica ou um cânon de regras políticas? Existe uma epistemologia marxista, e, em caso positivo, tal epistemologia é materialista ou idealista? O marxismo é humanista ou amoralista? O materialismo histórico se identifica com uma concepção estritamente limitada ao domínio da história ou, enquanto materialismo dialético, se estende a todas as disciplinas científicas, como a biologia, a física? É nesse conjunto de problemas que podemos reler o marxismo que tem muito a nos ensinar na compreensão e transformação da sociedade brasileira, pois entendemos que a teoria marxista apresenta quatro aspectos essenciais, a saber: teoria da realidade, crítica do existente, projeto de emancipação e imperativo político de transformar o mundo. No célebre Prefácio à edição alemã de 1883, Engels resume a filosofia da história presente No Manifesto. Nesse prefácio estão contidos vários temas que podem ser problematizados no conjunto do pensamento marxiano. Apontemos alguns. Uma discussão que acompanha o Manifesto e o conjunto da obra de Marx diz respeito a uma possível visão eurocêntrica e evolucionista de Marx, ou seja: a cultura européia (industrial e capitalista) teria o caráter civilizatório. Numa passagem bem conhecida do Manifesto parece haver uma apologia da nova classe que "pela exploração do mercado mundial, dá um caráter cosmopolita à produção de todos os países ao invadir o globo inteiro". Historicamente a burguesia desempenhou, segundo Marx, um papel revolucionário ao "revolucionar constantemente os meios de produção e, por conseguinte, as relações de produção". Por isso, "tudo que era sólido se evapora no ar" (I- Burgueses e proletários). A influência do marxismo vulgar sobre os socialismos reais foi profunda. Por sua visão revisionista, ele infelizmente fez do evolucionismo e do eurocentrismo o modelo de base da historiografia marxista, e, por este fato, levantou novos problemas na maneira de abordar o colonialismo e o Terceiro Mundo. Daí alguns problemas se apresentam na compreensão da filosofia
da história, os quais pretendemos analisar: a) se a história
envolve em etapas predeterminadas, o Terceiro Mundo deverá passar
pelo estado capitalista?; b) a passagem do colonialismo ao capitalismo
deve ser considerado como progresso?; c) se um país não é
capitalista, até mesmo socialista, deverá ser forçosamente
feudal ou asiático? Parece que uma burguesia nacional não
pode se desenvolver em uma formação social do Terceiro Mundo
senão que sob a dependência da hegemonia imperialista e que
ela não pode desenvolver um capitalismo nacional, independente do
sistema capitalista internacional. Tais problemas só vem reforçar
a importância da filosofia da história marxista, particularmente
confrontada, nos dias de hoje, com o fenômeno da globalização.
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