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UMA LEITURA DAS "OBRAS HISTÓRICAS" DE MARX Adriano Nervo Codato
V. I. Lênin A teoria marxista da política implica portanto numa rejeição categórica de uma determinada concepção segundo a qual o Estado seria o agente da "sociedade como um todo" e do "interesse nacional". Assim, contra toda uma tradição do pensamento político, os marxistas Não sem uma certa dose de razão, no conhecido debate em torno da existência ou não de uma "teoria marxista do Estado", Norberto Bobbio chamou a atenção para a ausência, no interior do pensamento político de Marx, de um tratamento mais aprofundado do "problema das instituições". Ao insistir na natureza de classe do poder de Estado, os clássicos do marxismo não tematizaram os diversos "modos" pelos quais esse poder pode ser exercido. Essa forma de abordagem teve repercussões negativas sobre sua "teoria das formas de governo", já que eles sempre estiveram preocupados com o "quem" da dominação política e não com o "como": numa sociedade dividida e estratificada em classes, o governo, qualquer governo, sob qualquer "forma" (seja "democrática", seja "ditatorial"), estaria sempre voltado a cumprir os interesses gerais da classe dominante. É o que se aprende na seguinte passagem: Segundo Bobbio, os atrasos, lacunas e contradições da ciência política marxista, nesse particular, tornaram mesmo difícil o desenvolvimento de uma reflexão mais articulada a respeito da forma de organização do Estado socialista — a "ditadura do proletariado" — e de suas instituições específicas. É bastante conhecido para ser retomado aqui o fato de que, embora constasse do projeto intelectual de Marx submeter o Estado a um tratamento mais sistemático — como atestam, por exemplo, suas cartas a F. Lassalle (de 22/02/1858), a F. Engels (de 02/04/1858) e a J. Weydemeyer (de 01/02/1859), redigidas bastante cedo, antes mesmo da publicação, em Berlim, de Para a crítica da economia política —, isso nunca tenha se realizado. Igualmente, o próprio estudo sobre o "capital" (e, dentro dele, o capítulo sobre as "classes") permaneceu incompleto. Norberto Bobbio apóia-se nesse fato, entre outras razões, para sustentar a incipiência de uma teoria política marxista. Como reconheceu N. Poulantzas, os textos dos clássicos do marxismo — nomeadamente, os de Marx e Engels, mas também os de Lênin e Gramsci — não trataram o nível político de forma sistemática (o que equivale dizer: não realizaram explicitamente sua "teoria", no sentido rigoroso do termo). Ao contrário, o que se pode encontrar nas suas obras principais são: (ii) ou elementos de conhecimento teórico da praxis política e da superestrutura do Estado não inseridos, entretanto, num discurso ordenado; (iii) ou, ainda, uma concepção implícita do lugar e da função da estrutura política na problemática marxista — mas não um tratamento "orgânico" do problema do Estado. E qual é o conteúdo essencial da teoria política marxista? Numa palavra, a determinação da natureza de classe do Estado. Uma das conquistas teóricas mais fundamentais para a teoria política moderna foi a determinação da natureza de classe dos processos de dominação política pelos clássicos do marxismo. Todavia, se a determinação da natureza de classe do aparelho de Estado é uma condição necessária para a análise do "sistema estatal", quando se trata de compreender sua configuração interna, seus níveis decisórios e as funções que os diversos centros de poder cumprem, seja como produtores de decisões, seja como organizadores políticos do "bloco no poder", ela é amplamente insuficiente. "O Estado apresenta uma ossatura material própria que não pode de maneira alguma ser reduzida simplesmente à dominação política". O aparelho do Estado, lembra Poulantzas, "não se esgota no poder do Estado". Embora a dominação política esteja "inscrita na materialidade do Estado", é essencialmente através dessa materialidade institucional que ela se realiza concretamente. Nesse sentido, a função de mediação que o aparelho do Estado desempenha através de suas atividades administrativas e burocráticas rotineiras adquire aqui uma importância decisiva para a determinação de seu caráter de classe. De forma análoga, esse último problema não pode se referir, exclusivamente, aos "resultados da política estatal — que estão ligados à questão, analiticamente distinta, porém empiricamente muito próxima, do poder estatal —, mas [antes] à forma e conteúdo intrínseco" assumidos pelo sistema estatal numa conjuntura concreta. Precisamente por isso é que na análise das instituições públicas, é preciso diferenciar duas ordens de problemas bastante distintos: de um lado, a natureza de classe da dominação política — o caráter de classe do Estado; de outro, as formas concretas através das quais ela se realiza (o funcionamento do Estado). Esse segundo aspecto refere-se também a duas questões muito particulares: (i) a natureza de classe da política estatal; e (ii) o modo de organização interna do aparelho do Estado e suas repercussões sobre o encadeamento do processo decisório. Evidentemente, eles fazem parte de uma problemática comum e só podem ser separados analiticamente. Dependendo do seu objetivo específico, as análises políticas privilegiarão, contudo, uma ou outra dimensão. O traço mais marcante no desenvolvimento da teoria política marxista contemporânea foi, paradoxalmente, a ausência das questões referentes aos processos organizativos internos do aparelho de Estado. As exceções mais significativas a esse respeito são os trabalhos do próprio Poulantzas, de Claus Offe e de Göran Therborn publicados nos anos 1970. Eles fornecem uma série de conceitos estratégicos que possibilitam estudar os processos de decisão e as contradições internas do Estado capitalista. Há contudo na letra dos textos do próprio Marx, e este é o centro de minha argumentação, certas indicações que permitem tomar o Estado "como instituição", segundo a expressão tão em voga. As análises políticas expostas em A burguesia e a contra-revolução (1848), em As lutas de classe em França de 1848 a 1850 (1850) e n'O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte (1852) indicaram precisamente que é necessário diferenciar: 1) aparelho de Estado e poder de Estado; 2) classe (ou fração) dominante e classe (ou fração ou grupo) politicamente governante e 3) poder estatal e poder governamental ou o poder real e o poder nominal das classes sociais. Neste ensaio, pretendo voltar a estes textos "clássicos" a fim
de circunscrever a problemática, a meu ver central, da diferenciação
entre aparelho de Estado e poder de Estado no pensamento do próprio
Marx.
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